Há duas décadas no ativo, os Sister recusam abrandar. Em vez disso, a banda sueca de horror-punk metal entrega o seu álbum mais focado e implacável até agora. “The Way We Fall” chega após anos de evolução, batalhas de identidade, mudanças de formação, contratempos da pandemia e um compromisso incansável em permanecer fiel a si próprios, mesmo quando o mundo parece desmoronar-se. Na nossa conversa, a banda reflete sobre os mal-entendidos que os acompanharam desde os primeiros dias, os temas distópicos que moldam o novo disco, os sacrifícios feitos em nome da arte e o fogo renovado que os empurra para uma nova e poderosa era.
M.I. – Quando sai um novo álbum, depois de 20 anos, ainda sentem borboletas no estômago antes do lançamento?
Sim, absolutamente. É sempre a mesma sensação: o trabalho mais recente parece sempre o melhor até agora. Estamos super entusiasmados, muito felizes com o álbum, e tudo na preparação correu como planeado. Mesmo tendo ouvido o disco durante um ano, é ótimo finalmente lançá-lo.
M.I. – Qual é o maior equívoco sobre os Sister que este álbum finalmente deita por terra?
Muitos jornalistas ainda tentam colocar-nos numa caixa “sleaze/glam dos anos 80”. Talvez por causa de onde viemos, mas o nosso som evoluiu muito. Acho que este álbum define verdadeiramente o som dos Sister e apaga essas suposições antigas.
M.I. – Como definiriam o vosso som hoje?
É difícil. As pessoas esperam algo estranho porque somos associados ao sleaze, metal, punk, maquilhagem e teatralidade. Mas quando ouvem, muitas vezes dizem que é metal clássico com influências mais sombrias. Por isso, eu chamar-lhe-ia simplesmente um álbum de metal.
M.I. – “Tanz Der Toten” foi a última antecipação antes do álbum. Foi a escolha óbvia para single?
Nada disso. Quando apresentámos as nossas escolhas preferidas para single, essa faixa nem sequer estava incluída. A nossa gestão e editora destacaram-na e insistiram que devia ser um single, especialmente para um lançamento no Halloween. Com o tempo, tornou-se numa das músicas mais fortes.
M.I. – Os Sister equilibram horror, teatralidade punk e agressividade metal. Onde se insere o novo álbum nessa identidade?
Inclui todos esses elementos. A parte do horror está nos visuais e na apresentação. O metal é a espinha dorsal. O lado punk mantém tudo cru e sem pretensões. Não queremos metal “perfeito”, queremos algo vivo. Acho que este álbum mistura esses elementos muito bem.
M.I. – Vocês misturam caos com melodia. Como equilibram estes extremos sem perder identidade?
Acontece naturalmente. Novos membros trazem novas ideias, mas quando a voz do Jamie entra, o material ganha uma identidade Sister muito clara. A voz dele é uma grande parte do que une tudo.
M.I. – “The Way We Fall” soa distópico. Houve algum momento real que vos levou a escrever este álbum?
Não um momento específico, mais a sensação geral de como o mundo está hoje. O tema de “The Way We Fall” liga todas as músicas, seja num nível pessoal, social ou existencial. A faixa-título é mais pessoal; “When She Dies” relaciona-se com o colapso ambiental; “Tanz der Toten” explora a mortalidade. Tudo encaixa na ideia de declínio.
M.I. – Inspiraram-se em filmes, histórias ou eventos históricos?
Principalmente no mundo atual, mas há uma música que se destaca: “Howling Hell”. Baseia-se no manual de caça às bruxas do século XV, “Malleus Maleficarum” (“Martelo das Bruxas”). A intro falada faz referência ao ritual em que mulheres que tinham perdido tudo eram forçadas renunciar a Deus e fazer um pacto com o Diabo.
M.I. – Descreveram a mensagem do álbum como “abrir os olhos e questionar aquilo que as massas aceitam como verdade”. O que despertou isso?
É difícil não sentir essa vontade quando se vê as notícias. O mundo parece louco. A mensagem é política e pessoal: confia em ti mesmo, pensa de forma independente e segue o teu próprio caminho, tal como manter uma banda durante 20 anos também exige isso.
M.I. – Sacrificaram muito pelos Sister ao longo destes 20 anos?
Sim e não. Sacrificámos tempo com família e amigos, oportunidades de carreira, dinheiro. Mas também ganhámos muito. À medida que envelhecemos, tivemos de equilibrar vida e música, já não podemos sacrificar tudo, por isso o planeamento é essencial.
M.I. – Os vossos filhos entendem que os pais são músicos e precisam de viajar e passar temporadas longe da família?
As filhas do Jamie sim, já o viram em palco e entendem que ele tem de estar fora às vezes. Eu acabei de ser pai há poucas semanas, portanto não faço ideia ainda!
M.I. – O videoclipe de “Tanz der Toten” parece intenso. O que nos podem contar sobre a gravação?
Filmámos em ruínas antigas nos arredores de Estocolmo. Era lindo mas brutalmente frio, cerca de –10 a –15°C. Tivemos de caminhar uma longa distância a carregar tudo, usando apenas coletes e jeans apertados. Só eu é que levei um casaco decente. Cada membro foi filmado separadamente, portanto enquanto um gravava, os outros congelavam na floresta. Foi inesquecível.
M.I. – O novo álbum tem sido descrito como o mais poderoso e implacável. O que fez deste o ponto de viragem?Depois de “Vengeance Ignited” (2021), não pudemos fazer digressão por causa da pandemia, por isso o álbum nunca teve o impacto que devia. Em vez de esperar, começámos logo a escrever um novo disco. Sem pressão e com muito tempo, tudo fluiu naturalmente.
M.I. – Que peças finalmente encaixaram?
As músicas, sem fillers. A dinâmica da banda… O Fredan cresceu como compositor, e depois de nos separarmos do guitarrista anterior, trabalhar como trio fortaleceu-nos. Trazer o Axel mais tarde também ajudou. Tivemos tempo para moldar tudo, incluindo os visuais… Passei cerca de um ano e meio a desenhar toda a arte.
M.I. – Se tivessem de escolher uma faixa que define a nova era dos Sister, qual seria?
“The Way We Fall.” É por isso que se tornou faixa-título, primeiro single e abertura. Resume o álbum e mostra onde estamos hoje.
M.I. – O que esperam que os fãs sintam ao ouvir o álbum pela primeira vez?
Que é bom e que o ouçam do início ao fim. Somos muito old-school na forma como vemos os álbuns. Há um motivo para cada faixa estar onde está. É uma viagem: rápida, lenta, sombria, teatral, misteriosa.
M.I. – Trabalham com o produtor Jona Tee há três álbuns. O que faz esta colaboração funcionar tão bem?
Ele entende-nos melhor a cada álbum. Neste, acertou exatamente no que queríamos. Parece um quinto membro no estúdio. Consegue ouvir uma demo uma ou duas vezes e perceber imediatamente o que cortar, encurtar ou acrescentar. Ele eleva as nossas músicas.
M.I. – Há algum detalhe de produção que os ouvintes talvez não notem mas do qual se orgulham?
Não um detalhe específico, mais a autenticidade geral. Não está demasiado produzido: nada de baterias muito elaboradas, nada de infinitas camadas de guitarras. Somos nós a tocar. O Jamie também gravou as vozes muito rápido e com grande força desta vez, sem problemas.
M.I. – Recentemente, fizeram uma digressão na Escandinávia com os Wednesday 13. Como foi?
Fantástico. Andamos em tournée com eles há anos, por isso foi ótimo reencontrá-los e levar esse pacote pela Escandinávia. Apesar de sermos suecos, raramente tocamos aqui, por isso fazer concertos na Dinamarca, Noruega, Finlândia e Suécia foi especial.
M.I. – Vão andar tournée pelo resto da Europa a seguir?
Esperamos que sim. Nada oficial ainda, mas os planos para o próximo ano estão a ser preparados. O objetivo é fazer tanto clubes como festivais.
M.I. – Há datas para Portugal?
Infelizmente, ainda não. Nunca tocámos em Portugal, mas esperamos muito fazê-lo um dia.
M.I. – Com que bandas gostariam de andar em tournée?
Cenário de sonho? Ghost. Eles costumam levar bandas mais pequenas em digressão, o que acho ótimo. Gostava que mais bandas grandes fizessem isso. Os Metallica também o fazem muito bem.
M.I. – O que gostariam de dizer aos fãs que vos seguem desde 2006?
Obrigado por ficarem connosco. Espero que evoluam com a banda. Algumas pessoas preferem os primeiros álbuns, e está tudo bem, mas deem uma hipótese a este novo disco, tentamos sempre dar um passo em frente a cada lançamento.
M.I. – E que mensagem têm para os vossos fãs portugueses?
Obrigado pelo apoio! Se nos querem em Portugal, falem com os vossos organizadores de festivais, clubes e promotores. Adoraríamos tocar para vocês, só precisamos que alguém nos contrate. Divulguem e partilhem a música!
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Entrevista por Sónia Fonseca












