Loss, é um álbum intenso e profundamente emocional, onde o black metal ganha uma dimensão mais atmosférica e melancólica. Lançado em 2026, o disco combina agressividade com momentos mais melódicos, criando uma sensação constante de peso e introspeção. É um trabalho que fala de dor e perda, mas de forma envolvente e quase hipnótica, ajudando a afirmar os Gaerea como uma das mais interessantes bandas do género nos últimos anos.
M.I. - Começaram há 10 anos como uma banda de black metal, mas em recentes entrevistas referiram que já não integram apenas este estilo.
Exato. Para todos os efeitos, o nosso ADN continua a ter bastante black metal, numa música explosiva. Se analisarmos a componente técnica, ainda temos alguns pontos de black metal com baterias bastante explosivas, blast-beats até dizer chega. Contudo, no âmago, já não somos uma banda de black metal. Somos uma mistura daquilo que define o metal de hoje em dia, algo mais moderno com um pouco de metalcore, hardcore, nu metal e death metal.
M.I. - Sabemos que andam sempre em tour e o vosso crescimento musical tem sido excelente. Porém, nos tempos livres de viagens, além do descanso, o que costumam fazer?
Depende da tour e depende, claro, da viagem. Esta última tour que tivemos com os Orbit Culture, tínhamos o nosso próprio autocarro e deu para nos mantermos um pouco mais ocupados a trabalhar e de pôr a banda a andar no seu back-end.
Gostamos também de ter um pouco do nosso entretenimento, ir ao ginásio, manter um pouco daquela normalidade. Quanto mais normal a experiência de andar em tour hoje em dia, melhor. Parece que ir em tour é uma experiência sem normas e regras, o sono é inexistente, mas hoje em dia tentamos ter os nossos horários de sono. Somos até uma banda bastante aborrecida de acompanhar em tour, pois somos os meninos bem-comportados. Descansamos, não bebemos muito e não consumimos drogas, porque também gostamos de ter essa capacidade mental e física de aguentar isto durante mais 10 anos.
Fora isso, gostamos também de ter o nosso espaço. Cada um de nós gosta do seu próprio espaço, somos pessoas bastante diferentes. Se há coisa que a vida estrada nos ensinou e de nos darmos todos muito bem, há momentos que temos de estar todos juntos tipo sardinha enlatada no autocarro, é sempre bom saber a altura em que cada um tem o seu próprio espaço. Somos uma banda bastante normal.
M.I. - Coma saiu há 2 anos. É um álbum que catapultou os Gaerea para um novo cosmos. O que podemos esperar de Loss?
Não sei responder a essa questão e não és o primeiro que o faz. É, sem dúvida, uma pergunta bastante normal. Podemos dizer que é um álbum arrojado, com atitude. Não quero estar a enaltecer propriamente o álbum, mas a verdade é que não existem muitas bandas que, após 10 anos de carreira, fizessem algo como nós com músicas que já ouviste. E não falo apenas dos singles que saíram, mas sim músicas que podem ser um choque para quem não estava nada à espera.
Acima de tudo, estamos muito contentes e satisfeitos. É o álbum que tínhamos de fazer. É a verdadeira “go big or go home” e é para aí que estamos a apontar. Temos coisas gigantes que estamos a planear e acho que vai ser o álbum que nos vai catapultar para outro tipo de público, palcos, tournées e outro tipo de oportunidades. É um álbum mais aberto, mais intimista, mais direto naquilo que pretendemos dizer. Nós viemos de um início de banda em que as coisas são muito metafóricas, literárias e que era algo que era interessante fazer e já o fizemos. Vai trazer-nos também alguns dissabores, tem o seu quê o crescimento da banda e vai haver momentos de rutura, pois não existe nenhuma subida sem os seus percalços. Por isso, temos sido uma banda que tem conseguido lidar com esse tipo de problemas.
M.I. - Loss arranca com “Luminary”, uma faixa que congrega agressividade com uma parte melódica e encerra com “Stardust”, uma balada inicialmente calma.
O título do álbum denuncia completamente o tema. Pela primeira vez, estou a fazer um álbum sobre mim e sobre a minha vida, durante os meus tempos da adolescência.
Houve uma altura que perdi o meu melhor amigo e a “Stardust” é uma música dedicada a essa pessoa. É um álbum que lida muito com a síndrome de impostor, aquela ideia de não pertenceres a lado nenhum, como consegues escutar na “Nomad”, um álbum que lida muito com as dificuldades que sentimos como artistas.
Fala também de toda a minha personalidade com alguns pontos mais trágicos do meu crescimento e da minha adolescência, que todos nós também tivemos. Não estou, obviamente, a fazer de mim um mártir, porque todos nós perdemos pessoas ao longo da nossa vida e isso molda-nos. Não me tinha apercebido até há bem pouco tempo, que alguns dos meus problemas vêm daí e eu não sabia lidar bem com as coisas. Por isso, é um álbum que quer transmitir essa mensagem, sobre esses momentos e abrir a discussão, pois só há pouco tempo é que comecei a ver as coisas noutra perspetiva e a não me sentir tão culpado, quando partilhei isto com os Gaerea e outras pessoas. Porém, a meu ver também é um álbum que lida com alguma esperança e luz (como se vê na capa), com a ideia que, após uma partilha ou conversa, o mundo não parece assim tão negro.
M.I. - Por outro lado, o vídeo de “Nomad” faz-nos uma alusão a um black metal da velha guarda. Onde gravaram o vídeo e porquê a escolha deste cenário?
O vídeo foi gravado na Letónia, onde gravamos os restantes vídeos com o nosso realizador, o Pavel Trebukhin. Eu adoro o trabalho dele, já trabalhou com bandas que também gostamos, como os Imminence, os Amon Amarth, In Flames, etc. É aproximadamente da minha idade e damo-nos bem também com a banda dele.
Fizemos tudo com ele na Letónia. Calhou muito bem, pois queríamos que este vídeo fosse algo bastante simples, apenas comigo e que fosse uma espécie de uma viagem sem um rumo ou destino. Ele conseguiu criar todo aquele cenário e a Letónia estava completamente assim, cheia de neve, algo que não temos tanto em Portugal.
M.I. - Tenho a impressão de que temos presente os elementos água, ar e fogo nos vossos vídeos ou estarei enganado?
Eu acho que simplesmente foi aleatório. Eu já tinha visto essa teoria no nosso canal do Discord. Foi fácil topar que havia alguns elementos naturais, mas não. Simplesmente foi aleatório, pretendíamos algo que fosse visualmente atraente, como acontece na “Submerged” e claro o próprio cenário tinha de ter água. A “Hellbound”, pelo seu nome, tinha de ter algo relacionado com o fogo, um cenário meio Dune ou Blade Runner. Porém, os fãs achavam que a “Phoenix” ia ser algo relacionado com o ar, mas é sempre interessante ver o que o público pensa.
M.I. - Infelizmente, alguns fãs da velha guarda, consideram que a vossa mudança musical não foi expectável. Contudo, este novo álbum traz um pouco de Limbo e Mirage, não?
Talvez. É tudo feito pela mesma pessoa. É normal algumas coisas sangrarem de uns anos para os outros e buscar algumas coisas parecidas ou que fazem alusão a temas mais antigos.
Eu estou bastante contente de estarmos a fazer uma carreira, e olho para os discos e eles são muito diferentes uns dos outros. Sempre quis isso e sempre tentamos que o disco seja o mais diferente possível; há bandas que repetem e reciclam discos, como os Amon Amarth, em que definem um estilo próprio deles, são uma banda fantástica, mas nós não somos esse tipo de banda, não temos uma sonoridade que nos caraterize e seja possível definir um estilo apenas por ouvir três ou quatro músicas.
Na altura do Limbo e do Mirage, nunca tinha tido ideias para estas músicas porque são coisas que demoram o seu tempo, e tu acabas por evoluir como artista e pessoa. Eu gosto do facto de há 5 anos, se me dissessem que eu ia fazer uma música como a “Stardust”, seria impensável. É normal não agradarmos a toda a gente e, claro, uma banda que muda, muda o seu jogo e é impossível agradar com um álbum como o Loss. É o nosso maior disco, os concertos estão esgotados, está a correr bem. Por exemplo, os Watain são a minha banda favorita, mas eu não gosto dos discos todos.
M.I. - Fizeram uma apresentação especial, na vossa terra natal, no Museu Santa Maria de Lamas. Será uma experiência mais íntima para o público nacional?
Abrimos o jogo para toda a gente e tivemos pessoas de todo o mundo que visitaram. Falamos de fãs que vêm de Espanha, da Grécia e de Itália. Foi um evento limitado a 150 pessoas, o museu é espetacular e quisemos dar abertura para as pessoas verem o próprio museu. Pessoalmente, é um dos segredos mais bem guardados de Aveiro. Tivemos uma grande ajuda do museu para podermos ensaiar e esta foi a nossa forma de agradecimento, toda a receita será para o museu. É um museu privado, que também infelizmente passa pelas suas dificuldades. Não vivem de apoios nem subsídios e esta é a nossa forma de agradecer à nossa comunidade artística e à nossa cidade pela ajuda e apoio. Foi uma tarde porreira, bem passada, e para algumas pessoas foi a primeira vez que ouviram algumas músicas.
M.I. - Queres partilhar três bandas ou álbuns que te inspiraram para a construção musical de Loss?
Nós ouvimos tanta coisa neste disco. Tenho sempre as minhas inspirações e, se calhar, nunca foram tão visíveis, mas neste disco ouvem-se um pouco mais. Temos por exemplo os Linkin Park, que fazem parte da minha adolescência. Tenho 30 anos e cresci com eles. Falamos também dos Architects, uma banda que adoro e que combina com tudo, e Watain, especialmente quando precisamos criar algo mais bonito ou atmosférico. Eles são sempre uma referência para nós.
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Entrevista por André Neves












