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E heis que, passados 3 anos, voltamos a ter Sepultura em terras Lusitanas. Desta vez no norte, finalmente (apesar do Derrick não parecer ter a certeza)! É sempre uma vitória para o público de metal do país e para a descentralização quando uma banda com apenas uma data em Portugal escolhe o norte do país para o concerto (ainda que “à boleia” do Resurrection, mas isso são outros quinhentos). Desta vez com álbum novo na manga, “Machine Messiah”, o seu 14º full lenght, fizeram-se acompanhar dos Equaleft, banda “da casa” que ficou encarregue de abrir as hostes, como já o tinham feito há cerca de um ano com Gojira, desta vez também eles com novidades para os fãs.

Como é costume em espetáculos com o selo da Prime Artists, estavam a bater as 21h quando se começou a ouvir "New False Horizons". Ainda com o Hard Club a meio gás, os ânimos foram aquecendo e à 3ª música já víamos circle pit, headbangs de testa ao chão, e o vocalista Miguel Inglês a partilhar microfone com o público. Houve também tempo para revisitar o EP de 2010 “The Truth Vnravels”, com “Denial” e “Uncover the Masks”, temas com excelente reações por parte do público mais conhecedor da banda. O concerto ficou ainda marcado com um sabor agridoce pelo anúncio de um fechar de ciclo, com a saída do baterista Marcos Pereira e início de trabalhos para um novo álbum. Após as devidas ovações e demonstrações de respeito, os níveis de peso não só prosseguiram como escalaram, culminando com os encores  “Tremble” e o já quase hino “Maniac”, que fizeram estremecer a sala 1 do Hard Club com os circle pits mais violentos do concerto, havendo ainda oportunidade para uma wall of death, com direito a falsa partida.
Para além da proficiência musical, os Equaleft continuam a demonstrar uma grande energia e presença em palco, com constante interação com o público, puxando pelos níveis de adrenalina, “aquecendo o terreno” para a banda seguinte. Se a priori seria discutível se seriam a banda mais adequada para abrir este evento (pela distância estilística da sua música à da banda principal, ao contrário do que aconteceu com Gojira), é inegável que souberam estar à altura daquilo que o evento merecia e que, com apenas meia hora de concerto, conseguiram instalar na plateia o mindset que se exige num concerto de gigantes do Thrash, como são os Sepultura.

Escusado será dizer que após o concerto houve direito a snacks, neste caso aos inevitáveis húngaros, oferecidos, como habitual, pelos membros da banda ao seu público. Estava na altura de uma pausa para recarregar energias, beber uma fresquinha, e preparar para a avalanche que se avizinhava.


E que avalanche que foi!
O momento esperado fez-se adivinhar com a reprodução do sample que abre os concertos desde o lançamento de “Machine Messiah”, rapidamente dando lugar à segunda faixa do mesmo álbum, “I am the enemy” que, sendo o tema mais rápido do álbum, se revelou um curto rastilho para os fãs que ansiosamente esperavam a explosão de energia que o quarteto brasileiro habitualmente proporciona. Aos 20 segundos de concerto já se via um grande e compacto circle pit e facilmente se deduzia o que aí vinha, “PORRADA, PORRA!”. Seguindo a linha dos concertos em nome próprio e festivais de 2017, seguiu-se mais um pouco de ”Machine Messiah” e da nova era de Sepultura, com “Phantom Self” e “Kairos”, faixa que empresta o título ao antepenúltimo registo da banda. Se por esta altura o Hard Club (cheio mas respirável) já estava ao rubro, poucas palavras haverá pra descrever o que se sucedeu de seguida, quando, recuando ao álbum “Arise”, tocaram “Desperate Cry”, com o público a demostrar que, não desvalorizando os trabalhos mais recentes, estava ali para relembrar o período clássico dos gigantes brasileiros, cantando a todo pulmão o refrão do primeiro de muitos hinos que se ouviram ao longo de quase duas horas. Após mais uma do novo álbum, “Sworn Oath”, pudemos ouvir finalmente o guitarrista Andreas Kisser, em bom português, anunciar que, apesar de irem tocar muitas músicas do novo álbum, iria haver tempo para recordar os clássicos, anunciando um recuo a 1989, para ouvirmos “Inner Self”, do “Beneath The Remains”. Devo destacar estes 5 minutos como um dos momentos altos da noite, e referir o evidente e contagiante prazer refletido na cara do baixista Paulo Jr. que, no auge dos seus 48 anos, parecia um miúdo a tocar pela primeira vez ao vivo esta música, que gravou há 29 anos, ainda com 19. Inspirador.

Seguiu-se uma sequência de músicas já da fase pós-Max, onde tocaram, para além do trabalho mais recente, temas do “Kairos” e do “Against”, tendo-me surpreendido particularmente a interpretação ao vivo de “Iceberg Dances”, do “Machine Messiah”, uma faixa instrumental, com direito a guitarra acústica, que, com as ocasionais exepcções, não faz parte da setlist mais habitual da banda. A partir daqui foi todo um vendaval de Thrash e tribaladas à la Sepultura old school, revisitando boa parte dos clássicos que (re)definiram a banda, o metal no brasil e no mundo inteiro. Passamos pelo “Chaos A.D” com “Biotech is Godzilla” (com, pelo meio, espaço para o cover da “Polícia” dos seus conterrâneos Titãs), “Territory” e “Refuse/Resist”, ainda demos um salto ao mítico “Arise”, com o tema de mesmo título (provavelmente o maior mosh da noite), antes de uma pequena pausa, para dar oportunidade ao público de respirar e pedir o encore. 

Encore esse que começou com o single “Sepultura Under My Skin” e que culminou nas músicas mais marcantes do álbum mais influente. De “Roots” tocaram a “Ratamahatta” e, após uma falha de orientação do vocalista Derrick Green que, com toda a vontade, gritou “Lisboa!” (desculpou-se imediatamente com o melhor humor possível, mas não se livrou de uma bela de uma assobiadela), o fecho ficou a cargo de, pois claro, “Roots Bloody Roots”, com uma envolvência tremenda por parte do público que gritou e saltou ao ritmo da música que revolucionou o metal como se fosse 1996.
Já passaram mais de 20 anos mas, durante mais de hora e meia, não se notou nadinha.


Texto por Jordi Lopes
Fotografias por Ana Costa
Agradecimentos: Prime Artists