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Os Process Of Guilt possuem novo disco, “Black Earth”, e esta semana vão dar três concertos de apresentação, em Lisboa, Porto e Viseu. Vão vê-los, eles merecem!


M.I. - Quarto longa-duração, mas já cinco anos após “FǢmin”!

Foram cinco anos interrompidos pelo split com Rorcal, vinte minutos de música que sabíamos que não era o que queríamos fazer a seguir, mas que nos apetecia fazer na altura. Nos cinco anos passou-se muita coisa, nos dois anos a seguir à edição do “FǢmin”, promovemos este disco activamente, até à edição do split. Em 2015 começamos a pensar no disco sucessor e estivemos sempre a compor, e mais uma vez mandamos muita coisa fora, no nosso processo de tentativa e erro. O que tens no “Black Earth” corresponde a quatro, cinco meses de escrita, mais ou menos a partir de Fevereiro de 2016, pelo que esses cinco anos para nós, parece muito tempo, mas atendendo aos nossos prazos, aos nossos vínculos e à forma como conseguimos equilibrar a nossa vida pessoal, passaram demasiado rápido, mesmo que se tenha ido para lá do nosso primeiro prazo para edição e que em dado momento pretendêssemos antecipar o que seria este disco. Mas devido ao tipo de banda e à forma como abordamos a nossa postura e os concertos ao vivo, acaba por não representar tanto tempo. Só tínhamos era que respeitar os nossos tempos e estar satisfeitos com o que fazemos e tratar internamente a diferença de cinco anos entre os dois álbuns.


M.I. - Vocês começam a ter um trabalho feito lá fora, mesmo que depois diluídas por este intervalo entre discos. Mesmo assim, comecei a ter informações sobre “Black Earth”, a partir da imprensa lá de fora.

Sabemos que somos uma banda do underground, mas já temos a nossa história e há muita gente que escuta a nossa música, não só em Portugal. Claro que as pessoas, normalmente tem acesso a entrevistas que integraram uma indústria a que nunca tivemos acesso, ou formaram-se na década de noventa, ou antes, com outro tipo de exposição e potenciadas com interacção com editoras que tiveram dinheiro para as promover e para as colocar em tours, enquanto nós e outros grupos em Portugal somos, por comparação de uma dimensão muito menor. O nosso alcance acaba por ser menor. A nossa banda continua a ser de quatro tipos que ensaiam em determinado dia e determinada hora, que para marcar concertos tem de ver a vida pessoal e disponibilidade. No nosso quotidiano acabamos por não compatibilizar tudo do melhor modo e aí os cinco anos.


M.I. - Isso é uma característica das bandas do séc. XXI, de certa forma, recordo termos assistido juntos a Amenra, que nos anos 90 encheria pavilhões e hoje tem uma dimensão menor, fruto da época em que se formaram.

Sim, a indústria de hoje é o que é, e como consumidores sabemos disso, e acompanhamos as bandas, mas também começa a haver uma certa depuração da muita oferta que houve nos anos dois mil, se calhar algo a ver com o abandono dos formatos físicos, de haver muitos mais meios à disposição, poderes gravar o disco em casa, as plataformas de distribuição, as editoras continuarem a apostar nos valores seguros que já tinham dentro de portas. É muito reduzida, após os anos 90, o número de bandas que tiveram sucesso a uma grande escala. Podemos lembrar-nos dos Mastodon, mas não enchem estádios.  Estas questões de tentar compatibilizar a oferta de bandas novas com o interesse dos seguidores é muito complicada porque as editoras continuam a impor uma agenda em que imperam os velhos nomes e os Process Of Guilt acabaram por cair nesse buraco que se forma, mas não queremos pensar muito nisso, é só mais uma condicionante com que temos de lutar no dia-a-dia.


M.I. - Por outro lado é mais compensador, enquanto artista, estares no dia 6, no Cave 45, com pessoas que sabes que estão lá para te verem, do que estares num grande pavilhão com pessoas que mal conhecem a tua carreira.

Sim. Quem nos segue ou já nos viu, sabe que damos muito de nós ao vivo, e que queremos quem queira ouvir a nossa música. A escala é outra mas a compensação é maior, e a ficarmos verdadeiramente satisfeitos com isso, por isso o Cave 45 poderá ser o local ideal para isso.


M.I. - “Black Earth” é um disco mais doom que sludge.

Sabes que o sludge é um termo que utilizam para descrever a nossa música, mas na minha cabeça continua a ser algo muito concreto e específico em que nós podemos ter influência, mas que não descreve o que fazemos. Na minha cabeça o sludge continua a ser algo entre Black Flag e Black Sabbath e nesse clash, surgiram uns EyeHateGod, ou até por cá na Europa, uns Iron Monkey que fizeram esse som. Do meu ponto de vista continuamos a ser uma banda doom com mais dinâmica que terá o doom tradicional, em que tentamos introduzir uma dimensão de groove. Apesar de gostar de muitas bandas de sludge e perceber porque usem o termo quando falam de nós, não é algo que me tire muito o sono. Para este disco, mais que em nenhum outro, apenas tentamos que os temas que estavam a sair e que estávamos a criar, fossem aqueles que queríamos ouvir e gostar. Não estou a pensar em estilos de música, temos a nossa sonoridade e desde cedo que exploramos o doom em muitas vertentes. 


Entrevista por Emanuel Ferreira