Numa edição apresentada em formato indoor, o Evil Live concentrou a sua proposta principal num único e excelente dia de concertos na MEO Arena. Antes disso, porém, proporcionou aos fãs um aquecimento de luxo na Sala Tejo, reunindo os já habituais Trivium e os irmãos Cavalera numa noite que, por si só, já justificava a deslocação de muitos aficionados do metal. Entre a celebração de um dos álbuns mais influentes da história do género e o regresso de uma das bandas mais populares do metal contemporâneo, havia razões mais do que suficientes para encarar esta data como um dos momentos altos do fim de semana.

A abrir a noite estiveram os Okkultist, uma das propostas mais promissoras da nova geração do metal extremo português. A sua identidade sonora assenta num death metal sombrio, ocasionalmente melódico, conduzido pela voz imponente de Beatriz Mariano, que não deixou de destacar o orgulho da banda por integrar o cartaz daquela noite na Sala Tejo. O concerto arrancou com "Death To Your Breed" e "Meet Me In Hell", duas composições que teriam servido como um excelente cartão de visita para quem ainda não conhecia o grupo, não fosse o som da sala dificultar a perceção de alguns detalhes. Seguiu-se "Teeth Of The Hydra", tema que conta originalmente com a participação de Fernando Ribeiro. Houve ainda espaço para a estreia ao vivo em Portugal do novo single "Electric Haze", poucos dias depois de a banda o ter, ao que tudo indica, apresentado ao público espanhol no Resurrection Fest. Para encerrar a atuação, os Okkultist recorreram à já habitual versão de "Sixpounder", dos Children of Bodom, e a "Sign Of The Reaper", tema que continua a afirmar-se como o mais conhecido da banda até ao momento. Fica uma nota claramente positiva para a prestação do coletivo nacional, que cumpriu plenamente a sua missão perante uma plateia recetiva, embora longe de demonstrar um entusiasmo particularmente efusivo. Talvez muitos dos presentes já tivessem a atenção centrada nos nomes que se seguiriam.

Seria, de facto, difícil competir com a expectativa gerada pelas duas propostas seguintes, ambas capazes de mobilizar um interesse muito particular junto do público português: os Cavalera, pela oportunidade de revisitar praticamente na íntegra um álbum incontornável da história do metal, e os Trivium, uma das bandas mais acarinhadas em Portugal quando se fala de metal moderno. O quarteto composto por Max Cavalera, Igor Cavalera, Igor Cavalera Jr. (filho de Max) e Travis Stone apresentou de forma poderosa um conjunto de temas que muito provavelmente nunca havia sido executado na íntegra, no mesmo concerto, pelos próprios Sepultura. Se algumas das composições de Chaos A.D. se tornaram presenças habituais nos alinhamentos da banda brasileira ao longo das décadas, outras permaneceram verdadeiras raridades em contexto ao vivo e foram agora trazidas a Portugal por aqueles que muitos consideram ter sido os principais arquitetos da identidade sonora do grupo. A ordem original das faixas não foi respeitada, uma opção que acrescentou alguma imprevisibilidade a um espetáculo cujo conceito era amplamente conhecido desde o primeiro momento. "Refuse/Resist", um dos maiores clássicos não apenas de Chaos A.D., mas também da história dos Sepultura e do próprio metal, foi escolhida para dar início às hostilidades. "Vamos detonar essa porra!", gritou Max Cavalera para a plateia portuguesa, que respondeu de imediato com cânticos, headbanging e saltos ao som do tema. Após agradecer a receção calorosa, Max deu as boas-vindas ao universo de Chaos A.D. antes de uma interpretação demolidora de "Slave New World". "Em nome de Deus, Amen", anunciou o vocalista para introduzir "Amen", uma das composições menos tocadas ao vivo ao longo dos anos. Seguiu-se "Propaganda", presença habitual nos concertos dos Sepultura e cuja eficácia em palco voltou a ficar amplamente demonstrada. O entusiasmo da assistência manteve-se elevado durante "Nomad" e "Manifest", duas interpretações que contribuíram para sustentar a intensidade de uma atuação que parecia ganhar força à medida que avançava.
Por esta altura, cerca de metade do álbum já tinha sido percorrida, embora alguns dos momentos mais aguardados permanecessem reservados para a reta final. Não poderia faltar "The Hunt", a versão dos New Model Army incluída em Chaos A.D.. A instrumental e tribal "Kaiowas" levou o público a iluminar a Sala Tejo com telemóveis e alguns isqueiros, criando um dos quadros mais marcantes da noite, antes de o peso regressar em força com "Clenched Fist". Já "We Who Are Not as Others", com o seu refrão repetitivo e contagiante, proporcionou mais um instante de participação coletiva. Pouco depois, Max avisou que "agora o bicho vai pegar", antecipando a explosiva "Biotech Is Godzilla", uma das faixas mais agressivas e emblemáticas do álbum. Sem permitir qualquer quebra de intensidade, a família Cavalera atacou de seguida "Polícia", versão dos Titãs. Após uma breve saída de palco, a plateia fez-se ouvir em uníssono, chamando pelo nome da banda. O regresso trouxe consigo "Territory", o clássico que ainda faltava ouvir e que foi recebido com enorme entusiasmo entre cânticos, saltos e muito headbanging. Quando Max perguntou se queriam mais, a resposta foi imediata e inequívoca. A recompensa surgiu sob a forma de "Troops of Doom", um presente especial para os seguidores mais antigos. "Chaos B.C." encerrou uma atuação de grande nível por parte dos irmãos Cavalera, que continuam empenhados em preservar o legado dos Sepultura e em reafirmar o papel decisivo que desempenharam na construção de uma das sonoridades mais influentes do metal das décadas de 80 e 90. Poucos concertos recentes em Portugal conseguiram reunir um conjunto tão particular de circunstâncias: a celebração de um álbum fundamental, a presença de alguns dos seus criadores e a oportunidade de escutar várias destas músicas num contexto raríssimo. Por isso mesmo, esta atuação tem fortes argumentos para permanecer na memória dos presentes durante muito tempo.
No entanto, havia ainda outro motivo de enorme interesse nesta noite: o regresso dos Trivium, cerca de um ano e meio após a banda ter apresentado Ascendancy na íntegra no Campo Pequeno, num concerto comemorativo dos 20 anos desse álbum. Se os Sepultura ajudaram a definir grande parte da identidade do metal nas décadas de 80 e 90, os Trivium deixaram uma marca igualmente significativa nos anos que se seguiram, afirmando-se como uma das referências maiores do metal contemporâneo. E foi precisamente Ascendancy que serviu de ponto de partida para uma discografia notavelmente consistente, responsável por consolidar o estatuto alcançado pelo grupo ao longo das últimas duas décadas. Desta vez, apesar da presença de quatro temas de Ascendancy, cuja força permanece inabalável, o espetáculo assumiu um formato mais próximo de um best of, revisitando vários momentos de uma carreira longa, influente e amplamente bem-sucedida. Como habitualmente, os Trivium demonstraram porque raramente protagonizam atuações abaixo do seu elevado padrão de qualidade. Ainda assim, a acústica da Sala Tejo voltou a revelar algumas limitações, prejudicando parcialmente a definição sonora de determinados momentos, enquanto a previsibilidade da setlist retirou algum impacto a uma atuação que, pelas circunstâncias, poderia ter assumido contornos mais especiais.
Matt Heafy revelou que a banda já tem um novo álbum concluído, com lançamento previsto para este ano ou para o próximo, anunciando igualmente uma futura digressão acompanhada por três bandas que classificou como excelentes. Talvez seja nessa altura que os Trivium apresentem novidades mais substanciais em palco. Não que lhes falte material para surpreender: poucos grupos da sua geração possuem um catálogo tão vasto e consistente. Ainda assim, nesta noite optaram sobretudo pelas escolhas mais previsíveis, fazendo com que o concerto se afirmasse mais como uma demonstração de competência e solidez do que como uma ocasião verdadeiramente excecional. Um dos exemplos mais evidentes dessa abordagem foi a ausência total de temas de In the Court of the Dragon, o mais recente álbum de estúdio da banda, editado em 2021. Já o seu antecessor, What the Dead Men Say, esteve representado apenas por "Catastrophist", que acabaria por se revelar um dos pontos altos da atuação. Além disso, os Trivium lançaram, em outubro do ano passado, o EP Struck Dead, composto por três faixas que também mereceriam alguma atenção em contexto ao vivo. Por outro lado, é fácil compreender as opções tomadas. Quando se tem no repertório temas como "Pull Harder on the Strings of Your Martyr", "Strife", "The Sin and the Sentence", "Down From the Sky", "Until the World Goes Cold", "Like Light to the Flies", "Throes of Perdition", "The Heart From Your Hate" ou "In Waves", entre outros, torna-se quase inevitável incluí-los no alinhamento. O tempo disponível acaba por deixar pouca margem para surpresas, estreias ou escolhas menos óbvias. Trata-se, afinal, de um problema que qualquer banda gostaria de ter: possuir um catálogo tão forte que dificulta a inclusão de material menos conhecido sem comprometer aquilo que o público espera ouvir. Os fãs presentes ficaram pouco preocupados com essas questões e desfrutaram de mais uma sólida demonstração da qualidade do grupo ao vivo. Embora o concerto não tenha atingido o estatuto de atuação memorável, esteve sempre longe de desiludir. Houve energia, competência e uma resposta calorosa por parte da plateia, elementos que contribuíram para manter o nível elevado até ao final da noite. Pelo meio, Matt Heafy apresentou o baterista Alex Rüdinger, que atuou com os Trivium pela primeira vez em Portugal. O vocalista aproveitou ainda para revelar o motivo da ausência de "Toy", explicando que este tinha um concerto marcado para a mesma noite. A verdade é que uma piada repetida demasiadas vezes tende a perder eficácia, e poucos pareciam prestar grande atenção à ausência do conhecido cantor português. Quanto a Rüdinger, cumpriu a missão com distinção, assumindo uma tarefa particularmente exigente: substituir o impressionante Alex Bent. A sua prestação foi segura e competente, correspondendo às exigências de um repertório tecnicamente desafiante e ajudando a garantir que a máquina Trivium continuasse a funcionar sem sobressaltos. Resta agora aguardar pela próxima passagem dos Trivium por Portugal, de preferência já acompanhada de novo material. Tendo em conta a popularidade que a banda continua a desfrutar junto do público português, dificilmente será necessário esperar muito tempo.
Matt Heafy revelou que a banda já tem um novo álbum concluído, com lançamento previsto para este ano ou para o próximo, anunciando igualmente uma futura digressão acompanhada por três bandas que classificou como excelentes. Talvez seja nessa altura que os Trivium apresentem novidades mais substanciais em palco. Não que lhes falte material para surpreender: poucos grupos da sua geração possuem um catálogo tão vasto e consistente. Ainda assim, nesta noite optaram sobretudo pelas escolhas mais previsíveis, fazendo com que o concerto se afirmasse mais como uma demonstração de competência e solidez do que como uma ocasião verdadeiramente excecional. Um dos exemplos mais evidentes dessa abordagem foi a ausência total de temas de In the Court of the Dragon, o mais recente álbum de estúdio da banda, editado em 2021. Já o seu antecessor, What the Dead Men Say, esteve representado apenas por "Catastrophist", que acabaria por se revelar um dos pontos altos da atuação. Além disso, os Trivium lançaram, em outubro do ano passado, o EP Struck Dead, composto por três faixas que também mereceriam alguma atenção em contexto ao vivo. Por outro lado, é fácil compreender as opções tomadas. Quando se tem no repertório temas como "Pull Harder on the Strings of Your Martyr", "Strife", "The Sin and the Sentence", "Down From the Sky", "Until the World Goes Cold", "Like Light to the Flies", "Throes of Perdition", "The Heart From Your Hate" ou "In Waves", entre outros, torna-se quase inevitável incluí-los no alinhamento. O tempo disponível acaba por deixar pouca margem para surpresas, estreias ou escolhas menos óbvias. Trata-se, afinal, de um problema que qualquer banda gostaria de ter: possuir um catálogo tão forte que dificulta a inclusão de material menos conhecido sem comprometer aquilo que o público espera ouvir. Os fãs presentes ficaram pouco preocupados com essas questões e desfrutaram de mais uma sólida demonstração da qualidade do grupo ao vivo. Embora o concerto não tenha atingido o estatuto de atuação memorável, esteve sempre longe de desiludir. Houve energia, competência e uma resposta calorosa por parte da plateia, elementos que contribuíram para manter o nível elevado até ao final da noite. Pelo meio, Matt Heafy apresentou o baterista Alex Rüdinger, que atuou com os Trivium pela primeira vez em Portugal. O vocalista aproveitou ainda para revelar o motivo da ausência de "Toy", explicando que este tinha um concerto marcado para a mesma noite. A verdade é que uma piada repetida demasiadas vezes tende a perder eficácia, e poucos pareciam prestar grande atenção à ausência do conhecido cantor português. Quanto a Rüdinger, cumpriu a missão com distinção, assumindo uma tarefa particularmente exigente: substituir o impressionante Alex Bent. A sua prestação foi segura e competente, correspondendo às exigências de um repertório tecnicamente desafiante e ajudando a garantir que a máquina Trivium continuasse a funcionar sem sobressaltos. Resta agora aguardar pela próxima passagem dos Trivium por Portugal, de preferência já acompanhada de novo material. Tendo em conta a popularidade que a banda continua a desfrutar junto do público português, dificilmente será necessário esperar muito tempo.Se os Trivium encerraram a noite com a consistência e a fiabilidade que lhes são reconhecidas, os Cavalera haviam já assegurado o seu momento mais irrepetível. Juntos, proporcionaram uma combinação rara entre legado e atualidade, entre a celebração de um passado fundamental e a afirmação de uma banda que continua a ocupar um lugar de destaque no presente do género. Mais do que um simples evento de aquecimento para o Evil Live, esta noite na Sala Tejo acabou por assumir identidade própria. Entre a afirmação dos Okkultist, a celebração histórica de Chaos A.D. e mais uma demonstração da solidez dos Trivium, o Warm Up Evil Live confirmou que, por vezes, os momentos que antecedem um festival podem ser tão relevantes e memoráveis quanto o próprio evento principal.
Texto por Mário Rodrigues
Fotografias por Paulo Tavares
Agradecimentos: Prime Artists













