Com From the Voids, os noruegueses Malum aprofundam ainda mais a sua descida ao abismo. Mais agressivo, mais direto e emocionalmente implacável, o novo álbum afirma-se como um passo decisivo na evolução da banda, afastando-se da introspeção pura para uma confrontação frontal com o mundo, a sua decadência e o vazio existencial que o atravessa. Enraizados na tradição sombria do black metal da segunda vaga, mas moldados por uma visão contemporânea marcada pelo existencialismo e pelo niilismo, Malum transforma a raiva, o desespero e o desencanto em matéria sonora crua e cortante. Nesta entrevista, falámos com A.A., a mente por detrás de Malum, sobre a génese de From the Voids, a importância da confrontação como motor criativo, a relação entre tradição e modernidade no black metal norueguês e o papel do “vazio” enquanto espaço inevitável de reflexão e aceitação. Uma conversa lúcida e sem concessões, à imagem da música que Malum entrega.
M.I. – From the Voids é descrito como o próximo capítulo de Malum: mais agressivo, mais zangado e mais confrontacional do que Towards Nothingness. Que forças internas ou externas empurraram a banda para esta expressão mais dura e implacável?
Esta direção não surgiu do nada. A agressividade introduzida em Towards Nothingness é simplesmente levada mais longe em From the Voids. É uma continuação natural, tanto musical como liricamente. Enquanto Ad Mortem e In Nauseam giravam em torno do eu e da luta interior, Towards Nothingness e From the Voids voltam-se para for a, em direção ao mundo, à sua decadência e à nossa própria frustração com ele. Ao mesmo tempo, reconhecemos que não somos observadores sem culpa. Somos parte do colapso que descrevemos. Essa é a dura verdade que emerge dos vazios. Conceptualmente, isto marca um afastamento de uma perspetiva puramente niilista e de auto-aversão em direção a algo mais existencial e resignado.
M.I. – Embora o álbum se baseie na fundação sonora já estabelecida por Malum, é claro que afia e intensifica essa visão. Em que momento perceberam que este disco precisava de ser mais direto e violento na sua entrega?
Essa decisão foi tomada imediatamente após o lançamento de In Nauseam, antes mesmo de o processo de escrita de From the Voids ter começado. Nesse momento, ficou claro que o próximo disco tinha de ser mais direto e inflexível na sua expressão. A fase inicial de demos começou em conjunto com o antigo membro E.F. e foi mais tarde continuada com M.F., mas a intenção manteve-se sempre a mesma: criar um disco com um nível de agudeza e intensidade que sentimos ser necessário para Malum naquele momento. O nosso método de trabalho também desempenha um papel importante. Trabalhamos exclusivamente com demos de pré-produção, em vez de material ensaiado. Como resultado, o carácter de cada tema revela-se gradualmente durante o processo de gravação.
M.I. – A raiva parece ser uma força motriz por detrás de From the Voids, não como caos, mas como foco. Que papel desempenha a raiva no processo criativo de Malum… é um catalisador, uma arma ou um espelho?
Certamente encontrarás a raiva como uma das forças, a par da tristeza, do desespero e do desprezo, todas elas desempenhando papéis centrais em Malum, tanto musical como liricamente. Estas emoções funcionam como catalisadores, moldando a forma como nos movemos sonicamente e como a atmosfera é construída. Dito isto, o existencialismo é a principal força motriz por detrás de From the Voids. A raiva é uma ferramenta,
mas não o núcleo.
M.I. – O álbum é descrito como uma “observação implacável do mundo tal como ele é: escuro, quebrado e oco.” Esta observação está mais enraizada na experiência pessoal, na decadência social ou numa perspetiva existencial mais ampla?
Está enraizada numa perspetiva existencial, filtrada pela experiência pessoal e pela perceção individual. Embora a decadência social esteja inegavelmente presente, o foco recai sobre os aspetos mais sombrios e desconfortáveis da vida, emoções que são tipicamente reprimidas ou evitadas, mas às quais Malum dá espaço para serem confrontadas diretamente.
M.I. – Enquanto In Nauseam soava profundamente introspectivo, From the Voids parece projetar esse colapso para fora. Esta mudança da reflexão interior para a confrontação externa foi uma decisão conceptual consciente?
Foi uma decisão conceptual consciente, mas que surgiu através do desenvolvimento pessoal em vez de um plano pré-definido. A mudança aconteceu gradualmente, à medida que o foco passou da reflexão interior para a confrontação externa. As letras são um reflexo destilado da forma como perceciono a vida e o mundo à minha volta. Funcionam como comentário em vez de confissão, e como um meio de articular pensamentos que de outra forma ficariam por examinar. Conceito, letras e música evoluíram passo a passo, em vez de através de uma rutura súbita.
M.I. – O disco é composto por seis faixas concisas, mas inflexíveis. Limitar o álbum a seis temas ajudou a destilar a sua mensagem e intensidade, ou foi simplesmente aí que o material atingiu a sua conclusão natural?
As letras são escritas primeiro, com uma abordagem deliberadamente poética, e apenas seis textos foram produzidos para este ciclo. O próprio processo de escrita é bastante clínico: oito composições ou demos fortes são concluídas, duas são postas de lado e lançadas separadamente como um EP, e as seis restantes formam o álbum. Existem também considerações práticas, como a duração total, mas mais importante ainda é o facto de o disco ser concebido como uma obra completa e não como uma coleção de temas isolados. Estendê-lo mais teria diluído o seu foco e intensidade. Seis faixas foi onde o material atingiu a sua conclusão natural e necessária.
M.I. – O som de Malum está enraizado nas tradições sombrias do black metal da segunda vaga, mas moldado pelo existencialismo e niilismo modernos. Como equilibram a reverência pela tradição com a necessidade de expressar algo contemporâneo e pessoal?
Valorizamos o primitivismo que o black metal oferece, mas abordamo-lo com um certo grau de contenção e intenção. Enquanto ouvintes profundamente investidos e participantes ativos no género, combinar respeito pela tradição com uma perspetiva contemporânea não nos parece forçado nem contraditório. O existencialismo moderno encontra-se principalmente nas letras, mas a música em si também pode ser descrita como moderna - não através da rejeição da tradição, mas pela extensão e refinamento de uma estrutura que já estava estabelecida.
M.I. – Referes uma “descida fria e sem rosto em direção ao colapso interior”. Quão importante é o distanciamento emocional na música de Malum, e onde surge a catarse dentro dessa frieza?Isto reflete uma consciência do potencial desperdiçado e da irrelevância das distrações superficiais. A vida é curta, e ainda assim grande parte dela é passada em autoengano, religião, absolutos falsos e medo. O distanciamento emocional funciona como uma distância necessária, e não como ausência de sentimento. A música em si não é distante, mas movida pela raiva, frustração e ressentimento em relação à existência. Estas emoções são confrontadas sem filtros ou resolução. A catarse surge do próprio confronto, o que o ouvinte decide fazer com isso é inteiramente da sua responsabilidade.
M.I. – Faixas como In Gloom II e Hollow sugerem continuidade, repetição e estados cada vez mais profundos de desespero. Vês a discografia de Malum como um arco filosófico contínuo, em vez de declarações separadas?
A discografia de Malum pode ser vista como uma jornada filosófica e musical contínua. Cada lançamento, no entanto, enfatiza diferentes aspetos dessa jornada. Ad Mortem e In Nauseam focaram-se no indivíduo, enquanto Towards Nothingness e From the Voids confrontam o coletivo - o mundo e o nosso lugar dentro dele. Nesse sentido, a continuidade não é mantida através da repetição, mas através de uma exploração em evolução da perspetiva e do desespero.
M.I. – O underground norueguês tem um legado longo e imponente no black metal. Como uma banda que surgiu “das cinzas como uma entidade totalmente nova”, como posicionam Malum dentro dessa linhagem sem serem consumidos por ela?
Malum começou como um simples projeto de estúdio. O objetivo era criar black metal atmosférico que desse continuidade a um som que sentimos estar sub-representado, mantendo ao mesmo tempo a nossa própria perspetiva. Estamos conscientes da linhagem do black metal norueguês e vemos-nos como simultaneamente uma consequência e uma extensão dessa tradição. Não procuramos emulá-la, antes, abordamo-la como uma estrutura a partir da qual esculpir o nosso próprio caminho. Posicionar-nos dentro dessa linhagem passa por respeitar a tradição sem sermos consumidos por ela.
M.I. – Malum é descrito não apenas como uma banda, mas como uma confrontação com o eu, com o silêncio, com o nada. O que esperam que os ouvintes sejam forçados a confrontar quando se envolvem plenamente com From the Voids?
Confrontamos a vida e o mundo tal como os percecionamos, sem filtros ou compromissos. A intenção é forçar o ouvinte a enfrentar aquilo que é muitas vezes ignorado ou evitado: encontrar o vazio, o silêncio e os aspetos mais sombrios da existência. O que fazem com essa confrontação não nos compete decidir.
M.I. – Opressão e catarse coexistem fortemente na vossa música. Acreditam que a verdadeira catarse só pode surgir após uma confrontação total com o desespero, ou ainda existe espaço para transcendência dentro da visão de Malum?
A verdadeira catarse não pode existir sem confrontação. Ao enfrentar diretamente o desespero e a frustração, surge uma forma de resolução interna, não transcendência, não conforto, mas uma clareza ou quietude interior. Se existe algo para além disso não é algo que pretendamos definir.
M.I. – Com influências comparadas a Mgła, Groza, In Twilight’s Embrace e às cenas polaca e nidrosiana, quão importante é a atmosfera versus a mensagem na composição de Malum?
Atmosfera e mensagem são igualmente importantes. A música tem de refletir as letras para que as emoções sejam sentidas fisicamente. As letras são fundamentais para Malum; o conteúdo conceptual tem o mesmo peso que a própria música, apresentando estados emocionais muito reais sem resolução. Embora as cenas polaca e nidrosiana sejam diferentes, ambas enfatizam a atmosfera. Malum ocupa um espaço entre elas: seguimos um caminho moldado pelo som polaco, que consideramos necessário, mas From the Voids introduz elementos que são mais pronunciados do que antes.
M.I. – O título do álbum, From the Voids, sugere emergência em vez de desaparecimento. Este “vazio” é algo de que se deve escapar, abraçar ou habitar eternamente?
O “vazio” representa uma escuridão específica que procuramos articular, uma forma de percecionar a vida e a existência. Não é algo de que se deva escapar, mas sim abraçar, plenamente reconhecido como parte da realidade que habitamos.
M.I. – Finalmente, após o lançamento de From the Voids, para onde segue Malum… mais fundo no nada, ou em direção a uma forma completamente diferente de confrontação?
O foco imediato é levar From the Voids ao palco e a um público mais vasto. A confrontação continua a ser necessária, tanto em relação ao mundo como a nós próprios. Demasiados se sentam confortavelmente na retidão e na falsa certeza. Continuaremos ao longo do caminho que escolhemos. Para onde ele conduz, cabe ao ouvinte testemunhar.
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Entrevista por Sónia Fonseca












