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Entrevista aos Inhuman


Com “GLORIÆ”, os Inhuman regressam com aquele que descrevem como o seu álbum mais maduro, intenso e ambicioso até à data. Nascido de um processo criativo profundamente diferente, marcado pela pandemia, pela reinvenção interna da banda e por uma escrita mais solitária e introspetiva, o novo disco mergulha nos contrastes da existência humana: glória e fracasso, luz e escuridão, esperança e ruína. Entre mudanças de formação, desafios pessoais e um desejo renovado de evolução artística, “GLORIÆ” reflete não apenas um capítulo musical, mas um retrato emocional do que os Inhuman são hoje. Em conversa com a Metal Imperium, Pedro Garcia guia-nos pelos bastidores deste trabalho arrebatador e revela como a banda encontrou um novo rumo sem perder a sua identidade.

M.I. - “GLORIÆ” é descrito como o vosso álbum mais maduro e ousado até à data. O que é que, para vocês, o torna tão especial e diferente dos anteriores?

Julgo que todo o processo em que foi criado e gravado acabou a diferenciá-lo de todos os anteriores. No desenvolvimento dos trabalhos anteriores tínhamos por hábito trabalhar as ideias como banda e em contexto de sala de ensaios. Com o GLORIÆ tudo foi diferente, o João Pedro Correia (guitarrista) começou a gravar ideias sozinho ainda durante a pandemia e ia-me enviando o que ia criando. Essas ideias começaram a tornar-se em esqueletos de canções e eu comecei a escrever as letras. Acabámos por trabalhar sozinhos e íamos trocando ideias sobre o que estava a surgir. Penso que cedo se percebeu que este novo material seria mais ambicioso do que alguma fez tínhamos feito. Por outro lado, o encanto da reunião com a formação clássica da banda sofreu um desgaste considerável no processo de gravação do nosso álbum anterior, CONTRA e fomos tomando consciência que teríamos que fazer alterações na banda se quiséssemos que este novo trabalho se desenvolvesse e se tornasse uma realidade. Assim, a banda sofreu algumas alterações na sua formação ao longo do período em que demos alguns concertos de promoção do CONTRA. Acabámos por estar sozinhos (eu e o João Pedro) na altura em que achámos que deveríamos agendar as gravações e só a pronta ajuda do nosso produtor, Daniel Cardoso, que se prontificou a assegurar as gravações da bateria e teclados, permitiu que este álbum fosse uma realidade. Trata-se também de um álbum mais intenso, fala assuntos profundos, da jornada da vida humana, do sucesso, da glória, do insucesso, do infortúnio e da esperança que devemos preservar. Musicalmente acho que conseguimos fazer de forma mais madura o que sempre tentámos fazer desde o início, aliar melodia e agressividade, luz e sombra.


M.I. - O conceito de “Glória” e da sua ausência é central neste trabalho. O que vos levou a escolher este tema e de que forma ele reflete o vosso percurso pessoal e coletivo enquanto banda?

Penso que não escolhemos o tema. O tema acabou por se revelar. Parece estranho, mas acabamos por não escolher os temas que abordamos. Os acontecimentos acabam por moldar a nossa criação e mais uma vez foi isso que aconteceu, desde episódios da vida privada, até acontecimentos à escala global. Quando escrevo sobre algo, isso não acontece quando é supostamente necessário, mas sim quando há algo que me impele a fazê-lo. Por vezes a música está praticamente pronta, tento forçar a escrita e não fico satisfeito com o resultado. Aprendi que é preferível esperar e os acontecimentos farão a escrita acontecer. Posso dar um exemplo que sucedeu neste álbum, na semana que aconteceu a invasão da Ucrânia, completei duas letras. Outras demoram mais, precisam de tempo para provarem a sua pertinência. Acabámos por decidir o título do álbum já depois de estar gravado e de refletirmos exatamente sobre o que se tratava. Aquele conjunto de canções significavam exatamente o quê? Haveria um denominador comum? Qual era a ligação entre cada um dos temas? Foram essas algumas das reflexões que tivemos que fazer. Respondendo à segunda parte da pergunta, costumo dizer que um álbum é um retrato do que somos em determinado momento. Estas dez canções são um pouco de nós e da visão que tivemos do mundo durante o período de composição e escrita. Acrescento que o coletivo neste período ficou reduzido a duas pessoas e isso levou a que houvesse uma intensidade maior em tudo e julgo que isso está bem patente do álbum.


M.I. - O período de composição foi desafiante. Podem partilhar um pouco sobre esses desafios e como é que eles influenciaram o resultado final?

Na altura considerámos ser um grande desafio trabalharmos de uma forma que nunca tínhamos experimentado. Todos os álbuns anteriores aconteciam através de ideias individuais que eram trabalhadas e testadas em conjunto, em contexto de sala de ensaios, com uma banda completa. Desta vez a música foi toda composta pelo nosso guitarrista, João Pedro Correia, que começou a registar ideias e as estruturas foram surgindo. Fomos trocando ideias e as canções começaram a ganhar vida. Acabou por ser um trabalho mais solitário e obviamente isso acabou por influenciar a sonoridade do GLORIÆ. A banda nesta altura estava reduzida a dois elementos e isso constituiu um facto de motivação e de união.


M.I. - Trabalharam novamente com o Daniel Cardoso na produção. O que é que ele trouxe de novo ao som de GLORIÆ e à vossa abordagem criativa?

Depois da excelente experiência que tivemos no CONTRA e do contributo precioso do Daniel, não equacionamos sequer trabalhar com mais ninguém para este álbum. Aliás, este álbum é uma realidade, porque o Daniel se prontificou a colaborar nas gravações da bateria e teclados, sem esta ajuda preciosa não tinha sido viável. Para nós foi fantástico poder contar com a colaboração de um músico desta qualidade. A nível de produção, as sugestões que nos apresentou permitiram elevar as nossas ideias a outro patamar. Por vezes temos ideia de um caminho e não estamos muito certos da melhor forma de lá chegar e é nisso que o papel de um produtor é fundamental. A nível de sonoridade conseguimos ter um som mais obscuro e mais poderoso, perfeito para aquele conjunto de canções.


M.I. - A estética visual do álbum é mais minimalista. Porquê esta escolha e como se relaciona com a música e o conceito?

Depois de termos definido o título do álbum, começámos a imaginar como poderia ser a capa e tínhamos uma ideia concreta, fugir aos estereótipos típicos do metal. Pensamos numa foto, equacionámos algumas obras na área da pintura e fomos nos apercebendo que o conceito de glória, ou a sua ausência, que é o tema do álbum, pode sujeitar-se às mais diversas interpretações, vimos várias, mas qualquer uma delas seria de certa forma redutora para o que queremos transmitir. Achámos o lettering forte, algo que foi utilizado anteriormente em bandas e artistas de outros estilos musicais, mas muito pouco no metal. Adicionalmente, a capa simboliza a presença e ausência, sendo que a ausência de elementos gráficos marcantes apela à reflexão e à interpretação individual do conceito.


M.I. - Há alguma faixa que considerem o coração emocional do disco? Qual e porquê?

Talvez a “To Reign In Captivity”, sentimos isso no momento em que ficou pronta em estúdio. Aliás, quando gravei as vozes do refrão, ainda na cabine senti que estava ali algo especial, que me emocionou. A própria música tem uma carga forte desde o início e segue em crescendo, permitindo sentir várias emoções, desde a solidão, necessidade de glória, revolta, angústia. È uma canção especial.


M.I. - “Absent Glory” abre o álbum com uma carga emocional forte. Porquê esta escolha para faixa de abertura?

Fizemos a ordenação final do álbum em conjunto com o Daniel. É importante termos uma opinião mais isenta do que a nossa. Consideramos ser uma boa escolha para iniciar a viagem e nada como começar com um título caricato como “Absent Glory”.


M.I. - “Conspiratio” e “Seed of Ancient Hate” parecem explorar temas mais sombrios. Como abordam a escrita lírica quando lidam com emoções tão densas?

Quando comecei as ouvir os primeiros ficheiros que o João Pedro me enviou, entendi que estas músicas necessitavam de temas líricos fortes. Iniciei a escrita da letra da “Conspiratio” centrada no tema da conspiração na política e nas mentiras em que por vezes nos fazem acreditar. Na semana em que a Rússia invadiu a Ucrânia fiquei bastante afetado com esse acontecimento e comecei a imaginar o sofrimento daquelas pessoas, terminei a letra da “Conspiratio” e escrevi a “Seed Of Ancient Hate”.


M.I. - “Do Fim dos Dias” destaca-se por ser cantada em português. Como surgiu essa decisão e que impacto acham que tem na narrativa do álbum?

No álbum anterior “Contra” achámos que as letras em português funcionaram muito bem, têm uma força adicional, pelo menos para nós, portugueses. Curiosamente, essa experiência com canções em português foi bastante elogiada nas reviews de países estrangeiros. A língua acaba por marcar uma identidade e isso valoriza sempre a criação artística. No “GLORIÆ” pensei em repetir a fórmula, mas curiosamente só a música da “Do Fim Dos Dias” me inspirou para escrever em português. Mais uma vez, achamos que é um tema muito forte, igualmente carregado de emoção.


M.I. - Que faixa vos surpreendeu mais durante o processo de gravação, seja pela evolução ou por ganhar um significado inesperado?

Talvez a já mencionada “To Reign In Captivity” ou a “The Dreariest One”, que também ficou uma canção bastante forte, com fortes influências Doom.


M.I. - Sentem que o som dos Inhuman evoluiu com este disco? Em que direções têm vontade de continuar a crescer?

Julgo que o “Contra” foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, mas até agora o “GLORIÆ” tem tido uma recetividade ainda maior, acho que é unânime que a banda evoluiu bastante. Acho que fazemos melhor algo que sempre fizemos, combinar peso e melodia, luz e escuridão. Estamos mais maduros, mas acho que mantemos a essência. Ainda é cedo para saber que direções seguiremos num trabalho futuro. Nunca planeamos o que vamos fazer a seguir, normalmente é a inspiração que nos guia. Acho que só podemos dar uma garantia, tendo como base o que passou sempre nos nossos álbuns, não nos iremos repetir.


M.I. - O vosso estilo cruza elementos de gothic metal com abordagens modernas. Como equilibram tradição com inovação?

Sempre misturamos vários estilos na nossa música. Acho que temos uma base de Gothic-Metal e vamos incorporando outros estilos. Em relação a abordagens modernas, pensamos que só valeu a pena retornamos as edições para fazer música que seja relevante e atual. É isso que tentamos fazer.


M.I. - Ao longo da vossa carreira, como tem mudado a forma como encaram a composição e a performance?

Temos procurado melhorar em ambas as áreas e achamos que temos conseguido. Na composição fomos aprendendo que por vezes menos é mais, acima de tudo procuramos ter boas ideias e ligá-las de modo coerente. Em termos de performance procuramos ser mais precisos e consistentes.


M.I. - Vão apresentar GLORIÆ ao vivo na primeira edição das Alma Mater Nights. O que podemos esperar deste concerto especial?

Lamentavelmente, o concerto acabou por ser cancelado, mas já atuámos no Rockfest PM, em Portimão e vamos tocar em breve, no mítico Bafo de Baco, em Loulé.


M.I. - Como é partilhar o palco com os Glasya neste evento totalmente dedicado ao metal português?

Esperamos partilhar um palco com os Glasya em breve, é um desejo de ambas as bandas.


M.I. - O que significa para vocês tocar num evento organizado pela Alma Mater Records, um selo que valoriza tanto o metal nacional?

Esperamos tocar num futuro evento da Alma Mater Records em breve e para nós tem sido uma honra ter os nossos trabalhos editados por uma editora com pessoas experientes e que entendem a nossa música.


M.I. - Como vêm a evolução da cena metal em Portugal nos últimos anos? Sentem que existe agora mais espaço e reconhecimento para bandas portuguesas no panorama internacional?

As bandas portuguesas evoluíram bastante em qualidade nos últimos 30 anos. As bandas produzem música cada vez melhor e a qualidade de execução deu um salto gigantesco. Por outro lado, a oferta cresceu tanto que o impacto não é o desejável. Dezenas de bandas passam totalmente despercebidas e muitas com excelente qualidade. As dificuldades de sucesso no estrangeiro continuam a ser evidentes, porque o mercado no estrangeiro também é cada vez mais competitivo.


M.I. - Depois de um álbum tão intenso como GLORIÆ, o que vos inspira no presente? O que vem a seguir para os Inhuman em 2026? Já pensam em novas sonoridades, colaborações ou tours?

No presente estamos focados em promover o “GLORIÆ” o máximo que nos for possível. As reações no estrangeiro têm sido fantásticas, pelo que ambicionamos levar a nossa música o mais longe possível. No presente, e acho que sempre, somos inspirados por tudo o vque amos ouvindo, vendo e pelos acontecimentos globais e das nossas vidas. Tudo nos pode influenciar. Gostávamos de contar no futuro com algumas colaborações, mas nunca nos focámos muito nisso, vamos ver o que acontece.

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Entrevista por Sónia Fonseca