Mais pesado e mais sombrio são os melhores adjetivos para descrever o segundo álbum da narrativa de A Dark Poem.
Os Green Carnation levaram Sanguis para um universo totalmente novo, combinando questões pessoais, frieza e agressividade com aquele som progressivo e familiar que já conhecemos. Tivemos a oportunidade de conhecer todo o processo por detrás de uma inteira trilogia, compreender o porquê do longo período de produção de uma trilogia tão impressionante e fascinante, bem como outros aspetos que moldam o grupo norueguês.
M.I. - O segundo álbum de uma trilogia. Como começou a narrativa de A Dark Poem?
É uma ideia que está na banda desde o lançamento de Light of the Day, Day of Darkness (2001).
Um conceito que tem estado connosco durante muitos anos. Depois desse álbum seguimos uma direção diferente, porque sentimos que tínhamos esgotado a nossa criatividade. Lançámos mais cinco álbuns diferentes e só em 2016 essa ideia principal é que voltou a emergir.
Começámos a discutir qual deveria ser o nosso próximo passo, sobre a trilogia que queríamos fazer há tanto tempo. Levou-nos muito tempo, muito esforço e muita energia. Depois, decidimos trabalhar nesta trilogia em 2017/2018. Como estava a demorar bastante tempo, decidimos lançar Leaves of Yesteryear no entretanto, para dar-nos mais tempo para conseguir terminar a trilogia.
Só em 2025 temos a primeira parte, e as duas seguintes sairão bastante em breve, uma em abril e a outra em setembro de 2026, embora ainda não seja oficial. Compusemos muitas músicas, não apenas para a primeira ou segunda parte, mas muitas mesmo, e rapidamente percebemos que estávamos a escrevê-las num período das nossas vidas em que, a nível pessoal, enfrentávamos desafios e conquistas. As nossas vidas têm sido feitas de altos e baixos, com perdas de pessoas, e ao longo dos três álbuns existem variações naturais, não como uma história linear, mas sentimos necessidade de escrever estas músicas para esvaziar os nossos sentimentos e mostrá-los ao mundo.
O mundo tem estado bastante estranho desde 2020, sentimos alguma alienação das pessoas, menos tolerância, e não é fácil lidar com a situação atual. Tentámos reunir estes álbuns de forma a que também pudessem viver individualmente, mas quando os ouves percebes que todos são diferentes.
M.I. - Se tivesses de rotular o ADN da Parte II, que palavras usarias para a descrever?
Bem, na parte um temos essa energia, intensidade total e peso. Neste álbum temos conceitos mais pessoais e introspetivos. Letras mais pessoais e, de certa forma, introvertidas.
Fizemos muitas coisas novas neste álbum que não fizemos no primeiro. Queríamos retirar tudo o resto; é muito centrado na voz, mas de alguma forma ligado à primeira parte. A parte dois também pode ser vista como um álbum independente, mesmo que não tenhas ouvido a parte um. Acho que tivemos sucesso com o primeiro, e vamos ver como as pessoas vão apreciar a parte dois e ligá-la ao primeiro álbum.
Estamos a lidar com o mesmo tipo de pensamentos ao longo dos três álbuns. Musicalmente falando, há diferenças entre o primeiro e o segundo, um pouco mais introspetivo e focado em questões pessoais, como a música “Sanguis”. O nosso baixista escreveu a letra e a música comigo, e para nós é uma música muito agressiva e pessoal.
M.I. - Part I: The Shores of Melancholia também contou com alguns músicos convidados, como membros dos Enslaved, entre outros. Já sabemos que a Ingrid Ose irá participar neste próximo álbum, mas e quanto a outros músicos?
Na verdade, és a primeira pessoa que me entrevista sobre a parte dois. Lembro-me de ter dito, sobre a parte um, que haveria muitos convidados no último álbum.
Estamos definitivamente a falar de pelo menos cem pessoas que irão tocar connosco.
M.I. - Estamos a falar de uma orquestra?
Possivelmente! Alguns nomes que farão parte da parte três já fizeram parte do universo dos Green Carnation anteriormente. Referiste a Ingrid Ose, e ela também participará neste álbum. É muito talentosa e já trabalhou connosco previamente.
M.I. - Sendo parte de uma trilogia, existe sempre um elemento de narrativa. Parece que Part II: Sanguis traz um tema mais sombrio para o conceito do álbum.
Completamente. É isso mesmo que temos vindo a falar. Parece que entrámos numa sala mais escura. A primeira, a segunda e a última músicas têm uma vibração sombria, perturbadora ao mesmo tempo.
Este álbum é como quando desistes de tudo — o que acontece depois? É quase um alívio, porque tudo desaparece, e é assim que este álbum pode ser descrito. Como já disse várias vezes, é um álbum muito pessoal, especialmente quando se ouvem as letras, que podem ser facilmente compreendidas.
M.I. - Até a arte gráfica é bastante diferente de The Shores of Melancholia.
Sim, tens razão. Faz parte de todo o conceito da trilogia e tudo pode ser percebido em conjunto, mas o tema é bastante diferente. Podes ver como um planeta a colapsar ou até como uma gota de sangue, por exemplo, ou talvez uma mistura de ambos, quem sabe?
M.I. - E quanto a planos de digressão ou concertos já agendados?
Tem sido um início lento para nós e não fizemos muitas digressões. De repente, dois anos e meio depois, temos vindo a lançar música e os promotores e festivais começaram a contactar os Green Carnation para atuar.
Fomos a um festival de música progressiva nos Países Baixos, completamente esgotado, e foi incrível. Tocámos lá com os nossos amigos os Leprous e Gazpacho. Temos um festival na Finlândia e outro na Hungria no próximo verão, e depois voltamos a Barcelona para tocar por volta de setembro. Além disso, teremos um concerto completo na nossa cidade natal (Kristiansand), onde iremos tocar os três álbuns, incluindo todos os convidados e uma orquestra sinfónica completa.
M.I. - Endre Kirkesola é o membro mais recente da banda. Quão desafiante foi para ele aprender três décadas do repertório da banda?
Ele já conhecia praticamente tudo de antes. O Endre foi o produtor de Light of the Day, Day of Darkness, e também tocou teclados quando fizemos a digressão desse álbum.
Depois de o nosso anterior teclista ter saído, o Endre regressou. Gravámos também Leaves of Yesteryear com ele, e ele compôs a maioria dos teclados na trilogia. Não foi um grande desafio para ele; é também um amigo pessoal da nossa cidade natal. Já faz parte da família há algum tempo.
M.I. - Se tivesses de escolher três álbuns que moldaram o conceito de Sanguis, quais seriam?
Boa pergunta! A minha primeira escolha seriam os álbuns mais recentes dos Candlemass, como The Door to Doom (2019). Sempre gostei dos Candlemass, mas há algo neste álbum, uma frescura que me inspirou várias vezes.
Durante a COVID-19 estive a ouvir música nova com a qual não estava familiarizado. Refiro-me à Chelsea Wolfe, e acabei por me identificar com ela. Parece-me que sou o único na banda que ouve música nova, e quando tens tempo acabas por descobrir muita música nova e boa. Também acho que as pessoas que ouvem Green Carnation são uma mistura entre a velha guarda e a nova geração.
A minha terceira e última escolha seria um dos álbuns mais recentes dos Opeth. Adoro-os e a carreira deles tem sido incrível. Sempre que mudam o som, isso encaixa muito bem comigo, como aconteceu com Blackwater Park, e quando lançaram The Last Will and Testament também me agradou bastante.
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Entrevista por André Neves












