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Reportagem: Alter Bridge, Daughtry e Sevendust @ Sagres Campo Pequeno, Lisboa - 10.02.2026


A venda de bilhetes deixava já antever que o Sagres Campo Pequeno estaria muito bem composto, com a lotação praticamente completa. Tudo apontava para uma grande noite de concertos, não só pela qualidade das bandas envolvidas, mas também pela coerência de um cartaz que reunia três propostas distintas dentro do mesmo universo sonoro. A previsão confirmou-se.

Eram precisamente 19 horas quando os Sevendust subiram ao palco. O recinto ainda se encontrava em fase de composição, talvez por se tratar de um dia de semana, com muitos espectadores ainda a chegar ao Sagres Campo Pequeno. Nada disso demoveu o coletivo norte-americano, que arrancou em força com “Black”, deixando desde logo claro que a intensidade não seria negociável. Apesar de já somarem mais de 30 anos de carreira, esta atuação marcou a estreia da banda em Portugal. Lajon Witherspoon fez questão de expressar a felicidade do grupo por finalmente visitar “este lindo país”, descrevendo o momento como uma verdadeira “reunião de família”. Seguiu-se a recente “Is This The Real You?” que evidenciou a atualidade criativa da banda, antes de um bloco mais concentrado nos temas que ajudaram a definir a sua identidade: “Enemy”, “Praise” e “Crucified”, esta última antecedida por uma breve reflexão de Lajon sobre a importância de “acreditarmos sempre em algo”. Ao vivo, o som da banda ganha mais músculo e impõe-se com uma robustez evidente. Humilde, comunicativo e carismático, Witherspoon puxou várias vezes pelo público, cuja adesão foi crescendo ao longo da atuação. Houve ainda espaço para crowdsurf em “Face To Face”, incentivado pelo vocalista, que encerrou um concerto muito positivo, tanto em termos de performance como de qualidade sonora: irrepreensível.

Às 19h50 era a vez dos Daughtry subirem ao palco do Sagres Campo Pequeno. Com uma sonoridade mais melódica e estruturalmente distinta da dos Sevendust, apresentaram um contraste interessante dentro da lógica da noite. Foram muito bem recebidos pelo público - para alguns, uma agradável surpresa - naquela que foi também a estreia da banda em solo luso. “Divided” abriu um concerto sólido e seguro, seguido de “The Bottom” e “The Day I Die”, ambas retiradas de “Shock to the System (Part Two)”, editado em 2025. À medida que o espetáculo avançava, sentia-se claramente o crescimento da energia da plateia, algo que se refletiu também na postura da banda, inicialmente mais contida e progressivamente mais solta e comunicativa. “Separate Ways”, dos Journey, surgiu com alguma surpresa (para alguns) e foi entusiasticamente acompanhada pelo público, sobretudo no refrão. A voz de Chris Daughtry manteve-se firme e segura ao longo de todo o espetáculo. Durante uma breve pausa, Chris aproveitou para agradecer aos presentes e destacar as raízes madeirenses de Elvio Fernandes, teclista da banda, que envergava uma camisola de Portugal com o número 7. Elvio dirigiu-se ao público em bom português, revelando que aquela noite tinha um significado muito especial para si. Este momento pareceu catalisar ainda mais a energia da sala, audível no refrão de “It’s Not Over”. Seguiram-se “Antidote” e a mais musculada “The Dam”, esta última a arrancar os primeiros headbangs. Com o público totalmente conquistado, “Over You”, “Heavy Is The Crown” e “Artificial” encerraram o concerto em grande. Apesar de terem apresentado um alinhamento com 12 temas, ficou a sensação de que o tempo passou muito rápido.

A ansiedade aumentava enquanto o palco era preparado para receber os cabeças de cartaz. A essa altura, já não se sentia uma brisa no interior do Sagres Campo Pequeno, prova evidente da forte ocupação da sala. Os telemóveis erguidos anunciaram os primeiros acordes da novíssima “Silent Divide”, muito bem recebida pelo público, seguida de imediato por “Addicted To Pain”, sem dar tréguas. Apesar de se encontrarem em plena fase promocional do álbum homónimo, lançado em janeiro de 2026, a banda optou por incluir apenas três temas desse registo, bem distribuídos ao longo da setlist. Myles Kennedy agradeceu - de forma muito breve - ao público e as luzes acenderam-se estrategicamente, revelando a impressionante massa de fãs presente. “Cry of Achilles” acabou por ser interrompida logo no início, quando Myles se apercebeu de que se tinha esquecido dos óculos, “coisas da idade”, brincou. Seguiram-se “Playing Aces”, “Fortress” e “Burn It Down”, esta última interpretada integralmente por Mark Tremonti. A dinâmica vocal entre Myles e Mark é notável e acrescenta ainda mais impacto e riqueza ao espetáculo. Sempre atento ao público, Myles interrompeu “Open Your Eyes” ao notar o mal-estar momentâneo de uma fã, retomando apenas depois de confirmar que tudo estava bem. 
Seguiram-se “Tested and Able” e o clássico “Broken Wings”, onde Myles deixou a guitarra de lado para se concentrar exclusivamente na voz, acompanhado em uníssono por toda a plateia, durante todo o tema. Enquanto todos recuperavam fôlego, nada fazia prever o momento que antecedeu “Watch Over You”: um pedido de casamento - com direito a relato de Myles Kennedy, que desejou as maiores felicidades ao casal - num timing absolutamente perfeito. “Silver Tongue”, “Rise Today” e “Metalingus” confirmaram que ainda havia muita energia para gastar. “Blackbird” foi cantada por todos de forma arrebatadora e “Isolation” fechou a noite de forma magistral.

O impacto desta noite estava bem visível no rosto de todos os presentes, bandas incluídas. Para além das performances em palco e da entrega do público, importa destacar o trabalho irrepreensível das equipas técnicas. O som esteve próximo da perfeição desde o primeiro minuto, acompanhado por um jogo de luzes teatral que acrescentou uma forte dinâmica visual a um espetáculo memorável. 


Texto por Diana Fernandes
Fotografia por Paulo Pereira Tavares
Agradecimentos: Prime Artists