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A quarta edição do WoodRock Festival teve lugar nos dias 22 e 23 de Julho na localidade da Praia de Quiaios (Figueira da Foz). Um festival de uma dimensão respeitavelmente pequena e acolhedora, mas que funciona como gente grande, que vai para além da música, juntando sol, praia, piscina, camaradagem e boa música num só pacote de valor simbólico. Com um cartaz que abrangeu vários espectros (podendo-se até mesmo dizer extremos) da música rock, houve diversão e concertos para todos os gostos.

Dia 1 (22 de Julho)

Já ia o relógio com uma hora de atraso, quando os nacionais Big Red Panda subiram ao palco para dar inicio às festividades. Este jovem sexteto, que já tem dado muito que falar, trouxe-nos o seu segundo trabalho, “Arrival pt.II” lançado recentemente. Com o poderio de três guitarras e riffs hipnotizantes, no meio de faixas na sua maioria puramente instrumentais, a banda foi cativando os presentes, que aos poucos se iam reunindo junto ao palco, respondendo à chamada musical destes. Um bom começo para a noite.


A invasão sonora dos 10000 Russos foi um dos momentos musicalmente mais bizarros a passarem pela primeira noite do festival. Com o álbum de estreia auto-intitulado ainda fresco (foi lançado o ano passado) os efeitos vocais fizeram-se ecoar pela noite fria em tom de arrepio, envoltos em riffs de peso e arrasto, o som fez-se sentir de forma intrusiva. O trio  trouxe-nos uma abordagem experimentalista e mais alternativa à musica rock, desafiando até mesmo os limites do espectro musical em questão, fundida em tons hipnotizantes. Apesar da qualidade inegável, não foi um concerto que agradou a todos os presentes.


O explosivo concerto dos Dollar Llama mostrou-nos o quão vivo se encontra o espírito do rock n’ roll puro e duro. Depois de terem agitado as ondas da musica nacional com o seu mais recente, e já quase icónico, trabalho “Grand Union”, a banda deu mais que provas da sua competência, prova disso foi esta ter sido uma actuação que incendiou os ânimos numa noite fria, na qual se mostraram em melhor forma que nunca. Sempre com um sorriso na cara e bastantes comunicativos com o público, o vocalista, sendo que é neste caso um frontman autêntico e cuja presença se faz notar a milhas, a banda meteu todos os presentes a mexerem-se. A festa do rock e a boa disposição reinaram durante um concerto que soube a pouco. A terminar, a música “Deathblow” (uma das mais antigas do grupo) culminou num Mosh Pit iniciado pelo vocalista que saiu do palco para estar mais perto do público. Um final em beleza para aquele que foi um dos melhores concertos do festival.


Os Switchtense entraram em força e agilizaram as hostes. Directos ao assunto e sem grandes delongas começaram em grande com a faixa “The Right Track” que fez antever a destruição que se avizinhava. Riffs rápidos e a rasgar convidavam ao mosh e ao crowd surfing, algo que não aconteceu com grande frequência neste festival.  Estes trouxeram consigo um novo álbum na bagagem “Flesh and Bones” lançado há uns meses atrás, que veio solidificar ainda mais a posição do grupo como uma das referencias do thrash puro e duro em Portugal. Sem nunca esquecerem alguns temas que se tornaram clássicos como “Unbreakable” ou “Into The Words Of Chaos” deram mote ao caos e libertação catártica de energias durante cerca de 45 minutos, preenchendo e muito bem o lugar de banda com maior peso musical desta edição do festival.


Vindos da vizinha Espanha, os El Paramo brindaram-nos com o seu instrumental stoner. Foi  uma viagem musical por tons quentes já no alto da madrugada, que hipnotizou com toda a certeza todos os fieis seguidores de sonoridades mais psicadélicas. Muito pouco comunicativos e com uma atitude pacífica, a banda deixou que a sua música falasse por si. Sem tirar mérito à qualidade musical, o concerto pareceu um pouco longo demais, o que acabou por quebrar um pouco o ritmo dos concertos anteriores, o que fez com que alguns tivessem desistido e abandonado mais cedo o recinto.


A terminar, os Plus Ultra trouxeram-nos anarquia musical, envolta numa completa expressividade crua de diferentes sons. Valeu tudo, incluindo demonstrações de clara embriaguez no meio das sinfonias cáoticas que ecoavam. Banda já com muitos anos de vida e com percurso tumultuoso repleto de renascimentos, mostraram estar mais vivos que nunca, dando também provas de que é gente desta que precisamos no rock português. A setlist, essa, pouco importou, o espectáculo falou mais alto. A noite ia alta mas muitos que deixaram uma plateia quase vazia, acabaram por perder aquele que seria sem sombra de dúvidas o momento alto do dia, e a irreverência deste grupo de músicos serviu como chave de ouro para uma noite que depressa se ia transformando em manhã.


Dia 2 (23 de Julho)

Após um primeiro dia que se revelou tardio e com vários momentos musicalmente ecléticos, houve tempo para um momento mais relaxado durante a tarde com direito a DJ Set à beira a piscina. Mais uma das provas que o WoodRock não é apenas mais um festival de música como muitos outros, mas sim um monumento (ainda) em pequena escala de paragem obrigatória para todos os amantes do rock e derivados, que procuram aliar um fim de semana de descanso e camaradagem à música.

A abertura dos concertos desta segunda noite (com um atraso quase irrisório) coube aos luxemburgueses Soleil Noir. Um quinteto instrumental com uma abordagem muito própria ao post-rock, falhou em conseguir convencer o público, que a essa hora ainda mal tinha começado a entrar no recinto. Os interlúdios falados em inglês e a apresentação multimédia moldada ao encontro da música foram as formas de comunicação mais directas da banda para com os presentes. Este apesar da sua originalidade, não foi de todo um concerto cativante, tendo-se revelado demasiado longo.


A banda da “casa”, Miura, foi o acto que se seguiu. Com um rock cantado em português e de refrões orelhudos, chamou a atenção de quem lá estava e a festa começou a aquecer mais um pouco. Sempre com uma presença bastante dinâmica em palco, a banda brindou os presentes com músicas como “Labirinto” ou “Flor da Pele” na qual convidaram a um pé de dança. Depois de terem dado que falar com o seu EP de estreia “Ninguém Escreve Cartas de Amor” em 2014, chegaram agora ao palco do WoodRock para justificar e bem esse mesmo falatório. Afinal, a “prata da casa” é mesmo para ser mostrada e valorizada.


The Grande Astoria foram os responsáveis por aquele que foi sem sombra de dúvidas o concerto mais interessante do festival inteiro. Embora sejam oriundos da longínqua Rússia, são já um nome que move alguns seguidores no nosso país, número esse que aumentou com toda a certeza após a brilhante actuação que deram. O seu som é uma combinação de mestria entre riffs hipnotizantes e uma vibe de heavy metal tradicional, com um toque especial de teclados e instrumentos pouco usuais neste estilo como maracas. Consigo trouxeram “Masterplan” o seu mais recente trabalho de originais, que serviu como desculpa para uma digressão europeia (e consequente passagem no nosso país) que serviu de base para o seu set, embora não tenham esquecido temas mais antigos como “Blessed, Cursed and Crucified” ou “The Answer”. A entrega foi monumental, e o público respondeu da melhor forma, tendo-se criado uma sinergia única. Brilhantes e iguais a si próprios protagonizaram algo difícil de igualar, que no final acabou por saber a muito pouco.


Uns pequenos problemas com o som provocaram um inicio um tanto atabalhoado aos Killimanjaro, algo que foi ultrapassado com grande classe e sem problemas maiores. A explosão psicadélica causada por este trio encheu o palco e deu mote para continuar a vibe de festa e boa disposição começada com o concerto anterior. Intensos e sempre muito igual a eles próprios, apresentaram o seu mais recente EP “Shroud”. Pelo meio houve ainda espaço para uma cover extremamente interessante da música “Wicked Game” de Chris Isaac e para o seu já mais que conhecido tema  “December” que figura num spot comercial televisivo.Uma actuação energética que cumpriu em bem as elevadas expectativas.


Era agora tempo dos Keep Razors Sharp que nos trouxeram uma abordagem com toque mais melancólico. Uma atitude puramente rock e de “bad boys” de cigarro ao canto da boca, aliada a anos de experiência e uma técnica irrepreensível culminou num momento musical mais introspectivo. Embora a uma menor escala que na noite anterior, alguns dos presentes abandonaram aos poucos o recinto, dado o frio que se fazia sentir a uma hora já mais tardia, mas os que ficaram até ao final não se arrependeram na certa. As faixas “By The Sea” e “I See Your Face” foram alguns dos exemplos máximos da beleza sombria auditiva que nos envolveu a todos.


O encerramento das festas coube aos Spectral Haze. Uma honra mais que merecida, que fez com que tivesse valido e muito bem a espera para o inicio do concerto. Pouco passava das 4 da manhã quando a banda subiu ao palco para nos guiar por uma viagem além fronteiras espaciais. “Mercurian Mantra” e “Triads and Trishulas”, entre outras músicas longas fizeram as delícias dos amantes de stoner/psicadélico. Uma parede sonora arrastadas sob uma cortina espessa fumo criaram o ambiente perfeito para terminar em beleza esta edição do festival. Para o ano há mais!


Agradecimento especial: Organização WoodRock Festival
Link para o álbum das fotografias completo: Aqui
Texto: Rita Limede
Fotografias: Rita Limede
11 Agosto 16