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Reportagem: Iron Maiden e Anthrax @ Estádio da Luz, Lisboa - 07.07.2026


É deveras impressionante constatar que, praticamente um ano após os Iron Maiden terem passado com enorme sucesso por uma MEO Arena esgotada, a banda tenha conseguido voltar a encher um recinto ainda maior. Depois do concerto de 6 de julho de 2025, integrado na digressão Run For Your Lives, o lendário grupo britânico regressou a Portugal para atuar num Estádio da Luz repleto de público, um recinto à altura da sua dimensão e capaz de acolher praticamente todos os fãs que quiseram testemunhar mais um espetáculo memorável.

Se atuar no Estádio da Luz já representa um patamar acima da MEO Arena, também a escolha da banda de abertura colocou este espetáculo noutra liga. Sem qualquer desprimor para os nomes que, ao longo dos anos, tiveram a responsabilidade de aquecer o público antes dos Iron Maiden, os Anthrax são uma verdadeira instituição do metal. Um dos nomes pioneiros do thrash metal e integrantes dos incontornáveis Big 4 do género, a presença da banda de Scott Ian constituiu, por si só, um motivo de enorme interesse. Infelizmente para os seus fãs portugueses, esta foi apenas a quarta passagem dos Anthrax por Portugal. A primeira remonta a 1990, quando abriram precisamente para os Iron Maiden no Dramático de Cascais. Regressariam ao mesmo recinto em 1996, antes de protagonizarem um concerto absolutamente memorável no Cine-Teatro de Corroios, em 2017. Felizmente, o quinteto apresentou-se em excelente forma no Estádio da Luz, demonstrando que, ao contrário da carreira de um futebolista, a de um músico pode prolongar-se durante décadas sem perder qualidade nem intensidade. 
Uma realidade que continua a beneficiar os fãs de metal, permitindo que nomes históricos como Iron Maiden e Anthrax permaneçam ativos e capazes de oferecer espetáculos desta dimensão. Os norte-americanos brindaram o público com uma atuação repleta de energia, precisão e uma vitalidade contagiante, interpretando clássicos como "Among the Living", "Madhouse", "Caught in a Mosh", "Medusa" e "Indians", sem esquecer as incontornáveis versões de "Got the Time" e "Antisocial". Houve ainda espaço para a novidade "It's for the Kids", um tema veloz e agressivo, fiel ao ADN da banda, que se destacou pelo refrão imediatamente orelhudo e que integrará o próximo álbum dos Anthrax, cuja edição está programada para 18 de setembro, segundo o próprio Scott Ian revelou. Será o primeiro trabalho de estúdio da banda numa década, uma prova de que a inspiração e a vontade de continuar a criar permanecem intactas. Foi um concerto fortíssimo, com direito a moshpit, muito headbanging e uma resposta entusiástica de uma boa franja do público, que apenas deixou a sensação de ter sabido a pouco.

Os Anthrax confirmaram a razão pela qual continuam a jogar na primeira liga do metal. Ainda assim, havia um motivo pelo qual dezenas de milhares de pessoas encheram o Estádio da Luz naquela noite: os Iron Maiden continuam a competir num campeonato à parte. São muito poucas as bandas do universo da música pesada capazes de mobilizar uma multidão desta dimensão. A explicação é simples: um catálogo de músicas que atravessou gerações e uma consistência em palco que continua praticamente imaculada. Passadas cinco décadas de carreira, os Iron Maiden permanecem uma máquina perfeitamente oleada. A entrega, o profissionalismo e o evidente prazer de atuar continuam bem presentes, qualidades que ajudam a explicar porque razão a banda permanece uma referência absoluta do heavy metal. A excelente qualidade de som conseguida no Estádio da Luz, claramente superior à das anteriores passagens pela MEO Arena, tornou a experiência ainda mais memorável. Os mais atentos terão reparado que o alinhamento foi praticamente uma fotocópia do apresentado na MEO Arena em 2025. A única alteração surgiu ao sexto tema, com "Infinite Dreams" a substituir "The Clairvoyant". O regresso da segunda faixa de Seventh Son of a Seventh Son ao alinhamento da banda constituiu uma das grandes surpresas desta segunda fase da digressão, já que a música não era interpretada ao vivo desde 1988. 
Embora tenha introduzido um momento mais contemplativo numa fase em que o concerto vinha embalado por um arranque demolidor - "Murders in the Rue Morgue", "Wrathchild", "Killers", "Phantom of the Opera" e "The Number of the Beast" colocaram desde cedo o Estádio da Luz em estado de ebulição -, a escolha acabou por ser recebida com entusiasmo pelos fãs mais dedicados. A partir daí, o restante alinhamento foi praticamente idêntico ao da passagem pela MEO Arena: "Powerslave", "2 Minutes to Midnight", "Rime of the Ancient Mariner", "Run to the Hills", "Seventh Son of a Seventh Son", "The Trooper", "Hallowed Be Thy Name", "Iron Maiden", "Aces High", "Fear of the Dark" e "Wasted Years", um desfile ininterrupto de clássicos que dificilmente encontra paralelo na história do heavy metal. Cada tema foi recebido como um verdadeiro hino. Incansáveis, os fãs acompanharam Bruce Dickinson praticamente do princípio ao fim, cantando refrões, alguns dos versos e até as icónicas harmonias de guitarra que marcaram gerações. Contemplar o Estádio da Luz, já envolto pela noite, completamente rendido aos Iron Maiden foi, por si só, um espetáculo dentro do próprio espetáculo.
Em suma, viveu-se uma noite de celebração e devoção ao heavy metal. Os Iron Maiden voltaram a provar porque continuam a ser uma das bandas mais acarinhadas e respeitadas do género, não apenas pela dimensão do seu legado, mas pela forma como continuam a honrá-lo em palco. Quem saiu do Estádio da Luz naquela noite dificilmente esquecerá o que presenciou. Mais do que um concerto, foi uma celebração de cinquenta anos de uma carreira ímpar e mais um capítulo da longa história de amor entre os Iron Maiden e o público português.


Texto por  Mário Rodrigues
Fotografia por Paulo Tavares
Agradecimentos: Prime Artists