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Entrevista aos Syberia


Ao longo do seu percurso, os Syberia têm afirmado uma identidade singular no universo do post-metal instrumental, explorando a música como espaço de reflexão, tensão e emoção sem recorrer à palavra escrita. Depois de um álbum profundamente político como “Statement on Death”, a banda catalã regressa com “Quan tot s’apagui”, um trabalho mais sombrio, introspetivo e simbólico, que encara o colapso do mundo, externo e interior, com uma serenidade inquietante.
Concebido integralmente em catalão e mergulhado em influências mais densas de post-metal e black metal, este novo disco representa um passo decisivo na evolução sonora e conceitual dos Syberia. Falámos com a banda sobre identidade, linguagem, liberdade criativa e a forma como a música instrumental pode traduzir trauma, vazio e incerteza num mundo em desgaste contínuo.

M.I. - Após o lançamento de “Statement on Death” em 2022, “Quan tot s’apagui” parece um passo significativo em frente, tanto em intensidade como em profundidade emocional. Nesta fase do percurso dos Syberia, o que achas que mudou mais na identidade da banda?

Não achamos que a nossa identidade tenha mudado assim tanto. Sentimos que a nossa música se deslocou para passagens mais sombrias em comparação com álbuns anteriores, mas isso deve-se provavelmente às influências musicais que tínhamos na altura da composição. Talvez seja um disco mais introspectivo e emocional por causa dos temas que queríamos explorar. Ainda assim, nunca quisemos deixar de ser quem sempre fomos musicalmente.


M.I. – “Statement on Death” focava-se em casos muito específicos e reais de violência e injustiça, enquanto “Quan tot s’apagui” explora o fim do mundo e a passagem para o nada de uma forma muito mais simbólica. Esta mudança em direcção à abstração foi uma decisão artística consciente?

Absolutamente. Ao contrário de outras ocasiões, já tínhamos uma ideia preconcebida do que queríamos que fosse o tema central do álbum. Normalmente isso junta-se a meio do processo de escrita. Desta vez, no entanto, estávamos muito claros desde o início de que queríamos fazer um álbum mais escuro que simbolizasse a passagem para o fim dos dias.


M.I. - Quando lançaram o álbum anterior, foram muito explícitos ao abordar a violência policial e a injustiça racial através de música instrumental, o que gerou debate sobre os limites da narrativa sem palavras. Olhando para trás, acham que o post-metal instrumental pode realmente transmitir uma mensagem política específica, ou a vossa perspetiva evoluiu desde então?

Acreditamos que a música instrumental pode carregar uma carga política, mas não num sentido literal ou fechado. Não funciona como um slogan ou uma mensagem inequívoca, mas sim como um espaço emocional onde certas tensões, formas de violência ou estados coletivos podem ser sentidos em vez de explicados. Naquele momento, pareceu-nos honesto abordar essas questões através da música — não para dar respostas, mas para provocar uma reação ou um sentimento de desconforto. Com o tempo, a nossa perspetiva não mudou. Desta vez, simplesmente não queríamos fazer um disco político como o anterior. Ainda assim, acreditamos que o rock instrumental (seja post-rock, post-metal ou como lhe quiserem chamar) pode ser político precisamente porque não impõe uma narrativa fixa. Deixa espaço para que cada ouvinte projete a sua própria experiência, contexto e leitura do mundo. Nesse sentido, a ausência de palavras não é uma limitação, mas uma forma diferente — e talvez mais aberta — de discurso.


M.I. - O título “Quan tot s’apagui” traduz-se aproximadamente como “Quando tudo se apaga” ou “Quando tudo se desvanece”. O que representa esta frase para vocês a nível pessoal e artístico, e como encapsula a essência emocional e conceptual do álbum?

“Quan tot s’apagui” é um retrato do fim dos dias e da passagem para uma pausa eterna. Não fala de uma destruição súbita, mas de um desvanecer lento, quase sereno, em que o tempo perde o seu significado e tudo permanece suspenso. O álbum move-se nesse espaço: quando a vida pára, o ruído desaparece e a música torna-se a última forma de acompanhar essa transição.


M.I. – “Quan tot s’apagui” tem sido descrito como o vosso álbum mais sombrio e introspectivo até à data. Que experiências pessoais ou colectivas levaram os Syberia a esta exploração mais profunda do colapso, do vazio e da devastação? O álbum explora simbolicamente o fim do mundo e uma passagem para o nada. Este “fim” deve ser entendido como algo social e global, ou mais como uma extinção interna e emocional?

“Quan tot s’apagui” nasce de olhar para o mundo tal como ele é agora: um planeta a desgastar-se, cheio de desequilíbrios e silêncios que anunciam um futuro incerto. Não é uma história apocalíptica fictícia, mas antes uma observação de como estamos a deixar as coisas para aqueles que vêm depois de nós. O álbum reflete esse sentimento de colapso e vazio, mas também serve como um espaço para o aceitar, sentir e, de certa forma, processar. É a nossa maneira de traduzir em música a incerteza, a fragilidade e a devastação que percebemos tanto a nível global como pessoal.


M.I. - Pela primeira vez, o álbum é concebido inteiramente em catalão. Mesmo sendo uma banda instrumental, quão importante foi esta decisão para reforçar a vossa identidade e moldar a intenção emocional da música?

A decisão de rotular tudo em catalão, e até de acrescentar uma voz nessa língua no final do álbum, vem do facto de nunca o termos feito antes. Poderíamos falar de identidade, mas, de forma geral, sempre tendemos a fazer as coisas em inglês… e pensámos: porque não fazê-lo em catalão, já que é a língua que falamos? Bandas como os Kvelertak conseguiram fazer digressões pelo mundo inteiro a cantar em norueguês. E foi assim que aconteceu.


M.I. - Este álbum inclina-se mais para influências de post-metal e black metal, expandindo o vosso som para um território mais agressivo e feroz, mantendo ao mesmo tempo a vossa sensibilidade melódica. Esta mudança sonora foi planeada desde o início ou surgiu naturalmente durante o processo de composição?

Como dissemos antes, essa ideia foi completamente deliberada. Queríamos fazer um álbum mais escuro e também baixámos as afinações. No disco anterior, juntou-se a nós o Manel — um baterista de black metal extremamente experiente. Gostamos muito deste estilo, não da versão old-school, mas da mais moderna, que mistura diferentes abordagens. Entre isso e as nossas influências musicais, tentamos criar a nossa própria mistura, sempre com o objetivo de fazer coisas que nunca fizemos antes. Divertimo-nos imenso a escrevê-lo e adoramos o resultado final.


M.I. - Sem letras, toda a narrativa e emoção têm de ser transmitidas através de textura, dinâmica e repetição. Como abordam a tradução de ideias abstratas como extinção, luto ou transcendência para a forma musical?

Na verdade, nunca pensamos nisso dessa forma. As ideias que surgem entre álbuns ficam guardadas. Quando chega o momento de compor, recuperamo-las e juntamo-las até a música parecer completa. Só no final é que pensamos nos títulos e na ordem das faixas, para tornar a experiência de escuta o mais lógica e dinâmica possível. Ou seja, o aspecto narrativo surge por último.


M.I. - Depois de trabalharem com a Metal Blade Records em “Statement on Death”, estão agora a lançar “Quan tot s’apagui” através da Moment of Collapse Records e da Silent Pendulum. Esta mudança de contexto editorial afetou a vossa liberdade criativa ou a visão global do álbum?

De forma nenhuma. Estamos muito orgulhosos e gratos por termos feito parte do catálogo da Metal Blade Records. Foi um período importante para nós e permitiu-nos crescer bastante. Podemos dizer honestamente que sempre tivemos total liberdade no que diz respeito às decisões criativas. Nem eles, nem agora a Moment of Collapse e a Silent Pendulum, impuseram quaisquer condições à nossa liberdade artística. Sempre pudemos fazer aquilo que nos apetecia fazer, e sempre confiaram em nós no que toca às nossas ideias musicais. Essa confiança é essencial para podermos explorar o nosso som e concretizar projetos como “Quan tot s’apagui” exatamente como os imaginamos.


M.I. – Com “Quan tot s’apagui” a marcar um passo tão ousado em termos de identidade, língua e intensidade, vêem este álbum como um ponto de viragem para os Syberia, ou simplesmente como um capítulo numa narrativa mais longa e em constante evolução?

Não sabemos o que o futuro nos reserva. Normalmente pensamos em composições e temas quando chega a altura. Neste momento, o que importa é sair e tocar o máximo de concertos possível. Depois de um ano e meio sem o fazer, estamos cheios de vontade de voltar ao palco!

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Entrevista por Sónia Fonseca