Num momento em que o metal ucraniano continua a afirmar-se no panorama internacional, os Space of Variations surgem como uma das vozes mais intensas, modernas e emocionalmente carregadas desta nova geração. Com uma identidade sonora que cruza metal moderno, eletrónica e atmosferas progressivas, a banda tem vindo a construir um percurso sólido, marcado por evolução artística e uma constante recusa em seguir fórmulas previsíveis.
Com “Poisoned Art”, o seu segundo álbum pela Napalm Records, os Space of Variations dão um passo decisivo na sua carreira, entregando um trabalho profundamente moldado pela experiência traumática de viver e criar em tempo de guerra. Falámos com a banda sobre identidade, crescimento, trauma, responsabilidade artística e o impacto emocional por detrás deste novo capítulo: um álbum tão pesado quanto honesto, que transforma dor em expressão artística sem concessões.
M.I. – Os Space of Variations são frequentemente mencionados ao lado de bandas como Jinjer como parte de uma nova geração de metal ucraniano a alcançar audiências globais. Como definem pessoalmente a vossa identidade dentro da cena do metal moderno, tanto a nível local como internacional?
Vemo-nos como metal moderno com influências de muitos géneros não-metal. Grande parte da nossa filosofia já está codificada no nome da banda. Adoramos brincar com contrastes e não gostamos de ser “standard” ou previsíveis. Estamos constantemente à procura de uma abordagem única.
M.I. - Formaram-se originalmente em 2009 e reuniram-se em 2015, construindo gradualmente impulso com “Mind Darknet” e “IMAGO”. Olhando para trás, qual sentem que foi o ponto de viragem mais importante na evolução da banda?
Tens razão! A banda existiu em 2009 e 2010, e depois separámo-nos até 2015. Mas houve sempre a sensação de que algo tinha ficado por terminar. As pessoas que amavam a banda nunca nos deixaram esquecê-la, como se fosse algo especial. Eventualmente, decidimos tocar um último concerto de despedida na nossa cidade natal. Esgotou, e depois disso escolhemos continuar. Traduzimos o nome da banda para inglês e começámos a escrever letras em inglês com a intenção de alcançar um público mundial. Houve muitos pontos de viragem ao longo do caminho, mas essa única decisão — continuar depois do que deveria ter sido apenas um último concerto — levou-nos através de todos estes anos até onde estamos agora. E quem sabe onde nos levará a seguir.
M.I. - “Poisoned Art” marca o vosso segundo álbum com a Napalm Records e já parece um grande passo em frente para os Space of Variations. Em que estado de espírito estavam quando começaram a escrever este álbum? Em que difere dos vossos lançamentos anteriores? Como é que essa parceria apoiou o vosso crescimento como banda, especialmente durante uma fase criativa tão decisiva?
Para ser honesto, o estado de espírito não era muito positivo. As nossas vidas pareciam estar a desmoronar-se, e escrever este álbum tornou-se a coisa que deu sentido a tudo. Este álbum foi muito mais difícil de gerir e criar do que os anteriores, porque estávamos a trabalhar em condições que eram desconhecidas e antinaturais para nós. Além disso, o peso emocional não nos permitiu simplesmente desfrutar do processo. Foi uma experiência dura de gravar, mas esperamos que essa luta tenha acrescentado profundidade emocional extra ao disco.
Quando uma editora te contrata, significa que vê potencial. Isso é importante para qualquer banda — saber que alguém acredita em ti para além de ti próprio. Ser contratado é uma dessas confirmações objectivas de que estás no caminho certo. Dá-te mais confiança, coloca-te na categoria de músicos profissionais e, claro, traz muita responsabilidade. Mas também te torna um interveniente mais confiante na indústria.
M.I. - A vossa música sempre teve um peso emocional forte, mas “Poisoned Art” parece especialmente intenso e focado. Até que ponto a realidade de viver e criar durante a guerra na Ucrânia influenciou a direção emocional deste álbum?
Para ser honesto, estes foram os anos mais difíceis das nossas vidas. Todo o espectro de emoções que vivemos está reflectido neste álbum. É escuro — provavelmente mais escuro do que qualquer coisa que tenhamos feito antes. A experiência traumática corre como um fio ao longo de todo o álbum e está literalmente cosida no seu título.
M.I. - O título “Poisoned Art” sugere criatividade corrompida, distorcida ou forçada a sobreviver em condições hostis. O que representa este título para ti pessoalmente e como reflecte os temas que atravessam o álbum?
O trauma penetrou todas as áreas das nossas vidas e envenenou tanto a nossa existência como a nossa arte. Essa fissura ainda está connosco e muito provavelmente ficará para sempre. É impossível — e desnecessário — separar esta experiência da arte que criamos. Foi por isso que decidimos chamar ao álbum Poisoned Art.
M.I. - “Ghost Town” combina riffs esmagadores, texturas eletrónicas e um refrão enorme, mas também carrega uma sensação de vazio e perda. Esta canção está ligada a experiências ou imagens específicas dos últimos anos, ou é mais simbólica?
Adoramos arte abstrata que deixa as perguntas em aberto para múltiplas interpretações. Ghost Town é um ato de auto-destruição, mas a razão pela qual a personagem no vídeo faz o que faz fica sem resposta. Queremos que o ouvinte preencha os espaços em branco por si próprio.
M.I. - O vosso som mistura a brutalidade do metalcore com eletrónica, texturas djent e elementos progressivos. Como abordam o equilíbrio entre agressividade, atmosfera e acessibilidade sem perder intensidade?
Não pensamos conscientemente em termos de fórmulas ou equilíbrio. Focamo-nos primeiro na emoção. Se algo nos parece honesto e poderoso, confiamos nesse instinto. A agressividade e a atmosfera são apenas ferramentas diferentes para expressar o mesmo sentimento e, quando vêm do mesmo núcleo emocional, a intensidade nunca se perde.
M.I. - Têm incorporado cada vez mais a língua ucraniana na vossa música. O que é que cantar na vossa língua materna vos permite expressar que o inglês por vezes não consegue?
É a nossa língua materna, por isso claro que é mais fácil expressar pensamentos e emoções através dela. Às vezes é possível ir mais fundo, brincar com significados e palavras de uma forma mais subtil. É também uma homenagem ao nosso público ucraniano e às nossas raízes, sendo ao mesmo tempo algo interessante e autêntico para ouvintes de todo o mundo.
M.I. - Serem eleitos duas vezes a melhor banda de metal da Ucrânia nos BUMA Awards é uma grande conquista. Esse reconhecimento cria um sentido de responsabilidade para representar a cultura ucraniana, a resiliência ou a verdade através da vossa música?
Absolutamente. Foi uma enorme honra para nós e trouxe muita atenção para a banda. Cria responsabilidade — corresponder às expetativas, manter o profissionalismo e entregar qualidade. Esperamos estar a cumprir bem essa missão.
M.I. - Vão fazer uma digressão europeia em 2026 em apoio a “Poisoned Art”. Em que é que tocar estas novas canções ao vivo difere emocionalmente de interpretar material mais antigo, especialmente tendo em conta o contexto actual da banda?
Tocar canções novas é sempre um pouco assustador e excitante ao mesmo tempo. Quando tocas mais ou menos as mesmas faixas durante anos, desejas mesmo algo fresco. As canções novas trazem emoções novas e dão-nos ainda mais energia. Estamos genuinamente entusiasmados por tocar estas músicas para os nossos ouvintes. Se nos atingem com tanta força, acreditamos que também vão atingir o público.
M.I. - Cada álbum, de “Mind Darknet” a “IMAGO” e agora “Poisoned Art”, mostra um crescimento em confiança e complexidade. Em que é que se recusam a comprometer à medida que os Space of Variations continuam a evoluir?
Pode soar a cliché, mas recusamo-nos a deixar de ouvir a nós próprios — aos nossos sentimentos e ao nosso compasso interior. Muitas pessoas vão sempre dar conselhos sobre o que deves fazer ou que tipo de canções deves escrever, como se soubessem melhor de fora. Mas a arte só ressoa verdadeiramente quando é honesta e autêntica para o artista. Por isso, sim, recusamo-nos a deixar de confiar em nós próprios.
M.I. - Quando os ouvintes terminam o novo álbum, o que esperam que fique com eles por mais tempo: a agressividade, a emoção, a mensagem ou o sentido de sobrevivência por detrás de tudo?
Esperamos que ouvir este álbum seja como uma viagem através de diferentes agrupamentos emocionais. Quanto mais amplo for esse espetro, melhor. A nossa banda nunca foi apenas sobre uma emoção — tal como a própria vida. Esperamos simplesmente que os ouvintes sintam algo, que algo ressoe dentro deles. Qual emoção exata é essa não é da nossa responsabilidade. O que importa é que encontrem algo verdadeiro na nossa música... um reflexo de si próprios.
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Entrevista por Sónia Fonseca












