Os Sotabosc surgem do coração do underground catalão como um projeto que recusa separações fáceis entre música, identidade e posição política. Com raízes em diferentes universos do black metal e do pós-rock, a banda constrói um som que oscila entre a brutalidade e a contemplação, sempre com uma forte carga conceptual e emocional. Em El Batec dels Maquis, o seu álbum de estreia, os Sotabosc transformam material acústico anterior numa linguagem mais densa e atmosférica, ao mesmo tempo que mergulham em narrativas históricas ligadas à resistência antifranquista e à memória dos Maquis. O resultado é um disco que funciona tanto como experiência sonora como declaração de princípios.
Nesta entrevista, a banda fala sobre o processo criativo, a ligação entre música e ideologia, a importância da língua catalã na sua identidade artística e o caminho que já está a ser traçado para o futuro do projeto.
M.I. – Os Sotabosc reúnem músicos de um vasto espectro do underground catalão. Como nasceu este projecto e qual era a visão inicial por detrás dele?
Os Sotabosc começaram em 2023, apenas com o Xavi, o Manel e o Óscar a improvisarem juntos sobre algumas ideias de riffs e a construírem uma primeira versão daquela que viria a ser a faixa-título do álbum, mas sem qualquer visão definida em mente. Apenas improvisávamos e tocávamos música de que gostávamos.
M.I. – A banda parece profundamente enraizada não apenas musicalmente, mas também cultural e politicamente. Desde o início, quão importante foi construir os Sotabosc como um projecto onde som, língua e ideologia estivessem totalmente interligados?
No momento em que começámos a escrever as letras e a conceptualizar o álbum, sentimos que não podia ser apenas sobre a natureza ou a escuridão; precisava de transmitir uma mensagem concreta e contar uma história sobre a nossa própria história. Foi uma oportunidade para lançar luz sobre temas que consideramos necessário manter presentes numa era em que os ideais estão a ser apagados e o conformismo é a norma.
M.I. – As vossas letras são inteiramente em catalão, o que acrescenta um forte sentido de identidade e pertença. A vossa língua materna permite-vos comunicar algo que se poderia perder de outra forma?
Cantar em catalão é uma forma de preservar uma cultura e uma língua que têm sido alvo constante de tentativas de apagamento, boicote e proibição por parte de muitos regimes espanhóis ao longo dos últimos 350 anos, quer por monarcas, ditadores ou durante esta democracia corrupta que temos atualmente. O nosso dever enquanto banda catalã é não deixar que isso definhe e, se possível, inspirar mais pessoas a fazer o mesmo.
M.I. – O álbum está dividido em duas partes distintas, mas interligadas. O que vos levou a revisitar e reinterpretar material dos Ulmus como base para a primeira metade do disco?
Quando os Ulmus lançaram a colaboração com a Sylvaine, o Xavi teve a ideia de adaptar ao vivo algumas músicas dos Ulmus com guitarra elétrica e bateria num estilo black metal. Infelizmente isso nunca aconteceu, mas a ideia permaneceu.
M.I. – Transformar composições acústicas e instrumentais em peças de black metal atmosférico é uma mudança bastante radical. Como abordaram esse processo sem perder a essência original dessas canções?
Queríamos manter a componente mais delicada das faixas, que residia sobretudo nas melodias e nos espaços entre as diferentes secções. Mas, ao acrescentar a agressividade da bateria e a distorção da guitarra, ganharam uma nova dimensão que praticamente não exigiu grandes alterações. Heimdall e Nerthus foram bastante simples de adaptar quando começámos a improvisá-las, mas Freyja foi a mais difícil. Ainda assim, conseguimos acrescentar camadas à sua estrutura original e fazê-la soar da forma certa.
M.I. – A natureza desempenha um papel central na primeira parte do álbum, com temas ligados aos animais e às florestas. O que representa o mundo natural dentro da narrativa de El Batec dels Maquis?
Existe uma certa mística associada ao conceito do álbum, relacionada com o facto de a guerrilha Maquis se ter escondido nas florestas durante os seus últimos anos de resistência, até ao último suspiro. Apenas pegámos nestas três faixas dos Ulmus, que já tinham os seus títulos definidos, e unimos tudo num conceito coeso.
M.I. – A segunda metade do álbum consiste numa única faixa extensa e expansiva. Em que momento decidiram que esta história precisava de uma composição tão longa para se desenvolver plenamente?
Inicialmente estávamos hesitantes, mas sentimos que fazia mais sentido ligar estas partes que tínhamos escrito e transformá-las numa faixa mais longa, mas também mais intensa, do que dividi-la a meio e perder toda a atmosfera construída.
M.I. – Essa faixa introduz também uma dimensão histórica e política mais direta, focando-se nos Maquis e na resistência antifranquista. O que vos atraiu para este capítulo específico da história catalã?
Era um tema pelo qual já tínhamos interesse há algum tempo. De forma geral, a Guerra Civil Espanhola continua a ser uma questão que ainda precisa de ser devidamente recordada e reconhecida, sem ser branqueada ou contada apenas através da perspetiva dos fascistas. Muitos aspetos são tratados como algo que deve ser deixado para trás para “não criar mais conflitos” ou para “deixar sarar as feridas”, mas quando surge uma nova vala comum, entre as centenas já descobertas, com milhares de vítimas anónimas executadas durante a guerra, começamos a perceber que isto não é algo que possa simplesmente ser esquecido.
M.I. – Existe um forte peso emocional nesta homenagem aos Maquis. Veem este álbum como uma forma de memória, resistência ou ambas?
Ambas. Queremos que todos se lembrem de que continuou a existir resistência mesmo décadas depois de o regime fascista ter tomado o poder, e encorajar o ouvinte a não desistir mesmo quando tudo parece perdido.
M.I. – Musicalmente, o disco combina black metal cru com estruturas e atmosferas pós-rock. Como equilibram agressividade e introspeção quando compõem em conjunto?
A nossa abordagem até agora tem passado por evitar saturar as músicas com demasiado de qualquer elemento e por encontrar o ponto em que a canção consegue respirar, mas ao mesmo tempo soar agressiva e rápida.
M.I. – Com membros provenientes de projetos tão diversos, que vão do black metal ao pós-rock, de que forma as influências individuais moldam o som final dos Sotabosc?
Todos temos os nossos próprios gostos e partilhamos algumas bandas favoritas. No final, tentámos criar música de que todos gostássemos e que nos sentíssemos confortáveis a tocar.
M.I. – O aspeto visual da banda é marcante e claramente deliberado. Como é que a arte gráfica, o simbolismo e o design contribuem para a narrativa do álbum?
O próprio estilo musical que tocamos já está bastante associado a uma determinada estética, e afastarmo-nos demasiado dela pareceria artificial. Tivemos de jogar um pouco dentro dessas regras para manter a coerência, mas sem cair em algo genérico. Tínhamos uma mensagem para transmitir e fomos diretos ao assunto sem que fosse demasiado óbvio.
M.I. – A vossa postura antifascista é explícita e central ao projeto. No clima atual, enquanto artistas, sentem uma responsabilidade de assumir uma posição clara, ou isso é simplesmente inseparável daquilo que são?
Enquanto artistas e antifascistas, é algo inerente a nós, e a nossa arte reflete isso. Sabemos que, ao longo da História, a arte pode ser utilizada por ou associada a correntes políticas e, ainda assim, criar arte faz parte daquilo que nos torna humanos. Nos dias de hoje, ser artista é algo que está a ser ameaçado pela agenda dos oligarcas tecnológicos que promovem a disseminação do uso de inteligências artificiais generativas. Se queremos que a atrofia cerebral se torne a nova epidemia, então devemos combatê-la para impedir esta nova vaga de fascismo que se aproxima.
M.I. – A produção do álbum soa simultaneamente crua e expansiva. Como foi a experiência de trabalhar com o Daniel Gil no Siete Barbas Studio e quão importante foi captar esse equilíbrio?
A nossa experiência a trabalhar com o Daniel foi fantástica. Como ele tem uma ligação ao black metal e experiência na produção de álbuns com sonoridades mais ásperas, mas também com grandes passagens atmosféricas, o processo de alcançar o som que pretendíamos foi muito fácil e agradável.
M.I. – Sendo um álbum de estreia, este trabalho já parece uma declaração artística totalmente concretizada. Abordaram-no com uma visão de longo prazo para os Sotabosc ou tratou-se mais de captar um momento específico no tempo?
Queremos que este seja o primeiro de muitos álbuns. Não se trata apenas de um projeto pontual, por isso podem esperar mais da nossa parte no futuro.
M.I. – Finalmente, o que reserva o futuro para os Sotabosc? Quais são os próximos planos?
O nosso próximo disco já está a ser escrito e temos uma série de concertos e festivais agendados, incluindo uma digressão europeia para o outono deste ano. O futuro pode parecer incerto, mas queremos fazer o máximo possível enquanto durar.
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Entrevista por Sónia Fonseca












