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Entrevista aos Lömsk


Com Act I, os Lömsk apresentaram-se como uma força de destruição criativa, um nascimento violento envolto em bílis antiga e fúria primordial. Agora, com Act II – Of Iron and Blood, a banda sueca caminha deliberadamente entre as ruínas, explorando o que permanece depois do impacto: ideais corroídos, estruturas em colapso e um eu confrontado com a inevitabilidade da entropia.
Mais do que um simples sucessor, o novo capítulo afirma-se como parte de uma obra em desdobramento, onde niilismo e desafiança estoica coexistem em tensão permanente. A guerra surge como paisagem simbólica, Roma arde como metáfora intemporal e o apocalipse é retratado não apenas como fim, mas como processo, simultaneamente horrível e estranhamente lúcido.
Nesta entrevista, os LÖMSK falam sobre a decisão de estruturar o projeto em atos, a descida necessária que moldou o Act II, a relação entre colapso e significado, e a forma como o black metal continua a ser um veículo privilegiado para documentar a decadência sem a romantizar. Um diálogo denso, reflexivo e implacável, tal como a música que o sustenta.

M.I. - Act I foi descrito como destruição criativa, uma espécie de génese violenta. Act II – Of Iron and Blood soa a estar de pé entre as ruínas depois. Em que momento perceberam que este projeto precisava de se desdobrar em atos em vez de lançamentos isolados?

Depois de escrever e concluir o Act I, percebemos que não tínhamos terminado. Ficou-nos uma forte sensação de que havia mais para explorar, mais para desenvolver, mais a que responder. O Act I parecia menos um lançamento autónomo e mais um fragmento de uma imagem muito maior. A ideia de o desdobrar em atos surgiu dessa constatação, quase instintivamente. Não foi um plano totalmente delineado desde o início, e fomos questionando a decisão ao longo do caminho, mas parecia honesta em relação ao rumo que o projeto queria seguir. No final, o tempo dirá se foi a decisão certa.


M.I. - Até que ponto quiseram conscientemente que o Act II contrastasse com o Act I? Foi mais uma questão de evolução, ou pareceu uma descida necessária?

Não foi um contraste planeado conscientemente, mesmo que assim pareça em retrospetiva. O Act II cresceu naturalmente a partir do ponto onde o Act I nos deixou, tanto a nível lírico como sonoro. À medida que continuámos a escrever, os temas tornaram-se mais pesados e mais introspetivos, e a música acompanhou essa mudança sem que a forçássemos.
Estávamos ainda muito conscientes da importância de manter o som e a identidade nuclear estabelecidos no Act I, mas o Act II permitiu-nos avançar para texturas mais sombrias, arranjos mais densos e um espaço emocional mais despido. Sente-se menos como uma reinvenção e mais como a mesma voz a falar a partir de um lugar diferente… depois do impacto, no rescaldo. Nesse sentido, não foi uma descida planeada, mas acabou por se tornar necessária.


M.I. - Se o Act I foi a faísca, o que é exatamente que está a arder no Act II: ideais, civilizações, o eu?

É um pouco de tudo isso. Usamos a imagem da guerra como uma estrutura, e não como um tema em si. Dá-nos uma paisagem onde ideias maiores podem arder sem se tornarem demasiado literais ou óbvias. Dentro desse cenário, o que realmente está a arder são ideais, estruturas e o eu: coisas que se deterioram lentamente em vez de explodirem.
Há comentário social, reflexão pessoal, trauma e um certo grau de sátira entrelaçados nas letras, mas deixámos intencionalmente espaço para interpretação. Estamos mais interessados na sugestão do que na explicação, e em permitir que os ouvintes projetem o seu próprio significado nessa paisagem.


M.I. - O álbum é enquadrado através do niilismo e do desafio estoico. Vê-los como forças opostas, ou como dois lados da mesma visão do mundo?

São forças opostas, mas não de forma puramente binária. O niilismo rejeita a ideia de significado ou valor inerente, enquanto o estoicismo defende uma ordem natural e enfatiza a virtude, a disciplina e viver em alinhamento com a razão. Em teoria, essas posições colidem.
Nas letras, ambas as perspetivas coexistem. Essa tensão surge do movimento entre o desespero e a necessidade de direção: entre reconhecer a ausência de sentido e ainda assim escolher como agir dentro dela. Por vezes, as canções funcionam como espelhos negros, refletindo decadência, corrupção e desilusão; noutras, assumem o papel de advogado do diabo, questionando essas conclusões e reagindo contra elas. Não estamos a tentar resolver essa contradição. Em vez disso, usamo-la para oferecer diferentes perspetivas e, ocasionalmente, para sugerir que, mesmo na ausência de certeza, pode ainda haver um caminho a seguir.


M.I. - Há no Act II uma sensação de continuar a marchar em frente mesmo quando o significado colapsou. Esse desafio é pessoal, filosófico ou puramente simbólico?

Não vejo isso como marchar em frente depois de o significado ter colapsado, mas como encontrar significado dentro do próprio colapso. O movimento torna-se uma forma de desafio em si - não reativo, mas reflexivo - uma insistência em prestar atenção ao que se desfaz e permanecer com isso em vez de resistir. Nesse sentido, o avanço tem a ver com aprender e recalibrar, permitindo que a compreensão substitua a certeza. É menos sobre superar a rutura e mais sobre deixá-la informar o rumo seguinte.


M.I. - A entropia é descrita aqui como inevitável. Reconhecer isso traz desespero ou uma estranha forma de clareza?

Para nós, está mais próxima da clareza do que do desespero. Reconhecer a entropia como inevitável remove a ilusão de permanência e, com ela, muitas falsas expectativas. Nada é eterno: estruturas, ideias, identidades, tudo decai… e aceitar isso cria um tipo diferente de calma. Essa clareza não elimina a perda ou o sofrimento, mas reformula-os. Em vez de lutar contra a inevitabilidade, o foco desloca-se para a atenção, a responsabilidade e a presença no tempo em que as coisas existem. A entropia deixa de ser puramente destrutiva e passa a ser informativa, mostra onde os sistemas falham, onde o significado foi emprestado em vez de construído. Nesse sentido, reconhecer a entropia não é desistir, mas despir a ilusão. O que resta pode ser mais duro, mas também é mais honesto, e é nessa honestidade que a clareza substitui o desespero.


M.I. - A ideia de Roma a arder é poderosa e intemporal. Estão a usar Roma como referência histórica, ou como metáfora do colapso moderno?

Roma não é usada tanto como uma referência histórica literal, mas sim como um símbolo. Funciona como uma metáfora,  uma imagem que ajuda a enquadrar a forma como queremos que o disco e os seus temas sejam vistos. Roma a arder representa um momento em que algo considerado permanente, racional e invencível é subitamente revelado como frágil. Essa imagem é intemporal porque se repete. Pode apontar para impérios antigos, sistemas modernos ou estruturas pessoais a colapsar sob o seu próprio peso. Estamos menos interessados em recontar a história e mais em usar os seus símbolos para explorar ciclos de decadência, negação e transformação que continuam a ressurgir sob diferentes formas.


M.I. - Quando escrevem sobre torres a cair e céus a rasgar-se, estão a partir de ansiedades do mundo real, ou a empurrar deliberadamente para algo mais mítico e abstrato?

É sobretudo metafórico, quase aforístico. Terence McKenna disse: “Roma cai nove vezes por hora”, sugerindo que as nossas vidas são microcosmos de ciclos mais amplos. Torres a cair e céus a rasgar-se evocam padrões repetidos de dissolução, refletindo tanto experiências pessoais como mudanças sociais mais vastas. Essa desintegração não é puramente destrutiva, é também criativa. As torres precisam de cair e os céus de se rasgar para abrir espaço para algo novo, derrubando estruturas antigas para que a transformação e o crescimento pessoal possam ocorrer. A imagética faz a ponte entre o mítico e o real, mostrando como finais, convulsões e colapsos são frequentemente os precursores necessários da renovação.


M.I. - O black metal sempre prosperou na ideia de apocalipse; a que é que queriam que soasse a vossa visão do colapso?

O apocalipse soa simultaneamente horrível e estranhamente pacífico. Surge em vagas, momentos de caos total, seguidos de uma decadência lenta e rastejante. Equilibra harmonia e dissonância e transporta sempre uma exibição crua e não filtrada de poder.


M.I. - Descrevem o Act I como “bílis negra de outrora fundida com ira recém-nascida”. Que estado emocional ou mental alimentou o Act II?

O Act II constrói-se sobre a mesma base emocional do Act I, mas com mais agressividade. Onde o Act I era uma mistura de frustração ancestral e energia bruta, o Act II vira essa energia para for a, mais confrontacional, urgente e ativo. É um estado mental que abraça a rutura e a tensão, deixando que estas impulsionem a música para a frente em vez de apenas refletirem para dentro.


M.I. - O Act II sugere continuidade. Já imaginam o que o Act III poderá representar, conceptual ou sonoramente?

Houve alguma conversa sobre o Act III, mas ainda nada de concreto. Queremos ver para onde a próxima fase nos leva de forma natural e como poderá desenvolver o que explorámos nos dois primeiros atos. Neste momento, o nosso foco está nos concertos ao vivo e em ligar-nos ao material nesse espaço. Eventualmente, quando regressarmos à escrita, deixaremos que o próximo capítulo ganhe forma de maneira orgânica: conceptual, sonora e emocionalmente… se for para existir de todo.


M.I. - Trabalhar neste álbum foi catártico, exaustivo, ou quase mecânico, como documentar a decadência em vez de a combater? Sentem que têm mais controlo sobre a vossa visão, ou que são mais consumidos por ela?

É difícil definir. Por vezes temos uma noção vaga do que uma peça deve tornar-se, e torcemo-la e viramo-la até atingir a sua forma final. Outras vezes, as ideias encaixam tão rapidamente que parece quase imparável. Independentemente disso, mantemos o controlo, por opção. Fazemos uma pré-produção meticulosa, moldando e ajustando cuidadosamente tudo até sentir que está certo antes de iniciarmos a gravação final. O processo pode ser exaustivo, catártico e estimulante ao mesmo tempo, mas esse equilíbrio é o que permite que a visão ganhe forma por completo.


M.I. - A Vendetta Records tem uma identidade muito distinta dentro do black metal. Quão natural foi essa parceria para este álbum?

A Vendetta Records tem sido incrível desde o início, e dar continuidade à parceria pareceu completamente natural. Partilham a nossa visão e oferecem um apoio inabalável, garantindo que ela ganha vida exatamente como pretendemos. Não poderíamos pedir uma equipa melhor para trabalhar.


M.I. - Veem os LÖMSK como parte de uma linhagem específica do black metal sueco, ou deliberadamente afastados da tradição?

Não nos preocupamos muito com tradição ou linhagem. Escrevemos a música que queremos ouvir, inspirando-nos numa vasta gama de influências, de todo o mundo e de vários géneros, em vez de tentarmos encaixar-nos numa cena específica.


M.I. - A banda tem concertos / festivais marcados para 2026?

Absolutamente — temos bastante coisa alinhada para 2026. De 19 a 29 de março, estaremos em digressão europeia com Gorgoroth, Tyrmfar e Patristic, passando por 11 datas na Alemanha, Países Baixos, França e Itália, entre outros países. Outros concertos confirmados incluem:
10 de abril — Bambi Galore, Hamburgo, Alemanha
11 de abril — Vendetta Fest, Berlim, Alemanha
17 de abril — Monument, Gotemburgo, Suécia
21 de maio — Maryland Deathfest, Baltimore, EUA
14–16 de agosto — Barther Open Air, Barth, Alemanha
13 de novembro — Klubb Dissonans 10-year Anniversary, Jönköping, Suécia
Há conversas sobre ainda mais datas, por isso tudo indica que será um ano ocupado e entusiasmante para nós.


M.I. - Por favor, partilhem uma mensagem final com os leitores da Metal Imperium.

Obrigado a todos por terem dedicado tempo a ler isto, e obrigado a todos pelo vosso apoio. Não percam o nosso próximo álbum Act II - Of Iron and Blood no dia 6 de março! Preparem-se para a convulsão que se aproxima. Salve ad legionem.

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Entrevista por Sónia Fonseca