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Entrevista aos Via Doloris


Oriundos da Noruega, Via Doloris movem-se nas margens mais introspetivas e opressivas do black metal, explorando uma abordagem lenta, ritualística e profundamente atmosférica. 
No centro desta visão está Gildas, vocalista francês e principal força criativa do projeto, cuja interpretação vocal e escrita lírica evocam um black metal existencial, austero e emocionalmente devastador. Essa identidade ganha ainda mais peso no álbum de estreia, Guerre et Paix, com lançamento marcado para 20 de março, pela Season of Mist.
A reforçar este impacto está a participação de Frost, baterista de renome e figura incontornável da história do black metal norueguês, cuja performance confere ao disco uma dinâmica poderosa, precisa e ritualística, elevando Guerre et Paix a um patamar de autoridade rara para uma estreia.
Nesta entrevista, falamos com Gildas sobre a génese de Via Doloris, a construção desta identidade sonora singular, o processo criativo por trás do álbum.

M.I. - Olá Gildas, como estás? Tenho ouvido o novo álbum e é absolutamente fantástico. Obrigado por criares música tão poderosa. Mostraste duas linguagens musicais radicalmente diferentes na tua carreira: black metal por um lado e jazz pelo outro. Como é que uma pessoa canaliza identidades artísticas tão diferentes?

Essa é uma boa pergunta, porque eu próprio não sei muito bem. Ninguém é unilateral, todos temos vários lados. Pode-se dizer que é um pouco como o Dr. Jekyll e o Mr. Hyde, mas é mais do que isso. Também tenho interesses fortes noutros estilos: guitarra clássica, eletrónica…
Como músico ativo, no entanto, o metal e o jazz estiveram sempre no centro. Preciso de equilíbrio e variedade, porque aborreço-me com facilidade. Se fizer apenas uma coisa, normalmente não corre bem. Dito isto, o meu coração está definitivamente no metal extremo. O black metal foi a música com que cresci e o estilo com que me identifico mais.


M.I. - Via Doloris traduz-se como “o caminho do sofrimento”. Em que momento é que esta ideia deixou de ser apenas uma metáfora e se tornou uma necessidade musical?

Na verdade, as coisas aconteceram ao contrário. Começou com a música: a guitarra, as melodias, os arranjos. Depois vieram as letras e o conceito. Só depois de tudo estar feito é que surgiu o nome do projeto.
É como uma pirâmide: a música é a parte mais essencial, depois vêm as palavras e, por fim, o nome. Toda a música, os textos, a abordagem vocal… tudo estava terminado antes de eu escolher o nome Via Doloris.


M.I. - Descreveste este projeto como um espaço para dar forma ao que não pode ser dito. Achas que a música consegue aceder a verdades a que a linguagem não consegue chegar?

Sem dúvida. É isso que a música faz. Outras formas de arte dizem-te algo de forma muito clara: a pintura mostra-te algo que podes ver, a literatura guia a tua imaginação. A música não te diz nada de específico.
Tu crias o teu próprio mundo emocional a partir dela. A mesma música pode significar algo muito específico para uma pessoa e algo completamente diferente para outra. Via Doloris ajudou-me a expressar coisas que ainda hoje são difíceis de pôr em palavras.


M.I. - O título do álbum Guerre et Paix (Guerra e Paz) sugere uma forte dualidade conceptual. Qual é a ideia principal por detrás disso?

É uma coleção de sentimentos e atmosferas que passaram primeiro para a música. Depois escolhi textos que se adequavam a cada tema. A seguir, tentei encontrar o denominador comum e isso tornou-se uma alegoria da própria vida.
O caminho do sofrimento, a dor que vem de dentro e de fora. Neste álbum, Guerre et Paix  é sobretudo sobre o que acontece dentro de nós. Mas é aberto… algumas pessoas podem ler as letras como reflexões sobre o mundo exterior. Mesmo para mim, é algo amplo. No fundo, trata-se da tensão e dos desafios da vida.


M.I. - Há uma forte tensão entre escuridão e beleza na tua música. Vês-las como forças opostas ou como dois lados da mesma verdade?

Acho que podem coexistir na mesma canção, até no mesmo riff. Gosto de contrastes fortes. O título Guerre et Paix é o contraste máximo. Há muita luz no álbum, uma tentativa de alcançar algo maior. Não é apenas destrutivo, é também construtivo. Esse equilíbrio fez sentido para mim.


M.I. - A melodia é uma força motriz em Via Doloris. Porque foi importante para ti recuperar a melodia na música extrema?

Obrigado, fico mesmo contente por sentires isso. As pessoas desfrutam da música de formas diferentes. Algumas focam-se nas letras, outras no ritmo, outras no som e na atmosfera. Para mim, a melodia vem sempre primeiro. Toda a minha música favorita é, antes de mais, sobre melodia, seja simples ou complexa. Por isso, é muito natural para mim escrever música com uma identidade melódica forte.


M.I. - Vês os géneros como fronteiras, ferramentas ou simplesmente pontos de partida?

Quando comecei Via Doloris, estava muito focado em black metal rápido e agressivo. Foi assim que começou. Mas as coisas evoluíram rapidamente. Quis expressar-me de forma mais subtil, mais equilibrada.
O tema de abertura, Communion, reflete essa fase inicial: rápido e zangado. Depois disso, a música abre-se. Já nem tenho a certeza se é black metal, e sinceramente não me importa. Os instrumentos e o som fazem-no parecer black metal, mas se analisares os riffs, não há propriamente um riff de metal tradicional ali. Quem sabe para onde irá a seguir?


M.I. - Usas letras em francês, inglês e norueguês. Como é que cada língua desbloqueia emoções diferentes para ti?

O francês é a língua mais natural para mim, permite os textos mais subtis. O inglês funciona muito bem para temas mais cativantes como Communion ou For the Glory. A última faixa, Visdommens Vei, tinha de ser em norueguês por causa dos seus elementos tradicionais e da nudez da própria língua. O norueguês usa poucas palavras, frases curtas. Isso encaixou perfeitamente na música.


M.I. - Oslo tem uma ligação profunda à música extrema. Viver lá moldou a tua relação com a escuridão, a disciplina e o som?

Provavelmente sim, mas não consigo dizer exatamente como. Viver tanto tempo num país estrangeiro muda-nos. O clima tem algo de especial. Dito isto, sempre fui disciplinado e não socializo muito à volta de cenas musicais. Mesmo sendo músico a tempo inteiro, não é assim que escolho os meus amigos.


M.I. - Afastar-te dos Satyricon ajudou-te a redescobrir-te como artista?

De muitas formas, sim. Entrar nos Satyricon nunca fez parte de um plano a longo prazo, simplesmente aconteceu pouco depois de terminar os estudos. Durante anos, foquei-me sobretudo em tocar guitarra. No final da década de 2010 isso mudou. Passei a interessar-me mais por criar música do que apenas por tocar guitarra. Essa mudança levou diretamente a Via Doloris.


M.I. - Convidaste o Frost para tocar no álbum. O que é que ele traz que não pode ser replicado?

Ele é provavelmente o melhor baterista de black metal que existe. Traz som, atitude, fisicalidade e intensidade: o pacote completo.
Quando fiz as pré-produções do álbum, já o conseguia ouvir a tocar, mesmo tendo sido eu a escrever as baterias. Toquei com ele durante anos, por isso foi natural. Foi a minha primeira escolha e fiquei muito feliz por ele ter dito que sim.


M.I. - Tiveste algum receio que ele recusasse?

Não. Estava satisfeito com a música de qualquer forma. Claro que foi ótimo ele ter aceitado, mas não houve drama.


M.I. - Tocaste todos os outros instrumentos sozinho, certo?

Sim.


M.I. - A capa do álbum apresenta o mar. Qual é a ligação?

A natureza está profundamente ligada aos sentimentos e à música para mim. Sou da Bretanha, rodeado pelo oceano, e tenho uma atração pelo mar que não consigo explicar totalmente. A fotografia tem mistério e ameaça em primeiro plano, mas luz e paz ao fundo. Reflete Guerra e Paz — estar perto do abismo e, ainda assim, ver esperança.


M.I. - Vês Via Doloris como um projeto de álbum único?

Não. Já tenho vindo a trabalhar em novo material e ideias relacionadas. Ainda é cedo para dizer mais, mas não é um projeto de um só álbum.


M.I. - Foi difícil garantir um contrato com a Season of Mist?

Não foi difícil. Mostrei o álbum ao Michael há bastante tempo e ele gostou. Mais tarde apresentei-lhe os visuais e ele disse: “Vamos a isso.” Foi assim.


M.I. - Achas que o teu percurso ajudou?

Provavelmente ajudou, e a presença do Frost também ajudou. Acredito sinceramente que o álbum é honesto e bom, isso é o que mais importa para mim. O black metal mudou muito, especialmente para as gerações mais novas, mas boa música continua a ser boa música.


M.I. - Tens planos para tocar ao vivo?

Estou a analisar isso neste momento. Este tipo de álbum precisa de ser seguido por concertos, por isso terei de decidir em breve.


M.I. - Esperamos ver-te ao vivo em Portugal um dia. Para terminar, tens alguma mensagem para os nossos leitores? Muito obrigado pelo teu tempo.

Convido todos a ligarem-se profundamente à música. Não a encarem apenas como mais um álbum de metal extremo. Há muita honestidade emocional nela e acho que pode tocar as pessoas de uma forma diferente… algures entre intensidade e vulnerabilidade. Obrigado pelo interesse. Adeus.

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Entrevista por Sónia Fonseca