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Entrevista aos Insomnium



Após duas décadas de existência, os finlandeses Insomnium dispensam apresentações! Desta vez estão de regresso com o álbum “Heart like a grave”, cujos temas foram inspirados em obras de poetas e escritores finlandeses. Uns dias antes do lançamento do álbum, a Metal Imperium esteve à conversa via Skype com Niilo Sevanen... 

MI. – Estamos a alguns dias do lançamento de “Heart like a grave”... como te sentes?

Sinto-me animado e confiante. Sei que é um bom álbum! Na banda, estamos todos muito felizes e parece que todas as pessoas que ouviram as músicas até agora gostaram muito, por isso tenho a certeza que os nossos fãs ficarão felizes e satisfeitos. É um álbum de Insomnium, que soa a Insomnium, mas tenho a certeza de que há algumas coisas novas que o tornam num bom e interessante álbum de Insomnium. Mal posso esperar para que todas as pessoas o possam ouvir!


M.I. - É um álbum fabuloso, como sempre!

Muito obrigado!


M.I. – Os músicos acreditam sempre que o seu último álbum é o melhor... também achas isso?

É difícil dizer. Eu gosto de todos os nossos álbuns! Estou muito feliz e orgulhoso de todos, portanto é difícil dizer mas, definitivamente, é um óptimo álbum. Não consigo mesmo colocar os meus próprios álbuns por qualquer tipo de ordem, porque eu adoro-os a todos mas, tal como disse, estou muito, muito feliz com este. Tem dez músicas fortes... uma das razões pelas quais dura mais de uma hora, é porque nós não quisemos deixar de lado nenhuma das músicas porque pensamos que elas são boas e merecem estar no álbum. É um óptimo álbum de Insomnium!


M.I. - Qual é o teu maior medo quando os Insomnium lançam um novo álbum?

Talvez por algum motivo estranho eu tenha medo que a banda termine ou isto acabe de repente, mas não o imagino a acontecer. Acho que estabelecemos a nossa posição e temos um número considerável de fãs que nos apoiam, por isso não estou preocupado que eles parem de gostar de Insomnium e ninguém mais venha aos nossos concertos! Não vejo isso a acontecer enquanto continuarmos a fazer boa música... sim, essa é a chave, é claro, e estou realmente confiante de que podemos continuar por muitos mais anos. Não sei se ainda faremos tournées quando tivermos 60 anos, mas basta olhar para os Aerosmith e os Rolling Stones... eles ainda o fazem, portanto vamos ver se isso acontece connosco também!


M.I. - Na tua página do Facebook, escreveste "Mais trevas e miséria... e contos de sonhos e morte influenciados por S. Harmaja ...". Quem é S. Harmaja?

S. Harmaja é uma poeta muito famosa na Finlândia. Ela escrevia em Finlandês e é uma figura muito respeitada. Viveu e morreu na década de 1930, há oitenta anos, antes da Segunda Guerra Mundial, e representamos esse tipo de figura arquetípica de poeta sofredora que morreu jovem e escreveu poemas realmente tristes e sonhadores que influenciaram outros artistas finlandeses também. Na verdade, existem duas músicas neste álbum que são inspiradas nos seus poemas "Pale Morning Star" e "The Offering". O conceito é usar estas antigas letras, contos e poemas finlandeses neste álbum, e Harmaja é uma daquelas figuras de quem eu sempre gostei, mas agora aprofundei o meu conhecimento e acho que li tudo o que consegui encontrar sobre ela. E há muitos mais poemas que poderíamos ter usado porque têm a atmosfera perfeita para os Insomnium... por isso, ela é realmente uma boa fonte.


M.I. - O comunicado à imprensa afirma que a banda se inspira em alguns dos mais sombrios contos, letras e poemas da Finlândia. Todas as letras, ou a maioria delas, são inspiradas por poetas finlandeses neste álbum…

Sim, foi essa a ideia... a de tentarmos encontrar as letras, contos e poemas de músicas finlandesas antigas que são muito populares na Finlândia. As coisas que os nossos pais ouviram, até os nossos avós... músicas realmente tristes... queríamos usar essa herança e talvez abri-la para o resto do mundo e deixá-los ver a mentalidade finlandesa e que tipo de temas e assuntos sobre os quais cantamos. Pode dizer-se claramente que algumas das músicas foram inspiradas por isto ou aquilo, mas existem outras que, num sentido mais amplo, foram inspiradas por vários temas.


M.I. - O que inspirou o título “Heart like a grave”?

Há alguns anos, o maior jornal da Finlândia organizou uma competição e as pessoas podiam votar na música mais triste da Finlândia e acho que foi um óptimo conceito, pois levou as pessoas a votar muito. Foi muito popular e os dez temas mais votados foram realmente interessantes de ver. Nós pegamos na música número um, uma música mesmo antiga e tradicional, nem creditada a ninguém, e eu escrevi uma letra para a nossa versão dessa história e é o tema “And Bells They Toll” neste álbum, que é baseado na música oficial mais triste da Finlândia. Este álbum tem a ver com tristeza como sempre, e é por isso que é intitulado "Heart like a grave" por causa da tristeza que o envolve. Havia outros títulos de músicas que poderiam ter sido o título do álbum, mas conversamos bastante e, no final, pensamos que “Heart like a grave” é o melhor e dá a impressão certa de todo o álbum, de amor, o conceito da letra e tudo o mais. A música “Heart like a grave” é baseada nos temas de um famoso compositor e letrista finlandês que viveu na cidade em que estou a viver agora. Na verdade, é uma cidade pequena, mas tivemos um compositor famoso na Finlândia e que toda a gente conhece! Ele morreu por causa de abuso de álcool nos anos 80, tinha 50 anos e uma figura miserável no final, mas escreveu letras incríveis e “Heart like a grave” é uma espécie de compilação das suas obras. Nesse tema temos um velho personagem, que está a olhar para a sua juventude e a lembrar-se daqueles dias em que ainda havia esperança e as coisas pareciam melhores, ainda se lembra dos seus amigos, tiveram alguns sonhos juntos mas os anos passaram e as coisas não correram como deveriam e ele, lentamente, percebe que todos os sonhos e esperanças vão morrer e tudo o que resta é o velho que nunca conseguiu realizar os seus sonhos... ele é apenas um homem com um coração como uma sepultura, essa é basicamente a ideia da música e do título. Eu diria que o sentimento é desapontamento, sentir que não há mais esperança... quando não tens mais esperança, podes dizer que "O coração é como uma sepultura" e que não resta mais nada na vida... passaste a tua vida e achas que foi tudo por nada, horrível, e não conseguiste nada... todos os teus sonhos se foram afastando lentamente... é sobre perder a esperança.


M.I. - Então tiveste que adaptar a letra ao Inglês, certo? Fizeste isso sozinho?

Sim, claro, o material original é infinito! Mas usamos esse tipo de história e as ideias básicas que as letras e histórias tinham, e eu não me limitei a traduzi-las, não fiz isso, peguei nas ideias básicas e escrevi uma nova história, novas letras baseadas nesse tipo de ideia, e foi o que fiz com nove dos dez temas. "Valediction" é principalmente um tema do Ville, é a composição e as letras dele e, no estúdio, percebemos que precisávamos de mais linhas, então eu escrevi mais três linhas que encaixavam na história. Tirando isso, todo o resto são letras minhas neste álbum.


M.I. - A banda inclui 4 compositores... como é que a composição acontece? Todos apresentam as suas ideias e depois misturam-nas ou quê? 

Todos nós escrevemos a música. Eu fiz a maioria das letras. Mas há quatro compositores na banda, quatro tipos a criar as melodias e as músicas e cada um de nós trabalha primeiro sozinho, fazendo demos no computador e depois enviando para os outros e todos comentam... esse é o processo e continuamos a fazer isso até que todos estejam satisfeitos com todas as músicas. Portanto, pode ser frustrante se a tua óptima ideia não for boa o suficiente para os outros tipos! Mas já estamos acostumados a isso e eu sei que é um bom processo e uma boa maneira de trabalhar porque o resultado final é muito bom. Foi sempre assim que fizemos os nossos álbuns.


M.I. – São vocês que decidem quanto tempo dura a música ou é a música?

Nunca sabemos quanto tempo levará até uma música estar pronta... começamos a escrever músicas e, às vezes, é difícil descrever o processo, mas sabes quando a música está pronta e não precisa de se adicionar algo ou tirar algo. É um processo e todos na banda podem exprimir a sua opinião, portanto nunca sabemos quanto tempo a música durará. Com "Winter's Gate", a única coisa que decidimos foi que queríamos fazer uma música muito, muito longa e poderia ter durado 20 minutos, mas acabou por durar 40 minutos. A música simplesmente acontece e, no final, é que se vê quanto tempo dura.


M.I. - Já existem 3 singles disponíveis: "Valediction", "Heart like a grave" e "Pale morning star"... como é que as pessoas estão a reagir?

Não me lembro de ter visto nenhum comentário negativo e acho que, a cada novo single, as pessoas ficam cada vez mais empolgadas, por isso é um bom sinal. Eu diria que os três singles dão uma boa impressão do álbum e é por isso que escolhemos músicas diferentes... a primeira é rápida e curta, depois temos um tipo de balada, música lenta e depois a mais longa e épica. Quando as pessoas ouvem estes três temas, acho que já têm uma boa ideia do que é o álbum.


M.I. - Num comentário do Facebook, os Insomnium disseram que "Pale Morning Star" é como Winter's Gate em forma compacta "... o que querem dizer com isto exactamente?

Eu acho que tem o mesmo tipo de atmosfera e sentimento e uma vibe como em "Winter's Gate". É quase uma continuação do que fizemos com "Winter's Gate", é tipo uma irmã ou irmão. Entre todas as outras músicas, pode dizer-se que "Pale Morning Star" é a que mais soa como "Winter's Gate", partilham um certo sentimento...


M.I. - A maior parte do vosso material foi lançado em Abril ou Setembro... existe um interesse particular nestas datas para fins de vendas ou é apenas uma coincidência?

Não sei! Bem, é política das editoras hoje em dia que, por exemplo, o início do Outono é geralmente um bom momento e não é boa ideia lançar nada perto do Natal, porque andam todos a economizar por causa do Natal e o álbum perde-se lá no meio dos álbuns de Natal, por isso não faz sentido lançar nada nessa altura. Eu acho que é uma coincidência que os nossos álbuns tenham sido lançados nessas datas ao longo dos anos. O ciclo tem sido assim: vamos para o estúdio no início do ano, temos tudo preparado em Maio ou Junho e, três meses após a editora obter o produto final, será lançado. Portanto, se o prepararmos em Maio ou Junho, será lançado em Setembro ou Outubro.


M.I. – O Ville Friman tem tido problemas em conciliar a carreira de professor com a banda e vocês decidiram adicionar um terceiro guitarrista. O Ville vai acompanhar-vos na tournée?

Essa é a razão pela qual precisávamos do terceiro guitarrista! O Ville pode tocar em alguns concertos aqui e ali, festivais e fins de semana e coisas assim, mas realmente não pode fazer tournées, porque não pode estar muito tempo ausente da Universidade onde ensina e quer manter o seu emprego. Eu compreendo perfeitamente o facto de ele não poder fazer tournées e é por isso que precisamos do terceiro guitarrista. Ter o Jani por perto é óptimo.


M.I. - A banda tem tido um alinhamento constante... e, há pouco, disseste que temias que a banda se separasse. Já imaginaste o quão complicado poderia ser?

Eu não quis dizer isso, porque não é como se eu estivesse com medo disso o tempo todo! Apenas disse que é um dos meus medos. É claro que penso quanto tempo irá durar e como vai acabar... será que algum dia um ou vários de nós irão decidir que não querem mais fazer isto, que estão cansados, velhos? Que querem fazer outra coisa com a vida ou quem sabe?! Quando chegar a hora de decidirmos que não é mais divertido, deixamos a banda, mas não imagino isso a acontecer num futuro próximo! Estamos muito, muito motivados e gostamos de fazer tournées, adoramos criar novas músicas, ainda temos a mesma paixão por fazer música e é óptimo ver que, apesar de termos mudado os nossos guitarristas, ainda soamos a Insomnium e os novos guitarristas se adaptaram muito bem ao som de Insomnium. Algumas pessoas comentaram que o Jani faria os Insomnium soar como os Sonata Arctica, mas não precisam de se preocupar com isso, porque o Jani é um tipo muito inteligente e um óptimo músico. Ele não tentará transformar os Insomnium noutra coisa, pois entende o que é a banda e quer fazer parte dela... na verdade, ele já é uma parte importante disto! Muitos jornalistas já comentaram que é raro uma banda mudar os compositores ou mudar o guitarrista e ainda soar ao mesmo. Estamos numa posição boa e feliz.


M.I. - Nos próximos meses, estarão em tournée... Quão complicado é combinar tudo?

O Jani, o Markus Valhalla e eu dedicamo-nos apenas à música, e não temos empregos diurnos. O baterista Markus ainda tem o seu emprego diário e estuda… Não tenho muita certeza de quais são os seus planos para o futuro próximo, mas acho que ele estava com ideias de tirar uma licença do trabalho ou sair totalmente, mas não tenho certeza de qual é a sua situação actual. Vamos ver o que ele fará a seguir, mas nós os três estamos a fazer apenas música, e isso permite-nos fazer tournées porque estamos totalmente livres de responsabilidades laborais.


M.I. - Portugal não tem data incluída no ciclo ao vivo deste álbum... por quê?

Infelizmente não, porque são os agentes e os promotores que organizam a tournée, por isso nem sempre podemos decidir onde vamos. Uma razão é que lugares como Portugal e Grécia estão nos cantos mais distantes da Europa e leva tempo para chegar e sair de lá, então essa é provavelmente uma das razões, basicamente esta é a única razão. Sempre tocamos em Portugal. No ano passado, tocámos aí, foram dois óptimos concertos e queremos regressar. Tenho a certeza de que regressaremos quando fizermos a tournée europeia número dois... nessa altura iremos a todos estes cantos e lugares onde não vamos agora. Há muitos lugares que não visitaremos nesta ronda, como a Inglaterra, a Rússia, os países do Bloco Oriental e Portugal, Grécia. Portanto, todos estes cantos ficam em falta, mas tocaremos lá em algum momento. Amigos portugueses não se preocupem, vamos vê-los de novo!


M.I. – O concerto de lançamento no Circus na Finlândia já está esgotado?

Bem, hoje de manhã ainda havia 49 bilhetes e, no dia anterior, havia 69, portanto se forem cerca de 20 bilhetes por dia, estará esgotado em três dias e faltam três semanas para o concerto. Por isso é muito, muito bom e é um local com capacidade para 1500 pessoas, é muito grande e é o maior concerto que já fizemos como cabeças de cartaz. Esgotamos todas as datas finlandesas com muita antecedência, portanto está tudo no bom caminho para nós.


M.I. - Os Insomnium existem há mais de duas décadas. Qual a lição mais valiosa que aprendeste nestes anos?

Oh pergunta difícil, difícil, difícil! Bem, a vida é estranha e estranhas e inesperadas coisas acontecem e não correm como planeado. Eu acho que a chave para ter sucesso na vida ou ter uma vida boa é a maneira como te adaptas a uma nova situação e mudas os teus planos, metas e objectivos. Se a nova situação exigir esse tipo de acção, eu fá-lo-ei. Com base na minha curta experiência de 40 anos, eu diria que, para qualquer ser humano, essa é a chave, porque há coisas boas e ruins que te podem afectar... coisas totalmente aleatórias, como pessoas que ficam doentes ou alguém que morre ou coisas grandes que acontecem e tu não consegues controlar e só precisas de te ajustar à nova situação, mudar o curso dos planos e continuar a viver e fazer o melhor que puderes. Eu acho que essa é uma das razões pelas quais os Insomnium ainda estão aqui a fazer música 20 anos depois, porque somos tipos teimosos e trabalhadores... essas também são qualidades que precisas para conseguires algo em grande. Ganhar a lotaria é uma coisa diferente, mas acontece raramente, portanto é melhor não contares com isso. É bom que estejas preparado para trabalhar no duro pelos teus sonhos para dizer que alcançaste tudo o que desejas.


M.I. - A nível pessoal, gostarias de alcançar algo mais ou estás exactamente onde gostarias de estar?

Estou numa posição muito boa agora que me posso sustentar com a música. Não preciso de sair de casa para trabalhar e espero manter esta situação o máximo tempo possível. Sou o tipo de pessoa que planeia sempre algo de novo. Ainda quero fazer música. Tenho vários projectos em andamento o tempo todo e estou sempre a planear algo no fundo da minha mente ou a fazê-lo activamente e este é o tipo de pessoa que sou! Nunca irei parar! Não vou me aposentar de fazer arte! Enquanto tiver energia e vida em mim, planearei coisas novas. Vejo sempre novas oportunidades e há tantas coisas que ainda não fiz, por isso não estou aqui apenas sentado, sentindo-me contente com a minha vida... é exactamente isto que quero fazer, fico feliz quando posso ir atrás dos meus objectivos artísticos, e tenho coisas novas que posso escrever. Estou realmente feliz por poder fazer isto, pois tenho tempo e posso fazer tournées sempre que quiser e passar os meus dias a fazer o que realmente sei e gosto.


M.I. - Deixa uma mensagem aos fãs portugueses e aos leitores da Metal Imperium. Que os Insomnium continuem a ter imenso sucesso!

Bem, meus amigos portugueses, voltaremos a tocar para vocês o mais breve possível. Já fizemos óptimos concertos em clubes e festivais muito agradáveis aí em Portugal, assim espero que no próximo verão possamos tocar num festival português! Se isso não acontecer, prometo que, na próxima tournée europeia, iremos a Portugal, porque sempre nos divertimos imenso, adoramos o povo português e é óptimo estar convosco. Não vos esqueceremos e iremos regressar de certeza! Obrigado!

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Entrevista por Sónia Fonseca