Os Bloodhunter estão de regresso com um novo álbum que nos mostra uma banda mais solta, confiante e disposta a explorar outros caminhos sem perder a agressividade que sempre fez parte da sua identidade. Sem perder a sua essência de death metal, incorporam melodias, atmosferas e influências que ajudam a dar outra dimensão às músicas. Com colaborações especiais e uma tremenda vontade assumida de chegar mais longe, este é também um disco de afirmação.
M.I. - Podes descrever a tua experiência na colaboração das comemorações do 45.º aniversário dos Venom? Foi um lineup e tanto!
Pessoalmente, fazendo parte de uma banda como os Bloodhunter, depois de muitos anos de luta e de digressões pela China e até pelo Japão, abrindo o nosso próprio caminho, perguntaram-me se queria participar numa música com eles e, claro, disse que sim.
Depois, só no início deste ano é que recebi um e-mail de um agente a perguntar se gostaria de participar nas comemorações do 45.º aniversário dos Venom. Havia imensa gente, muitos músicos do metal de todo o mundo, dos Behemoth, Destruction, Celtic Frost, Mayhem, Sodom… e eu!
Estou profundamente agradecida, porque foi uma experiência fantástica, na qual tive a oportunidade não só de mostrar o meu talento, mas também de conhecer pessoas incríveis. Foram estas as bandas com que eu cresci.
M.I. - É o vosso primeiro disco com uma editora que não é espanhola. Como tem corrido a experiência?
É um disco de que estamos a gostar muito e no qual pusemos o nosso coração. Houve um momento em que terminámos o disco anterior e, poucos dias depois, achámos que era necessário começar a trabalhar em material novo.
O Dani Arcos, membro fundador e guitarrista, disse que não devíamos escrever mais músicas até termos um álbum sólido nas mãos. Ainda assim, quando escrevemos as nossas próprias canções, elas acabam por fazer parte de um futuro álbum. Depois de tratarmos da composição e dos temas, chega a altura de colocar o trabalho nas mãos de uma editora. Decidimos apostar na ROAR! e, para nós, esse foi o momento decisivo para atingirmos o mercado internacional. Era algo que faltava nos nossos discos anteriores, uma vez que estávamos muito concentrados apenas em Espanha. Queríamos que os Bloodhunter fossem conhecidos em todo o mundo e, com esta editora, chegámos a lugares com que nunca tínhamos sonhado.
M.I. - Têm alguns importantes músicos convidados, de diferentes países. Como foi a experiência de trabalhar com todos eles?
Uma das coisas de que sempre gostei nos Bloodhunter é termos alguns músicos convidados, sobretudo desde o primeiro álbum.
Tanto a Laura como o Fernando são muito, muito talentosos, pessoas espetaculares, e foi muito fácil trabalhar com eles. Culturalmente, também sentimos essa ligação, especialmente quando falamos de partilharmos a mesma península e da relação entre Portugal e a Galiza. Para nós, foi mesmo um sonho tornado realidade contar com vozes tão versáteis e suaves. No caso da Laura, queríamos uma voz melódica, mas pouco convencional, e ela preencheu exatamente esse espaço. Com o Fernando existe aquela intensidade e, de certa forma, um interlúdio, uma parte mais lenta. Achámos que seria fantástico ter uma voz assim neste álbum: uma voz profunda e dominante e, ao mesmo tempo, muito misteriosa.
M.I. – Parece-nos um álbum que não segue os caminhos tradicionais. Para além do death metal, temos elementos de prog e rock em músicas como “Code Aeternum”.
Sim, tens razão. Todos os membros dos Bloodhunter vêm de contextos musicais muito diferentes. O Guillermo, o nosso outro guitarrista, vem do hard rock. É professor de guitarra e esteve sempre envolvido em vários projetos de hard rock. O Dani e o Adrián também têm percursos semelhantes e, quando vim para Madrid, comecei a conhecer melhor a cena do metal.
Uma vez fui a um bar de rock e o Guillermo estava lá a tocar. Nunca pensámos que ele pudesse ter interesse em tocar numa banda de death metal. Nunca tinha ouvido metal extremo, não era propriamente algo de que gostasse muito, mas, quando começámos a falar com ele, perguntámos-lhe se nos podia enviar um áudio a cantar. Acabou por ser a combinação perfeita, porque podia tocar guitarra e fazer também alguns vocais.
Ele está connosco há oito anos e, se não houver gostos diferentes, a banda acaba por morrer. Eu adoro metal extremo, mas não ouço apenas isso. No disco anterior, decidimos introduzir uma influência de flamenco e alguns ritmos latinos. No fim de contas, é importante ter uma identidade, mas também permitir que a banda siga o seu curso e integre outros estilos musicais.
M.I. – “The Path That Never Ends” é uma das minhas favoritas, e a voz da Laura eleva a música a um nível completamente novo. Quem teve a ideia desta música e porquê a Laura, em particular?
Esta música foi composta pelo Dani e, por vezes, o Guillermo dá uma ideia ou outra, mas, neste caso, foi apenas o Dani.
Foi ele quem decidiu integrar a voz da Laura. Como já referi, foi a escolha certa para nós, precisamente pelas caraterísticas da sua voz. O disco anterior era mais denso e complexo. É preciso ouvi-lo várias vezes para o apreciar realmente. Neste álbum, talvez devido à forma como o produzimos, deixámo-nos levar mais, sem pensar demasiado. Ele queria algo simples, algo que também era possível com a Laura, uma voz diferente. Há muitos vocalistas excelentes, mas a Laura tem qualquer coisa que criou uma ligação comigo e com o Dani e que dá uma nova dimensão aos Bloodhunter.
M.I. – Gostarias de recomendar três bandas ou músicos que tenhas ouvido ultimamente?
Claro! O meu Spotify é muito caótico. Tenho ouvido inúmeras vezes o novo álbum dos Moonspell, e foi incrível perceber que voltaram ao gótico; o novo álbum da Melissa Bonny, vocalista dos Ad Infinitum; e a minha última escolha talvez vos surpreenda, mas é “Lux” da Rosalía.
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Entrevista por André Neves












