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O dia 23 de Fevereiro de 2013 estava há já largos meses marcado no calendário a vermelho por um simples, mas grande, motivo: Mono. O quarteto nipónico regressou ao nosso país e trouxe na bagagem o novo “For My Parents”, no entanto, o concerto não girou concretamente à volta do novo registo – mas já lá vamos…


Antes de Mono, a sala 2 do Hard Club – já praticamente cheia – recebeu Microphonics, projecto do compositor belga Dirk Serries. O músico brindou os presentes com meia hora de pura elevação espiritual em que a roupagem drone liderou as fileiras compostas por nuances e ondas senoidais de guitarra. Se há casos em que podemos afirmar que homem e instrumento se fundem num só, Dirk Serries é um desses casos: qualquer gemido ou frequência emitida pela guitarra era prontamente interpretado pelo movimento físico do músico. Como papel de fundo, estava então a facção mais dreamy da ambiência drone a que estamos habituados complementada com as cores frias lançadas pelos holofotes.




O momento mais esperado da noite estava próximo. A sala estava completamente esgotada. E como já no espectáculo de Boris e Russian Circles (também organizado pela Amplificasom), foi a eficaz ventilação que salvou a minha permanência dentro da sala. Cada um a seu tempo, os elementos de Mono foram subindo ao palco depois de um falso alarme provocado pelo sound-check breves momentos antes do início. “Legend”, que de igual forma abre o álbum “For My Parents”, foi o ponto de partida para uma viagem sem retorno que, neste seu início, deixa bem clara a veia épica deste post-rock nipónico – um tema que facilmente é conotado ao clímax dramático dos filmes de época japoneses. Seguiu-se “Burial At Sea” – um dos temas mais conhecidos – e através de “Dream Odissey” foi relembrado o novo trabalho. Até aqui as camadas sonoras que chegavam aos novos ouvidos ainda estavam em fase de aquecimento e a linha entre o calmo e o agressivo ainda não tinha sido devidamente transposta, mas o êxtase foi, finalmente, trazido com o tema “Pure As Snow”. A famosa estrutura em crescendo estava posta na mesa, assim como uma diferente abordagem aos seus temas: ao vivo, o outfit musical dos Mono ultrapassa a orquestração tão perceptível em estúdio e eleva-se a um estado de drone que nos levita o corpo. “Follow The Map” restaurou a calmaria e um pouco da corrente épica funcionando até como um interlúdio que deu acesso a “Unseen Harbor” onde o magnífico crescendo é, essencialmente, interpretado pelo percussionista Yasunori Takada em que, ao longo do caminho a percorrer até ao auge da paisagem combinada entre o orquestral e o zumbido, Takaakira Goto e Hideki Suematsu começam a ganhar protagonismo e os seus corpos se contorcem com as suas guitarras. Apesar de “For My Parents” ser o novo disco, " Hymn to the Immortal Wind” foi o álbum mais requisitado e assim continuou com o tema “Ashes In The Snow” que se assinala como o ponto alto de toda a prestação de Mono: toda a panóplia sonora e postura física estão representadas neste momento. O tema “Halcyon” levou-nos a um plano mais sonhador e nostálgico sem roçar propriamente o depressivo. A estrutura final de “Halcyon” podia muito bem ter sido o ponto final de uma estrondosa jornada, mas ainda houve tempo para “Everlasting Light” que finaliza o concerto como se uma subida à Cidade Proibida de Lhasa se tratasse, onde nada é mais épico do que a caminhada feita pela banda em conjunto com uma sala completamente atestada de pessoas que viveram o momento único – onde já nada volta a ser como era antes, porque este é bem capaz de ser o concerto do ano.


Texto por Diogo Ferreira
Fotografias por Marco Matos
Agradecimentos: Amplificasom