The Tarot of the Bohemians – Part II, o novo álbum dos Heavenwood, é um regresso às raízes da banda, recapturando a alma e a autenticidade dos seus primeiros anos. A conversa da Metal Imperium com Ricardo Dias sobre este disco acabou por ser muito mais do que uma simples conversa sobre um álbum.
O Ricardo transforma cada resposta numa viagem, dada a profundidade das suas reflexões, e qualquer limite de tempo parece insuficiente para explorar todos os temas que este álbum merece. Ainda assim, mergulhámos a fundo na emoção na música, no processo criativo, na sua recuperação de um grave acidente, no simbolismo do Tarot e na forma como ele perspetiva tanto o presente como o futuro dos Heavenwood.
M.I. - Antes de mais, muitos parabéns pelo novo álbum. Está absolutamente fantástico. Confesso que sou da velha guarda e continuo a voltar aos primeiros discos das bandas que me marcaram. Não estava à espera de um álbum tão bom. Tenho-o ouvido em loop.
Muito obrigado. Fico mesmo contente por ouvir isso, foi precisamente essa a intenção. Fiz questão de gravar este disco da forma mais old school possível, sem recorrer a demasiados processamentos ou a essas facilidades que hoje existem. Tenho falado disso nas entrevistas porque há pessoas que sentem essa diferença. É difícil explicar, mas há uma entrega, uma humanidade que nem sempre encontras hoje em dia. Vivemos numa altura em que sai tanta música que, por vezes, acabamos quase imunes. Tento manter-me atualizado e ouvir as novidades, mesmo estilos que não são propriamente a minha praia, mas sinto muita coisa demasiado fria e digital. Depois acabo sempre por regressar aos clássicos.
M.I. -Também faço isso!
Pois. Posso estar a ouvir novidades no Spotify e, de vez em quando, ainda encontro algo que me surpreende, mas é raro. Quando quero simplesmente desfrutar de música, volto aos primeiros discos dos Paradise Lost, Testament, Metallica... Há ali uma diferença emocional muito grande. Não sei se isso é nostalgia ou não, mas a música tem esse poder de nos fazer viajar… e tanto nos leva para momentos felizes como para fases menos boas da vida. Funciona como uma banda sonora das nossas memórias.
M.I. - Já que falaste no Spotify, tenho de perguntar… o Diva desapareceu da plataforma. O que aconteceu?
Foi retirado e o Swallow também, porque estamos a preparar uma remasterização específica para as plataformas digitais. Também houve questões relacionadas com licenciamentos, por isso aproveitámos para fazer tudo de uma vez. Estamos a falar de discos gravados originalmente em fita, em 1996 e 1998. Embora depois tenham sido convertidos para CD, para streaming ainda podem soar bastante melhor. Curiosamente, quando a Larvae Records reeditou o Swallow, foi feita uma remasterização muito interessante. O engenheiro responsável tinha trabalhado anteriormente em discos do Carlos Paredes, e isso chamou-me logo a atenção. O objetivo era preservar ao máximo a sonoridade analógica, sem adulterar aquilo que faz parte da identidade do disco.
M.I. - Nem sempre as remasterizações conseguem isso.
Exatamente. Há discos em que continuo a preferir as versões originais. O importante é respeitar a personalidade do álbum. Quando se altera demasiado a sonoridade, quem conhece bem o disco estranha imediatamente. E não é aquela história de "primeiro estranha-se, depois entranha-se". Não. Estranha-se e pronto. Talvez isso também tenha a ver com a ligação emocional que temos às gravações originais. Aquela sonoridade já faz parte da nossa memória.
M.I. - Este novo trabalho acaba por ser quase um projeto a solo.
Não propriamente. A base das músicas e das letras parte sempre muito de mim, isso já acontece há muitos anos, mas este disco não foi feito sozinho. O baterista participou bastante, tanto na produção como na captação do som. Também contribuiu com algumas guitarras acústicas. Há ainda outros músicos convidados. Portanto, não foi um disco solitário. Depois, obviamente, estas músicas vão passar para palco. Vamos tocar ao vivo, mas não vou aparecer sozinho com uma guitarra como um "one man show". Há vários músicos envolvidos.
M.I. - Mas a estrada nunca foi a prioridade dos Heavenwood.
Nunca. Recebemos propostas para fazer digressões, mas nunca fui uma pessoa fascinada pela vida de estrada. Gosto de tocar ao vivo, claro, gosto de festivais e de concertos especiais, mas não me imagino nesta fase da vida a andar meses dentro de uma carrinha a percorrer a Europa. Sempre gostei mais da composição, da escrita. É um bocadinho como um escritor: escreve o livro e depois deixa-o seguir o seu caminho. Não sente necessidade de andar todos os dias a apresentá-lo em livrarias. Há músicos que nasceram para o palco. Eu respeito imenso isso. Mas identifico-me muito mais com o processo criativo.
M.I. - Em que momento percebeste que esta segunda parte tinha mesmo de existir? Já era uma ideia anterior ao acidente?
Sim. Alguns temas já existiam antes do acidente. Eu componho muito devagar. Faço as coisas conforme surge inspiração. Nunca fui um compositor de produzir por obrigação. Infelizmente, a minha inspiração nasce muitas vezes da melancolia. Não gosto de falar em sofrimento, porque parece demasiado dramático, mas a melancolia, a nostalgia, a perda... são sentimentos que acabam sempre por alimentar aquilo que escrevo. Ao longo dos anos aconteceram várias situações que inevitavelmente influenciaram a música. Perdemos o nosso baixista, uma pessoa que continuo a trazer comigo para todos os concertos, está sempre presente na minha memória. Depois há as relações, as desilusões, a componente espiritual, o lado esotérico, a mitologia... tudo isso acaba por fazer parte do universo dos Heavenwood.
M.I. - O Tarot continua a ser um elemento central neste trabalho.
Sim. A primeira parte centrou-se nos Arcanos Maiores. Nunca quis fazer todas as cartas porque seria praticamente impossível. A ideia nunca foi criar um conceito inovador, até porque outras pessoas já tinham trabalhado o Tarot, mas dar-lhe uma interpretação musical própria, quase como se cada carta tivesse a sua banda sonora. Interessa-me muito essa dimensão simbólica. O Tarot não é uma ciência exata. Vale aquilo que cada pessoa interpreta. E é precisamente isso que me fascina.
Sempre tive curiosidade por figuras como Papus, Helena Blavatsky ou Manly Palmer Hall. Eram pessoas que tentavam compreender aquilo que existe para lá da explicação puramente racional. Gosto dessa ideia de reconhecer que nem tudo consegue ser provado cientificamente.
M.I. - O acidente acabou inevitavelmente por marcar este processo?
Sem dúvida. Foi um acidente muito grave e demorei cerca de quatro anos a recuperar. Ainda hoje existem limitações, mas estou incomparavelmente melhor do que aquilo que se previa. Acabou por ser mais uma demonstração de resiliência. Durante a recuperação mantive sempre uma projeção mental muito forte sobre aquilo que queria fazer no futuro. Acho que isso é importante. Faço exatamente o mesmo quando componho. Primeiro construo tudo na minha cabeça, tenho quase um estúdio inteiro dentro de mim. Depois chega a parte difícil… transformar essa ideia em realidade, porque existem sempre limites humanos e físicos. Mas acredito muito nesse exercício de visualizar os objetivos.
M.I. – Houve duas listening sessions, uma no Porto e outra em Lisboa. Como correram?
Muito bem. Mais do que o número de pessoas presentes, o que me marcou foi encontrar fãs antigos e também gente muito nova. Isso emociona-me, porque eu também já estive desse lado e sei o significado que pode ter conhecer alguém cuja música nos acompanha. As sessões foram muito humanas. As pessoas fizeram perguntas, partilharam histórias de há vinte ou trinta anos, lembraram concertos, episódios que eu próprio já não recordava. Isso vale muito mais do que qualquer perspetiva comercial.
Também gostei de ver famílias inteiras presentes. Houve pais que levaram os filhos e isso é bonito, porque ajuda a perceber que o metal também é comunidade. Sempre senti isso. Podemos ir sozinhos a um concerto de metal e dificilmente nos sentimos sozinhos. Acabamos sempre por conhecer alguém. Durante muitos anos o metal foi alvo de preconceitos, mas quem faz parte desta comunidade sabe que existe um enorme espírito de união. E quero levar estas sessões a outras regiões do país. Heavenwood sempre teve seguidores um pouco por todo o lado e gostava de lhes prestar esse reconhecimento.
M.I. - Este álbum encerra um ciclo iniciado há quase uma década. Quando terminaste este capítulo sentiste mais peso ou mais liberdade?
Liberdade. Sentia que tinha um compromisso comigo próprio, não queria deixar esta história incompleta. Este disco não nasceu num ano, tem muitos anos de trabalho. Só as gravações demoraram praticamente um ano. Houve tempo para experimentar sonoridades, repetir takes, trabalhar cuidadosamente a mistura. Também foi um enorme desafio trabalhar com o Niko Krauss. Ele vem de uma realidade muito ligada a sonoridades modernas, sobretudo metalcore, enquanto eu procurava um equilíbrio entre esse lado contemporâneo e uma estética claramente vintage. Foi esse contraste que quis construir. O mesmo aconteceu com a componente visual. Demorei bastante tempo até conseguir trabalhar com a artista que pretendia para a capa. Toda a gente dizia que o processo estava parado por causa da imagem, mas eu tinha a certeza de que tinha de ser aquela artista. Hoje olho para trás e todas essas dificuldades já fazem parte da história do disco.
M.I. - Tinhas a certeza de que tinha de ser a Naya Kotko a fazer a capa. O que viste no trabalho dela que mais ninguém conseguia transmitir?
A visão artística dela, a componente simbólica que existe nos trabalhos que apresenta. Posso dizer que não aprecio tudo o que ela faz, mas mais de 90% do trabalho dela toca-me profundamente. Foi aquela sensação de veres algo e identificares-te imediatamente. Neste caso, identifiquei-me não só comigo próprio, mas também com o conceito do álbum. Na altura senti que aquela imagem era a cara do disco, a sua porta de entrada, a primeira coisa que iria despertar curiosidade nas pessoas para quererem perceber o que estava ali representado musicalmente. Ela expressa-se através da imagem, e achei muito interessante a forma como consegue juntar vários universos: a tipografia, a ilustração e toda a composição visual. A capa está cheia de simbolismo.
Além disso, há elementos que me dizem muito pessoalmente. Desde pequeno que tenho uma ligação especial ao mar, pela força e pela tranquilidade que transmite. O mar está ligado às emoções, às marés, às fases lunares. Depois tens a espada, que simboliza conhecimento, luz, sabedoria. Tudo isso estava presente na arte que ela apresentou, tanto na capa como na contracapa. Tive imensa dificuldade em escolher o que ficava à frente e atrás. Há três figuras na contracapa que também têm um significado simbólico para mim. A tríade pode representar o passado, o presente e o futuro, por exemplo. Para muitos poderá não significar nada, mas para mim é uma forma de comunicação, uma comunicação muda.
Hoje em dia existem muitas formas de comunicar. As pessoas leem cada vez mais na diagonal e somos constantemente bombardeados por estímulos visuais. Uma capa pode ter múltiplas interpretações, tal como a música. Se apresentares a mesma música a dez pessoas diferentes, vais obter dez leituras diferentes. E isso é fascinante.
M.I. - Numa altura em que parece haver cada vez menos capacidade para interpretar o que se lê ou se ouve, como explicas que tantos jovens, como os que encontraste nas sessões de apresentação, se continuem a interessar pelos Heavenwood?
Essa é uma boa pergunta. Acho que existem várias respostas possíveis, mas acima de tudo tem a ver com a personalidade e com a curiosidade de cada pessoa. Há jovens que entram pela componente musical, pelo impacto sonoro, pela emoção que a música lhes provoca; outros são mais curiosos e vão querer aprofundar, ler as letras, perceber os conceitos; outros ainda vão interessar-se pelo lado técnico: como foi gravado, que equipamentos foram usados, como foi produzido.
Para mim, o importante é que exista uma porta de entrada. Se entrou, ótimo. Não interessa se entrou pela porta, pela janela ou pela chaminé como o Pai Natal. O importante é que entrou. O pior é quando não entra. Quem escreve e compõe música procura sempre criar uma ligação. Sentir que houve qualquer coisa que fez uma pessoa parar um pouco e dedicar algum tempo àquilo que criámos. E hoje isso é cada vez mais difícil porque toda a gente vive sem tempo e sem paciência.
Ainda há pouco tempo estava a brincar com o Manuel Fernandes, dono da Bunker, e dizia-lhe que, se calhar, o próximo disco devia ter dez músicas de nove segundos cada. Assim a malta ouvia tudo num minuto e meio e já estava despachada. Claro que era uma piada, mas reflete um pouco a realidade atual. Hoje lançar um disco é um enorme desafio. Há uma quantidade absurda de música disponível e o tempo das pessoas é cada vez mais limitado. Por isso, quando alguém ouve, recomenda, partilha ou aparece num concerto, isso tem um valor tremendo.
M.I. - Se tivesses de resumir este novo álbum numa única ideia, qual seria?
Resiliência, porque a resiliência engloba muitas outras coisas: acreditar, ter fé, dedicação, compromisso, foco. Cada vez mais precisamos de ser resilientes. Tudo à nossa volta está em movimento. Hoje faz sol, amanhã chove. Hoje corre mal, amanhã corre bem. O importante é manter o foco naquilo que queremos alcançar e saber alinhar-nos com o momento certo. A sorte também é importante, mas acredito muito naquela ideia de que quanto mais se trabalha, mais sorte se tem. As coisas raramente caem do céu.
Para mim, há também uma questão muito importante que é a liberdade. A liberdade artística. Não gosto da ideia de criar música condicionado por tendências, modas ou prazos. Este disco nunca poderia ter sido feito dessa forma. Cada tema segue o seu próprio caminho e a sua própria lógica. O mais difícil é sempre conseguir colocar o abstrato dentro de uma estrutura concreta. É como cozinhar um prato complexo: todos os ingredientes têm de funcionar em conjunto. E isso exige tempo. Tal como um bom vinho precisa de tempo para amadurecer, a música também precisa. E os ouvintes também precisam de tempo para a absorver.
M.I. - Há discos que à primeira audição não nos dizem nada e depois acabam por se tornar fundamentais. Já te aconteceu?
Muitas vezes. Há discos que hoje considero clássicos absolutos e que, da primeira vez que ouvi, não me disseram rigorosamente nada. Isso acontece porque ouvir também é um processo de comunicação. Se não escutarmos verdadeiramente, dificilmente vamos compreender.
Hoje em dia é complicado porque há tanta música disponível que dar várias oportunidades a um disco significa deixar de ouvir outras coisas. Mas acredito muito nisso. Ouvir, deixar assentar, voltar a ouvir. Só assim se consegue perceber realmente uma obra.
M.I. - Em 2016 lançaste a primeira parte desta narrativa inspirada no Tarot. Dez anos depois, a tua forma de interpretar essas cartas mudou?
A verdade é que a principal coisa que mudou foi a forma como olho para alguns aspetos da produção. Por exemplo, hoje talvez desse uma roupagem sonora diferente à primeira parte. Mas, ao mesmo tempo, aquela produção acabou por lhe dar uma identidade muito própria.
É como acontece com alguns discos clássicos. Há álbuns dos Paradise Lost, por exemplo, cujo som muita gente critica e eu adoro precisamente por causa disso. Se lhes mudassem completamente a produção, provavelmente perderiam parte da sua magia. Às vezes acontece o mesmo com os discos de black metal mais antigos. Tecnicamente não eram perfeitos, mas tinham personalidade.
Por isso, embora pense que certas coisas poderiam soar de forma diferente hoje, também acredito que nem sempre vale a pena mexer no passado. Aquilo foi o que foi e pertence ao momento em que foi criado.
M.I. - Falaste em voltar aos palcos. Já há planos concretos?
Sim. Antes do final do ano haverá uma apresentação muito especial no Porto. Mais do que um simples concerto, quero que seja uma celebração. Um encontro entre diferentes gerações de ouvintes. Um momento importante para a banda e para quem nos tem acompanhado ao longo destes anos.
Depois haverá também Lisboa, porque têm surgido muitos pedidos. Inicialmente a ideia era fazer apenas um espetáculo este ano e depois pensar no seguinte, mas as coisas estão a evoluir naturalmente. Temos agora uma agência de booking norueguesa a trabalhar connosco e acredito que novas oportunidades vão surgir. Tudo com calma, passo a passo.
M.I. - E a Mighty Music dá-vos liberdade total para seguir esse caminho?
Sim. Curiosamente, quando comecei a trabalhar neste disco estava totalmente focado no lançamento. Nem sequer tinha pensado em concertos ou encontros com fãs. Mas nas conversas com a editora surgiu essa ideia, nunca como obrigação, mas como uma possibilidade. E comecei a perceber que talvez estivesse a ser demasiado egoísta ao pensar apenas no disco. Aquilo que fazemos não é só para nós. Também pertence às pessoas que acompanham a banda. Por isso faz sentido proporcionar esses momentos de partilha. Daí terem surgido estas apresentações e estes encontros. No fundo, é uma forma de agradecer a quem continua desse lado.
M.I. - Ricardo, muito obrigada pelo teu tempo. Espero ver os Heavenwood ao vivo em breve.
Obrigado eu. Espero que sim. Será já para o final do ano.
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Entrevista por Sónia Fonseca












