Pouco antes do arranque de uma nova digressão, falámos com Cody Ford, guitarrista dos Soen, sobre Reliance, o mais recente álbum da banda sueca. Numa conversa honesta e aprofundada, Cody reflete sobre identidade, evolução criativa, o equilíbrio entre luz e sombra que atravessa o disco, o desafio constante de conciliar digressões com composição e o impacto, cada vez mais real, da inteligência artificial na música. Entre bastidores de estúdio, memórias de Portugal e uma clara paixão pela criação artística, esta entrevista oferece um olhar íntimo sobre o presente e o futuro de uma das bandas mais consistentes do metal progressivo contemporâneo.
M.I. – Olá Cody, como estás hoje?
Estou bem, obrigado.
M.I. – Estás a preparar-te para vir para a Europa.
Sim. Muitas coisas para fazer, muitos ensaios, muita coisa para preparar.
M.I. – Daqui a uma semana começam a tour. Estás entusiasmado?
Muito entusiasmado. É sempre emocionante começar um novo capítulo, lançar um novo álbum, tocar um novo alinhamento, nova produção, novo espetáculo de luzes, andar em digressão com novas bandas, conhecer novos amigos. Cada tour é uma experiência única, por isso sim, estou mesmo muito entusiasmado.
M.I. – Quando entraste na banda, os Soen já tinham uma identidade muito bem definida. Qual foi o maior desafio em encontrares a tua própria voz dentro da banda?
Honestamente, essa foi a parte mais fácil para mim. Pareceu um encaixe perfeito. Pude simplesmente ser eu próprio e tocar o estilo que toco. Quando entrei, foi durante Lotus, e eu estava a fazer as guitarras principais e os solos. O género e a música pareceram-me completamente naturais. Venho de um background de prog-metal, com influências como Pink Floyd, por isso tudo me pareceu muito confortável.
M.I. – Quando entram novos membros na banda, eles adaptam-se à “linguagem Soen” ou essa linguagem muda com cada novo elemento?
É um pouco dos dois. Há claramente uma adaptação à linguagem dos Soen, mas uma banda é feita de indivíduos com os seus próprios estilos e ideias. No fim de contas, tens de servir a visão de para onde a banda está a ir. Às vezes isso significa pôr o ego de lado e servir a canção… fazer menos do que queres, ou fazer algo que normalmente não farias.
Ao mesmo tempo, há troca e equilíbrio. Quando entrei, de repente havia muito mais solos de guitarra. Quando se escrevem linhas de baixo, pensa-se em quem é o baixista e toca-se de acordo com os seus pontos fortes. Por isso funciona nos dois sentidos.
M.I. – Reliance explora o equilíbrio entre luz e sombra, calma e intensidade. Como decidiram que esta dualidade seria a base narrativa do álbum?
Isso aconteceu de forma muito natural. Começámos com cerca de 16 músicas em demo e fomos reduzindo gradualmente às mais fortes. À medida que o processo avançava e as letras iam surgindo, os temas começaram a revelar-se.
Algumas coisas não são premeditadas quando se escreve um álbum simplesmente acontecem. É quase como se algo te guiasse. Gravámos 12 músicas em estúdio e depois reduzimo-las para 10. Essas músicas não eram apenas fortes individualmente; eram fortes em conjunto. Isso permitiu criar um bom fluxo ao longo do alinhamento.
M.I. – O que acontece às músicas que não entram no álbum?
Normalmente vão para o lixo. (risos) Às vezes lançamo-las, como aconteceu com as faixas Lotus Undiscovered, mas há músicas de Imperial, Memorial e deste álbum que ninguém nunca ouviu. Algumas são, na verdade, bastante fortes, mas se não estiverem ao nível dos nossos padrões, podem nunca ver a luz do dia.
M.I. – Os Soen costumam usar títulos de álbuns com uma só palavra. O que significa Reliance para ti, a nível pessoal?O título do álbum surgiu depois da escrita das músicas. Não começámos com um conceito! Olhámos para o que tínhamos criado e perguntámos que palavra melhor o descrevia.
Para mim, reliance tem lados claros e escuros. Há a dependência pouco saudável: dos telemóveis, das distrações ou de coisas que nos controlam. E depois há a dependência saudável: uns dos outros, das relações. Isso pode ser positivo, mas também pode tornar-se pouco saudável e triste. Uma música como “Indifferent”, por exemplo, fala da saudade de alguém que talvez nunca voltes a ter… essa dependência de outra pessoa para te sentires completo. Por isso Reliance pareceu a palavra perfeita para captar todos esses temas.
M.I. – O processo de composição deste álbum desafiou a banda de novas formas?
O processo de escrita evolui a cada álbum. O Martin costuma escrever a base de muitas músicas e depois partilha-as com a banda. Muita da escrita aconteceu entre digressões e, depois, em tour, afinámos tudo… mudando partes, recolhendo contributos de todos.
O desafio é equilibrar as digressões com a escrita. Andar em tournée é essencial, mas não podes ficar criativamente estagnado. Desde que entrei na banda, lançámos álbuns quase de dois em dois anos, o que é muito difícil. Assim que lançamos um disco, basicamente temos de começar logo a escrever o seguinte.
M.I. – Portanto, enquanto promovem um álbum, já estão a escrever material novo?
Praticamente, sim.
M.I. – O que mais te inspira? As digressões têm um papel nisso?
Tudo nos inspira. Experiências de vida, acontecimentos pessoais e o que se passa no mundo: guerras, injustiça, violência, o rumo da sociedade. Alguns temas são muito pessoais, outros são mais comentários sobre o mundo. Isso faz parte do ADN dos Soen, a nossa visão do mundo. E com cinco pessoas na banda, cada um traz as suas próprias batalhas e conquistas para a mesa.
M.I. – Comparando com Memorial, procuraram um som mais melódico ou emocionalmente direto em Reliance?
Um pouco, sim. Não temos medo de simplificar quando é necessário. A melodia é a coisa mais importante para nós: melodias vocais, melodias de guitarra, solos. A música tem de te agarrar. Escrever boas melodias não é fácil, mas isso é sempre a base. Tudo o resto constrói-se à volta disso.
M.I. – És um músico com formação profissional?
Sim, estudei música na universidade, uma licenciatura em Artes com especialização em música. Nunca fui muito bom a ler música, por isso não entrei no curso de Licenciatura em Música, mas tive muitas das mesmas cadeiras: teoria, composição, e por aí fora. O Lars e o Stefan também têm formação académica.
M.I. – Achas que a formação profissional faz diferença numa era em que a IA cria música?
Acho que eu conseguiria notar a diferença, mas honestamente a IA evoluiu tanto que está a tornar-se muito difícil. Estamos a entrar num período potencialmente negro para a música se não reagirmos.
A teoria musical pode ajudar a inspirar ideias, mas não é essencial. O que importa é o que vem do coração e do instinto. O Kurt Cobain não queria saber de teoria musical, e as músicas dele foram mais impactantes do que qualquer coisa que eu pudesse escrever com toda a minha formação.
A grande música fala da condição humana, coisas que são difíceis de pôr em palavras. A IA apenas reflete o que já existe. O verdadeiro perigo é que as plataformas estão a criar bandas de IA para não terem de pagar a músicos. Se as pessoas querem que a música real sobreviva, têm de apoiar bandas reais.
M.I. – Gravaram e misturaram o álbum com Alexander Backlund e a masterização foi feita por Tony Lindgren. O que trouxeram eles ao som?
Trabalhar com o Alex foi incrível. Ele entrou a meio de Memorial, depois de termos mudado de direção, e compreendeu totalmente a nossa visão. Para Reliance, decidimos fazer o álbum inteiro com ele desde o início.
Ele é honesto, tem os pés bem assentes no chão e tem um ouvido incrível. Não tenta assumir o controlo do disco, serve a visão da banda. Adorei a forma como captou os meus solos de guitarra. Passei semanas no estúdio com ele, apenas a trabalhar nas partes de guitarra.
O próprio estúdio era fantástico: dormes lá, cozinhas lá e concentras-te apenas no trabalho. O ambiente era leve, brincávamos bastante, e quando te estás a divertir, coisas boas acontecem. O Tony também foi fantástico, um profissional de topo.
M.I. – Não sentiste necessidade de te afastar um pouco às vezes?
Não propriamente. O isolamento ajuda-te a concentrar. Claro que fomos dar passeios e apanhar ar fresco, mas não havia distrações. Acordas, o café está pronto e começas a trabalhar. Esse foco é inestimável.
M.I. – Reliance representa um novo capítulo ou uma evolução para a banda?
Um pouco dos dois. Certos elementos passam por todos os álbuns, mas tentamos sempre evoluir. Neste álbum há mais guitarras afinadas mais graves, mais experimentação com teclados e atmosferas, e até uma música sem bateria. Trata-se de manter tudo fresco.
M.I. – Não vêm a Portugal nesta tour, mas tocaram cá no ano passado no Festival Laurus Nobilis. Como foi essa experiência?
Nós adoramos Portugal. É um dos meus lugares favoritos no mundo. As pessoas, a cultura, a beleza… é incrível. O apoio que recebemos aí é fantástico; é sempre um dos nossos melhores concertos na Europa. Nunca vamos deixar Portugal de fora. Vamos voltar.
M.I. – O que podem os fãs esperar desta tour?
Músicas novas do novo álbum, algumas músicas antigas a regressar, nova produção e luzes. Estamos sempre a evoluir o espetáculo ao vivo. Vamos ensaiar na próxima semana, mas acho que vai ser um concerto brutal. E vamos levar connosco bandas incríveis.
M.I. – Alguma mensagem final para os nossos leitores e fãs?
Muito obrigado por todo o vosso apoio, sentimo-lo de verdade. Portugal ocupa um lugar muito especial nos nossos corações. Amamos-vos e mal podemos esperar para vos ver de novo.
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Entrevista por Sónia Fonseca












