Os Hellripper regressam com Coronach, um álbum que soa ao mesmo tempo familiar e épico. A história, o folclore e a escuridão da Escócia, que sempre moldaram o projeto, continuam bem presentes, mas desta vez James McBain abre a porta a novos sons e texturas. A par da intensidade tradicional de blackened speed metal, há momentos de punk, death metal, piano, violino e violoncelo, dando ao álbum uma atmosfera mais ampla e um cunho mais pessoal.
M.I. - Vamos viajar até 2014. Quando percebeste que querias transformar o teu hobby num trabalho a tempo inteiro?
Sempre tive uma espécie de ilusão de que não conseguiria fazer da música o meu trabalho a tempo inteiro, porque, historicamente, músicos maiores e pessoas bem-sucedidas têm algum tipo de trabalho paralelo ou fazem música como hobby. Até mesmo muitas das minhas bandas favoritas, bandas maiores.
Entrei na música com essa mentalidade de que ia apenas tocar música paralelamente e ter algum tipo de emprego. Quando saí da escola, as minhas opções eram ir para a universidade estudar informática ou seguir aquilo que os meus professores recomendavam. Não achava que a música fosse útil. Na altura, achava que os computadores seriam mais úteis.
Então, fiz isso e, depois de alguns anos com os Hellripper e outras bandas e projetos musicais, percebi que as coisas estavam a tornar-se um pouco mais sérias. Acho que foi em 2019 que comecei a ganhar o suficiente para considerar isto o meu verdadeiro trabalho, o que, felizmente, coincidiu mais ou menos com a altura em que tinha acabado de me licenciar e me mudei para outra cidade.
Penso que terminei a universidade no verão de 2018. Mudei-me para uma cidade e trabalhei no EP enquanto procurava emprego nessa nova cidade. Depois, o EP saiu, fomos em digressão e foi aí que isto acabou por se tornar o meu trabalho. Estou muito grato por conseguir fazer isto, porque é muito difícil nesta indústria. Por essa altura, comecei a levar isto mais a sério e a fazer planos para manter a música como trabalho a tempo inteiro, como fazer orçamentos de forma adequada, organizar-me melhor e tentar estruturar toda a parte de negócio.
M.I. - Parece que seguiste um caminho diferente, mas no fim acabou por se agregar àquilo que querias fazer.
Sim!
M.I. - Começaste apenas com a ideia de lançar um EP e olha até onde chegaste. Alguma vez imaginaste isso? Imaginavas chegar onde estás agora ou nem por isso?
Esse era o objetivo. Na altura, os Hellripper eram uma espécie de projeto paralelo. Eu tinha uma banda com amigos, fazíamos muitos concertos no Reino Unido e algumas digressões por lá, e as coisas corriam bem. Não éramos um enorme sucesso, mas divertíamo-nos e lançámos alguns EPs. Eu simplesmente tive a ideia de escrever música num estilo de que gostava, uma espécie de metal punk.
Mais uma vez, começou como um projeto paralelo. Pensei: vou lançar um EP e, quando tiver tempo, faço mais qualquer coisa e vejo o que acontece. Estar onde estou agora é estranho. Não esperava que o EP tivesse a atenção que teve. Depois houve um crescimento gradual: nos primeiros anos ainda não havia muito reconhecimento, mas já era consideravelmente mais do que eu tinha tido com projetos anteriores.
Além disso, também percebi nessa altura que gostava mais de escrever este tipo de música. Gostava mais da forma de trabalhar sozinho. Tudo acabou por se alinhar para eu me focar em Hellripper, e já passaram cerca de 12 anos ou algo assim.
M.I. - Agora, falando do álbum, ou dos álbuns, neste caso, Warlocks and Grim foi lançado há três anos. O que têm feito ultimamente enquanto grupo?
Desde 2023, fizemos muitas digressões, sobretudo pela Europa. Também fizemos algumas coisas no Reino Unido, tentando crescer e chegar a mais lugares.
Estivemos em algumas digressões de apoio com bandas como Warbringer e Abbath. Também tocámos em imensos festivais e, pelo meio, lancei um single em 2024. Acho que foi no final de 2024. Estou sempre a gravar. Fomos ao México e aos Estados Unidos pela primeira vez, apenas para algumas participações em festivais.
Este último ano foi praticamente viajar quase todas as semanas. Acho que não fizemos nenhuma digressão propriamente dita no ano passado, em 2025, mas eram um ou dois concertos em festivais quase todos os fins de semana. Havia muita viagem envolvida, especialmente porque estou nas terras altas escocesas, e demoro cerca de quatro horas a chegar a um aeroporto.
Depois há os voos, o regresso, a organização dos horários entre voos e transportes para voltar a casa e coisas desse género. Para um concerto num fim de semana, posso ficar fora três ou quatro dias da semana, e depois repetimos isso na semana seguinte. Tem sido intenso dessa forma. Pensei que seria mais fácil do que estar em digressão, mas não considerei bem a quantidade de viagens envolvidas. É algo que provavelmente vou mudar no futuro.
M.I. - Já sabemos que os Hellripper se focam bastante na história e no folclore escocês. O mesmo acontece com o álbum Coronach?
Sim. Mais uma vez, cada música tem, de alguma forma, uma temática escocesa. Há muito folclore e lendas, algumas histórias verdadeiras, histórias históricas passadas na Edimburgo do século XIX. Há também alguma influência da literatura escocesa, de Robert Louis Stevenson, que é um autor bastante famoso, ou até de alguma poesia. E há ainda algumas coisas novas que tentei fazer, como injetar a minha própria experiência pessoal em algumas músicas.
Nunca escrevi realmente nada com temas pessoais ou pontos de vista pessoais, porque, em geral, isso não encaixa muito bem nas letras ou na estética dos Hellripper. Sinto-me mais confortável a escrever sobre histórias e coisas desse género. No entanto, desta vez quis tentar algo diferente. Há um pouco da minha experiência de crescer em Aberdeen, no nordeste da Escócia, escrita de uma forma que se enquadra na estética da banda.
M.I. - Também neste álbum decidiste usar todo um conjunto de instrumentos, como piano, violoncelo e violino. Podemos dizer que a essência do black metal está lá, mas será que podemos afirmar que estão a caminhar para uma fusão com outros géneros no futuro?
Não posso dizer isso propriamente. Depende muito do meu estado de espírito. A única limitação que realmente coloco a mim próprio é que quero que a banda continue a ser speed metal, black speed metal, na sua essência.
Vai ser sempre uma banda de black/speed, mas quero trazer estes elementos diferentes. Há músicas que soam mais a punk, outras que soam mais a death metal, e incorporar esses instrumentos diferentes é apenas uma forma de me manter inspirado.
Nunca sei o que vou sentir nem o que vou querer escrever. Cada álbum é uma espécie de reflexo do meu estado de espírito nessa altura, daquilo que estou a ouvir e daquilo que me inspira criativamente. Às vezes, quero simplesmente escrever uma música sem complicações, sem floreados.
Quero escrever uma música rock and roll. Outras vezes, quero ir um pouco mais longe e experimentar vários estilos vocais, ideias de produção e instrumentos, como disseste, e fazer algo um pouco estranho. Acho que, ao longo do processo de escrita e gravação de um álbum, não gosto de reservar um mês inteiro, por exemplo, para gravar o álbum. É gravado em pequenas partes, ao longo do tempo, até estar realmente terminado, às vezes durante três ou quatro anos.
M.I. - É bom não ficar preso a um só género. Ajuda a alargar horizontes, e nem todos os músicos e bandas tendem a expandir os seus gostos musicais.
Isso funciona para algumas pessoas. Se queres escrever algo e manter-te dentro de um género ou continuar a soar de determinada forma, está tudo bem, desde que seja autêntico.
No meu caso, gosto de muitas coisas diferentes. Gosto de experimentar, e faz sentido para mim fazer estas outras coisas, desde que seja autêntico. Como uma banda punk autêntica, em que todas as músicas têm um minuto ou dois minutos.
M.I. - Até a capa transmite muito essa ideia de black metal. Enquanto banda, quão próximo trabalham com artistas e designers para chegar a capas tão incríveis?
Depende muito. Normalmente, não sou o melhor artista visual. Não sou o melhor nessa parte das coisas. Costumo deixar o artista ter o máximo de controlo possível.
Às vezes dou uma ideia que tive, ou talvez uma paleta de cores que tenho em mente. Talvez diga que quero uma paisagem, ou que quero isto aqui ou algo assim, mas, em geral, são apenas ideias muito breves. Digo ao artista para fazer aquilo que acha que se adequa à música, às letras que eu tenha ou aos títulos das canções, e normalmente eles apresentam um esboço, ou alguns esboços, ideias mais rudimentares, e partimos daí.
Depois de escolhermos um dos esboços, eles trabalham nessa direção e, normalmente, não há grande reprovação. Os artistas com quem trabalhei no passado, que fizeram os últimos dois álbuns, são incríveis no que fazem.
M.I. - James, a minha última pergunta e, na verdade, a minha favorita. Se tivesses de nomear dois ou três álbuns que ajudaram a moldar a produção de Coronach, quais seriam?
Talvez Still Life ou Ghost Reveries, dos Opeth. Um desses, ou basicamente Opeth no geral. Esses álbuns ajudaram muito no lado experimental e no uso de alguns teclados, sintetizadores, órgãos e coisas desse género.
The Holy Bible, dos Manic Street Preachers, tornou-se um dos meus álbuns favoritos de sempre. Há uma pequena influência que se pode ouvir na música.
Estava a ouvir muito isso, e depois há aquelas coisas que sempre associaríamos a Hellripper, como Metallica, Venom e Bathory. E estas estão sempre presentes.
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Entrevista por André Neves












