The Unyielding Season, com lançamento marcado para 27 de março, os Winterfylleth mostram-se mais focados e agressivos do que nunca. Este disco não é apenas sobre atmosfera ou peso — algo mais pessoal, de reflexão e estranhamente poderoso. Detém aquele som frio que corre pelo vento, no qual o quinteto britânico tão bem consegue, mas agora com um sentido mais profundo de resistência, como manterem-se firmes em tempos difíceis. É um álbum que se revela lentamente, que nos envolve pela sua honestidade e carga emocional, lembrando-nos porque é que os Winterfylleth continuam a ser tão respeitados no black metal atmosférico.
M.I. - É o vosso nono álbum. Alguma vez imaginaste chegar tão longe enquanto músico de black metal?
Nunca pensei propriamente em parar ou em chegar a um ponto final. É algo estranho estar numa banda, mas quando és músico, como eu sou, a vontade de criar algo de raiz nunca desaparece.
Produzes um disco novo, passas um ano a promovê-lo, e passado um ano essa mesma vontade começa a surgir. Acho que é muito difícil pensar nisso. Creio que cada um de nós tem uma pequena voz interior a dizer que temos de criar algo todos os anos.
E de repente damos por nós, 20 anos depois, com nove álbuns. Também temos vários projetos paralelos onde estamos envolvidos. É uma pergunta interessante, mas sinto sempre que tenho de me desafiar constantemente, para deixar algo no mundo que realmente importa.
M.I. - A mudança de Candlelight Records para a Napalm Records, que detém um catálogo impressionante de bandas. Como foi o processo de gravação com eles?
Com a Napalm Records, o processo de gravação foi muito positivo. Para nós foi interessante mudar de editora após tantos anos, já que estivemos com a Candlelight Records durante quase toda a nossa discografia.
Queríamos mudar de rumo. Encontrámos a Napalm Records e tem sido excelente. Eles preocupam-se genuinamente connosco, são muito proativos, dão apoio, querem ouvir as demos, entre outras coisas. Em vez de sermos apenas mais uma banda, sentimos agora um grande apoio de quem está verdadeiramente interessado em nós. Também lançaram várias cores de vinil e os vídeos ficaram fantásticos.
Por vezes é difícil para as pessoas terem acesso aos nossos álbuns, especialmente vindo nós do Reino Unido. Como a Napalm está sediada na Áustria, tornou-se mais fácil para os fãs na Europa receberem os envios através desta editora.
M.I. - The Unyielding Season começa com “Heroes of a Hundred Fields”. Em termos sonoros, mistura aquela segunda vaga do black metal com elementos mais modernos.
Sim! No seu núcleo, os Winterfylleth são uma banda de black metal atmosférico, mas é preciso fazer coisas que nos desafiem e interessem, e isso significa por vezes incluir elementos novos.
Essa faixa em particular tem mais teclados, uma secção final diferente — tentamos fazer coisas novas para nós, mas sempre mantendo as raízes da banda. Talvez parte dessa influência venha da segunda vaga do black metal, especialmente de Enslaved e Ulver, combinada com um som mais orgânico em vez daquele black metal cru e puro.
Acho que as pessoas apreciam isso, e na minha opinião este é também um álbum mais agressivo. Tem mais aquele fogo interior.
M.I. - Também recorrem à literatura como inspiração, especialmente em “Echoes in the After”. Quem teve a ideia de misturar literatura medieval/renascentista com música?
Sempre utilizámos literatura na banda, e não é incomum bandas de black metal recorrerem ao folclore, mitologia e literatura. A diferença é que as pessoas estão mais habituadas a ver isso associado à cultura norueguesa.
No caso de uma banda inglesa, a mitologia é diferente, a escrita também, e o percurso histórico do meu país é distinto. Por exemplo, o Reino Unido tem uma tradição interessante de poesia pastoral, de onde surge “Echoes in the After”. A música refere-se a uma árvore sagrada no norte de Inglaterra, cuja pintura já tínhamos usado no álbum de 2018.
Basicamente, a história do Reino Unido ressoa na identidade da banda. Recentemente houve notícias sobre essa árvore ter sido abatida, o que deixou muita gente revoltada. Escrever uma canção sobre isso, combinando poesia pastoral com natureza, pareceu-nos uma forma bonita de unir literatura evocativa antiga ao black metal.
M.I. - Por outro lado, “Unspoken Elegy” e “Where Dreams Once Grew” apresentam uma vertente mais acústica, bastante diferente do black metal mais cru. Podemos dizer que os Winterfylleth não têm receio de elevar o seu som e fundi-lo com outros géneros?
Ao longo da história da banda sempre existiu esta vertente nos álbuns dos Winterfylleth, com algumas faixas acústicas. Há uma ligação à história e ao folclore, e na Europa existe uma forte tradição de música folk.
Não diria que somos propriamente uma banda de folk. Somos uma banda de black metal que incorpora elementos acústicos. A música folk sempre foi uma forma de contar histórias, algo muito enraizado. Sempre quisemos incluir isso nos nossos discos, e estas duas faixas encaixam nesse conceito.
A primeira utiliza violoncelo e transmite tristeza, apesar de ser muito bonita. A segunda recupera um título de letras antigas e é simultaneamente melancólica e reflexiva — fala sobre como o mundo está a mudar para pior, diferente de quando éramos mais novos. Estes momentos acústicos criam uma pausa, permitindo abraçar a tristeza e a melancolia da vida.
M.I. - O álbum termina com uma versão de “Enchantment”, dos Paradise Lost. Porquê escolher uma banda de gothic/doom metal em vez de uma banda de black metal, como já fizeram com Emperor?
É uma boa pergunta! Nos últimos três álbuns fizemos versões de bandas que realmente nos influenciaram, desde os Emperor, Enslaved e Ulver.
Cresci em Huddersfield, no Reino Unido, não muito longe da Peaceville Records. Bandas como My Dying Bride e Paradise Lost também são dessa zona. Além disso, faço parte de um projeto chamado Atavist, uma banda de death/doom, e o nosso teclista, Mark Deeks, também toca numa banda de doom melódico chamada Ard. Apesar de hoje estarmos numa banda de black metal, todos começámos no doom metal.
Paradise Lost sempre foram uma grande influência. A versão original de “Enchantment” tem um lado mais gothic rock, mas quisemos dar-lhe uma abordagem mais death/doom. Espero que as pessoas apreciem quando a ouvirem.
M.I. - Vão andar em digressão pelo Reino Unido, Irlanda, França, Polónia e Alemanha. Quais são os próximos concertos?
Vamos iniciar uma digressão nos Estados Unidos com os Blackbraid em abril. Temos também festivais como o Mystic Festival, na Polónia, o Hellfest, em França, além de datas nos Países Baixos e na Alemanha.
Já temos vários concertos anunciados até ao final do ano. Estamos a tentar organizar outra digressão pela Europa Central mais para o final do ano. Além disso, vamos celebrar o nosso 20.º aniversário no próximo ano, por isso queremos fazer algo especial.
Mudámos recentemente de agente, por isso ainda estamos a ajustar a agenda. Esperamos tocar em muitos sítios no próximo ano. Fiquem atentos — estaremos de volta!
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Entrevista por André Neves












