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Entrevista aos Mystic Circle


Com o seu novo álbum “Hexenhammer 1486”, lançado no dia 31 de outubro, os veteranos alemães do metal extremo Mystic Circle concluem a trilogia profana que começou com “Mystic Circle” (2022) e “Erzdämon” (2023). Misturando black e death metal com toques melódicos e sinfónicos, o duo Beelzebub e Blackwar mergulha na sombria história das caças às bruxas, explorando temas de opressão, hipocrisia e liberdade. Conversámos com Beelzebub sobre o conceito do álbum, espiritualidade, criatividade e o tão aguardado regresso da banda aos palcos.

M.I. – Os Mystic Circle sempre se posicionaram contra a opressão religiosa. Como vês os paralelos modernos? Sentes que as caças às bruxas continuam hoje sob outras formas?

Como as pessoas sabem, somos contra a instituição da Santa Igreja, porque a sua origem é manter as pessoas sob pressão e controlá-las. As caças às bruxas do passado não são iguais hoje, mas podem ser comparadas. As instituições conservadoras estão a ressurgir em todo o mundo, por isso todos devem continuar a lutar pela liberdade. Os Mystic Circle estão contra esses poderes conservadores e contra a Igreja.


M.I. – A liberdade parece estar a desaparecer hoje em dia. Como está a situação na Alemanha?

Na Alemanha ainda podemos dizer o que queremos, mas temos de lutar por isso. O metal, especialmente o black metal, é sobre liberdade. Sinto que as coisas estão a tornar-se mais conservadoras, mas não enfrentamos pressão institucional direta. Ainda assim, temos de permanecer vigilantes.


M.I. – O título “Hexenhammer 1486” evoca destruição e purificação. O fogo neste álbum é simbólico de aniquilação ou transformação?

Representa uma era muito sombria da história humana, em que muitas pessoas inocentes, sobretudo mulheres, foram torturadas até à morte pela Igreja. Neste álbum temos uma trilogia de canções, além de uma intro e um outro, que tratam das caças às bruxas. Queríamos aprofundar o tema, focando-nos em Heinrich Kramer, o autor do Malleus Maleficarum, mas também dedicando as músicas a todas as mulheres inocentes que morreram. Misturámos história com o nosso próprio estilo e narrativa.


M.I. – Descreveste Heinrich Kramer como “um sádico vil que expressou o seu ressentimento em relação às mulheres sob o manto das escrituras cristãs”. O que significa para ti enfrentar esse tipo de hipocrisia?

Confirma que estamos no caminho certo. Os Mystic Circle começaram como uma banda satânica, não porque Satanás seja mau, mas porque é um símbolo de liberdade e inspiração. A instituição da Igreja é construída sobre a ganância, a mentira e o poder. Poucos estão acima dos outros e tratam-nos como escravos. Assim, a nossa música é uma rebelião contra isso. Mesmo outros cristãos rejeitaram Kramer pelo seu sadismo, mas ele espalhou o terror por toda a parte. Era um monge que recebeu absolvição do Papa e escreveu o Malleus Maleficarum, que se tornou uma ferramenta de perseguição.


M.I. – Quando canalizas uma escuridão histórica como essa, abordas o tema como contador de histórias, filósofo ou como um ato ritual?

Um pouco de tudo. Somos contadores de histórias e também detetives, porque adoramos investigar estes temas. As letras têm um lado filosófico também, mas, no fim, contamos estas histórias à nossa maneira artística. Essa é a nossa visão.


M.I. – Falas muitas vezes sobre seguir o próprio caminho espiritual. O que significa espiritualidade para ti hoje?

Acredito numa energia que permanece quando o corpo desaparece. O símbolo de Satanás inspira-me, é poderoso e ajuda-me a meditar. Quando era mais novo, era rebelião; agora é reflexão. Medito cerca de 20 minutos por dia para encontrar calma e foco. Escrever músicas e letras também é uma forma de meditação, é a nossa maneira de mergulhar no nosso próprio mundo.


M.I. – Achas que te tornaste mais sábio com a idade?

Sim, sem dúvida. E não me arrependo de nada. Vivi a minha vida ao máximo. Andámos muito em digressão e seguimos a nossa paixão, por isso sou grato por tudo.


M.I. – “Hexenhammer 1486” completa uma trilogia que começou com “Mystic Circle” e “Erzdämon”. Estava planeado desde o início?

Sim, quase tudo nos Mystic Circle é planeado. A trilogia está principalmente ligada através das capas criadas por Rafael Tavares, do Brasil. As capas contam uma história: na primeira, Heinrich Kramer abre o livro; em Erzdämon, enlouquece; e em Hexenhammer 1486, a mãe de todas as bruxas lança-lhe uma maldição. É o nosso próprio universo.


M.I. – O álbum termina com um outro dramático. Que emoção queriam deixar no ouvinte?

O outro conta com a participação da Natalie, da Okay Comics, que escreveu uma banda desenhada sobre o Malleus Maleficarum. Ela leu as palavras finais do seu livro para o nosso outro, o que encerra o círculo de forma perfeita.


M.I. – Quanto dos vossos conceitos vem da pesquisa e quanto vem da imaginação?

Muito da pesquisa. Lemos livros, vemos filmes e até visitamos locais históricos para sentir a sua atmosfera. Os visuais, as capas e os vídeos fazem parte do mesmo conceito. É como um teatro sombrio… vemos os Mystic Circle como um projeto artístico completo.


M.I. – Qual é o teu papel no processo de composição?

Ambos escrevemos. Muitas vezes componho com guitarra acústica e depois gravo ideias com o Blackwar. Estamos muito ligados espiritualmente e criativamente. O nosso produtor, Niels Lesser, trabalhou connosco nos três álbuns, é como o terceiro membro da banda.


M.I. – Tens medo da inteligência artificial na música?

Não. É uma ferramenta, não um substituto da criatividade. Usamos tecnologia para inspiração e produção, mas a arte vem de nós. A IA não pode substituir a emoção nem a autenticidade. A nossa música tem de vir do coração.


M.I. – O vosso som combina black, death e metal tradicional com influências de synthwave dos anos 80. Como evoluiu esta mistura?

Crescemos a ouvir bandas como Iron Maiden, Venom, Dismember, Paradise Lost e Deicide. A melodia é importante para nós, acrescenta emoção. Chamamos ao nosso estilo “heavy metal tradicional de forma desarmónica”. Os elementos orquestrais criam atmosfera e tensão. Gostamos quando a música soa maléfica e perturbadora.


M.I. – As vozes femininas de Sarah Jezebel Deva e Karo Hafke acrescentam outra dimensão ao álbum. O que representam simbolicamente?

A Sarah e a Karo são amigas de longa data que cantaram connosco nos anos 90. Elas representam as bruxas neste conceito. As suas vozes trazem contraste e emoção. Adoramos trabalhar com diferentes personagens e atmosferas.


M.I. – A crítica está a considerar “Hexenhammer 1486” o vosso melhor trabalho até agora. O que torna esta fase diferente dos anos 90?

A essência é a mesma. O estilo que o Blackwar e eu criámos há décadas ainda está lá. Apenas evoluímos técnica e conceptualmente. Se as pessoas acham que é o nosso melhor trabalho, ótimo, significa que a nossa paixão continua a conectar-se.


M.I. – Têm planos para regressar aos palcos em breve?

Sim! Tocámos cerca de 400 concertos no passado com bandas como Marduk, Cannibal Corpse e Rotting Christ. Depois de eu sair em 2007, parámos, mas agora estamos de volta. Estamos com a Flaming Arts Agency e faremos uma digressão pela América do Sul em abril de 2026, seguida de festivais e datas europeias. Estamos a ensaiar agora com três membros de sessão, dois guitarristas (uma mulher) e um baterista. Sem teclista; usamos samples ao vivo.


M.I. – Vêm a Portugal?

Espero que sim! Já tocámos aí, no antigo Hard Club, no Porto. Era uma sala e um público incríveis. Adoraríamos voltar; os fãs portugueses são apaixonados e leais.


M.I. – Finalmente, podes deixar uma mensagem para os vossos fãs portugueses?

Claro! Esperamos voltar em breve para tocar para os nossos apoiantes em Portugal. São um público incrível, cheio de paixão. Obrigado por apoiarem “Hexenhammer 1486”… demos tudo de nós. Escrevam-nos nas redes sociais, respondemos sempre!

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Entrevista por Sónia Fonseca