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Bliss of Flesh não são uma banda francesa com grande destaque mas “Empyrean”, o seu 3.º e mais recente trabalho, a ser editado no dia 7 do próximo mês de julho através da Listenable Records, irá catapultá-los para as luzes da ribalta. Necurat e Sikkardinal estiveram à conversa com a Metal Imperium.


M.I. – A banda formou-se em 1999 com o nome Labdacides mas, em 2000, alteraram o nome para Bliss of Flesh. Porquê esta mudança?

Sikkardinal – O nome Labdacides era uma referência mitológica à maldição humana mas, rapidamente, percebemos que era um nome foleiro e não estamos aqui para fazer alusões à Grécia Antiga nem queremos ser pseudo-intelectuais. Bliss of Flesh é um nome mais adequado às nossas crenças. Este oxímoro dá ênfase ao paradoxo entre as nossas necessidades espirituais e a nossa ligação à carne, e encaixa no nosso lema.


M.I. – Só ao fim de 10 anos é que lançaram o primeiro álbum “Emaciated Deity”. Porque demorou tanto tempo?

Sikkardinal – Antes do álbum, lançámos a demo, uma pro-tape e 3 EP’s. Tínhamos de pagar o nosso tributo ao underground e queríamos fazer o álbum com tempo, porque achamos era algo que tínhamos de merecer e estes 10 anos foram necessários para tal. Sei que este ponto de vista, hoje em dia, pode parecer obsoleto porque o pessoal quer fazer tudo muito rapidamente.


M.I. – Em 2013, 4 anos após o 1.º, lançaram o 2.º álbum “Beati Pauperes Spiritu” e, 4 anos depois, em 2017, lançaram “Empyrean”.  Este será um padrão para o futuro... um álbum de 4 em 4 anos?

Necurat – Parece que esse é o tempo de que necessitámos para criar material novo e interessante. Por um lado, tentamos tocar bastante, apresentar o nosso material em palco e, por outro lado, somos muito exigentes, portanto 4 anos é como se fosse o nosso número mágico. Poderá parecer um processo lento, nesta era da velocidade. Todos temos empregos a tempo inteiro, portanto não temos necessidade de tocar ou criar merdas para ganhar dinheiro. Fazemos o que fazemos por termos algo para dizer e por termos orgulho no nosso trabalho. Essa é razão pela qual nunca obedecemos a ninguém... mesmo que tal seja um problema para outros.


M.I. – O 1.º álbum foi lançado pela Twilight Vertrieb, o 2.º pela Non Serviam Records e este pela Listenable Records. Porquê a constante alteração de editora?

Necurat – Porque, a cada dia, nos tornamos maiores, tal como um tumor, e temos liberdade para ir onde queremos. Temos de nos sentir bem com as pessoas com quem trabalhamos e nem sempre é fácil lidar connosco porque somos teimosos pra caraças. A Twilight Vertrieb fechou. Depois o Ricardo e Non Serviam Records foram a melhor opção na altura de promovermos “Beati Pauperes Spiritu”, ele fez isso muito bem e estamos-lhe gratos por isso. Para o “Empyrean” escolhemos a Listenable, uma estrutura maior, por acharmos que este álbum merece uma melhor exposição. Tal como te dissemos, o tempo exige progresso, nós avançamos, mas nunca esquecemos de onde viemos.


M.I. – Os vossos 3 álbuns foram inspirados na trilogia “Divina Comédia” de Dante. Porquê este autor e este trabalho em particular?

Sikkardinal – A “Divina Comédia” de Dante é interessante para sublinhar o caminho que se percorre mentalmente até conseguires sentir-te realizado, e encaixa no nosso lema. Pensamos que tens de enfrentar o pior de ti para te tornares em quem és, e esta procura da verdade através de paradoxos está perfeitamente delineada neste trabalho.


M.I. – “Empyrean” fecha esta trilogia, e lida com o quê?

Sikkardinal – Fala da revelação e da decisão final que se tem de fazer para se poder abraçar a nossa própria escuridão e renunciar ao Divino, ou rodearmo-nos de Luz para alcançar a paz. Esta escolha é tua mas, tanto quanto sabemos, a nossa última faixa é “Renunciation” e não “Acceptation”.


M.I. – És fã de literatura? Quem é o teu autor preferido? E a obra?

Sikkardinal – Sou sim e isso é bom, porque é o meu trabalho. Peço desculpa mas recuso-me sempre a referir quem é o meu autor preferido. Primeiro porque não estamos aqui para fingir sermos mais intelectuais do que somos na realidade e segundo, porque escolher um autor está sempre associado ao teu estado mental. O mais importante é tentar sempre ser melhor do que fomos no dia anterior.


M.I. – Os futuros trabalhos de Bliss of Flesh serão também baseados em obras literárias?

Sikkardinal – Certamente haverá sempre uma ligação com a literatura ou com a arte em geral, mas nós criamos mais a partir do nosso ódio e sentimentos do que a partir da razão.


M.I. – Sabendo que este álbum foi baseado no trabalho de Dante, quem transformou o texto em temas?

Necurat – Eu transformei o texto em letra porque é impossível eu cantar letras escritas por outras pessoas que não eu. Foi um trabalho intenso e introspectivo, eu queria criar um universo pessoal inspirado no trabalho do Dante mas com ligações às nossas inspirações. Penso que consegui.


M.I. – Quem fez a capa de “Empyrean”? Porquê tantos anjos e um anjo caído? Qual o significado de tudo isto?

Sikkardinal – Obrigado por perguntares, porque, a maior parte das vezes, o artista com quem trabalhamos não tem destaque. Todo o trabalho foi feito por Balázs Jacsó, um incrível artista húngaro. Este óleo sobre tela retrata um anjo no momento da Renúncia. Na Divina Comédia, o Dante nega a sua humanidade para ter acesso ao céu e alcançar a Luz de Deus. Na capa, queríamos simbolizar a renúncia ao Divino numa visão do Paraíso.


M.I. – Todas as faixas são bastante pesadas para, por um breve instante, pensei que “Renunciation” fosse a excepção já que os primeiros 2m53s são bastante calmos mas depois a intensidade ataca... quão complicado é criar temas apelativos?

Sikkardinal – Acho que é uma questão de inspiração ou sentimentos. Na maior parte do tempo, não criamos com a Razão, só com o Ódio. Quanto a “Renunciation”, tínhamos o pressentimento que os tais 2m53s eram necessários para colocar o ouvinte na melhor disposição possível para ser capaz de apreciar toda a faixa. Já agora, todo o álbum é visto como uma peça só.


M.I. – Quem escreve os riffs? Os músicos da banda têm formação musical ou aprenderam sozinhos?

Necurat – Todos os riffs são escritos pelo Sikkardinal e pelo Pandemic. Depois disso, o Fleshstigma compõe para a bateria. Todos aprendemos sozinhos, mas já temos muita experiência. E tal como já te disse, achamos que o tempo é importante para a aprendizagem.


M.I. – Qual o significado do vosso lema “Humiliation suffering climax”?

Sikkardinal – Para nós, essas três palavras descrevem os passos que nos conduzem à Luz, tal como nos três volumes da Divina Comédia. Primeiro enfrentas a fraqueza, depois tens de a aceitar e, finalmente, abraça-la.


M.I. – Qual a melhor coisa de ser músico? E a pior?

Necurat – Penso que a melhor é tocar ao vivo e fazer tournées. Estar em palco a debitar esta gangrena é o melhor que há para mim. E o pior é ter de compreender tudo o que é necessário para que a tua banda sobreviva. Tens de criar relações para existir, mas nós somos péssimos nisso. 


M.I. – Os Bliss of Flesh já tocaram ao vivo muitas vezes... há alguma que recordes em particular? Porquê?

Sikkardinal – Temos uma boa memória de The Motocultor, porque foi a primeira vez que tocamos para tanto pessoal.


M.I. – A folha promocional refere que vocês têm vindo a construir a reputação de terem espectáculos ao vivo verdadeiramente incendiários. O que têm os vosso espectáculos de tão especial?

Sikkardinal – Nada, porque, tal como dizes, é uma folha promocional. Para ser sincero, nem sei se os nossos concertos são especiais mas sei que são verdadeiros. Nós somos transcendidos pela nossa música e letras e não fingimos o que sentimos. A palavra “incendiário” deve vir do facto do Necurat cuspir fogo em palco, quando nos permitem fazê-lo. Todas as atmosferas que criamos em palco mostram a nossa essência.


M.I. – Com certeza ireis andar em tournée para promover o álbum… quando vos veremos em Portugal?

Necurat – Não fazemos ideia mas esperamos que seja em breve. Depois já poderás confirmar se, afinal, os nossos concertos são especiais ou não.


M.I. – O underground francês parece estar vivo e em muito bom estado, considerando o número de excelentes bandas. Qual a tua opinião?

Sikkardinal – Tens razão! Há muitas bandas excelentes. O mais difícil é não nos tornarmos cópias do que já existe.


M.I. – O que mais detestas na sociedade actual?

Sikkardinal – Estas duas questões estão interligadas. Um pensamento profundo reside na experiência e amadurece com o tempo. A sociedade de hoje vê o tempo como um inimigo e não como um aliado. A verdadeira liberdade vem do conhecimento, mas a paciência já não parece ser considerada uma virtude. Apenas as opiniões prevalecem hoje.


M.I. – Agradeço por terem dispensado o vosso tempo e desejo-vos tudo de bom para o novo álbum. Partilhem uma mensagem com os leitores da Metal Imperium.

Sikkardinal – Obrigado pelo vosso apoio e por repararem em nós!
Necurat – Estamos ansiosos por espalhar a nossa raiva num palco em Portugal!

Humiliation Suffering Climax

For English version, please click here.

Entrevista por Sónia Fonseca