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A chuva não deu tréguas, mas não foi por isso que o RCA Club deixou de ter uma fila de negro a aguardar (ansiosamente, é certo) pela abertura de portas. No dia anterior, apostamos que terá ocorrido o mesmo no Hard Club. E se o calendário informa que já nos encontramos na Primavera, o tempo veio dizer-nos que estava na altura certa de ouvir “Winter’s Gate” em sala fechada. Assim foi, e que bem soube sentir um pedaço de Inverno.


A noite começou com os suecos Tribulation, que trouxeram na bagagem o seu mais recente álbum, “Down Below”, e muito incenso à mistura. Mas não foi só o sentido olfativo a lucrar com esta atuação, pelo contrário. Antes de passarmos pelo óbvio sentido auditivo, vamos falar do visual. Sim, todos os membros aparecem de cara pintada, vestes negras e alguns acessórios à mistura. Nada de estranho no mundo do metal. Mas muito por culpa do guitarrista Jonathan Hultén, grande parte dos olhares eram levados, quase que de forma não consciente, para onde as suas vestes esvoaçam.


Conhecido por uma presença em palco algo extravagante, a verdade é que seguir Jonathan no palco implicou sentir cada uma das notas que por ali se tocavam, dado que os seus movimentos estavam sincronizados na perfeição com a música que se ouvia. A sua presença é tudo menos monótona, e, se tivermos vontade, conseguimos imaginá-lo numa qualquer banda de rock gótico. Contudo, engane-se quem achar que é só fogo-de-vista. Não querendo descurar a prestação dos seus colegas de banda, que foi bastante competente ao longo da noite, o certo é que aquela guitarra faz a diferença na sonoridade dos suecos. Os temas contemplados do novo álbum, a inicial “Lady Death”, “Nightbound” e “The Lament”, foram muito aplaudidos, e foi em “In the Dreams of the Dead” que o público mostrou mais o seu poder vocal. Um facto interessante é que, sempre que os suecos terminavam um tema, ausentavam-se por breves instantes. Quase que se sentia, tema após tema, que estávamos constantemente perante um possível encore. Isso, aliado ao facto de a atuação estar a ficar cada vez melhor, fez com que a despedida se tornasse muito difícil. Os suecos fizeram uma vénia, os portugueses quase esgotaram as palmas.


Os Insomnium passaram pelo nosso país em Agosto, no VOA Fest, em condições bastante distintas. Basta pensar que, para além de tocarem ao ar livre, fizeram-no numa altura em que o sol teimava em queimar a pele. O último lançamento da banda, o álbum conceptual “Winter’s Gate”, foi tocado na íntegra no Verão, e, agora, numa Primavera disfarçada de Inverno. Não há dúvida que ganha outra força quando ouvido numa sala fechada e com um casaco quente a acompanhar. Assim, o início (e meio) da atuação foi precisamente o tema “Winter’s Gate”, dividido nas conhecidas sete partes. Todas elas com o seu encanto. Durante este tema, o público assistiu maravilhado. Embora se tenha manifestado algumas vezes (batendo palmas ou entoando, em coro, “hey, hey, hey!”), o que se sentiu por parte da plateia foi, essencialmente, deslumbre. No fim das sete partes, um fã comentou que foi como ver uma peça de teatro. De facto, foi-nos contada uma história…e que bem contada foi.

À semelhança do concerto em Agosto, na segunda parte da atuação, os finlandeses voltaram a dar destaque ao álbum “Shadows of the Dying Sun”. Aqui, o público mudou a sua postura, passando do inicial deslumbre à euforia. Já se ouviram fãs a competir com a voz de Niilo Sevänen, especialmente em “While We Sleep” e “Ephemeral”. Niilo também chegou a desafiar os fãs portugueses, mencionando que o público espanhol tinha deixado marca e que queria saber se conseguíamos superá-la. Vamos dizer que sim, principalmente no fim da atuação: “The Promethean Song” ganhou o prémio de maior número de palmas da noite,
e “Only One Who Waits” fez estremecer o chão.

Foi uma noite memorável e, essencialmente, reconfortante para a alma. 




Texto por Sara Delgado
Fotografias por Ana Mendes
Agradecimentos: Prime Artists