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O ano ainda não vai a meio e nós já não conseguimos ter mãos a medir. Desta vez foi a tour europeia dos Immolation que passou por terreno nacional, com datas no Porto e em Lisboa. Fizeram-se acompanhar pelos Omophagia, Monument Of Mysanthropy e Full Of Hell, e no dia 24 de Março estivemos no RCA Club, em Lisboa, para ver e quiçá contribuir para o caos e desordem que nos tinham sido prometidos. 

Como já tem sido hábito nos eventos organizados pela Notredame Productions, às 20h00 em ponto deu-se início às hostilidades no RCA Club e a primeira banda a entrar em palco seriam os suiços Omophagia. Ainda assim, estes foram a primeira prova de que limitar cada uma das bandas que acompanharam os Immolation nesta tour a uma única nacionalidade viria a revelar-se tarefa difícil. Este quarteto conta já com mais de dez anos de carreira e foi entre camisas ensanguentadas, os primeiros “obrigado” perfeitamente pronunciados e algum headbanging que um RCA ainda tímido deu as boas vindas aos primeiros tons de death metal desta noite. Confiantes, enfrentaram o desafio que foi abrir a noite para uma das lendas dentro do género, e nem quando a pronuncia do nome do seu novo álbum falhou se deixaram intimidar. Curto e grosso, foram o aperitivo que todos precisavam. 

 Depois de um curto intervalo, os Monument of Misanthropy encontrariam já uma sala bastante composta, onde foi possível sentir algumas das primeiras movimentações mais duras da noite. A banda invoca forças francesas, alemãs e austríacas para nos entregar um brutal death metal em qualidade e, para nosso deleite, quantidade. Fomos brindados com uma sessão de agressividade de intervenção mesmo no ponto, sobretudo embalada pelos temas do seu mais recente EP, “Capital Punisher”, lançado o ano passado. Escusado será dizer que o que viria a conquistar toda e qualquer vivalma dentro daquele recinto seriam os primeiros acordes de uma cover muito bem conseguida de “Pull The Plug”, dos tão acarinhados Death. Dava-se o mote para o aumento de entropia naquela sala, em pouco ou nada travado pelo que se seguiria. 

Os americanos Full of Hell são o perfeito descendente de uma união ilegítima entre o grindcore, o powerviolence e o noise. Uma ode ao sofrimento humano, libertada sob o manto de uma imensa e robusta parede de som que, contrariamente ao que se possa pensar, serve sobretudo como ponte entre a banda e os seus tão dedicados fãs. O registo vocal catártico de Dylan Walker fez-se acompanhar dos seus teatrais e repentinos movimentos, a instrumentalização acutilante equilibrou-se com a electrónica, e todos estes elementos acabam por conduzir os mais participativos e atentos, como se de uma orquestra se fizesse ocupar o espaço deixado para o pit. Donos de uma energia e sonoridade bem capazes de afugentar os mais sensíveis, conseguiram manter a (pouca) ordem na sala, e foi entre temas dedicados não só aos Immolation, como aos restantes companheiros de estrada, que ainda se criou o ambiente ideal para passar o microfone para as mãos dos fãs e deixar todos os presentes a pedir por mais. 

Chegava então o momento mais esperado do dia. Se pensarmos nisso, a nossa terna relação com os Immolation remonta ao ano de 1996, aquando da sua estreia no Porto. Desde então têm passado por território português inúmeras vezes, mas nem por isso se deixaram esmorecer expectativas para esta visita, sobretudo quando acompanhados por tão forte elenco, como já mencionado. Quando os estadunidenses subiram ao palco, mesmo sendo o nome mais esperado daquela noite, pouco nos faria adivinhar que aquele público ainda tinha tanto para dar. Foi com um imenso gozo que nos entregámos à viagem que estes verdadeiros veteranos do death metal nos proporcionaram. Verdade seja dita, aquele concerto ensinou a todos de tudo um pouco, relembraram-se as origens de uma das sonoridades mais extremas deste meio, provou-se uma vez mais que boa música não se faz sem atitude (e vice-versa) e mostrou-se que nem os porta estandartes se constroem e mantêm sem humildade, provado também pela frase que Ross Dolan fez ouvir, n’"um grande obrigado a todos aqueles que acompanharam estes nossos últimos 30 anos de carreira". Mesmo com o seu mais recente "Atonement" ainda entre mãos, o quarteto em nada desiludiu, nem saiu desiludido, uma vez que o público acompanhou em voz e movimento todos os temas que lhes foram apresentados. Fez-se barulho suficiente para que os Immolation tocassem mais um daqueles temas “especiais” e foi numa rápida passagem por 1988 e 1991 que clássicos como “Immolation” e “Into The Everlasting Fire” encerraram uma noite memorável a chave de ouro.

Texto por Andreia Teixeira
Agradecimentos: Notredame Productions