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Entrevista aos Détresse


Após a estreia com “Pessimismes”, os Détresse estão de volta com “Misères”, um novo trabalho mais direto, agressivo e sem floreados. Radicada em Viena, mas com fortes raízes no Québec, a banda aprofunda uma visão crua sobre a decadência humana, o sofrimento e a ausência de esperança no mundo moderno. Em entrevista à Metal Imperium, S.P. e C.S. falam sobre a evolução sonora do projeto, o peso conceptual do single «Verrottet» e o significado de manter o Black Metal autêntico e sem filtros.

M.I. - Comecemos pelo título “Misères”. É uma palavra muito poderosa e sombria. O que significa “miséria” para os DÉTRESSE e porque é que se tornou o conceito central deste álbum?

S.P.: Misères, ou «miséria», é de facto uma palavra muito poderosa. Ela incorpora as dificuldades do passado e do presente, a decadência e o puro desespero com que a humanidade tem lutado desde sempre. Define perfeitamente o cenário para tudo aquilo que pretendemos dizer e abordar com este álbum.


M.I. - O vosso álbum de estreia, “Pessimismes”, já estabelecia uma visão do mundo muito sombria e intransigente. Dirias que “Misères” é uma continuação dessa visão ou a vossa perspetiva sobre a humanidade mudou desde o primeiro álbum?

S.P.: É, sem dúvida, uma continuação dessa mesma visão. Depois do nosso álbum anterior, “Pessimismes”, lançado há relativamente pouco tempo, o mundo não mudou de uma forma que alterasse a nossa perspetiva.


M.I. - O primeiro single, “Verrottet”, retrata a humanidade como corrompida, perdida e consumida pela sua própria decadência, sem qualquer esperança de redenção. É esta apenas uma visão artística ou acreditas genuinamente que a humanidade está a caminhar para uma destruição auto-infligida?

S.P.: Acredito que a humanidade está a caminhar para a sua destruição autoinfligida e que já atingiu o ponto de não retorno. O mundo irá recuperar e continuar, mas o tempo da humanidade na Terra é limitado. A questão é: quanto tempo nos resta e como escolhemos passá-lo?
Ao mesmo tempo, as nossas letras lançam sempre luz tanto sobre o passado como sobre o presente. Levantam a questão: o que mudou desde os tempos antigos? O que permaneceu igual? E não esteve a decadência sempre presente ao longo da história da humanidade?


M.I. - Porque escolheram “Verrottet” como primeiro vislumbre de “Misères”? O que representa esta canção em particular no contexto do álbum como um todo?

S.P.: “Verrottet” capta perfeitamente a essência do álbum, e foi por isso que escolhemos lançá-la como primeira canção. É uma música crua, muito direta e sem rodeios. O verso recorrente “Verrottet, Verloren, Verbrannt” (podre, perdido, queimado) carrega muito peso e simbolismo, uma trindade que arde na mente do ouvinte.


M.I. - Comparado com “Pessimismes”, “Misères” reduz, segundo consta, as passagens atmosféricas em favor de uma maior intensidade, riffs mais agressivos e uma abordagem mais implacável. O que motivou esta evolução?

S.P.: Depois de terminarmos o nosso primeiro álbum, “Pessimismes”, tornou-se claro para nós que esta era a direção a seguir com os Détresse enquanto banda. As passagens atmosféricas adequavam-se muito bem aos temas da nossa estreia, mas, em última análise, queríamos reduzi-las e concentrar-nos num estilo musical mais direto, seguindo os temas que podem ser encontrados em “Misères”.


M.I. - Esta mudança aconteceu naturalmente durante o processo de composição ou decidiram conscientemente que o segundo álbum precisava de ser mais agressivo e direto?

S.P.: Decidimos conscientemente seguir essa evolução, pois, tal como está escrito, é assim que vemos os Détresse a evoluir enquanto banda no futuro.


M.I. - O álbum explora a opressão, a privação e o desespero, ao mesmo tempo que esbate as fronteiras entre o passado e o presente. Que circunstâncias reais ou históricas influenciaram a escrita de “Misères”?

C.S.: Um tema que é pessoal para mim e que me inspira muito quando escrevo letras é o lugar de onde venho, o Québec, e a forma como os acontecimentos não correram exatamente como alguns de nós desejávamos ao longo da história. Refiro-me às dificuldades de uma população, à miséria que afetou alguns deles, às lutas, à esperança e à ausência de esperança. O Québec era um lugar difícil para colonizar nos anos 1600 e, depois, surgiram inúmeros desafios ao longo dos anos. Todas estas dificuldades inspiram-me muito.
S.P.: Para mim, não existe um único acontecimento histórico no qual as minhas letras se concentrem. É mais sobre a miséria e as dificuldades que marcaram tempos há muito passados e sobre a forma como estas se traduzem no nosso mundo moderno, levantando esta questão e tornando-as, de certa forma, universais, como já descrevi anteriormente na entrevista.


M.I. - Apesar da linguagem musical extremamente dura, existe uma dimensão muito humana no álbum. Era importante para vocês retratar o sofrimento como algo tangível e parte da existência quotidiana, em vez de um conceito abstrato?

S.P.: Para mim, o sofrimento não pode ser, por si só, um conceito abstrato, uma vez que esteve e continua a estar muito presente no nosso mundo. Se olharmos para a história da humanidade, o ser humano sempre sofreu de várias formas e, por isso, era importante para nós torná-lo em algo que se pudesse apreender ao ouvir o álbum ou ler as nossas letras. Se tentarmos colocá-lo num conceito abstrato, perde a sua acutilância e, consequentemente, torna-se distante — o que não é de todo aquilo que queremos retratar.


M.I. - DÉTRESSE é uma colaboração transcontinental entre a Áustria e o Québec. De que forma a distância geográfica afeta o processo criativo da banda? Trabalhar entre dois países cria dificuldades ou traz algo de único para a música?

S.P.: Atualmente, vivemos os três em Viena, na Áustria, por isso já não existe qualquer distância geográfica que possa afetar o processo criativo da banda. Isso também facilita a realização de concertos e digressões, uma vez que pretendemos ser e continuar a ser uma banda ativa ao vivo. No entanto, os Détresse continuam a ser uma banda com membros de ambos os continentes, pois as nossas origens estão certamente ligadas àquilo que somos. E, para nós, isso acrescenta algo de único à música.
C.S.: Penso que continua a ser pertinente mencionar a combinação entre a Áustria e o Québec, pois isso explica a utilização tanto do alemão como do francês nas nossas canções, o nome francês da banda, os títulos dos nossos álbuns até agora e, como referi anteriormente, a história do Québec desempenha um papel importante nas letras em francês de algumas faixas.


M.I. - Como funciona, na realidade, o processo de composição dentro dos DÉTRESSE? Normalmente, um dos membros traz as composições básicas para a banda ou as canções são desenvolvidas coletivamente?

C.S.: Podemos considerar S.P. como o nosso principal compositor, trabalhando na estrutura das canções, nos arranjos e em tudo aquilo que cria o nosso som. Depois, L.S. e C.S. contribuem com os retoques finais para criar o som dos DÉTRESSE.
S.P.: Sou eu que faço efetivamente a composição inicial e, até certo ponto, a composição das canções e também os arranjos para a banda. No entanto, os Détresse devem ser vistos como um esforço conjunto, por isso, para mim, não desempenha um papel importante quem faz qual parte. Todos na banda são membros iguais e têm uma palavra a dizer sobre o que deve ou não fazer parte da canção final. No caso da bateria, mesmo em estúdio são por vezes feitas pequenas alterações no último momento. L.S. é um baterista muito competente, com um bom sentido para a própria música e um amor pelos detalhes, tudo isto podendo ser ouvido no resultado final.
As letras são escritas por mim e por C.S. e, neste álbum, temos Vestal, da banda francesa de Black Metal Merrimack, como convidado especial, contribuindo tanto com as letras como com os vocais na faixa “Les Nuits Jaunes”.


M.I. - Descrevem a vossa abordagem como Black Metal «sem floreados, artifícios ou tendências». O que significa Black Metal autêntico para vocês em 2026, quando o género se expandiu em tantas direções diferentes? 

S.P.: Para mim, Black Metal autêntico significa tudo aquilo que é honesto e puro, vindo do coração. Hoje em dia, parece que há cada vez mais bandas a focar-se em espetáculos elaborados, com trajes e, por vezes, grandes produções dispendiosas. Embora acredite que um bom espetáculo, adequado à situação, seja sempre importante para reforçar a música, nunca deve ser o foco principal. Música bem escrita e honesta resistirá sempre ao teste do tempo. Quer seja aquilo a que se pode chamar Black Metal tradicional ou um dos seus subgéneros, isso não importa. O que importa é que o criador consiga expressar algo através dela.


M.I. - Acham que ainda existe algo como Black Metal «puro» ou essa própria ideia é uma ilusão? 

S.P.: Penso que o género Black Metal se tornou demasiado profundo e complexo para continuarmos a focar-nos num termo como Black Metal “puro” nos dias de hoje. Embora os Détresse estejam claramente mais do lado de uma sonoridade tradicional, existem muitas outras bandas que, para mim, continuam a ser consideradas Black Metal, mas soam de forma muito diferente daquilo que fazemos. Tenho estado e continuo ativo noutras bandas ou projetos, de diferentes subgéneros, expressando diferentes lados de mim próprio. A nossa perceção, assim como a do ouvinte, também muda constantemente. Se tentarmos impor regras sobre o que considerar “puro” e, dessa forma, fecharmos a porta a tudo o resto, isso é meramente uma forma desnecessária de policiamento.


M.I. - Existe muito pouco otimismo na música dos DÉTRESSE. Acreditam que a arte precisa de oferecer alguma forma de esperança ou o próprio confronto com a ausência de esperança pode ter valor? 

S.P.: É importante confrontar e lançar luz sobre temas que as pessoas possam querer evitar ou ignorar na vida quotidiana. Se nos colocarmos sempre no ambiente protegido que conhecemos e criámos para nós próprios, isso bloqueia a capacidade de continuarmos a crescer. E a esperança pode ser encontrada em todo o tipo de coisas, mesmo naquelas que podem não parecer sê-lo à primeira vista. Portanto, sim, confrontar a ausência de esperança tem um grande valor por si só e pode ser encontrado em todo o tipo de arte, não apenas na música. 
C.S.: Em geral, as obras de arte tristes ou trágicas, sejam música ou arte visual, tocam-me muito mais, pois carregam uma emoção forte ou uma mensagem forte e, até certo ponto, criam dentro de mim uma profunda efervescência, algo de que me alimento. Não preciso de um toque de esperança para me fazer sentir melhor.


M.I. - Quando mergulham em temas de sofrimento humano, decadência e desespero durante o processo criativo, isso alguma vez se torna emocionalmente desgastante? E o que vos faz regressar a estes temas? 

S.P.: Sim, mas a música também serve como uma válvula de escape, e é por isso que continuamos a regressar a esses temas. 
C.S.: Concordo plenamente que criar este tipo de música é uma forma de canalizar a raiva, a tristeza e afins, e em última análise melhora o meu estado de espírito ou ajuda-me a superar coisas que me possam afetar. Não acho isso nada desgastante.


M.I. - Finalmente, se a humanidade é realmente tão podre e condenada como «Verrottet» sugere, o que vos mantém a criar música? Porquê continuar a fazer arte num mundo que «Misères» retrata como tão profundamente quebrado? 

S.P.: Se a humanidade é realmente tão podre e condenada como esta canção sugere, por que não avançar e fornecer a banda sonora adequada? E não será a própria arte uma grande parte daquilo que faz o mundo valer a pena ser vivido? 
Neste momento, quero agradecer-te pela entrevista e pelas perguntas muito interessantes.

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Entrevista por Sónia Fonseca