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Entrevista aos 1914


O mais recente álbum dos 1914 soa menos como uma coleção de músicas e mais como ser atirado na lama e no fumo da própria Primeira Guerra Mundial. É pesado e brutal, mas também surpreendentemente emotivo, misturando riffs esmagadores com uma atmosfera sombria e alguns momentos de reflexão melancólica. Tivemos a oportunidade de conversar com o Dmytro e aprender sobre a história da banda, participações especiais em Viribus Unitis e um pouco sobre suas influências musicais.

M.I. - Já faz algum tempo desde o lançamento de “Where Fear and Weapons Meet” em 2021. O que vocês têm feito nos últimos anos?

Lançamos o álbum em novembro e, alguns meses depois, a guerra eclodiu. Ainda estamos na Ucrânia, o nosso guitarrista alistou-se voluntariamente no exército e nós também nos oferecemos para ir participar na linha da frente com medicamentos, equipamentos blindados e tudo o que for necessário.
Qualquer coisa que pudéssemos enviar era sempre bem-vinda pelo exército ucraniano. É assim que vivemos aqui, durante todos esses anos. Infelizmente, enterrei muitos amigos; há uma quantidade enorme de lápides no nosso cemitério agora. Só na minha cidade natal, são cerca de 7.000 pessoas enterradas. É assim que temos passado os últimos anos.


M.I. - Não consigo imaginar o terror.

Espero que nunca tenhas de passar por isto.


M.I. - Porquê especificamente temas de guerra?

Vou partilhar contigo o que sempre partilho com as revistas e entrevistadores de metal. Sou arqueólogo de guerra e, nos últimos 20 anos, tenho procurado informações sobre heróis de guerra e soldados na Ucrânia, nos Montes Cárpatos e noutros lugares.
Sempre tento encontrar documentos, placas de identificação militar e construir árvores genealógicas. Também sou um grande fã e colecionador da Primeira Guerra Mundial. Claro, quando falamos de guerra, não estamos a falar do lado mau, não. Sou um grande fã de história, das batalhas, do destino dos soldados, dos vestígios e até mesmo do armamento que possuo. Estou profundamente envolvido com este tema porque é minha paixão desenterrar algo e aprender sobre isso.
Não sou um metaleiro, não sou cantor nem músico. Sou apenas um nerd de história. É assim que reajo aos 1914, e foi assim que comecei esta banda.


M.I. - A formação da banda é baseada em patentes militares. São patentes reais ou não?

Se estivermos a falar de regimentos, então sim. São regimentos com patentes reais. Se estivermos a afalar do novo álbum, ele aborda simplesmente de regimentos ucranianos.
Podes conferir em vinil ou em CD, há de facto regimentos reais. Os nossos nomes são, de certa forma, uma combinação de elementos germânicos com nomes eslavos. Por exemplo, meu nome é Dmytro, em eslavo, mas em grego é Mytro, atualmente conhecido como Dimitri. O mesmo acontece com os outros membros da banda.


M.I. - Parece que vocês são grandes fãs dos Prodigy. Por que razão a música "Invaders Must Die" e a colaboração com Barney Hines/Ship Her Son?

Antes de mais nada, sim. Sou um grande fã dos Prodigy. Eles são uma das minhas maiores influências e posso dizer que tenho todos os discos deles.
Não sou fã de metal; prefiro música eletrónica e noise. Se falarmos da banda do Barney Hines, é uma colaboração entre a música industrial ucraniana e nós tentamos criar isto porque a Napalm Records gostou muito da música. Eles não queriam lançá-la, mas pensamos que seria uma homenagem aos nossos soldados ucranianos dedicar esta música a eles.
Muitos soldados enviam-nos orações e mensagens de apoio, e foi por isso que fizemos essa música. No aniversário da guerra, enviamos esta música para eles.

M.I. - Vamos falar sobre o álbum Viribus Unitis. Uma vez mais, o tema da guerra está muito presente, e desta vez dedicado à monarquia dos Habsburgos – Francisco José I.

Antes de mais nada, este álbum não é inteiramente sobre Francisco José I. Todo o álbum é construído em torno do destino do soldado na nossa cidade natal, Lviv.
Trata-se de enfrentar a guerra, os primeiros dias em que os russos invadiram a nossa cidade natal, e um soldado ucraniano foi obrigado a recuar para os Montes Cárpatos. Depois, foi enviado para a frente italiana, mantido em cativeiro e, em seguida, conseguiu escapar. Posteriormente, voltou para Viena em 1919. Na guerra seguinte, a guerra ucraniano-polonesa, as tropas polacas invadiram minha cidade natal, e o soldado voltou para a sua terra natal, derrotado pelos novos invasores. Então, ele faleceu no dia da invasão.


M.I. - Um álbum que conta com alguns músicos convidados, como Aaron Stainthorpe, ex-My Dying Bride. Como foi o processo de gravação com ele?

Tudo muito simples, uma colaboração típica. Preparamos uma versão demo e enviamos para o Aaron. Ele gravou a voz no Reino Unido e enviou-nos de volta.
Finalizamos o álbum no Fascination Street Studios, com mistura e masterização, é claro. Hoje em dia, ficheiros em cloud e Wi-Fi, é fácil enviar ficheiros. Foi uma honra tê-lo no álbum; ele tem uma voz única e a música combinou perfeitamente.


M.I. - A capa lembra-me um pouco "The Sound of Perseverance", dos Death. Quem é o paladino na montanha, acompanhado pela Morte?

Conheço o álbum, mas não sou fã dos Death. Não é um paladino, mas sim um arcanjo com uma espada, seguido pela Morte.
Essas duas figuras estão diante de ti. Se observares o arcanjo, isso pode implicar algo sobre o céu e o Ceifeiro algo sobre a morte. No entanto, eles estão juntos, diante de ti, em algum lugar entre o céu e o inferno, existe essa trincheira, e tu morrerás nessa mesma trincheira.
É uma figura que remete a parceiros no crime, forças opostas entre o céu e o inferno, e, no fim, vais morrer.


M.I. - Todos nós estamos cientes da tensão política que está a acontecer atualmente no leste, especialmente na Ucrânia. Como músico, mas também como ser humano, gostarias de partilhar alguma mensagem com os nossos leitores?

Espero que vocês nunca tenham que presenciar o que estamos a presenciar hoje em dia. Desejo tudo de bom para vocês, aproveitem a vida como ela é e continuem a apoiar-nos das trincheiras.

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Entrevista por André Neves