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Três anos depois da última apresentação em Lisboa, os Tara Perdida regressaram à capital no passado dia 10 de Novembro, para um concerto na sala do LAV - Lisboa ao Vivo. Com Boca Doce e Trevo no cartaz, foi bem cedo que se iniciou a romaria à sala de Xabregas, com uma plateia muito bem composta para receber em palco a primeira banda da noite.

O relógio marcava 21h30 quando os Boca Doce subiram a um palco decorado com inúmeros adereços relacionados com viagens e os descobrimentos. Liderados pelo Capitão Solidão, alter-ego de David Arroz, os Boca Doce passam em revista clássicos do pop nacional dos anos 80 e 90 "transvestidos" de punk rock, numa performance que arranca sempre rasgados sorrisos de quem tem a sorte de os ver ao vivo. "À Minha Maneira" dos Xutos e Pontapés de o mote a uma actuação sem mácula, ou não fossem os marujos experientes instrumentistas do panorama musical português. Para a maioria do público presente, este foi uma primeira experiência a navegar aos cuidados desta tripulação por vezes caótica mas sempre divertida, e que iniciou da melhor maneira esta celebração. Ver uma sala praticamente esgotada (esgotaria pouco depois) a entoar o "AEIOÙ" popularizado por Ana Malhoa nos seus tempos de Beuréré, ou "Conquistador" dos Da Vinci a plenos pulmões deve ter sido marcante para a banda, que terminou uma rápida prestação com a tripla "Ele e Ela" de Madalena Iglésias, "Vais Partir" de Clemente e "Paixão" de Rui Veloso.

Mudança rápida em palco e entram em cena os Trevo, a banda de folk-pop de Lisboa. A banda editou o seu auto-intitulado álbum de estreia em 2016 e desde então tem vindo a ganhar adeptos da sua mistura de pop, folk e rock despretensioso, com toques de reggae aqui e ali, e olhando para a plateia era possível verificar que no meio da multidão de preto vestida havia alguns salpicos de verde, a cor deste Trevo liderado por Gonçalo Bilé. Mas desengane-se quem acha que a comunidade punk é indiferente ao som deste quarteto. Músicas como "Face meu, Face meu", "Dama de Carmim" ou "Feira da Ladra" cativam até mesmo o rocker mais empedernido, sendo difícil deixar de bater o pé ao ritmo imposto pelo baterista Ivo Palitos, ele que pertence a uma família ligada ao punk (irmão de Samuel Palitos, baterista de sempre dos Censurados de João Ribas) e impulsionador da música portuguesa através do seu bar "Popular Alvalade". Mas voltemos à música, pois foi ela que nos trouxe até ali. Para além dos temas mais conhecidos e já referidos, o disco de estreia mereceu passagem na integra, com destaque para excelente versão de "Pinga Amor" e "Raúl Bazou". Surpresas foram duas, desde logo a presença em palco de Ruka, guitarrista de Tara Perdida para ajudar na voz em "Quero-te Mais Que 1 Semana", e a estreia de uma música nova, "Eu Cá Cresci na Rua", a demonstrar que a banda não adormeceu à sombra do "Trevo" e que chegarão novidades em breve.

A hora era chegada de dar início à celebração do regresso a Lisboa dos Tara Perdida, perante uma sala completamente esgotada e ávida de fazer a festa com Ruka, Ganso, Tiago, Kistos e Alex. E rapidamente a banda mostrou ao que vinha, com um arranque a mil à hora com "Realidade", que imediatamente despoletou molas nos pés da plateia, que não mais parou de fazer mosh e crowd surfing! O alinhamento foi cuidado ao pormenor para esta festa, passando em revista toda a carreira da banda que transporta consigo todo um legado deixado por Ribas, não deixando de mostrar o cunho pessoal que Tiago Afonso deixa nos clássicos. E eles estiveram todos presentes, de "O Que É Que Eu Faço Aqui" a "Desalinhado", de "Podia Ser Doutor" a "Quanto Mais Eu Grito", de "Jogar de Novo E Arriscar" a "Pernas Pró Ar", faixas para o gosto de cada um dos presentes, que nunca se fizeram rogados em acompanhar - e por vezes eclipsar - o som que vinha do palco. Festa que é festa não poderia passar sem convidados especiais, e para o efeito os Tara Perdida convidaram dois, desde logo Miguel "Vegeta" Marques, produtor do novo disco da banda a ser editado no início do próximo ano, e Diogo Mourato, da produtora Gigs on Mars.

Mais surpresas também no alinhamento, com a inclusão de duas das novas faixas de Tara Perdida, o single de apresentação "Nada Me Vai Parar" e o mais recente "Reza", este com uma surpresa extra para quem marcou presença: a possibilidade de emprestar a sua voz nos coros que irão ser incluídos no disco, ajudando assim na finalização da sua gravação.
Para o encore final, a habitual versão de "Lisboa" com um Ruka visivelmente emocionado na voz, e a dupla de encerramento "Dono do Mundo" e "Nasci Hoje", com o guitarrista de sempre da banda prostrado no chão a fazer uma vénia muito sentida para quem soube esperar pelo regresso dos seus heróis e continua a fazer dos Tara Perdida a grande banda que continua a ser.
Venha o novo disco e mais concertos destes!!


Texto e fotos por Vasco Rodrigues
Agradecimentos: Gigs On Mars