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Reportagem: Scott Kelly, Father Murphy @ Galeria ZDB, Lisboa - 12-02-2014


Cerca de três anos depois de ter estado no Santiago Alquimista, Scott Kelly voltou a visitar o nosso país para duas datas. Relatos desse último concerto, fazem crer que foi uma noite especial. Como tal, tudo o que se podia esperar nesta chuvosa noite de Inverno, era isso. Magia. Além deste senhor, uma “banda surpresa” havia sido anunciada para fechar a noite. 

A admiração por Scott Kelly que se fazia notar no aquário da Galeria Zé Dos Bois, só teve paralelo no quase absoluto silêncio que rodeava cada uma das mentes que, num misto de paz e entusiasmo nervoso, marcaram presença. Digo quase, porque o peso da chuva que caía do lado de fora ecoava, contribuindo mais ainda para a carga mágica daquela hora e vinte. Oitenta minutos que não demoraram nada a passar. Oitenta minutos de algo que foi muito mais do que um concerto. O “senhor dos Neurosis”, facto que concede maior “sururu” ao seu projecto a solo, não obstante aquilo que ele faz ser de especial beleza, subiu ao palco num registo low-profile, afinou a sua guitarra acústica enquanto os companheiros Noah Landis (teclados e guitarras) e Gregory James Dale (Guitarra) tomavam os seus postos para o acompanhar de forma, também ela, mestra. Se há locais em Lisboa com cariz profundamente intimista, a ZDB está no topo da lista e cedo se percebeu que génios e seguidores seriam um só. Até pelos curtos diálogos entre canções. De um lado agradecia-se a sua vinda a Portugal, bem como se pedia inocente e inevitavelmente por Neurosis, do outro uma felicidade estampada na voz e nos rostos pela tremenda recepção, quer no Porto, quer em Lisboa. A música viajante do Scott é como que composta por várias cores, com as quais cada um de nós pinta as paisagens mentais que vai percorrendo, atribuindo-lhe um cunho muito pessoal além da magia que é inquestionável ao ouvido. “Figures”, “The Sun Is Dreaming In The Soul” ou aquele que foi, provavelmente, o momento mais comovente da noite pela dedicatória a todas as famílias,  “We Burn Through The Night”, deixaram sem fôlego aqueles que preencheram muito bem a pequena sala do Bairro Alto. A introspecção foi quase palpável, o ambiente carregado pelo deslumbre. O trio não deu por terminada esta, digamos, reunião, sem antes tocar uma cover de Steve Von Till, à qual o público respondeu com entusiasmo, surpreendendo o próprio Scott Kelly. 

A noite não havia chegado ao fim, mas sobravam poucas forças para Father Murphy, casal de italianos das atmosferas obscuras e sons vindos não se sabe muito bem de onde, mas que tinham o propósito de nos manter bem longe da terra. Muitos optaram por sair no curto intervalo, talvez por quererem manter bem vivo na memória o concerto do “tio” Scott, mas alguns preferiram matar a curiosidade que rondava o nome desta “banda surpresa”. Sem dúvida momentos e ideias interessantes, à parte da atitude que esteve lá, mas na realidade as almas já estavam afogadas, e acrescentar algo à noite não se revelou uma tarefa fácil para os italianos. Ainda assim, para bons apreciadores do género, vale a pena dar uma escutadela.


Texto por Carlos Fonte
Fotografias por Pedro Roque
Agradecimentos: Amplificasom