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Entrevista aos Moonspell



A fusão perfeita entre o dark metal e o rock gótico, o 13.º álbum de estúdio dos Moonspell combina o antigo com o moderno. A banda portuguesa tem vindo a moldar o seu som ao longo de três décadas, criando álbuns mais agressivos, experimentais e melódicos. Far From God é o resultado final de uma banda que não estagna nem soa ultrapassada, e que recupera a tradição portuguesa, aliando-a a algumas sonoridades góticas modernas e influências de post-punk.

M.I. - Ultimamente, o Museu de Lamas tem sido um dos ex-líbris do heavy metal nacional. Algum motivo em particular pela escolha do local para a vossa sessão fotográfica?

Para já, podemos falar da beleza associada ao local; a forma como a exposição está curada para um disco de tendências mais góticas. É um local fantástico. 
Nós pensámos e até tirámos fotografias noutros locais, mas também devo dizer que a simpatia da diretora e a abertura por parte dela facilitou a nossa sessão fotográfica. Eu sei que os Gaerea e os Tarantula, entre outras bandas também lá marcaram presença musical e deslocaram-se até lá só para tirar fotografias e, no nosso caso, fomos extremamente bem recebidos e acho que as fotografias ficaram incríveis. 
Muita gente nos tem perguntado que sítio era aquele em que tirámos aquelas fotografias, e fazemos um pouco de promoção ao Museu de Lamas, para que as pessoas também o visitem, porque é realmente um espaço incrível. O pátio interior tinha tudo a ver com o nosso disco. Foi um achado.


M.I. - Os Moonspell atravessaram várias eras musicais. Temos o Wolfheart, o Irreligious, Sin/ Pecado e até mesmo o Hermitage. Se tivesses de encaixar o Far From God num destes períodos, qual seria?

Uma boa pergunta. Nós fomos fazendo discos. Os nossos discos são um bocadinho ao sabor da pena do espírito do tempo, como os alemães e o conceito do Zeitgeist. 
Já fizemos discos mais esperançosos, outros mais melancólicos, uns mais agressivos e outros mais calmos. Já não se enquadram muito em décadas. Atualmente, penso que este disco, musicalmente falando, é distinto, porque pode haver dois ou três discos muito diferentes numa só década. 
Julgo que este disco musicalmente tem o seu lugar em outros discos que já tivemos oportunidade de compor como o Irreligious, por causa da sua simplicidade, e da sua fusão muito imediata entre metal e rock gótico, mas também vai beber um pouco do Darkness and Hope, que, por exemplo, também é um disco que eu considero que tem algum cabimento de mencionar aqui. 
Temos também algumas partes do Extinct. Felizmente, os Moonspell já fizeram muita música e como tal, apesar das nossas influências serem presentes e estarão sempre presentes connosco, acho que já podemos ir à nossa própria discografia e recolher alguns elementos que nos ajudem a fazer a nossa própria música. Portanto, é um disco enquadrado na história musical dos Moonspell, mas é um disco desta década, porque, apesar de haver algum classicismo, penso que também se trata de um disco moderno, uma promoção e produção modernas e de uma banda que o faz entre 2025 e 2026, devido à sua composição.


M.I. - Este álbum soa-nos um pouco a uma mistura do Irreligious com uma pitada de post-punk, mais moderno. Em que se basearam na conceção do Far From God?

Para além de retirarmos elementos dos Moonspell, há um disco de uma banda que é muito importante que é o disco dos Tribulation, o Sub Rosa in Aeternum, de 2024. Isto porque um amigo meu telefonou-me quando este disco saiu a perguntar-me se eu estava a cantar com eles. Fiquei curioso, porque de facto não cantei com os Tribulation, não tinha sido convidado. 
Gosto muito desta banda sueca, escutei o álbum e é um disco de puro metal gótico para mim, um dos melhores que se fizeram dentro do metal gótico de sempre e possivelmente nesta era em que o metal gótico estava muito Eurovisão: pouca dor, pouco amor, pouco vampirismo. Eu gostei muito do que eles fizeram e até me lembro de comentar com o Pedro Paixão e com o Ricardo Amorim que tínhamos que fazer um disco assim. Ainda não estávamos a pensar fazer, porque se os Tribulation fazem um disco destes, imaginem os Moonspell com a tradição que têm neste estilo musical e, por fim, deixamos a ideia assentar.
Tínhamos muitas dúvidas na direção que havíamos de tomar, tínhamos que fazer um disco mais extremo, tínhamos que fazer um disco mais industrial, pois havia muitas oportunidades a serem aproveitadas. Porém, acho que a sensação da banda, desde a música que nós ouvíamos, as coisas que líamos e que estávamos também a ver de alguma maneira, um pouco o revivalismo do movimento gótico, não no metal, com bandas mais recentes, como os Twin Tribes, os French Police, entre outras. Eu gostei muito dessas tendências, mas nós viemos de outro quadrante. E foi assim que tomámos a decisão e esta foi muito importante de ser tomada, nomeadamente de enquadrar este estilo, porque de alguma forma descobrimos rapidamente que é um estilo que nos é bastante natural. Há estilos que fazemos, tipo do Hermitage, que nos é um bocadinho mais diferente, temos de rebuscar mais, temos que experimentar mais e nós queríamos fazer um disco que não fosse muito experimental. 
Estávamos um bocado na ressaca do Hermitage e queríamos fazer um disco de canções que não tivesse muitas camadas, que até tivesse alguma simplicidade na sua escuta e penso que esse é o resultado final do Far from God, e as pessoas que têm gostado dele têm gostado disso. Falamos, sem dúvida, da sua simplicidade, da proposta que nós fazemos, quer a nível de produção, quer a nível de composição.


M.I. - O vídeo do primeiro single, “Far From God”, transmite-nos uma nova faceta dos Moonspell, com grande ênfase num novo classicismo, onde os reinos celestial e terrestre se cruzam. O conceito foi retirado de um filme?

O vídeo foi retirado de vários filmes. Penso que o filme mais óbvio será o Nosferatu, do Robert Eggers, do ano de 2024, mas também muito por causa do preto e branco, um fator bastante utilizado até em filmes mais antigos.
O primeiro Nosferatu é do F. W. Murnau, é dos anos 20, que tinha que ser obviamente a preto e branco, o Murnau é um grande influenciador da escola alemã, antes de ir para os Estados Unidos para fugir ao regime nazi, ele fez filmes incríveis como por exemplo o Fausto e o Nosferatu, por exemplo, e tinha muito a ver com essa estética, mas também com um filme que agora vai ser restaurado em 4K, que é o The Devils, do realizador Ken Russell. É um filme que foi proibido durante vários anos.
Quando descobri o filme, comentei com o Pavel e disse-lhe que ele seria o realizador e trataria também da fotografia, mas eu queria um vídeo mais clássico em que houvesse ali uma mistura entre um certo catolicismo, como a figura do padre, mas também um certo vampirismo. Não se percebe muito bem o que é que se está a passar ali. Percebemos que é um ambiente religioso, que há uma figura tutelar, que é o padre, há uma banda a tocar e, se não estou em erro, temos 3 freiras. Portanto, há uma pequena ação a decorrer. Não é um filme completo, mas sim um pequeno filme, que nós gostámos muito de trabalhar.
 Acho que o resultado do vídeo foi muito bom. As pessoas reagiram muito bem, já tem mais de 300.000 visualizações só no YouTube. Foi um vídeo que cresceu muito rápido e nós queríamos também subir a fasquia. Temos vídeos muito bons também no Hermitage. Aliás, nós sempre apostámos muito na produção dos nossos videoclipes. Temos alguns que se tornaram clássicos, como “Licanthrophe”, “ Nocturna” e por aí fora. Acho que tudo neste novo disco tinha que ter mais qualidade, mais visual, ser melhor a nível estético, porque o disco tem uma tal importância para nós. Queríamos também incorporar todos os aspetos do disco, desde a capa à produção que fossem bastante generosos que as pessoas tivessem a ver e que gostassem ou não, mas que admitissem. No fundo, creio que o “Far From God” é um dos nossos melhores vídeos até agora e adoro o facto de ser em preto e branco. Não temos muitos vídeos a preto e branco. Acho que até temos o “White Sky”, uma estética completamente diferente, mas realmente dá aquele efeito que nós procurávamos mais vampiresco, mais religioso também e está muito bem captado no vídeo.


M.I. - A música “Reconquista” remete-nos um pouco para o 1755, mais cru e até mesmo patriótico, ou é mera coincidência?

O título dá que pensar, porque tem mais a ver com o álbum e não tem muito a ver ou quase nada a ver com o movimento histórico da Reconquista, que formou as fronteiras do nosso país.
Até há uma certa provocação para as pessoas, porque para já a palavra “Reconquista” tem sido muito utilizada ultimamente de uma forma errada por partidos de extrema-direita. Até há um movimento chamado Reconquista. Vários amigos meus disseram-me para não me meter por estes caminhos e eu sempre pensei esta música assim, ainda o partido não existia. Por isso, nós não podemos permitir que essas pessoas se apropriem das palavras.
Assim, a nossa música não fala de todo o movimento histórico da Reconquista, nem de um novo movimento de Reconquista, de uma nova cruzada para expulsar os árabes, nada disso. Na Idade Média, também quando houve a Reconquista, iniciada pelo D. Afonso Henriques, não se falava exatamente nesse movimento, mas quer dizer, recuperarmos alguma coisa. Eu acho que os Moonspell têm esta tradição das últimas músicas serem um bocadinho mais cruas. Falamos da “Alma Mater”; “Full Moon Madness”; “The Future is Dark” e acabam por ser um pouco autobiográficas, porque nós queremos sempre passar a mensagem de que estar nos Moonspell é uma coisa fantástica, embora nada se faça sem sacrifício.
Se as pessoas tiverem o cuidado de ler a letra, vão ver que é uma letra muito parecida até com as vibes da “Full Moon Madness”. Nós, os fãs, a estrada, passo a passo a reconquistarmos o nosso lugar ou aquilo que nós pensamos ser o nosso lugar merecido na cena e no coração dos fãs. É uma música que transmite unicamente esse sentimento, não tem mais nenhuma leitura. Também lá fora têm-me perguntado muito sobre este título. Claro que o 1755 é um álbum sobre história e quando encontrarmos outro tema assim tão espetacular iremos fazer outro, mas a “Reconquista” é um tema sobre os Moonspell, sobre a nossa história.


M.I. - Fala-nos da faixa “Lasthory”, que vem no boxset.

São demos. A “Lasthory”. Nós não produzimos muito para este disco. Não queríamos fazer muitas músicas. Depois, quando começamos a comportar, tivemos aquele hiato todo desde o Hermitage, com os discos, com a crise criativa, com o Opus Diabolicum, com os concertos, e os concertos do Wolfheart, também chegamos a fazer depois uma maquete, uma demo, e na box pediram-nos um conteúdo extra. 
Eu sabia que vários dos meus artistas preferidos, não só do metal como de outros estilos de música, têm lançado até em vinil as demos, que é um período muito engraçado porque é possível vermos as canções de onde vieram. A “Lasthory” é a “Reconquista”, sem a linha de voz, sem a versão final. É como se fosse um resquício e as várias outras canções que têm esses nomes até um bocado curiosos, são o que a gente chama os working titles, ou seja, que são nomes que o Pedro e o Ricardo estão ali à pressa para não se esquecerem de no computador guardarem essas versões. Mas as canções dos Moonspell só começam verdadeiramente a assumir também a sua forma mais final quando eu chego lá com uma letra e com um nome e a partir daí a história muda, e as canções começam a tomar forma e começam a ter esse sentimento que é curioso.


M.I. - Portanto, pouco relacionado com a banda de black metal Bathory?

De certa forma, é verdade, está relacionado com Bathory, porque a própria música “Reconquista” tem uma grande influência de Bathory e o Pedro, provavelmente nos riffs que fez, tem aquele sentimento de Crepúsculo dos Deuses, que tem também essa música da própria linha de voz. Tem um bocado esse sentimento e foi por isso que ele lhe tem chamado dessa maneira, mas lá está, normalmente são coisas que o público nem vê, são coisas a que nós nos referimos internamente, mas penso que por isso é que a box também tem algum interesse com esse material bónus. Essa viagem ao universo, um bocadinho mais privado, que nós fazemos quando fazemos pré-produções ou quando gravamos maquetes no nosso próprio estúdio.


M.I. - Novamente, a mestria artística do Eliran Kantor na capa do disco. Em vez de uma alegoria a uma divindade, uma dualidade entre o amor e a perda. Foste tu que escolheste a capa?

Não, nem me atrevia. O Eliran é um artista fantástico. Eu contactei-o porque queria muito trabalhar com ele já em 2023, nem sequer tinha o disco pensado, nem sequer tinha o nome do disco, mas de alguma forma queria a colaboração dele nos Moonspell. 
O Eliran também já conhece os Moonspell há muito tempo, já nos viu ao vivo. Ele é originalmente de Israel, vimo-nos lá ao vivo também, em Telavive. Vimo-nos também na Alemanha, onde ele reside atualmente, e nós fomos trocando algumas ideias. O nome do disco é este, mas depois o nome mudava, etc. e ele nunca me enviou absolutamente nada. Eu é que lhe ia enviando quadros de que eu gosto, que ia fazendo numa pesquisa na Internet, e ia enviando e ele não me respondia nem que sim nem que não. Eu até começava a pensar “não sei o que é que se vai passar”. Por isso, ele também é uma pessoa que bastante paciente. Estávamos a aproximar-nos quase do prazo de entregar a capa e eu disse-lhe que não gosto nada de apressar e disse-lhe que tínhamos mesmo que concluir este processo. Ele mandou-me a capa do Far From God, a preto e branco. De resto, os elementos estão todos incluídos, o tratamento de cor e disse-me que era uma peça que ele já tinha há algum tempo e estava à espera da banda certa para tirar do arquivo. Eu fiquei doido com a capa. Acho que tem tudo a ver connosco. Eu não conseguiria conceber a capa assim, porque eu não sou um artista gráfico, nem um artista plástico. Ele não queria uma capa com uma cruz, não queria um homem e uma mulher com uma cruz, porque os Moonspell são muito mais metafóricos, muito mais poéticos que isso e ele explicou a capa como a figura principal que ele queria, que é uma figura muito forte na nossa cultura, neste caso o beijo. E realmente pode ser um beijo de despedida ou pode ser um beijo de atração para a figura masculina da capa vir para o pé da guilhotina ou uma sentença de morte, mas isso nunca saberemos. 
É um quadro que pausa um certo momento e o Eliran disse-me que o Far From God fala nas suas várias letras de um certo conflito e de um certo afastamento. Era isso que eu queria representar e acho que ficou fantástico. Acho que é das melhores capas dos Moonspell, uma capa completamente inesperada. A única coisa que eu queria e que ele fez foi fazer uma versão sem o logótipo, de modo a termos a capa completa sem logótipo. Os outros discos da Napalm Records têm o logótipo. Eu queria algo que se pudesse emoldurar e que se pudesse pôr num museu, como por exemplo no Museu de Lamas, e as pessoas passarem por aquilo e verem que é mesmo muito mais do que uma capa do disco, que é uma obra de arte.


M.I. - Temos também a celebração dos 30 anos do Irreligious. Sem dúvida, um marco importante na vossa carreira.

Vamos ter vários marcos. Nós tocamos sempre o Irreligious. Acho que é um disco que sobreviveu muito bem ao teste do tempo. Tem canções magníficas que eu gosto particularmente, desde a “Opium”, a “Full Moon Madness” que são sempre presenças habituais no nosso disco primeiro e último, mas também chegamos a tocar a “Herr Spiegelmann”, também tocamos muita a “Mephisto”. E é curioso porque agora fazemos um dos álbuns mais de metal gótico da nossa vida no ano em que o Irreligious comemora 30 anos. Estamos mais do que preparados e isto vai começar a acontecer muito em Moonspell. No ano passado foi Wolfheart, este ano é o Irreligious, daqui a 2 anos é o Sin/ Pecado e por aí fora. Eu acho que não vamos cair no erro de fazer muitos concertos ou só concertos retrospetivos, mas de vez em quando vamos tocar esses repertórios na íntegra ou fazer novas edições, porque não nos podemos esquecer que este também é o nosso legado e uma banda nasce sempre ou sobrevive sempre de uma conjunção entre os três tempos ou pretéritos que é o passado, o presente e, claro, o mais importante o futuro. Eu acho que o futuro também se constrói um bocado da mistura das nossas decisões e do que fomos documentando a nível de discos durante todos estes 34 anos. É um grande marco na nossa carreira e agora temos discos que estão a comemorar também essa etapa, que é uma coisa com que, às vezes, eu não consigo muito bem lidar. Às vezes, parece-me surreal demais eu ainda lembrar-me tão bem dos tempos do Irreligious, os concertos com os Type O Negative, Samael e Rotting Christ, e parece até que passou rápido. Estamos a falar de pelo menos 30 anos destas músicas que nos têm acompanhado durante uma vida inteira.


M.I. - Se tivesses de eleger três discos que fomentaram a produção de Far From God, quais seriam?

Sendo honesto, tem que ser o dos Tribulation, o Sub Rosa in Aeternum; elegeria também o Vision Thing, dos Sisters of Mercy,e finalmente o disco que não é um disco de estúdio, mas é um disco ao vivo e é outro dos meus favoritos ao vivo que é o Earth inferno, dos Fields of the Nephilim.

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Entrevista por André Neves