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Entrevista aos Azzaya


Nascidos das sombras de uma colaboração improvável entre Portugal, Turquia e Grécia, os Azzaya emergem hoje como uma das bandas mais promissoras do underground nacional. O que começou como um projeto remoto em 2021, cresceu até se tornar uma força coesa do Black/Death Metal português, marcada por intensidade, rebeldia e uma identidade sonora cada vez mais própria.
Após o álbum I Begin (2022), que marcou o renascimento da banda sob a liderança de Gabriel Warmann, os Azzaya regressam agora com Infernal Blasphemy, um EP brutal e ritualístico que funde a essência do ocultismo do Black Metal com a agressividade do Death Metal.
Gravado com várias colaborações vocais e instrumentais, Infernal Blasphemy é um testemunho de união dentro do underground português — um grito coletivo contra a servidão e a conformidade. Este trabalho reafirma o espírito independente da banda, que recusa fórmulas comerciais e continua a transformar fúria, resistência e espiritualidade em pura catarse sonora. 

M.I. - Olá! Antes de mais, quero agradecer a vossa disponibilidade — neste caso, a tua — por fazeres a entrevista. E queria começar um bocadinho com a vossa história, porque a banda nasceu originalmente na Turquia, em 2021. Como é que aconteceu a junção da banda com elementos apenas portugueses?

Antes de mais, obrigado também por nos receberes e por fazeres a entrevista. Hoje, curiosamente, sou só mesmo eu.
Em relação à tua pergunta, essencialmente conhecemo-nos todos online, em 2021. A formação original de Azzaya foi criada pelo Guilherme, guitarrista, e pelo Ozan, que é turco. Temos até uma demo inicial lançada apenas por nós. Depois o Ozan contratou um vocalista grego, o Giorgios, e procurava outro guitarrista para escrever a maioria dos riffs — e foi aí que eu entrei. Na altura, entrei apenas para tocar guitarra, mas acabámos por escrever algumas músicas e eu acabei também por fazer a bateria. Curiosamente, tentámos entrar numa editora que só aceitava projetos submetidos até uma certa data, por isso o primeiro desafio foi logo escrever um álbum em três meses! Mal nos conhecíamos, mas correu bem. Eu escrevia as guitarras e a bateria, o Ozan tratava do baixo e da voz, e ele próprio fazia a masterização. Foi tudo muito rápido — em pouco tempo lançámos o primeiro álbum. Mas depois não sabíamos muito bem que direção queríamos seguir, e acabámos por nos separar cerca de um ano depois. Ainda lançámos alguns splits e fizemos parcerias com bandas da Turquia, mas eventualmente cada um seguiu o seu caminho.
Antes dos Azzaya, já tinha tocado em várias bandas em Lisboa, inclusive de covers. Apesar de o projeto ter sido apressado, o primeiro álbum foi o primeiro que consegui lançar fisicamente, em vinil e tudo — foi um grande marco para mim. Quando a banda acabou, eu não queria deixar morrer o único projeto onde tinha conseguido lançar algo. Por isso, fiquei com o nome do projeto. O logótipo do primeiro álbum é diferente do segundo, precisamente porque foi um dos pedidos do Ozan — para deixar claro que era uma nova fase da banda.
Inicialmente, a ideia era que os Azzaya se tornasse um projeto a solo. Mas, por acaso, entre conversas e colaborações com amigos, acabei por reunir outros músicos. O segundo álbum, I Begin, foi maioritariamente escrito por mim, exceto duas faixas — uma em colaboração com o Luís Simão (baixista) e outra com o André Marmelo (o nosso atual guitarrista). Esse álbum saiu pela Prophetical Productions, em CD, com alguma promoção.
E foi aí que pensei: “já temos quase o line-up completo, só nos falta um baterista — e o meu melhor amigo é baterista!”. Portanto, não havia razão para não tocarmos ao vivo. Foi assim que consolidámos a formação atual e demos os nossos primeiros concertos.


M.I. - E para quem está agora a descobrir-vos, como é que definiriam a essência dos Azzaya? Houve alguma diferença entre a fase em que eram três elementos de países diferentes e esta formação portuguesa? O vosso som mudou ou mantém a mesma essência?

Tem evoluído, sem dúvida. Tentamos seguir uma linha de progressão, incorporando novos elementos, criando riffs de maneira diferente — mas a essência continua a mesma. Somos Black/Death Metal. A ideia é combinar o ocultismo e atmosfera do Black Metal com a agressividade do Death Metal. Esse é o nosso núcleo, e mantivemo-lo ao longo dos álbuns. Temos experimentado novas abordagens — partes mais melódicas, interlúdios, coros — para tornar o som mais dinâmico. O primeiro álbum era muito homogéneo, muito agressivo do início ao fim. Agora queremos criar mais contraste e captar mais o ouvinte, com momentos que deixem quem ouve mais preso à experiência. Portanto, sim, o som tem evoluído, mas a essência tem permanecido a mesma.


M.I. - E em termos de evolução, onde é que este novo álbum se inspira? Vocês têm uma abordagem muito técnica, mas também uma parte espiritual e ritualística. Pelo menos, vi um vídeo do I Begin e tem ali uma componente muito ritualista. Onde se posiciona este Infernal Blasphemy?

Provavelmente este EP é, curiosamente, o oposto dessa evolução. Como referi há pouco, foi escrito maioritariamente por mim. Agora que temos a banda completa, estamos a escrever um novo álbum onde todos contribuem, mas esse processo é naturalmente mais demorado. Temos de nos reunir, partilhar ideias, conciliar influências — não é tão simples como eu pegar na guitarra e compor tudo sozinho. Enquanto trabalhamos nesse full-length, que já está em desenvolvimento há cerca de um ano, eu continuo a escrever outras coisas. Às vezes as ideias surgem naturalmente, quase de forma espontânea, e acabam por resultar em músicas inteiras. Assim nasceu este novo EP. São músicas que escrevi individualmente, que considerei adequadas ao universo de Azzaya, mas que se afastam do conceito que estamos a criar para o próximo álbum. Por isso, decidi lançá-las como EP. A ideia surgiu até de uma piada de um amigo meu, o Gonçalo, que dizia a brincar que o nosso segundo álbum era tão político que já nos tínhamos “vendido”. Então pensei que seria interessante criar um som que ficasse algures entre o primeiro e o segundo — e foi essa a ideia inicial para o Infernal Blasphemy. Claro que, à medida que ia compondo, a ideia foi evoluindo. As músicas começaram a “falar por si” e seguiram caminhos próprios, mas quis manter esse lado mais colaborativo. Por isso, convidei vocalistas diferentes para quase todas as faixas (acho que só uma não tem convidado) e também um guitarrista convidado para acrescentar texturas sonoras. Isto também vem do facto de termos tocado bastante no último ano — de norte a sul do país, incluindo na Madeira — e termos conhecido muitas bandas, muitos músicos com quem criámos amizade. Achei natural aproveitar essas ligações e fazer deste EP algo mais colaborativo, envolvendo as pessoas com quem nos cruzámos na estrada.


M.I. - Faz sentido, realmente. É raro, pelo menos em Portugal, ver bandas que tenham vocalistas diferentes num mesmo álbum.

Sim, é verdade, não é muito comum. Assim de cabeça, só me lembro dos Shining, da Suécia, que têm feito algo semelhante recentemente. Mas, de facto, não é uma prática habitual.


M.I. - O nome Azzaya, foi criado por ti? E o que significa?

Curiosamente, não fui eu quem escolheu o nome. O nome foi criado pelo guitarrista original, o Ozan. O termo vem de uma história do Corão, e eu próprio fui pesquisar o significado depois de ele o ter sugerido.
Resumindo muito brevemente: trata-se de um mito sobre três anjos — Asa, Azzaya e Azazel — que viviam no paraíso junto de Deus e criticavam os humanos por serem tão fracos e tão suscetíveis à tentação e ao pecado. Deus, então, desafia-os a descer à Terra e viver como humanos, para sentirem na pele a tentação e verem se resistiam.
Dos três, apenas Azazel consegue vencer o desafio. Os outros dois acabam por sucumbir e ficam presos na Terra — e são eles que, segundo a lenda, ensinam a magia negra aos homens. O nome Azzaya vem precisamente desse anjo que ficou na Terra e foi associado à propagação da magia negra entre os humanos.


M.I. - E é daí também que vem a inspiração para as letras e as músicas?

Em parte, sim. As nossas letras abordam temas muito comuns no Black Metal, nomeadamente o satanismo. As letras do primeiro álbum foram escritas pelo vocalista original, portanto nessa fase eu não estive envolvido nesse processo. Pessoalmente, não sou satânico — sou ateu —, mas vejo o satanismo dentro do Black Metal como um símbolo de rebelião, uma oposição ao sistema, tal como acontecia nas primeiras ondas do género.
Neste EP, senti ainda mais essa ligação. Vivemos tempos em que os sistemas autoritários e as ideias totalitárias parecem ganhar força, e para mim faz sentido escrever sobre resistência e oposição — mesmo que seja dentro do imaginário simbólico do satanismo. Por exemplo, há uma faixa neste EP chamada “Ninguém Tem de Servir”, que representa precisamente essa ideia: a recusa em servir cegamente o poder. Portanto, sim, continuamos a abordar o satanismo, mas numa visão própria, mais filosófica e contestatária.


M.I. - As vossas músicas são maioritariamente em inglês, mas vocês também já lançaram temas em português.

Sim, temos uma ou duas músicas em português, mas são especiais.


M.I. - É fácil escrever este tipo de música, dentro do Black ou Death Metal, em português?

Na minha opinião, sim. As duas músicas que temos publicadas em português são o “Anticristo”, que é mais dentro da vertente Black Metal, e “Cabritos de Deus”. Essas duas músicas são especiais porque representam também o lado mais pessoal do projeto. Como referi há pouco, Azzaya foi o único projeto em que consegui realmente lançar algo físico, por isso acabei por trazer para ele várias ideias que tinha de bandas anteriores.
“Anticristo”, por exemplo, vem de um projeto antigo que tinha influências de Black Metal português, inspirado em bandas como Filho Ingrato e Infernal Inquisitor, que cantavam em português. Tenho a intenção de, no futuro, fazermos um álbum completamente em português, dentro dessa linha — e “Anticristo” fará parte desse trabalho. A outra música, “Cabritos de Deus”, é ainda mais especial. Também veio de um projeto anterior chamado Mortandade, que infelizmente não chegou a avançar.
Quem está em bandas sabe como é difícil fazer um projeto realmente nascer — coordenar tudo até chegar à edição é quase um ato de resistência.
Mas “Cabritos de Deus” vem de algo muito particular: era uma banda de Black Metal alentejano, centrada nas tradições e nas vivências do Alentejo. A ideia surgiu a partir de um livro de Rui Cardoso Martins, chamado E se Eu Gostasse Muito de Morrer, que se passa em Portalegre e reúne várias histórias mórbidas e simbólicas da região.
Um dos capítulos fala de uma árvore atrás da casa do autor, onde os pastores penduravam cabritos degolados antes da Páscoa, para o sangue escorrer e preparar a carne. Essa imagem inspirou a música “Cabritos de Deus”.


M.I. - Sim, realmente é uma imagem forte.

Sim, sim, mas, ao mesmo tempo, é algo que faz parte da tradição. É o lado mais cru, mais real da vida rural.


M.I. - Exato.

Era a forma natural de se fazer as coisas. Não havia fábricas nem abates industriais, tudo era feito localmente, com os próprios meios. Essa tradição do sacrifício dos cabritos antes da Páscoa, que hoje pode parecer chocante, acabou por me inspirar para essa música. E esse conceito de “Cabritos de Deus” é algo que queremos expandir num projeto futuro: um álbum inteiro baseado nas vivências, lendas e aspetos sombrios do Alentejo. Queremos retratar tanto o lado belo como o melancólico e quase trágico que o interior de Portugal pode ter.


M.I. - Sim, é uma ideia interessante. Portugal é muito rico em lendas e histórias — e muitas vezes bastante estranhas. Há um património imenso nesse sentido, especialmente nas terras mais pequenas. É bom quando alguém recupera essas raízes e as traz para a música.

Exatamente! Por acaso, há um sonho que eu gostava muito de concretizar com os Azzaya: fazer um concerto de Black Metal com um coro alentejano.


M.I. - Isso seria mesmo espetacular!

Acho que seria algo original e incrível.


M.I. - Sim, sem dúvida. Já que há bandas que tocam com orquestras, vocês podiam fazê-lo com um coro alentejano!

Exato! Seria uma mistura única, Black Metal e canto tradicional alentejano.


M.I. - Mudando um pouco de tema: quem é que costuma pensar na arte dos álbuns, as capas, o design, o conceito visual?

Por acaso, isso também tem a ver com o facto de nunca termos trabalhado com editoras que tivessem grandes orçamentos para esse tipo de produção gráfica. Mesmo assim, temos tido a sorte de colaborar frequentemente com um artista australiano. Ele é também vocalista de uma banda e participa neste novo EP. No Instagram, podem encontrá-lo pelo nome Matt, e ele pinta muito bem, é um artista extremamente produtivo dentro da cena underground. Tem-nos ajudado bastante e é uma pessoa mesmo porreira. Gostou muito do nosso primeiro álbum e começou a apoiar-nos, oferecendo-nos algumas das suas obras para usarmos nas capas. Por exemplo, a capa do I Begin é uma fotografia editada por ele, tirada num cemitério, e eu achei que representava perfeitamente a ideia do álbum, uma espécie de renascimento de Azzaya.
Depois, para o EP seguinte, ele enviou-nos outra imagem na mesma linha estética e disse: “Podem usar se quiserem, está à vontade”. Desde então, temos trabalhado muito com ele. É um artista que admiramos imenso e que nos tem dado muito apoio.
Quanto a conceitos visuais próprios, ainda não tivemos nenhum lançamento que fosse realmente centrado nisso. Mas no próximo álbum, queremos fazer algo conceptual, com uma narrativa do início ao fim. A nossa ideia é trabalhar novamente com o Matt e criar uma ilustração para cada faixa, tornando o álbum visualmente mais rico e imersivo. Infelizmente, nunca trabalhámos com uma editora que produzisse esse tipo de material mais artístico, mas é algo que eu sempre admirei. Quando era miúdo e comprava CDs, adorava ver o artwork completo, o livrete, os detalhes.


M.I. - Sim, é giro ver isso.

Lembro-me, por exemplo, de um álbum dos Blind Guardian, o Beyond the Red Mirror. Comprei-o quando tinha uns 14 anos, era um álbum conceptual, com uma história de faixa para faixa, e o artwork era absolutamente incrível. Eu passava tanto tempo a olhar para o livrete como a ouvir o disco! É esse tipo de experiência que queremos oferecer com o nosso próximo trabalho, uma fusão entre som e imagem, onde o público possa mergulhar completamente no universo do álbum.


M.I. - Sim, ajuda a entrar no espírito da música, não é?

Exatamente, ajuda a entrar no mindset, no ambiente que a banda quer transmitir.


M.I. - A edição deste EP vai ser feita pela Maledict Records e pela Warprod. E há aqui um detalhe curioso que me chamou a atenção, vocês vão apostar no lançamento em CD e cassete. Hoje em dia, a maioria dos jovens nem sabe o que é uma cassete, e vivemos num mundo tão digita. O CD ainda compreendo, porque eu própria gosto de ter o formato físico, mas a cassete achei curioso.

Sim, é verdade! Na realidade, qualquer formato físico, tirando o vinil, já se tornou quase um objeto de coleção. O vinil teve um ressurgimento porque as pessoas apreciam o som e a experiência de ouvir em vinil, é algo mais intencional. Mas o CD e a cassete, hoje em dia, servem sobretudo para apoiar as bandas.
Quem quer realmente ouvir a música usa o digital, Spotify, YouTube, Bandcamp. Mas o formato físico ainda tem um valor simbólico e afetivo. Curiosamente, tivemos mais interesse nas cassetes do que nos CDs! Amigos nossos pediram-nos logo para reservar uma cassete. Acho que, dentro do underground, isso faz sentido, é uma forma de apoiar e de colecionar. Por isso, vejo estes lançamentos mais como formas de apoio à banda e de preservar um pedaço da música em formato tangível.


M.I. - Sim, é verdade. Achei engraçado mesmo, quando vi que iam lançar em cassete, pensei: “Uau, cassete!” (risos).

Pois é! E dentro do Black Metal, isso é muito comum. A cena underground ainda aposta bastante nas cassetes, é um formato com tradição no género. De facto, a maioria dos lançamentos de Black Metal sai em cassete. É quase um símbolo.


M.I. - Eu própria gosto de comprar CDs quando é uma banda de que gosto muito, às vezes até aquelas versões especiais, para a coleção. Ouço mais em digital, claro, mas gosto de ter o disco físico.

Sim, percebo perfeitamente. É aquela sensação de ter algo real, que se pode segurar. E, sinceramente, o digital facilitou muito o acesso à música, mas também tem o lado negativo: faz-nos ouvir sempre as mesmas coisas. Quando tenho a minha coleção de CDs à frente, lembro-me de bandas que já não ouço há algum tempo e acabo por revisitá-las. Há algo de mais pessoal nessa experiência.


M.I. - Sim, sem dúvida. Acontece-me o mesmo. Falando agora da cena portuguesa, o metal extremo tem crescido em força e identidade. Como é que vês o vosso papel dentro desse movimento? E o que é que ainda falta para o underground nacional ser reconhecido lá fora?

Sinceramente, acho que o underground nacional já está a ser reconhecido lá fora. Hoje em dia, com as ferramentas digitais e a facilidade de produção, há cada vez mais bandas a lançar música, o que é ótimo, mas também torna o mercado mais saturado. Mesmo em Portugal, está cada vez mais difícil conseguir espaços para tocar e promover música.
Nós, felizmente, temos tido alguma sorte e também acredito que a qualidade ajuda, mas uma boa parte é mesmo persistência e oportunidade. Temos conseguido tocar com frequência e encontrar o nosso espaço dentro da cena nacional.
E quanto ao reconhecimento lá fora, vejo uma grande diferença em relação a há dez anos. Antigamente, as únicas bandas portuguesas com visibilidade internacional eram os Moonspell. Agora já temos os Gaerea, os Analepsy, entre outros nomes que tocam fora com regularidade. Há bandas a tocar em festivais como o Vagos, o SWR, ou até em eventos fora do país, por exemplo, os Voidwomb foram ao Wacken recentemente e fizeram uma série de datas na Europa.
Portanto, o underground português está mais forte e com mais espaço no mercado internacional. É claro que ainda há saturação, mas o importante é continuarmos a crescer e a consolidar o que temos.


M.I. - E quais são os vossos planos para o futuro?

Para já, o plano mais imediato é continuar a tocar e a promover o Infernal Blasphemy.


M.I. - E a médio prazo? Por exemplo, vocês imaginam-se um dia a tocar em festivais como o Wacken ou o Sweden Rock?

(risos) Bem, o Sweden Rock talvez ainda seja um sonho distante, mas sim, claro que gostaríamos! Tocar num Wacken ou num Hellfest seria incrível. Mas, honestamente, quando comecei a fase portuguesa dos Azzaya, nunca me vi a esse nível de projeção internacional. O meu objetivo é mais realista: se tudo correr bem, espero que daqui a vinte anos olhem para Azzaya como hoje se olha para bandas como os Corpus Christii, uma banda sólida dentro do underground, respeitada, que faz bons concertos e mantém-se fiel ao seu som.
Não nos vejo a atingir o patamar dos Gaerea, por exemplo, mas o nosso foco é mais local e comunitário, especialmente aqui em Portalegre.
A verdade é que Portalegre é uma cidade um pouco esquecida — e em termos musicais, está muito parada. Temos um ou dois eventos por ano, e mesmo esses têm pouca adesão. As bandas portuguesas também raramente vêm cá tocar.
Neste momento, acho que somos a única banda de Portalegre que está realmente ativa e a tocar fora da cidade. Existe outra banda mais pequena, mas também anda parada. Durante muito tempo, Portalegre não teve bandas de metal realmente ativas. Por isso, aquilo que eu gostava que fosse o nosso contributo é precisamente dar meios e fazer crescer a cena local, trazer mais bandas de Portugal para cá e criar oportunidades para quem é daqui. Há muita gente de Portalegre que toca noutras bandas espalhadas pelo país, mas que não tem onde tocar na sua cidade natal.
Por exemplo, trouxemos cá os Fonte, cujo guitarrista, Duarte Freire, é de Portalegre, trouxemos os Dik Demons, cujo guitarrista, Pedro Correia, também é daqui, queremos trazer de volta os Destroyers of Old (o guitarrista é de Portalegre), o baterista dos Oxiimi é de Portalegre e os Alba Luna também têm um guitarrista de cá. Ou seja, há muito talento daqui espalhado pelo país, mas não há eventos nem locais que permitam a essas bandas tocar em casa.
O nosso objetivo é mesmo esse, tornar Portalegre um ponto do circuito nacional, um sítio onde as bandas possam vir tocar e mostrar o seu trabalho. E, além disso, queremos também apoiar as bandas locais mais pequenas. Quem começar aqui deve poder contar connosco, seja para gravar, para encontrar uma editora ou até para conseguir um concerto em Lisboa ou no Porto. Queremos ser essa banda de referência, esse ponto de apoio para a nova geração de músicos de Portalegre.
Por isso, sinceramente, não sei se algum dia seremos uma banda de grande escala europeia. Mas sei que podemos ser uma âncora do metal em Portalegre e isso, para mim, já seria uma grande conquista.


M.I. - Sim, faz todo o sentido. Focarem-se na parte nacional e darem força à vossa região é uma excelente ideia. Portugal precisa disso, de mais bandas a puxarem pelas suas próprias cenas locais. Acham que Portugal está hoje mais aberto ao metal do que há uns anos?

Sim, sem dúvida. Há dez anos, o cenário era muito mais fechado. Há vinte, então, nem se fala. Mas agora estamos numa fase boa, há mais festivais, mais bandas novas, e até pequenos festivais independentes estão a surgir por todo o país. Isso mostra que a cena está viva e em crescimento.


M.I. - É verdade. Apesar de os festivais maiores apostarem mais em bandas estrangeiras…

Sim, claro. Os grandes festivais precisam de nomes internacionais para atrair público, é natural. Mas mesmo assim, cada vez mais vejo espaço para bandas portuguesas, mesmo nos eventos pequenos e médios. Há oportunidades, e é aí que o underground se fortalece.


M.I. - Agora uma pergunta fora da caixa: se Infernal Blasphemy fosse um ritual sonoro, que forças teria e o que esperam despertar em quem o ouvir pela primeira vez?

Boa pergunta! (risos) Não sei se lhe chamaria “forças” em concreto, mas sem dúvida que o álbum transmite agressividade, ocultismo e revolta. Queremos que quem o ouça sinta catarse, aquela libertação interior que vem através da música. Embora não sejamos uma banda satânica, acreditamos que a música pode ter esse poder purificador, canalizar frustrações, raiva, tristeza e libertar tudo isso num concerto ou ao ouvir um álbum. Queremos que o público saia de um concerto nosso, ou de uma audição do EP, sentindo-se melhor do que antes, mais leve, mais livre.


M.I. - Sim, sem dúvida. E como definiriam um concerto de Azzaya para quem nunca vos viu ao vivo?

Diria que é uma experiência intensa e visceral. Somos menos ortodoxos do que a maioria das bandas de Black Metal, tentamos que os nossos espetáculos sejam envolventes e emocionais. Enquanto o Black Metal tradicional tende a ser mais distante e ritual, nós procuramos o oposto, envolver o público, criar um momento de libertação coletiva. Portanto, resumindo, um concerto de Azzaya é agressivo, imersivo e catártico.


M.I. - Perfeito! Para terminar, queres deixar alguma mensagem aos vossos fãs?

(risos) Temos fãs? Brincadeira! Sim, só quero agradecer a todos os que continuam a apoiar o underground português. Continuem a aparecer nos concertos, a apoiar as bandas, a comprar o merch, é isso que mantém esta cena viva. E esperemos encontrar-vos por aí, ao vivo!


M.I. - É isso mesmo! Gabriel, muito obrigada por este bocadinho. Vemo-nos por aí, num concerto.

Obrigado eu! Com certeza, até breve!

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Entrevista por Isabel Martins