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Benthik Zone - "Omni Quantum Univers" Review


O duo português de Atmospheric/Experimental Black Metal está de regresso, após a sua maior pausa entre lançamentos até à data, com a sua quarta manifestação, "Omni Quantum Univers", segundo longa-duração.

Se este projeto já tinho mostrado ser experimental e único, este álbum veio destroçar todos os resquícios de cânones musicais que, ao olho mais minucioso, ainda se conseguiam encontrar na música dos Benthik Zone. "Omni Quantum Univers" é sem dúvida o trabalho mais audaz, ambicioso e vitorioso do projeto até à data. O experimentalismo dos Benthik Zone torna sem dúvida árdua a tarefa de traçar as influências que estes retiram. Desde World Music, ao extraordinário inicio Techno da "II - Galáxia Entranha a Nébula", esta banda é uma amálgama de influências que apenas dá para comparar com Blut Aus Nord, face à sua filosofia artística de constante mudança. 

A nível conceptual, este lançamento é o culminar do desenvolvimento que veio a decorrer em todas as obras da banda até à data. Simboliza o atingir de um climax, um fim e um começo, uma espécie de Ragnarok de dualidades que conjura ao mesmo tempo o caos, desintegração e criação. Este maelstrom de energias, sensações e interações, uma simbiose de opostos é, na teologia dos Benthik Zone, a chave para a criação e destruição dos cosmos, e eles "pintam" o conceito na sua música como ninguém.

Este trabalho marca musicalmente, tal é a inspiração do conceito, um ponto onde o futuro/presente encontra o passado: enquanto que temos presentes elementos dos trabalhos mais recentes, como o poder Industrial da percussão e as tempestades de Drone e Noise, temos o regresso à utilização de instrumentos mais não-convencionais para o estilo, tal como o didgeridoo, o trompete e a flauta, que brilha na faixa "IIII - Rio Escava a Fossa", sem dúvida um dos principais marcos músicais desta viagem, e de belas e abissais melodias na guitarra. Esta junção de elementos está também presente na capa do álbum, que apresenta no seu centro a sobreposição dos logos do primeiro lançamento com o segundo.

De facto não há nada neste projeto que não esteja interligado ou relacionado, desde a magnífica capa, que ilustra os elementos presentes nos títulos das músicas que seguem a escala de criação, à evolução do tremendo filme que a banda realizou para o álbum, que segue a magnitude dos títulos assim como a numeração cíclica das músicas, este trabalho, mais que meramente músical, é uma experiência audiovisual rica, que por todos os recantos emana os temas da ciclicidade, ouroboros e constante evolução.

Os Benthik Zone embalam o ouvinte numa jornada em que nunca se sabe o que está ao virar da esquina. Desde as serenas e iridiscentes nébulas invocadas pelos calmos interlúdios, a viagens fulmegantes pelo turbilhão de riffs e percussão de um buraco de verme, a perpétua evolução da estrutura musical dos Benthik Zone continua aqui presente, tal como nos últimos lançamentos. Não há repetições de riffs, não há formulas, este álbum é para o ouvinte audaz. A música "IIII - A Alga Abraça a Serpente" é um excelente exemplo desta imprevisibilidade, começando com um psicadelismo mórbido, que abre a faixa para um secção intermédia calma, de um trance cósmico quase xamânico que, depois de um mergulho profundo por um gradiente entrópico, culmina no caos dos elementos Noise e Industrial da banda. Outros momentos a realçar são o genial final da "V ~ Humano é o Tubarão", jazzy e com recurso a trompete, pianos e sintetizador, este é o final perfeito para a primeira parte do ábum. É também de realçar o dinâmico e psicótico trabalho vocal realizado no decorrer de toda a obra, que encarna tanto a forma de dolorosos e agonizantes gritos, a coros astrais e expansivos, a Spoken Word.

Penso que os Benthik Zone são sem dúvida do melhor que se faz no solo nacional e a nível do Metal Experimental moderno e encorajo os leitores a apoiarem esta banda e todo o seu trabalho que fazem de forma independente e com total entrega e vontade de inovação. É certo que terão uma viagem única navegando pelas obras deste projeto.

Nota: 9,2/10

Review por Filipe Mendes