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Entrevista às Nervosa


Slave Machine, das Nervosa, soa a uma banda inteira a arrancar num novo capítulo com mais confiança e liberdade. O álbum mantém a chama thrash metal que sempre as definiu, mas acrescenta melodias mais sombrias, novas camadas vocais e uma atmosfera mais pesada. É agressivo, cru e dinâmico, mas também revela um lado mais maduro da banda... um lado que não tem medo de experimentar, sem nunca perder a sua essência.

M.I. - O Jailbreak saiu há 3 anos atrás. O que é que vocês têm feito desde então?

Muita coisa mudou desde o Jailbreak para cá. Foram 3 anos e cerca de 15 tours. O Jailbreak foi o primeiro disco comigo nos vocais. Eu estava num momento com muitas preocupações, questões, as quais eu não sabia se a minha voz iria conseguir durar uma tour inteira, se eu ia conseguir tocar e cantar. Portanto, foi um disco onde eu estava bastante insegura em vários pontos. 
Eu não tive tempo para me preparar, mas tinha todo esse momentum. Ao longo dos 15 tours deixei de estar insegura, e agora mudou completamente, depois de 15 tours a cantar, tocar, testar os meus limites e a conhecer-me como vocalista, temos um cenário completamente diferente, e neste disco, estávamos mais relaxadas, mais confortáveis e inspiradas. Hoje em dia, tudo é mais fácil, em todos os aspetos.


M.I. - Referiste que deram bastantes concertos e estiveram em tour desde 2024 até 2025. Como é que conseguiram encaixar tempo para a produção do Slave Machine?

Parece uma pergunta que é difícil de responder, porque nós iniciámos o processo de composição no início de 2024, um pouco antes da tour com os Decapitated, que também passaram por Portugal. 
Tínhamos uma ideia de produzir um EP com quatro músicas. Porém, a meio do caminho, pretendíamos lançar um disco e não um EP. 
Durante o ano, fomos compondo algumas coisas aqui e acolá. No final do ano, sentámo-nos para compor o resto e no início do tratamos dos detalhes e outras coisas. Eu foquei-me um pouco mais na voz e nas letras e em 2025, foi um ano difícil para nós. Tivemos 5 tours em 6 meses, e no meio dessas 5 tours, só tínhamos 20 dias para gravação.
Eu não te sei explicar, mas tivemos de acelerar, gravar o quanto antes. Lembro-me que até foi um processo muito tranquilo, muito confortável, porque também temos a mesma formação a compor o disco e a trabalhar em conjunto. Já nos conhecemos, sabemos a nossa dinâmica, sabemos o que são as Nervosa e o que precisamos de fazer. Pessoalmente, como vocalista, eu não tinha que me preocupar se a minha voz ia encaixar ali ou acolá. Eu até me senti mais confortável para testar outras coisas. Por isso, é que também tudo correu muito mais fácil do que o Jailbreak.


M.I. - Portanto, nesses 20 dias tiveram de cumprir o calendário, andar a correr também para produzir um novo álbum.

Sim, gravamos tudo e trabalhamos os detalhes finais, mas ficamos sempre a pensar o que podemos acrescentar. Eu gravei todas as vozes do disco e depois fiquei com essa ideia de “será que posso acrescentar outras vozes”? Falei com o nosso produtor, o Martin, e ele aceitou rapidamente a ideia.
Comecei logo a testar outras vozes. O Martin foi gravando tudo e usou todas as vozes, seja no background ou seja um pouco mais para a frente e conseguimos facilmente trabalhar bastante esse lado criativo.


M.I. - Uma pergunta, se calhar um tanto pessoal, ainda ficas nervosa ou ansiosa com a produção de um novo disco?

Não. Eu sei o meu papel. Por exemplo, para mim, eu tenho que treinar muito a guitarra para não ter que pensar na guitarra para conseguir entregar com a voz, por ter de tocar e cantar no disco. 
Algumas músicas foram muito desafiantes, principalmente a música do título do álbum, que é a Slave Machine. É a música mais difícil de tocar e cantar, porque tem muito detalhe e eu faço uma espécie de solo com a mão e canto uma coisa que não tem a ver com o que eu estou a tocar. É difícil de sincronizar, custou-me mais tempo, mas nada que não possa fazer. É uma questão de treino, treino, treino, treino, até eu ter que pensar o que estou a fazer com a mão e no final é totalmente automático. 
Ficamos mais ansiosas de tocar ao vivo, de curtir com as pessoas, de ver a reação delas, de ver toda a gente ali envolvida na música que construímos.


M.I. - Recentemente introduziram a tempo inteiro uma segunda baixista que é a Emily. Foi algo que as Nervosa sempre desejaram ou foi espontâneo?

A nossa primeira baixista, a Hel Pyre, não conseguia estar em tour o tempo todo. Isso foi um dilema para nós. Tínhamos de arranjar alguém para a substituir. Já conhecíamos a Emily, que era uma pessoa que já tinha tocado nas Nervosa há um tempo atrás, num concerto que nenhuma das baixistas podiam tocar. É uma pessoa que eu acompanho já faz um tempo, muito talentosa. 
Nós queríamos que fosse ela. E ela acabou por ir connosco num monte de tours no ano de 2024. Vimos que estava na hora de nos sentarmos para conversar, para ver o que íamos fazer, embora não pretendêssemos tirar a Hel, porque ela realmente gosta muito das Nervosa e quer ficar connosco. Ela estava em muitos tours, a dar o litro, mas havia algumas situações que eram muito desconfortáveis. Nos meet & greet com os fãs, ela questionava se devia ir ou não e era muito desconfortável, porque eu queria trazê-la connosco, mas também pensava se os fãs iam ficar confusos.
Contudo, chegámos à conclusão de termos dois baixistas oficiais. Fizemos os possíveis para manter toda a gente na banda e, até agora, está a resultar perfeitamente.


M.I. - Foi, sem dúvida, uma boa ideia. Em vez de escolher uma ou afastar outra, conseguiram o melhor dos dois mundos.

É uma questão de princípio da pessoa, de querer estar da pessoa, realmente gostar da banda e de se identificar com ela. Temos sempre como resolver se há essa possibilidade.


M.I. - O próprio vídeo da Slave Machine, na minha opinião, está incrível. Está fantástico. Neste caso, remontamos a uma sociedade um tanto distópica, meio orwelliana. Onde foi gravado o vídeo?

Gravamos aqui na nossa cidade, na Grécia, que se chama Trikala. Na verdade, todos os nossos vídeos gravamos aqui. É uma cidade no meio da Grécia, nas montanhas. Tem muita história, natureza, lugares abandonados e coisas assim. É o cenário perfeito. Exploramos todos os cantos desta cidade para as nossas gravações.


M.I. - Alguns membros da banda também são gregos. É um álbum, na minha opinião, bastante brutal, mas também um pouco mais melódico em comparação com os anteriores, certo? 

Sim, eu acho que o Jailbreak é também um álbum muito melódico, mas um melódico mais para o lado do heavy metal tradicional. 
Este novo disco é mais melódico, mas é um melódico mais obscuro por causa da voz, porque no Jailbreak eu cantei o disco inteiro com um vocal extremo. No novo, o disco já tem muita melodia limpa. Já tem várias camadas ali. Então, é um disco muito mais melódico nesse aspeto do que os anteriores.


M.I. - Podemos afirmar que as Nervosa estão a caminhar para uma nova fase, um novo estilo musical, ou mantêm a vossa essência de thrash metal com o heavy?

A nossa essência é o thrash metal e sempre será. Trouxemos, sim, uma evolução, abrimos um pouco mais as portas. 
Gostamos de nos desafiar, de desafios pessoais como músicos, e também gostamos de surpreender os fãs, de fazer algo diferente, porque quando pensamos num setlist, queremos entregar na perfeição. Não pretendemos que todas as músicas sejam thrash metal, mesmo que gostemos bastante.  Cada vez mais, gostamos de fazer essa mistura.
Portanto, tem algumas músicas que são puro thrash metal, outras músicas que são thrash metal com death metal, outras músicas que são um pouco mais heavy metal, outras músicas com um pouco de Groove e doom. Tens várias coisas. Gostamos de um setlist diferente e dinâmico. Há música que é para assistir, outra que é para entrar no moshpit, outra que é para abanar a cabeça. 


M.I. - É um álbum que, corrige-me se estou errado, também não conta com convidados especiais, certo? Há algum motivo em particular?

Não tivemos tempo. Foram aqueles 20 dias. Gravamos o disco bem em cima do prazo final de entrega. Estávamos no início do verão, em maio, e as bandas já estavam todas em tour, estavam todas muito ocupadas. Vamos deixar as participações ou os convidados especiais para um próximo disco. 


M.I. - Vão estar no Rock In Rio, ao lado de Bad Omens, Bring Me the Horizon e também Sepultura. Preparadas?

Ainda estou a processar a informação. Tocamos em 2019 e foi um concerto incrível. Tocamos ao lado dos Slayer, dos Anthrax, dos Sepultura, dos Helloween, dos Iron Maiden e Scorpions. Foi uma espécie de sonho e ter a oportunidade de voltar ao Rock In Rio 7 anos depois, eu enquanto vocalista, agora é completamente diferente. Foi uma notícia fantástica e estamos muito contentes.


M.I. - A minha última questão, se não fosses guitarrista e vocalista, qual era a tua profissão de sonho?

Uma boa pergunta. Seria a dona de um clube de motas e andaria pela estrada fora de moto. É a minha paixão. Sinto muitas saudades de andar de moto.

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Entrevista por André Neves