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Entrevista a Mortiis


Poucos artistas nos cantos mais sombrios da música experimental e atmosférica têm navegado a evolução como Mortiis. Desde as suas origens no dungeon synth até ao industrial que mais tarde abraçou, o seu trabalho tem refletido consistentemente um espírito criativo inquieto, recusando-se a permanecer confinado por géneros ou expectativas. Com Ghosts of Europa, regressa com um disco moldado no isolamento, nascido durante os meses da pandemia e mais tarde lançado num mundo que, de forma inquietante, parecia espelhar a sua atmosfera. Nesta conversa com a Metal Imperium, Mortiis reflete sobre o processo criativo por detrás de Ghosts of Europa, a importância da colaboração e de abdicar do controlo, e as realidades de fazer música numa indústria cada vez mais moldada pelo streaming, pelo aumento dos custos e pela mudança dos hábitos do público.

M.I. - Sobre o novo disco Ghosts of Europa… é um reflexo sonoro da atual situação política na Europa, ou estás a conjurar algo mais antigo?

Não é definitivamente político. É mais uma ideia pessoal que me surgiu durante a covid, quando as primeiras versões das músicas começaram a ganhar forma. O título simplesmente apareceu na minha cabeça, parecia misterioso e aberto. Eu não sabia exatamente o que significava, mas ressoava comigo. Tenho os meus próprios “fantasmas” do passado, por isso fez sentido. Depois, quando começou a guerra na Ucrânia, pensei: “Oh não, as pessoas vão assumir que isto é político.” Mas não quis deitar fora uma boa ideia por causa disso. Portanto, embora eu compreenda porque é que as pessoas possam interpretá-lo dessa forma, a base é completamente não política.


M.I. - Mencionaste que o álbum começou durante a covid. Em que estado de espírito estavas nessa altura?

Não era o melhor, honestamente. Foi uma altura estranha! Tudo fechou, não podias sair, as cidades estavam vazias. Lembro-me de conduzir até Oslo e parecia um filme… completamente deserto. Olhando para trás, esses 18 meses parecem um sonho, nada parecia real. Esse estado de espírito influenciou definitivamente a música… Mas também tento injetar alguma positividade, porque ficar demasiado tempo num lugar escuro não é saudável. Quero sempre que haja alguma luz ao fundo do túnel.


M.I. - Disseste que a faixa-título passou por muitas formas antes de encontrar a sua versão final. Quando percebeste que se tinha tornado algo diferente?

É um processo gradual. As ideias evoluem constantemente, por isso é difícil apontar um momento específico. Mas um grande ponto de viragem para muitas músicas foi quando as vozes entraram. Quando cantoras como a Sarah Jezebel Deva, a Lori Ann Haus e a Iliana participaram e enviaram as suas partes, as músicas mudaram completamente. Há algo mágico na voz humana… transforma tudo.


M.I. - Dás muita liberdade aos colaboradores?

Sim, absolutamente. Às vezes tenho uma ideia clara, mas muitas vezes prefiro deixar as pessoas experimentar. Essa liberdade pode levar a resultados incríveis, e por vezes não tão bons, mas isso faz parte do processo. Com o tempo, aprendi que dar espaço às pessoas cria um ambiente melhor e melhor música. Ninguém trabalha bem sob pressão.


M.I. - Qual foi a maior lição que aprendeste ao trabalhar com outros?

Deixar o ego de lado. Isso é o mais importante. No início da minha carreira, era mais “à minha maneira ou nada”, e isso criava más energias. Agora foco-me no respeito e na comunicação. Se algo não funciona, tento dizê-lo de forma construtiva e segue-se em frente.


M.I. - Já aconteceu colaboradores apresentarem ideias melhores do que as tuas?

A toda a hora. É exatamente por isso que lhes dou liberdade. Eles são especialistas, especialmente os vocalistas. Quando acrescentam as suas ideias, muitas vezes elevam a música para além do que eu tinha imaginado. Às vezes até reorganizo a música à volta das suas contribuições.


M.I. - Descreveste o título como tendo um lado ligeiramente profético. O que queres dizer com isso?

Não foi intencional, mas com tudo o que está a acontecer no mundo, é difícil não o ver dessa forma agora. O título ganhou um significado mais sombrio por causa dos acontecimentos atuais. Gostava que não fosse assim… mas é assim que o sinto.


M.I. – O tema título tem um ambiente muito cinematográfico. O que te levou a esse som?

Começou como uma faixa mais baseada em sintetizadores. Mas quando trouxe a Sarah e depois outros vocalistas, evoluiu naturalmente para algo mais coral. Não foi planeado, simplesmente aconteceu. A música meio que se guia a si própria, se a deixares.


M.I. - O que surge primeiro: música ou letras?

Não há regras. Recolho ideias, melodias, letras e guardo-as, às vezes durante anos. Mais tarde, volto a elas e combino coisas que encaixam. É tudo uma questão de combinar estados de espírito, como misturar cores.


M.I. - Como é que as colaborações moldaram a direção final do álbum?

De forma muito significativa. As vozes influenciaram especialmente a estrutura das músicas. Muitas vezes reorganizei partes para encaixar melhor no que os colaboradores trouxeram. As guitarras também tiveram um papel importante, experimentámos muito com texturas e sons, construindo camadas.


M.I. - Tiveste de deixar músicas de fora?

Sim, algumas. O álbum estava a ficar demasiado longo, e havia questões práticas como as limitações do vinil e o preço. É sempre doloroso deixar músicas de fora, mas provavelmente vão aparecer num lançamento futuro.


M.I. - Os problemas globais atuais afetam os custos de produção?

Muito provavelmente. O aumento dos custos de materiais, transporte e produção acumula-se. No final, normalmente é o cliente que acaba por pagar.


M.I. - Achas que isso empurra mais pessoas para as plataformas de streaming?

É bastante possível. O streaming é conveniente e barato, especialmente para o público mais jovem, mas paga muito pouco aos artistas. As digressões e o merchandising continuam a ser as principais fontes de rendimento.


M.I. - E quanto às salas que ficam com percentagens do merchandising?

Isso está a tornar-se mais comum e é frustrante. Algumas salas ficam com até 20%, mesmo sendo as vendas de merch cruciais para os artistas. É desrespeitoso.


M.I. - Vais em breve para os EUA. Gostas de fazer digressões lá?

Sim, os fãs são ótimos. Mas o país tem os seus desafios, especialmente problemas visíveis com o aumento do número de sem abrigo. É triste de ver.


M.I. - Não tens tocado muito em Portugal. Porquê?

Adorava! Normalmente resume-se a logística e promotores. As decisões de digressão baseiam-se muitas vezes em questões financeiras e práticas.


M.I. - Para terminar, tens uma mensagem para os nossos leitores?

Estou muito grato pelo apoio. Há tanta música por aí, por isso o facto de as pessoas continuarem a ouvir o que faço significa muito. Espero voltar a tocar em Portugal um dia.

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Entrevista por Sónia Fonseca