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Reportagem: Evil Live Festival 2026 @ MEO Arena – 05.07.2026




Depois de um excelente Warm Up na véspera, com atuações de nomes fortes como Cavalera e Trivium, tudo apontava para mais um dia memorável de concertos. O cartaz principal do Evil Live apresentava-se sólido, diversificado e à altura da reputação que o festival tem vindo a construir. Contudo, a noite ficou inevitavelmente marcada pelo cancelamento da atuação dos Megadeth. A decisão foi comunicada quando os fãs já aguardavam pela entrada da banda em palco há largos minutos. Entretanto, a promotora do festival esclareceu o sucedido nas redes sociais: "O concerto não se realizou na sequência de uma decisão comunicada pelos representantes da banda, momentos antes da hora prevista para o início do espetáculo. Ao longo de todo o dia, a organização assegurou o cumprimento de todas as condições previstas para a realização da atuação e manteve total disponibilidade para colaborar com todas as equipas envolvidas, desenvolvendo todos os esforços no sentido de encontrar uma solução que permitisse a realização do concerto. Apesar dessas diligências, os representantes da banda mantiveram a decisão de cancelar a atuação." Para os muitos fãs que se deslocaram ao festival apenas para assistir ao que seria o concerto de despedida dos Megadeth em Portugal, a desilusão foi inevitável. Ainda assim, quem também tinha interesse nas restantes bandas do cartaz acabou por assistir a uma sucessão de atuações de grande qualidade, que justificaram plenamente a deslocação à MEO Arena.

Os primeiros a subir ao palco principal foram os Imminence, banda sueca que apresentou uma proposta sonora muito própria, que pode ser descrita como uma espécie de metalcore cinematográfico. O grande destaque recaiu sobre o vocalista Eddie Berg, cuja alternância entre a voz e o violino continua a ser uma das imagens de marca do grupo. Apesar do tempo reduzido de atuação, os Imminence deixaram uma excelente impressão e reforçaram a ideia de que já justificam uma futura visita a Portugal em nome próprio. O próprio Berg fez questão de agradecer a presença do público, recordando que esta foi a estreia da banda em território nacional. "Temptation" abriu caminho para uma atuação marcada pelo equilíbrio entre agressividade e melodia, com o violino a assumir um papel central e um breakdown particularmente eficaz. Também o recente "The Sword That Never Bends", pesado e repleto de groove, confirmou o bom momento criativo da banda, enquanto "God Fearing Man" voltou a afirmar-se como um dos temas que melhor sintetiza a identidade musical dos Imminence. Foi uma estreia bastante bem conseguida, capaz de despertar a curiosidade de muitos dos presentes. Quem aprecia as sonoridades mais modernas dentro da música pesada fará bem em acompanhar a evolução de uma banda que continua claramente em ascensão.

Se os Imminence representaram a faceta mais moderna da música pesada, os The Gathering trouxeram à MEO Arena um momento de maior contemplação. A banda neerlandesa encontra-se atualmente a celebrar o 30.º aniversário de Mandylion, álbum incontornável do metal atmosférico lançado em 1995, numa digressão que assinala o muito aguardado regresso de Anneke van Giersbergen à formação. A confirmação desta digressão para o Evil Live foi recebida com entusiasmo pelos admiradores da banda. Ainda assim, era previsível que um projeto com uma sonoridade mais emocional e introspectiva não atraísse o mesmo número de espectadores que os principais cabeças de cartaz. Num contexto de festival, onde predominam atuações de maior impacto imediato, os The Gathering acabaram por oferecer um concerto pensado sobretudo para quem já conhecia e apreciava a sua obra. Isso, porém, não diminuiu a qualidade da prestação. A banda exibiu uma coesão notável, fruto de décadas de trabalho em conjunto, enquanto Anneke demonstrou que continua a ser uma intérprete extraordinária. A naturalidade com que voltou a integrar o grupo fazia parecer que nunca se tinha afastado, mantendo intacta a química com os restantes músicos. A vocalista continua igualmente a ser uma referência histórica dentro do metal. Numa época em que as vozes femininas ainda raramente ocupavam o papel principal em bandas do género, Anneke afirmou-se como uma das figuras que ajudaram a abrir esse caminho. Três décadas depois, continua a prender todas as atenções sempre que sobe a um palco. Como seria de esperar, os momentos mais celebrados surgiram já na reta final da atuação, com interpretações irrepreensíveis de "Leaves" e "Strange Machines", dois dos temas mais emblemáticos de Mandylion.

A serenidade proporcionada pelos The Gathering deu rapidamente lugar ao caos controlado dos Converge. Se houve concerto que beneficiou particularmente do ambiente de festival, foi precisamente o do influente coletivo norte-americano, cuja abordagem caótica ao metalcore continua a soar tão desafiante e intensa como há mais de duas décadas. Desde o primeiro minuto ficou claro que os Converge não estavam ali para perder tempo com grandes discursos. Jacob Bannon só se dirigiu ao público ao quarto tema, limitando-se a afirmar que era uma honra atuar no Evil Live. O restante tempo pertenceu exclusivamente à música. A intensidade foi constante do início ao fim e rapidamente contagiou os presentes. Quem ainda procurava entrar no ritmo do festival encontrou naquele concerto o despertar perfeito, impulsionado por uma atuação fisicamente exigente e emocionalmente avassaladora. Apesar do estatuto histórico da banda, o alinhamento demonstrou que os Converge continuam longe de viver apenas do passado. Grande parte do espetáculo incidiu sobre os dois álbuns editados em 2026, interpretados com a mesma urgência e agressividade que sempre caracterizaram o grupo. O encerramento ficou entregue a "Concubine", clássico absoluto de Jane Doe, que provocou uma das reações mais intensas do público até então. A excelente qualidade de som da MEO Arena durante o espetáculo contribuiu igualmente para valorizar uma atuação que confirmou, uma vez mais, porque continuam a ser uma das bandas mais influentes da música extrema contemporânea.

Depois da violência sonora dos Converge, coube aos Mastodon protagonizar aquele que viria a ser, para muitos, o ponto alto do Evil Live 2026. Num alinhamento de apenas dez temas, o quarteto norte-americano assinou uma das melhores atuações de entre as muitas que já realizou em Portugal, uma afirmação que, tratando-se dos Mastodon, diz muito sobre o nível alcançado nesta noite. Do ponto de vista técnico e interpretativo, foi provavelmente o concerto mais irrepreensível do festival. Os membros remanescentes demonstraram uma enorme coesão, agora reforçada pelas integrações do guitarrista Nick Johnston, que ocupa o lugar deixado por Brent Hinds após a sua saída da banda e posterior falecimento, e pelo teclista brasileiro João Nogueira. Um dos momentos mais emotivos surgiu quando Troy Sanders dedicou ao público e ao antigo companheiro "Your Ghost Again", tema novo que presta homenagem ao falecido Brent Hinds e que deixa antever um futuro promissor para esta nova fase dos Mastodon. O alinhamento revelou-se particularmente eficaz para um contexto de festival, alternando momentos de enorme impacto com alguns dos temas mais melódicos e acessíveis do repertório da banda. "Crystal Skull", "Megalodon", talvez o ponto mais alto da atuação, "Mother Puncher" e "Blood and Thunder" garantiram sucessivas vagas de headbanging, enquanto "The Motherload" e "Steambreather" colocaram o público a cantar em uníssono. Pelo meio, "Tread Lightly", "Black Tongue" e "More Than I Could Chew" demonstraram uma vez mais a capacidade dos Mastodon para equilibrar peso, complexidade e melodia sem sacrificar a identidade que construíram ao longo de mais de duas décadas. Também Troy Sanders pareceu particularmente inspirado. Habitualmente mais reservado, mostrou-se nesta noite um pouco mais comunicativo com o público e visivelmente grato pelo entusiasmo demonstrado pelos milhares de espectadores presentes. A excelente prestação da banda foi ainda valorizada por aquele que terá sido, muito provavelmente, o melhor som de todo o festival, incluindo o Warm Up. Mais do que responder às dúvidas inevitáveis provocadas pela perda de Brent Hinds, os Mastodon deixaram a sensação de que continuam plenamente capazes de olhar para o futuro sem perder a identidade que os tornou uma das bandas mais respeitadas do metal contemporâneo. Se esta atuação servir de indicador, as expectativas para o próximo álbum - já confirmado para este ano, embora ainda sem data de lançamento - são plenamente justificadas.

Mais de duas horas depois de terminada a atuação dos Mastodon, chegou finalmente o momento de Marilyn Manson subir ao palco da MEO Arena para encerrar a edição de 2026 do Evil Live. Inicialmente agendado para as 22h45, o concerto começou às 22h30, após o cancelamento da atuação dos Megadeth obrigar a organização a reajustar os horários. Figura incontornável - e simultaneamente uma das mais controversas - da história da música pesada, Manson apresentou-se surpreendentemente focado na música. Longe da postura errática que marcou algumas digressões anteriores, demonstrou uma entrega muito superior à exibida, por exemplo, na passagem pelo Campo Pequeno em 2018. (Não estivemos presentes no concerto realizado em novembro de 2025, pelo que essa comparação fica naturalmente de fora.) Essa atitude refletiu-se numa atuação consistente, sustentada por uma banda competente e por um alinhamento praticamente composto por clássicos. Perante um público que ainda tentava digerir a frustração causada pela ausência dos Megadeth, Marilyn Manson acabou por oferecer o desfecho possível para uma noite atribulada, justificando plenamente o estatuto de co-headliner do festival. Naturalmente, a ausência da banda de Dave Mustaine continuou a ser impossível de ignorar para quem tinha adquirido bilhete exclusivamente para assistir ao seu concerto de despedida em Portugal. Contudo, para aqueles que também apreciam a obra de Marilyn Manson, a prestação do norte-americano ajudou a minimizar parte dessa desilusão. Já os fãs que se deslocaram ao festival sobretudo para o ver acabaram por assistir exatamente ao espetáculo que esperavam. O alinhamento foi um verdadeiro desfile de êxitos. "Disposable Teens", "Angel With the Scabbed Wings", "This Is the New Shit", "Dried Up, Tied and Dead to the World", "The Nobodies", "The Dope Show", "mOBSCENE", "The Beautiful People" e "Tourniquet" sucederam-se quase sem momentos de menor intensidade. As versões de "Sweet Dreams (Are Made of This)" e "Personal Jesus" revelaram-se apostas seguras, recebidas com enorme entusiasmo pelo público. Os únicos apontamentos mais recentes chegaram através de "Nod If You Understand" e "Exit Wound", mas a opção por privilegiar os temas clássicos revelou-se acertada. O ambiente dentro da arena transformou-se, durante largos momentos, numa verdadeira celebração da carreira de Marilyn Manson, com inúmeras vozes a acompanharem praticamente todas as músicas. Foi um encerramento à altura da dimensão do festival e uma demonstração de que, quando plenamente concentrado na música, Marilyn Manson continua a ser um performer capaz de justificar o estatuto que conquistou ao longo de mais de três décadas de carreira.

Apesar do inevitável impacto provocado pelo cancelamento dos Megadeth, o Evil Live 2026 acabou por confirmar, uma vez mais, a consistência do festival. Da estreia promissora dos Imminence, ao regresso emotivo dos The Gathering, passando pela intensidade dos Converge, pela enorme demonstração de classe dos Mastodon e por um Marilyn Manson surpreendentemente sólido, houve motivos mais do que suficientes para considerar esta edição francamente positiva. Naturalmente, a ausência daquele que seria um dos principais cabeças de cartaz deixará sempre uma marca nesta edição. Ainda assim, seria injusto reduzir um dia repleto de excelentes concertos a um único episódio, por mais significativo que tenha sido. O Evil Live voltou a demonstrar capacidade para reunir algumas das propostas mais relevantes da música pesada, conciliando diferentes gerações e géneros. Mesmo perante um contratempo tão inesperado, o festival conseguiu proporcionar uma experiência de ótimo nível a milhares de fãs presentes na MEO Arena e reforçou a sua posição como um dos eventos de referência do panorama nacional.

Texto por Mário Rodrigues
Agradecimentos: Prime Artists