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A 3ª edição do Festival Bardoada & AJCOI decorreu no primeiro fim-de-semana de Outubro, no Pinhal Novo, e contou com um bom e variado leque de bandas consagradas e outras por consagrar, havendo um especial destaque para as sonoridades nacionais mais pesadas e para as bandas da terra.

Depois de se fazerem ouvir as fortes e coordenadas sarrafadas do Grupo do Sarrafo Bardoada, que se intercalaram com as bandas durante todo o festival, subiram ao palco os estreantes Escroto, a primeira banda do Pinhal Novo que teve a responsabilidade de abrir o festival. O trio composto por Pedro Mendonza, Pedro Faria e Bidgi Marciano desferiu as suas achas para a fogueira, como manda a lei do punk, desta feita cantado em português, e preparou as hostes em cerca de meia hora. Sempre bem animados, os Escroto deixaram-nos um agradável cartão de visita com temas como "Os Animais", "Matar o Primeiro" e "Escroto". Uma actuação, de certo, para mais tarde recordar, ansiando nós pela próxima em breve.

A seguir tivemos os lisboetas Artigo 21 que nos trouxeram o seu punk de mão dada com o rock também cantado em português. Com um espaço mais composto, a banda apresentou-se com o tema "Hopenhaga" retirado do seu primeiro trabalho homónimo, lançado em Fevereiro deste ano. Aliás, toda a actuação dos Artigo 21 foi preenchida com temas desse álbum de estreia, destacando-se o single "Contradição" e uma grande homenagem ao malogrado João Ribas em forma de "Sem Herói". Com ritmos animados e tocados na máxima velocidade, a banda mostrou-se coesa, puxando pelo público nas alturas certas, o qual respondeu sempre com boas ovações ou marcando o ritmo através das palmas. Autodenominando-se em prol do direito à resistência, estes punk rockers despediram-se ao som do tema "Utopia", que dá também nome à sua actual digressão, não sem antes o vocalista Cardoso apresentar os restantes membros da banda. Pôde observar-se que os Artigo 21 são uma banda que expõe com clareza, através das suas canções, várias injustiças sociais, mas acima de tudo são uma banda, e segundo Cardoso, com uma mensagem positiva de mudança.

De volta ao distrito de Setúbal, tivemos um artista que destoava dos demais em termos de género, mas nunca em termos de agressividade, isto porque se apresentava com um hip-hop de sonoridades pesadas e cruas, nada que ver com rapcore ou afins, a não ser pelo seu rap nuclear. Falamos do rapper Branco que trazia na ponta da sua caneta/microfone/espada o seu reino de "Camelot" com temas cáusticos como "Vamos", "Confronto" ou o single bem orquestrado "Palavra-Chave". Sempre bem suportado por uma banda ciente da sua missão, ou seja, proporcionar bons momentos sonoros, Branco desferia golpes líricos que empolgavam a plateia. Depois de se ter apresentado, a banda terminou a sua portentosa actuação com "Dia de Treino" e deixou um sentimento de agradável surpresa que se podia ver estampado na cara de todos os presentes, o que nos leva a desejar uma longa vida ao Rei Branco e à sua demanda pelo reino da música.

Depois do seu grito de guerra, subiam ao palco os Moe's Implosion prontos para mais uma noite de rock alternativo que nos levou aos universos electrónicos dos seus últimos trabalhos, a saber "Light Pollution" e "Savage", com temas como "Broken Record" ou "Fassbender", este último a dar início à sua estreia no Festival Bardoada & AJCOI. Já com um público notoriamente conhecedor do trabalho da banda, os Moe's Implosion distendiam-se pelo seu repertório, propulsionados pelos ritmos enfeitiçantes dos seus instrumentos, enquanto que um possuído João Sancho dominava o palco e puxava pelo espectadores hipnotizados. A banda reservou para o final aquele que é provavelmente o seu tema mais pesado, um verdadeiro atropelo sónico que fez com que toda a gente abanasse o pescoço. É óbvio que falamos da brutal "Mastodonte", música que deu origem a um final merecidamente ovacionado e que provou mais uma vez estarmos na presença de uma banda com muito valor.

Tudo a postos para mais uma banda com raízes na terra, desta vez com os Um Zero Azul que, de acordo com o seu líder Kapa de Freitas, estavam de volta onde tudo começou. Dono de uma perfeita simbiose entre o rock, a pop e a electrónica, o trio da margem sul do Tejo passeou-se pelo até agora único trabalho de originais, "UZA", e começou com o Insónia (A procura de um dia) para que todos pudessem despertar para mais um capítulo do rock português. Seguiram-se mais três temas, nomedamente "O Último Fôlego Azul", o trágico-amoroso "Olhar Cinza" e o poderoso "Infernal Festim" para darem lugar a outros temas do repertório da banda como "Saudade", versão bastante futurista dos Heróis do Mar e "Corrupção do Estado" que revela os dotes do baterista David Sequeira. Para acabarem em beleza, os Um Zero Azul tocaram o tema provavelmente mais conhecido da banda, "Quem Não Quer Ver?", que conta com a participação de Tim dos Xutos e Pontapés. Após o famoso single, a banda deixou o palco, pouco passava das 00h00, e a lembrança de uma sólida actuação, como também de uma excelente interactividade com o público, que respondeu sempre que 
solicitado.

Antes dos cabeças de cartaz, tivemos ainda os revigorados Low Torque que contavam com David Pais na voz e com a participação especial de João Arroja numa das guitarras. A banda continua na senda das histórias monstruosas de mistério e horror que proliferam por "Croatoan", álbum lançado no princípio do ano e para começar, nada como a potente "Storm Hag". Óptima escolha, pois pôs toda a gente a mexer. E foi sempre assim, até final. A banda nunca deu tréguas, como se podia ver pela entrega dos seus membros, já para não falar no vocalista David Pais, que raramente assentou os pés no palco. Depois dos merecidos agradecimentos à organização e às restantes bandas, os Low Torque despediram-se com "Stingy Jack", mais outra potente malha cheia de stoner-riffs que, apesar de começar com os versos "I am alone, I'm so alone", prova que a banda não está sozinha nesta demanda, tendo cada vez mais adeptos da sua sonoridade.

Já pela noite dentro, ficámos com os tão aguardados Peste & Sida que convidaram o público a embarcar numa verdadeira viagem no tempo, já que a maioria da sua actuação foi composta por temas com mais de 30 anos. Com os primeiras temas dos Peste & Sida, vieram também os primeiros circle-pits da noite, principalmente com "Família Em Stress", onde os presentes entoavam em alto e bom som o já conhecido "Oi oai!". Já que falamos de coros, seguimos no alinhamento com mais temas que davam asas a isso como "Orgia Paroquial" ou "Bule Bule", mas também com o tema "Acredita" que serviu como homenagem a Zé Bastos, antigo técnico de som da banda, ou com o tema "Alerta Geral" que contou com a participação especial de Jonhie dos Simbiose, voltando novamente a ouvir-se os coros, agora mais desenfreados, aquando do famosíssimo lema "repressão policial, terrorismo oficial". Seguia-se o momento mais memorável da noite que levou a muita ovação e muito circle-pit, já para não falar no concerto em si, onde a banda fez questão de tocar, num rasgo, uma sequência dos seus temas mais conhecidos, a saber "Sol da Caparica", "Paulinha", "Gingão", "Reggae Sida" e "Veneno", com tempo ainda, lá pelo meio, para "No Sleep Till Brooklyn", dos Beastie Boys. Já no final, e ao som de "Chuta Cavalo", as devidas dedicatórias a todos os que contribuiram para o desempenho dos Peste & Sida no Festival Bardoada & AJCOI, mas quando todos julgavam tratar-se do fim, eis que ainda soou "Sheena Is A Punk Rocker" dos The Ramones e literalmente, sem falsos alarmes, "Chegámos Ao Fim".Os Peste & Sida são, desde há muito, um sinónimo de animação, mas também de memória colectiva, algo que só a música proporciona e particularmente esta banda, devido à sua longevidade. É sempre um prazer estar na presença de bandas que fizeram parte da banda sonora da vida de muitos.

2º Dia

2º dia do Festival Bardoada & AJCOI com um cartaz reservado a bandas mais pesadas, com destaque para o metal. A iniciar este segundo dia, mais uma banda da terra, desta feita os The Tree Leaves, um tributo disfarçado aos Nirvana, mas ainda assim um bom tributo, já que contavam com vários temas originais, tocando apenas, durante a sua actuação, o tema "Breed" dos reis do grunge, tema esse que animou o espaço. Para além da entrega e da energia destes miúdos do Pinhal Novo, o destaque vai para o tema "Sad" que, com uma melodia cativante, exemplifica na sua plenitude a aura depressiva caracteristica do grunge e serve como estandarte destes The Tree Leaves.

Seguiram-se os Diabolical Mental State, naquele que seria o último concerto da digressão do EP "Basic Social Control" e como não podia deixar de ser, a banda preparava-se para o tocar na íntegra. Conhecido por uma grande entrega em palco, o quinteto liderado por Fanã nunca deu tréguas e lançou as suas pesadas cartas sobre o público, instalando o caos ao som de "The Village", "Breaking The Meaning" ou a fora do baralho "Everytime". A D.M.S. Crew acompanhava a banda no seu metal groove e teve no final a sua recompensa, que se traduziu obviamente no tema "D.M.S. Crew" para gáudio de todos. Num final apoteótico, a banda deixou o palco visivelmente emocionada, deixando todos ansiosos para o que se segue, já que acabava de culminar um ciclo. E que ciclo!

Para momentos de descontracção, boas gargalhadas e muito mosh, subiam ao palco os Quinteto Explosivo para mais uma actuação irreverente. Como já é da praxe, a banda subiu ao palco, para logo a seguir abandoná-lo. De volta a cena, a banda começava a investir com "Super Cagalhão Atómico (No Teu Cu)" seguida do tema que relembra que Portugalé o país dos 4 Efes, ou seja, "Fado, Futebol e Fátima Foda-se", tema esse que teve direito ao primeiro momento pirotécnico da noite. Mais temas de cariz anatómico se seguiram, como "Eu, Tu o Meu Caralho e o Teu Cu" ou "Sempre Que Te Vejo Dá-me Vontade De Vomitar", antes do espaço dedicado a projectos anteriores, nomeadamente Kalashnikov e Comme Restus, à medida que os circle-pits aumentavam de intensidade. Para tocar os temas dos Comme Restus, juntou-se à festa uma personagem de seu nome Gosma e houve ainda espaço para mais um evento pirotécnico, desta vez protagonizado pelos intitulados "Diabos da Bardoada". A banda terminou o seu desempenho com o tema que serve habitualmente para destruir qualquer espaço, já que é possivelmente o tema mais pesado dos Quinteto Explosivo. É óbvio que estamos a falar de "Queres Caralho, Vai ao Talho" que até já conta com a sua própria coreografia. O público que o diga! Mais uma meia hora de pura diversão ao som de ritmos pesados que terminou em grande com muitos pescoços doridos, mas muitos largos sorrisos.

Com o nível de peso a subir, chegava a vez dos For The Glory porem em prática o seu hardcore. A banda construiu o seu alinhamento com base nos seus temas mais conhecidos e, por isso, começou com "Drown In Blood", pondo toda a plateia em sentido. A banda de Loures continuou com temas de álbuns mais recentes como "110" ou "Armour Of Steel" e a mando do vocalista Ricardo Dias, os circle-pits intensificavam-se. O momento mais marcante da noite deu-se aquando do anúncio da saída do guitarrista Sergio Bernardo, que dedicou 12 anos aos For The Glory e contou com uma merecida homenagem ao som de "Some Kids Have No Face". Ouviram-se mais temas conhecidos como o emblemático "Survival Of The Fittest" ou "Lisbon Blues", que dá nome ao último trabalho da banda, lançado em 2013, e que, segundo Ricardo Dias, fala dos zombies que se  deslocam para Lisboa para trabalharem. Para terminar, a banda reservou aquele que é provavelmente o  tema que pôs os For The Glory no mapa, ou seja, "Fall In Disgrace", o que levou o público ao rubro, respondendo no final com uma merecida e enorme ovação a mais uma actuação sentida e cheia de força.

Seguiu-se mais uma hora de punk, mas agora cantado em português. Os Trinta & Um estavam prontos para meterem, mais uma vez, o dedo na ferida e começaram com "Advogado do Diabo", e o resto foram histórias como "Filhos do Divórcio" ou "Não Há Regresso". Sempre na mesma toada, a banda de Linda-a-Velha desdobrava-se pelos seus temas mais famosos e até teve a oportunidade de contar com um membro dos Gaiteiros do Pinhal Novo para, a bom rigor, participar no também famoso "Sintra". Para fazer jus ao constante rebuliço diante dos seus olhos, os Trinta & Um continuavam com o clássico "Tourada" e, embora com o tempo a escassear, prosseguiram com mais uma mão cheia de malhas, onde os dois últimos temas foram dedicados ao influente João Ribas e ao público que orgulha a banda, respectivamente "L.V.H.C." e "Será Assim Até ao Fim". Com mais uma escolha de temas acertada e uma grande atitude em palco, os Trinta & Um deram uma excelente réplica, e sabendo que o próximo trabalho está para breve, é grande a ansiedade, mas enquanto ele não surge, siga a marinha!

Para um último aquecimento, antes dos cabeças de cartaz, contámos com os vizinhos Switchtense que, de volta ao Festival Bardoada & AJCOI, entraram a todo o gás com "Face Off!" e para manterem o circle-pit que se tinha imediatamente instalado, continuaram com "Second Life". Aquando da malha "I´ll Stand Stronger", e como não podia deixar de ser, foi chamado ao palco o Congas ou Ricardo Dias para dar o seu forte contributo. Embora tenham apresentado uma malha nova, intitulada "Super Fucking Mainstream", o auge da noite foi para "Into The Words Of Chaos", um tema bastante conhecido da banda, cujo refrão foi entoado pelos fãs até à exaustão. A banda despediu-se debaixo de uma grande ovação e provou que se mantém de pedra e cal no panorama do metal nacional. Prova disso é a sua entrega em palco, mas acima de tudo o próximo álbum que vem a caminho. Unbreakables!

Para último conjunto da noite e do festival, tínhamos os Ramp perante um espaço completamente cheio. A banda tomou de assalto o palco, pouco antes das duas da manhã, e deu um recital de temas conhecidos para gáudio dos presentes. Entre "How", "Anjo da Guarda" ou "Hallelujah", ou até mesmo músicas mais calmas como "Alone", a resposta do público era sempre forte, ora com palmas ou coros, ora com circle-pits. Quase como um culto, as pessoas precisavam de ser exorcizadas, e para isso contaram muito temas como "Blind Enchantment", para libertar o público e levá-lo ao rubro. Já no final da actuação, regressámos por uma última vez ao passado, mais concretamente a 1995, para darmos de caras com "Black Tie" e o seu ritmo arrebatador. Arrebatadora foi a actuação destes veteranos que continuam fortemente a garantir bons espectáculos e contribuíram, a par das outras bandas, para o sucesso do festival.

Texto por Bruno Porta Nova
Fotografias gentilmente cedidas por Igor Ferreira
Agradecimentos: Bardoada e AJCOI