Os Brymir, força do metal sinfónico finlandês, estão de volta com “What We Leave Behind”, o seu mais recente álbum completo e um dos seus lançamentos mais sombrios e emocionalmente intensos até à data. Combinando um metal avassalador, orquestrações épicas e atmosferas cinematográficas, o álbum explora a angústia existencial, o luto, a ansiedade ambiental e o lado mais sombrio da humanidade, sem deixar de abrir espaço para a melodia, a esperança e até um toque de humor.
Falámos com Jarkko Niemi (baixo, vozes de apoio, letras e composição adicional) sobre o processo criativo por detrás de “What We Leave Behind”, a mitologia, o luto, o pacifismo, as questões ambientais, a influência da música de cinema e de J.S. Bach e, claro, a presença algo inesperada de "How Much Is the Fish?", dos Scooter, num álbum tão sombrio.
M.I. – “What We Leave Behind” é descrito como o vosso álbum mais sombrio e sinistro até à data. Esta atmosfera mais sombria foi algo que quiseram conscientemente explorar quando começaram a trabalhar no disco, ou surgiu naturalmente a partir dos temas que estavam a abordar?
O ponto de partida para cada canção é o sentimento do autor, o estado de espírito, tal como é escrito... Não tínhamos realmente qualquer tipo de plano prévio sobre que “tipo” de álbum iríamos fazer a seguir a “Voices In The Sky”; tudo se resume às coisas que fervilham nas nossas cabeças à medida que as canções vão tomando forma. Tal como afirmámos nos materiais promocionais, o ambiente geral no mundo não ficou assim tão mais leve nestes últimos quatro anos desde o disco anterior, por isso, naturalmente, o álbum reflecte isso. Mas, ao mesmo tempo, algumas destas canções lidam com coisas extremamente pessoais e concretas que aconteceram, e essas canções têm o tipo de escuridão mais crua... Suponho que estávamos todos a passar por coisas sombrias, nas nossas cabeças e no mundo em geral, enquanto escrevíamos isto.
M.I. - O álbum aborda extensivamente a angústia existencial, as tendências autodestrutivas da humanidade e a ideia de que “Midgard está em chamas”. Houve algum momento ou acontecimento específico no mundo à vossa volta que tenha tornado estes temas particularmente urgentes durante a escrita do álbum?
É realmente difícil apontar para um acontecimento específico algures, porque a desgraça e o pessimismo parecem estar presentes em todo o lado para onde olhamos no mundo. Guerra, IA, demagogos em ascensão... O mundo parece estar a ir para o inferno, independentemente de como e para onde olhemos. Não penso que tenha havido necessariamente uma urgência, mas definitivamente uma necessidade de vomitar estes sentimentos negativos, de gritar para o vazio, por assim dizer, já que estes desenvolvimentos sombrios estão tão disseminados.
M.I. - Utilizam a mitologia nórdica ao longo do álbum, mas as mensagens são claramente dirigidas ao mundo moderno. Porque é que a mitologia constitui uma estrutura tão eficaz para abordar questões contemporâneas?
Suponho que o uso de linguagem mitológica não seja assim tão estranho se tivermos em consideração que até as grandes mitologias originais eram histórias que as pessoas contavam para abordar o mundo, a sociedade, etc., tal como eram naquele momento... É mais uma linguagem partilhada de símbolos e imagens que se utiliza na poesia. Enquanto género musical, o metal soa GRANDE, é ENORME, por isso queremos utilizar uma linguagem adequada que seja igualmente grandiosa. Curiosamente, a utilização deste tipo de imagens simbólicas também torna, de certa forma, mais fácil partilhar histórias muito concretas e pessoais com o público; pode traduzir algo muito específico do espaço mental do autor em algo completamente diferente, mas igualmente específico, na mente do ouvinte… podemos tornar partilhável algo que, à partida, deveria ser quase impossível de partilhar... E podemos falar de coisas que nunca sonharíamos dizer em público, com todo o peso emocional e convicção… uma máscara segura, se quisermos.
M.I. - Uma das ideias mais fortes do álbum é a de que, independentemente do sistema de crenças, nenhum deus ou ideologia vale a pena morrer às mãos da humanidade. “What We Leave Behind” é, em última análise, um álbum pacifista, e essa era uma mensagem que queriam que os ouvintes retirassem do disco?
Existem definitivamente elementos de pacifismo, porque, num mundo ideal, ninguém deveria ter de morrer por qualquer tipo de ideologia. Mas os seres humanos são seres humanos, com tendências terríveis para justificar coisas horríveis utilizando qualquer espantalho conveniente, e, enquanto espécie social, desejamos formar equipas e clãs que são definidos pelo outro, pela oposição. E, uma vez que sabemos que os outros intervenientes vão jogar sujo, para sobrevivermos também teremos de jogar sujo. É difícil pegar nesta informação e depois transmitir seriamente uma mensagem de “malta, simplesmente não façam isso, por favor”... Suponho que a mensagem seja, em última análise, um lamento de que estamos condenados a falhar no pacifismo e na vida em geral, mas o verdadeiro valor está na tentativa, absolutamente necessária, de deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrámos; mesmo sabendo que pode ser inútil, temos de tentar o nosso melhor, tentar alguma coisa.
M.I. – “True Darkness” é particularmente interessante pela forma como segue as fases do luto, chegando ao ponto de não apresentar um refrão tradicionalmente cantado e terminando com vozes limpas esperançosas. Como abordaram a tradução de uma progressão tão emocional para a música?
A canção nasce de momentos pessoais muito sombrios do Joona, momentos que exigiram, de facto, passar por essas etapas muito específicas. Foi uma canção para a qual o Joona escreveu a música em 2023, mas só conseguiu escrever a letra em 2025… a experiência era demasiado crua para ser posta primeiro em palavras. A canção tem um peso tão grande por detrás que pensar em qualquer tipo de estrutura de canção pop nem sequer ocorreu; simplesmente tinha de ser feita. As vozes limpas e esperançosas no final foram, na verdade, ideia do Viktor durante a produção, e essas letras cantadas de forma limpa são contribuição dele; ele tinha de dar alguma coisa para consolar um amigo naquela canção, para lhe dizer que tudo vai ficar bem... Coisas muito poderosas que não tiveram, e realmente não poderiam ter tido, qualquer tipo de abordagem consciente de “é assim que vamos fazer isto”.
M.I. - Viktor, o teu trabalho como designer de som para cinema influenciou claramente a abordagem cinematográfica dos Brymir. O teu trabalho profissional mudou a forma como compões para a banda, particularmente no que diz respeito à atmosfera, paisagens sonoras e utilização de coros e orquestração?
Viktor: O trabalho em design de som para cinema moldou definitivamente a minha forma de compor, aperfeiçoando esta capacidade de contar histórias através do som. Mesmo em faixas orientadas para a letra, consigo entrelaçar design de som entre a música e as palavras para amplificar a mensagem que procuro transmitir. Normalmente, sei desde o início de que sintetizadores ou elementos orquestrais uma canção precisa; muitas vezes começo todo o processo a improvisar e a programar MIDI no meu software de música. Isto pode fazer com que a canção esteja, por vezes, bastante desenvolvida antes de eu acrescentar quaisquer vocais, coros ou instrumentos da banda. Mas também é verdade que, por vezes, acontece exactamente o contrário: começo a brincar com sintetizadores ou orquestrações e rapidamente percebo que aquilo que estou a escrever ficaria óptimo talvez apenas com uma guitarra, com poucas ou quase nenhumas orquestrações ou outros “temperos”!
M.I. - Há vários momentos instrumentais ou mais calmos no álbum, como “Slaying Star” e “Moment of Silence”, que criam espaço para respirar entre as canções mais pesadas. Acham que esses momentos estão a tornar-se cada vez mais importantes na composição dos Brymir?
Há muito que existe um lado cinematográfico nos Brymir; não somos estranhos a longas introduções orquestrais antes de arrancarmos para algum death metal melódico veloz. Esse tipo de coisas é crucial quando abordamos as nossas canções no formato de um álbum longo: é preciso ter variação e nuances para que as partes mais contundentes atinjam com toda a força que precisam de ter... Se for sempre a toda a velocidade, rapidamente ficamos entorpecidos. No entanto, a forma como o álbum se juntou foi ainda assim uma espécie de feliz acidente: nunca escrevemos canções com qualquer tipo de narrativa abrangente ou conceito definido de antemão; todas as canções foram compostas individualmente, pura e simplesmente, cada uma na sua própria bolha. Será uma situação de dar uma palmadinha nas costas a nós próprios dizer que ficámos bastante bons a perceber que canção deve vir a seguir a outra? E a experiência do Viktor em som para cinema ajuda definitivamente a suavizar todas as transições de um estado de espírito para o seguinte... Trata-se de ter material versátil à disposição em primeiro lugar e depois saber como o organizar e onde “fazer os cortes”. Claro que a situação é diferente se quisermos abordar as canções individualmente; está concebido de forma a que ambas as abordagens funcionem bem… podemos “chegar à canção propriamente dita” rapidamente, se quisermos, ou podemos deixar que tudo flua como um conjunto, se essa for a nossa preferência.
M.I. – “Sleipnir”, “Tempestbound” e “The Roaring King” abordam os temas do álbum a partir de ângulos musicais muito diferentes. Quando compõem, começam geralmente com uma ideia musical e encontram depois o conceito lírico, ou pode um tema lírico determinar a música desde o início?
Uma canção começa com a primeira ideia musical, mas aquilo sobre o qual será liricamente pode ser a próxima coisa que nos vem imediatamente à cabeça... Varia imenso de canção para canção. Mas é extremamente raro termos primeiro o tema lírico... Talvez a única coisa que me ocorra desse ponto de vista seja o tributo a J. S. Bach; tinha um texto-base claramente devoto que queríamos inverter desde o início. Ah, a canção do Joona, claro... É definitivamente aí que o “texto” ditou a música desde o início, embora as palavras tenham sido demasiado dolorosas para serem passadas para o papel durante muito tempo depois da composição musical.
M.I. – “Thy Self The Highest Love” inspira-se em Johann Sebastian Bach e conduz a “The Roaring King”. O que vos atraiu especificamente em Bach e o que quiseram trazer da sua música para o universo dos Brymir?
A infância do Viktor foi passada num ambiente de música de câmara, a mãe dele é flautista de concerto de profissão; por isso, Bach está muito profundamente enraizado na sua consciência musical tal como esta se desenvolveu. Há muito que era uma ambição recriar algo do J. S. original através da perspectiva dos Brymir, e agora simplesmente decidimos fazê-lo. Um desafio muito interessante e divertido como letrista, reformular algo tão devoto de propósito para algo egoísta e grotesco, do apolíneo para o dionisíaco, mantendo ao mesmo tempo a grandiosidade da linguagem. Uma pequena perversão divertida, que realmente amplifica a história brutal que queríamos contar com o par de canções.
M.I. - O vosso álbum anterior, “Voices in the Sky”, já abordava questões ambientais através de “Herald of Aegir”. Com o novo álbum a adoptar uma perspetiva ainda mais abrangente sobre a humanidade e a sociedade, sentem que os Brymir estão a tornar-se cada vez mais um veículo para expressar as vossas preocupações sobre o mundo à vossa volta?
Escreves a partir daquilo que tens no coração... Reparámos que, se uma canção não ressoa a nível pessoal, normalmente não sai da mesa de trabalho. É por isso que não houve realmente nenhuma história puramente fantástica por detrás de qualquer canção depois da nossa primeira demo. A angústia existencial e ambiental tem sido um dos temas sobre os quais escrevemos desde o início (Breathe Fire To The Sun... agora há ali algum simbolismo, certo?), e suponho que simplesmente nos surge naturalmente. Somos pessoas que se preocupam com este tipo de coisas e tentamos dar o nosso melhor para não nos tornarmos completamente cínicos... Que outra coisa podemos fazer?
M.I. - E, finalmente, conseguiram transformar “How Much Is the Fish?”, dos Scooter, numa canção de death metal melódico. O que vos levou a decidir que este clássico do Eurodance em particular merecia o tratamento Brymir e quão a sério devemos levar os peluches de salmão que passaram a fazer parte dos vossos concertos?
É uma canção muito adequada por vários motivos... Na banda, temos uma idade em que o Eurodance dos sempre esperançosos anos 90 estava no auge quando éramos mais “vulneráveis”, por isso é igualmente honesto para nós fazer esta canção como foi fazer um cover de Dark Funeral no disco anterior, tendo em conta a nossa “educação” musical. O Viktor já pensava em fazer um cover metal de “How Much Is the Fish?” há alguns anos; quando a editora adorou a ideia, foram apenas dois dias e a canção estava basicamente pronta. Também é muito adequada do ponto de vista ambiental anteriormente mencionado: “Herald of Aegir” tinha acidentalmente dado origem a toda esta coisa do fish-metal no álbum anterior, o primeiro peluche que recebemos foi um presente de amigos e fãs antes de um concerto em Amesterdão, decidimos atirá-lo para o público para que “saltasse” no pit, e assim nasceu o meme, que depois cresceu, e cresceu, e cresceu... Não podemos levar esta coisa do peixe mais longe do que isto, pois não? Nada disto foi planeado por nós, mas tornou-se algo divertido para partilhar com o nosso público. Os concertos ao vivo têm esta coisa maravilhosamente dicotómica... Tocamos metal muito rápido e contundente, com temas das canções muito sérios, crus e pessoais; existe esse lado de catarse através da raiva e da tristeza, mas, ao mesmo tempo, há espaço para o outro lado: sermos parvos juntos, libertarmos essa angústia numa confusão de movimento e nas piadas mais estúpidas... Uma segunda catarse através da alegria. Tanto as lágrimas como o riso são igualmente válidos. É algo muito especial. Assim, no álbum, o cover dos Scooter surge perfeitamente logo depois de a última canção dos Brymir terminar com as imagens mais absolutamente deprimentes e desesperadas que existem no álbum... Podem ficar ali a chafurdar nas profundezas, se quiserem, mas, se desejarem depois um pequeno “refresco de menta” para vos ajudar a continuar o dia, ele está lá também!
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Entrevista por Sónia Fonseca












