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Entrevista aos Draconian


Seis anos após Under a Godless Veil, os Draconian regressam com In Somnolent Ruin, um álbum que soa simultaneamente familiar e misterioso. Com Lisa Johansson de regresso, a sua sonoridade de gothic-doom mantém a beleza melancólica que os fãs tão bem conhecem, mas desta vez com uma dimensão ainda mais pessoal e introspetiva.
É um álbum sobre filosofia, história, sobre perda, enfrentar as sombras e despertar de um eterno sono interior: pesado, emocional e inconfundível, são estes os Draconian.

M.I. - Passaram-se seis anos e têm estado bastante ocupados. O que têm feito ultimamente?

Temos estado ocupados e, ao mesmo tempo, não temos estado ocupados. Muita água passou debaixo da ponte desde o último álbum, não só para os Draconian, mas também para o mundo, o que, naturalmente, afetou as coisas que nos foram surgindo.
Houve toda uma pandemia. Houve mudanças dentro da banda que demoraram bastante tempo a resolver, e também tivemos as músicas em que estávamos a trabalhar. Começámos novamente a fazer digressões. Finalmente conseguimos concentrar-nos no álbum anterior. Foram precisos alguns anos até podermos finalmente começar a fazer digressões e a promover Under a Godless Veil no sentido de tocar ao vivo, nos concertos.
Acho que tivemos de adiar a digressão desse álbum cerca de três vezes, por causa de tudo o que estava a acontecer no mundo, e, claro, coisas assim tendem a afetar as pessoas. Não estou a dizer que essa tenha sido a única razão, mas durante esse período, depois da gravação de Under a Godless Veil, as nossas prioridades mudaram um pouco. A Heike já estava um pouco cansada de tudo aquilo e não foi só ela; tivemos também um problema com o nosso baterista, por isso tivemos de recorrer a um músico de sessão durante alguns anos. Atualmente, ele é membro a tempo inteiro e as coisas estão a correr bem. Também temos de volta o Daniel Arvidsson. Desde que o Frederik saiu, em 2016, tem sido difícil encontrar um baixista, e o Daniel sentiu que podia assumir o baixo, então decidimos tentar encontrar guitarristas rítmicos, e isso facilitou-nos bastante.
Em 2022, perguntámos à Lisa se estaria disponível para fazer alguns concertos ao vivo connosco e participar nas digressões. Ela mostrou-se muito aberta a isso. Com o passar do tempo, tornou-se bastante claro que ela regressaria à banda e acabaria por substituir a Heike. Foi uma decisão mútua.
Não houve nada de mau, todos conseguimos o que queríamos. Claro que detesto ver alguém sair, mas, no final, precisamos que a banda funcione. Soube bem voltar a alguém que conhecíamos, mas de uma forma atualizada. Assim que começámos a fazer digressões, percebemos que isto estava a funcionar agora, e percebemos que estamos muito melhores nos concertos do que alguma vez tínhamos estado antes.


M.I. - Certas bandas ou músicos tendem a moldar o seu som seguindo um estilo musical mais moderno ou novas tendências. No entanto, os Draconian têm mantido a mesma fórmula e nunca estagnam. Na tua opinião, qual é a receita secreta para conseguir produzir discos fenomenais?

Acho que, durante os anos 90, estávamos a tentar perceber que tipo de banda queríamos ser. Eu tinha uma ideia quando entrei na banda: queria algo mais melódico, mais gótico, com um estilo romântico, e foi isso que apareceu na primeira demo. Era, de certa forma, um produto do seu tempo.
Tinha algumas influências de black metal, algumas influências de gothic metal, que começaram a ganhar destaque nessa altura, em meados dos anos 90, e era nisso que nos queríamos focar. Mas depois estagnámos após a primeira demo. Além disso, numa cidade como a nossa, onde o ambiente musical era extremamente difícil durante os anos 90, uma cidade muito pequena, não havia muito para fazer e a evolução era muito lenta se quiséssemos desenvolver-nos.
Sim, durante os anos 90 tivemos dificuldades. Gravámos algumas demos, tínhamos todas estas ideias, mas só no ano 2000 é que tomámos realmente uma decisão, quando um dos nossos principais compositores deixou a banda e o Johan passou a ser o principal compositor. Ele começou a escrever mais música, e perguntámo-nos se aquele era o caminho que queríamos seguir. Queríamos criar uma base para construir o futuro. Depois gravámos aquela promo chamada Frozen Features, com mais doom, gothic e vozes femininas, mas queríamos ser uma banda mais orientada para o doom. Foi aí que essa base foi construída.
Nunca fizemos propriamente um pacto nem nada do género, dizendo que iríamos ficar sempre assim, mas acabou por se manter porque esse estilo de música funcionou muito bem para nós. Conseguimos o nosso primeiro contrato discográfico como resultado da última demo que fizemos, chamada Dark Oceans We Cry, e foi aí que conhecemos a Lisa pela primeira vez, como vocalista de sessão, porque ela trabalhava num teatro na cidade de onde vimos. Foi aí que tudo mudou. Percebemos rapidamente que os dois primeiros álbuns eram as fundações; este era o núcleo, este era o estilo de que precisávamos. Independentemente do que fizéssemos, daquilo que nos inspirasse ou da direção que quiséssemos tomar, nunca nos iríamos desviar demasiado disso.
Muitas outras bandas mudaram completamente de direção. Nunca compreendi isso, a não ser que se queira mudar completamente a banda, mas nesse caso, muda-se o nome. Acho que tínhamos uma responsabilidade para connosco próprios e para com os nossos fãs de fazer aquilo que amamos. Estávamos a lidar com agentes muito pouco sérios, mudanças dentro da banda. Eu diria que só com o lançamento de Sovran, em 2015, é que as coisas começaram realmente a mudar para nós, quando o mundo se começou a abrir e quando estávamos realmente prontos para enfrentá-lo.


M.I. - In Somnolent Ruin é um álbum com um certo tema filosófico relacionado com uma das civilizações antigas do mundo, a Grécia. Há alguma razão em particular?

Eu diria que a Grécia foi quem trouxe estas ideias para o mundo ocidental. Elas já existiam antes no Egipto, ou então são apenas variações diferentes, porque a cultura muda, tal como a linguística e a semântica. No fundo, é tudo a mesma coisa.
Para mim, diria que há um pequeno erro no comunicado de imprensa ao dizer que este álbum é sobre Platão, a ascensão da alma ou algo assim. Foi um pequeno mal-entendido. Esta ideia de nos sentirmos presos num mundo ao qual talvez não pertençamos sempre esteve presente, e talvez seja essa a razão pela qual nos sentimos alienados. Também pode responder ao problema do mal, do desenraizamento e de não nos sentirmos ligados a muitas pessoas. Pessoalmente, acho que essa sempre foi a ideia por trás dos Draconian.
Nos últimos dois álbuns, diria que adotei uma abordagem um pouco mais filosófica, especialmente neste novo disco. Comecei a interessar-me muito pelo narcisismo há cerca de 10 ou 12 anos, e começaram a revelar-se coisas para mim: existe, na verdade, todo um sistema de crenças ou uma filosofia espiritual que existe há milhares de anos sobre algo que eu sempre senti.
Não era apenas a música em si, onde eu sentia uma afinidade e uma união com outras pessoas. Na minha opinião, há alguma verdade nisso: as sombras projetadas nas paredes da caverna talvez não sejam toda a realidade; talvez exista algo mais. Eu diria que acredito na humanidade, simplesmente acredito que estamos a ser desviados e que não estamos a cumprir o nosso potencial. Acho que somos poderosos, mas vivemos num mundo onde nos dizem constantemente que não o somos. Estou a tentar falar um pouco sobre isto à minha maneira neste álbum em particular. O título refere-se um pouco à ruína que continua a crescer quanto mais tempo dormimos.
Temos a figura sofianica, que representa a sabedoria ou o despertar da alma, mas que se vai tornando mais presa à terra quanto mais tempo permanecemos adormecidos. Precisamos de acordar, não para um caminho dado por Deus, mas para alguém que já somos. E acordar deste torpor que nos está a matar e a afundar cada vez mais na lama. É disso que trata este álbum, mas de um ponto de vista mais pessoal. Escrevi muito durante a COVID-19, e foi muito difícil saber exatamente o que incluir neste álbum. Eu e o Johan passámos por todas as músicas e todas as letras, e começámos a mudar coisas; até ao último momento estivemos a alterar detalhes para que tudo ressoasse connosco.


M.I. - Isso é bastante interessante. Como pergunta pessoal, estudaste artes liberais, como História ou Filosofia, quando eras jovem?

Não. Sempre tive interesse nisso. Sempre fui um pouco outsider. Fui muito vítima de bullying quando era miúdo. Tinha muito tempo para escrever, ler e ver filmes antigos enquanto os meus amigos começavam a sair e a embebedar-se.
Não fiz nada disso até ter 30 anos, e não estou a dizer que foi algo que fiz por ser outsider. Estou a dizer que isso me deu a base para fazer perguntas, porque sempre fiz perguntas. Sempre pensei que havia algo mais, mas que de alguma forma fomos enganados. Ainda assim, há uma espécie de luz ao fundo do túnel, talvez não literalmente, mas a luz e a morte e o que isso significa, e também o nosso papel em tudo isso na consciência. Isso é interessante para mim, porque é a experiência da luz.


M.I. - In Somnolent Ruin começa com “I Welcome Thy Arrow”, que rapidamente nos leva de volta a Where Lovers Mourn ou até Arcane Rain Fell. Mesmo depois de 30 anos, considerarias, por exemplo, que esta música encaixaria perfeitamente nesses dois álbuns?

Acho que essa música é uma das faixas do álbum que mais se encaixa nessa narrativa antiga. Acredito que também é uma boa forma de começar um álbum, porque dá essa base para construir o que vem a seguir, pois o álbum, embora seja bastante denso, diria que tem muitas variáveis diferentes.
Ela conta uma história sobre um sonho que tive durante anos e que continuava a regressar, e tentei dar-lhe sentido, o que acabou por se transformar numa música.


M.I. - Também temos “Anima”, que é uma faixa interessante com a participação de Daniel Anghede. Ao ouvi-la, dá-nos a perceção de uma perda ou até de privação. Podemos dizer que o álbum inteiro é mais pessoal do que Under a Godless Veil?

Sem dúvida. Under a Godless Veil conta histórias mais a partir de uma estrutura gnóstica, e eu vi agora a luz gnóstica. Vou estar sempre interessado neste tema. Ele vai sempre pintar o quadro do que faço artisticamente, de uma forma ou de outra, a não ser que haja algo específico que eu queira dizer, porque é simplesmente quem eu sou.
No entanto, a questão é que “Anima” é um arquétipo junguiano, e o eu-sombra, aquilo de que normalmente fugimos, seja através de diferentes tipos de vícios, seja apenas vendo as notícias todos os dias ou qualquer outra coisa, continua a olhar-nos de volta no rosto. Esse é um dos problemas da humanidade. Não temos conseguido enfrentar essa sombra; estamos constantemente a permitir que ela determine o nosso caminho na vida. Por exemplo, vejam o que está a acontecer agora: tudo está a escalar; tudo se está a tornar quase demasiado miserável e maligno para conseguir explicar.
Quando eu era miúdo, nunca pensei que chegaríamos tão longe, porque, no fundo da minha mente, pensava que as pessoas eram racionais, que bastava explicar-lhes as coisas. Mas não é assim tão simples. As coisas tornaram-se tão conflituosas e as águas ficaram tão turvas que... eu diria que isso faz parte de uma realidade que não conseguiu, ou não se permitiu, enfrentar essa anima, esse lado feminino, essa escuridão.
Jung disse que é preciso encontrar a sombra quando esta é iluminada; caso contrário, nunca seremos capazes de nos integrarmos enquanto seres humanos. Estaremos sempre com medo de alguma coisa. É uma grande parte de quem somos. Este medo do eu é algo que vemos muito agora, com todas estas queixas, egos por todo o lado. Também há uma parte de autodescoberta nessa música. Também estou a falar sobre mim próprio nessa canção, e digo aquilo de que a anima precisa. É um arquétipo extremamente interessante de usar, para todo o tipo de arte, e tem sido assim desde sempre, pois baseia-se numa ideia muito antiga.


M.I. - Por outro lado, temos “Asteria Beneath the Tranquil Sea”, que é uma das minhas músicas favoritas de todo o álbum. Esta em particular, acredito, permite que a voz da Lisa ecoe pelo cosmos. Foi de propósito?

É uma espécie de pausa para fazer as coisas abrandarem um pouco. Estou a usar este título como uma das deusas titulares ligadas à lua, e o Mar da Tranquilidade é esta fenda na lua, que se partiu. Podemos dizer que há ali uma história sobre ela e a sua tristeza.
Ela também é chamada Selene, aquela que jaz no berço da lua, e está ligada à lua. Acho que a letra fala por si. Não quis entrar pela mitologia dentro da própria letra. Quis que o título falasse pelo resto. É mais sobre uma dúvida interior, vinda de qualquer lugar, que também pode ligar-se às deusas. Acredito que estamos ligados ao divino, e há ali uma dúvida que talvez partilhemos, porque este é o mundo da matéria, que é a solução final.


M.I. - A minha última pergunta. Se não fosses músico, qual seria o teu emprego ou profissão de sonho?

Trabalhei muito na área da saúde, a cuidar de pessoas doentes e idosas, coisas desse género. Gosto de ajudar pessoas, mas chegou uma altura em que, quando o teu dia-a-dia é sobre doença, miséria, medicação e pensar na mortalidade, isso só te consegue dar até certo ponto para a tua própria vida. Não podes levar isso para casa contigo, mas não sei o que teria sido.
Estudei cinema na universidade. Queria ser realizador e escrevi alguns guiões. Durante muitos anos, escrevia, tomava notas sempre que via filmes, sobre como eu teria feito as coisas e coisas desse género. Teria gostado de trabalhar na indústria cinematográfica como algum tipo de pessoa por trás da câmara, fosse em coisas tipo blockbusters de Hollywood ou em algo mais obscuro e independente.

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Entrevista por André Neves