São poucas as bandas que conseguem despir a roupagem do heavy metal e incorporar outros estilos. Seja por pressão do próprio meio em manter sempre o estigma do culto ou por desconhecimento da banda, não é o caso dos Moonshade que lançaram um EP de três belíssimas covers. Falamos de Mastodon, numa breve homenagem e dedicatória ao guitarrista Brend Hinds que partiu cedo; Rammstein, com uma sólida mensagem social agregada à música; e, por fim, Stromae, no qual o quinteto da cidade Invicta conseguiu transformar uma tradicional música pop e revesti-la com uma sonoridade plena de heavy metal.
O EP Blood, Angels & Enemies congrega a junção clássica do metal industrial e progressivo, encerrando com algo diferente e, sem sombra de dúvida, inovador.
M.I. – Temos três fantásticas covers que vêm afirmar o inigualável talento dos Moonshade. Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que Rammstein e Mastodon fazem parte do vosso ADN, enquanto banda de metal?
Sim, sem dúvida. Foram escolhas um pouco aos tropeções, trocando por miúdos. Não foi algo pensado, em que nos sentámos à volta de uma mesa e escolhemos as bandas de eleição para representar nos Moonshade.
Isto é uma discussão na banda que já vem de há algum anos e não conseguimos tomar uma decisão. Um dia, chegámos a um ponto e decidimos avançar na realização destas covers. Mastodon não foi fácil porque há aproximadamente cinco anos o nosso guitarrista, Luís, toca essa mesma música em ensaios como aquecimento. Sabíamos a música praticamente toda, mas nunca chegamos a gravá-la. Esta fora, sem dúvida, a nossa primeira decisão.
Este EP parece que está um pouco assombrado. Lançamos a música e poucos dias depois faleceu o Brent Hinds (Mastodon). Ainda fomos a tempo de colocar uma dedicatória no vídeo. Posteriormente, foi Rammstein, onde já tínhamos falado em fazer uma cover da banda há muito tempo, sendo a música Engel a escolhida por nós. Isto já tinha sido há uns anos quando rebentou toda a polémica de escândalo de assédio sexual acerca do Till Lindemann. Isto também nos ajudou a lançar a cover, porque o conceito surgiu em torno dos Rammstein, todos tínhamos ido ver Rammstein a Lisboa, ao mesmo tempo que o escândalo tinha surgido. Foi necessário separar um pouco a arte do artista e de sabermos como lidar com isto, visto Rammstein ser uma banda extremamente importante para nós. Foi um dos meus primeiros álbuns (Mutter) quando eu tinha onze anos e ainda continua a ser a minha e do Pedro banda favorita. Foi assim também que surgiu a ideia do vídeo, não com o objetivo de ferir ou atacar os Rammstein e o próprio Till Lindemann, mas sim abrir a conversa e transmitir uma mensagem importante.
Desde o último álbum que enveredamos um pouco por ser uma banda das causas. Temos sempre algum assunto mais real e importante, do que falar de dragões ou satanás, como muitas fazem e gostam. O metal precisa de tudo, nós enveredamos por esse caminho, e vimos uma boa oportunidade para introduzir este tema, como uma opinião de cariz político.
Eu e a minha namorada conhecemo-nos a jogar League of Legends e à custa disso, na base da nostalgia, vimos a série da Netflix – Arcane – surgiram músicas e ouvi Stromae. Fiquei completamente siderado e fui rapidamente falar com o Pedro, pois sabia que ele também gostava de Stromae. O Pedro ouviu a música, sacou rapidamente a partitura e propusemos à banda. Uma vez mais, somos uma banda que anda devagar e ter o esqueleto de uma música em duas semanas é fantástico. Alguns membros da banda gostavam da música, mas não viam como adaptá-la, mas rapidamente assumiram o compromisso.
M.I. – Tiveram que aprender francês e alemão?
Eu não sou fluente em nenhuma das línguas e o Daniel tampouco. Falo muito pouco francês, que aprendi no ensino básico, vejo algumas séries francesas, mas é muito macarrónico.
Tivemos que recorrer a auxílio a quem dominava o idioma. O alemão era nulo, tivemos que pedir conselhos ao nosso antigo guitarrista, o Daniel Laureano, dos A Constant Storm, para nos ajudar. Trocámos áudios, ele retificava o que estava errado e ajudava-nos na pronúncia, como uma espécie de tutor. Foi assim que nos safamos e acabámos por ter um comentário no Reddit que dizia pretty decent German (alemão bastante bom). Foi uma vitória para nós.
M.I. – Foi difícil ou desafiante transformar uma música pop de Stromae em metal?
Sim. Eu sempre tive algum apreço por bandas que fazem o mesmo, como por exemplo os Opeth com a sua versão da “Soldier of Fortune”. Gosto mais da versão deles do que da original.
No nosso caso, nós inserimos mesmo death metal numa música completamente diferente do espectro. Ainda hoje não temos a certeza das escolhas criativas que fizemos, pois houve pessoas que preferiram algo mais parecido com o original. As possibilidades são infinitas, mas é sem dúvida muito mais fácil concretizar uma cover numa música de metal. Por exemplo, nos Mastodon nós conhecemos os riffs da “Blood and Thunder”, sabemos as partes que são sacrossantas e não devemos alterar. Conhecemos as fanbases porque também, ao mesmo tempo, fazemos parte delas.
Em Stromae, as fanbases não se tocam. Fizemos o melhor que conseguimos e quando uma música é pop puro, é mais fácil. O problema é que esta música integra triphop com uma influência única e exige algum conhecimento de hip hop da cena francesa e belga. Exigiu alguma sensibilidade na temática, mas de um modo geral, o feedback foi positivo.
M.I. – No vosso blog expõem várias referências bibliográficas que vão desde Orwell, Noah Harari, Dawkins, etc. Podemos contar com algumas destas referências para este novo EP?
No EP Angels, Blood & Enemies temos algumas referências. No track vídeo da “Blood and Thunder” temos algumas gravuras que foram inspiradas em Herman Melville, nomeadamente na obra Moby Dick. É, também, a capa do álbum Leviathan.
No vídeo “Ma Meilleure Ennemie” acabámos por ter algumas referências de Arcane – League of Legends, não tanto referências literárias. No videoclip da “Engel”, já temos aquela nossa vertente revolucionária, mais feminista da Angela Davis. Também vem muito do nosso próprio ponto em acreditar no sexo feminino, mas também em conseguir, uma vez mais, separar a arte do artista e toda aquela componente filosófica por trás. Por exemplo, para Tolstoy, a arte tem de ser puramente funcional e eu não sou tão radical como o filósofo russo. Acredito que a arte também possa ser utilizada para lazer e divertimento. Toda a música é arte de entretenimento, onde tens bandas como Castle of Metal e Ghost que atuam dentro do mesmo género, que atuam pela diversão. Eu gosto mais de fazer arte nessa perspetiva, que transmita uma forte mensagem com um bocado de diversão. O nosso novo trabalho está carregado de mais influências literárias, mas isso fica para outra altura.
M.I. – Com 3 EPs avizinha-se um novo álbum?
Nas entrevistas eu primo sempre pela honestidade. Hoje em dia, o que distingue um álbum de um EP ou single é quase tudo semântica. As três covers são culminar num álbum e posso adiantar-te que o que estamos atualmente a compor é tão diferente. Continua a ser heavy metal, mantemos a base de melodic death metal, mas acrescentamos coisas novas. Não vamos perder nada, mas vai haver novos riffs e sonoridades; as guitarras de sete cordas estão mais down tuned; é um álbum mais pesado, mas também mais experimental.
Fazemos de tudo para evoluir enquanto banda e este EP é a ponta do iceberg de um exercício de estudo de músicas de outras bandas que gostamos, para podermos analisar onde podemos mexer, tocar e dar uma nova roupagem. Os álbuns Sun Dethroned e Set the Skies Ablaze são dois álbuns distintos entre eles e agora pretendíamos acabar esta espécie de trilogia com algo que fosse a essência dos dois, mas paralelamente diferente. É a evolução natural dos Moonshade, épica, alegórica e claro está musical.
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Entrevista por André Neves












