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Ancient Rites é um nome de culto para muitos fãs de Black Metal. Os belgas estiveram parados durante uns anos mas acabaram de lançar “Laguz”, o seu mais recente álbum. Gunther Theys, o enigmático vocalista/baixista, teve uma loooooonga conversa com a Metal Imperium em que se discutiu o novo álbum, o passado da banda, o futuro, deusas gregas e até cavalos.


M.I. – A banda esteve parada durante uns anos e temeu-se que tivesse terminado o seu percurso… o que provocou esta pausa?

Acredito mesmo que houvesse quem pensasse que a banda tinha acabado mas esta situação foi provocada por factores internos e externos. Tivemos de ultrapassar muitos obstáculos, nomeadamente financeiros e práticos, uns atrás dos outros. Para além de termos tido mudanças no line-up e membros com outras prioridades que tiveram de ser postas em primeiro lugar. Ao mesmo tempo, estávamos sem editora e perdemos a sala de ensaios. Escrevemos material novo ao longo dos anos, à espera que as coisas ficassem a nosso favor. A indústria musical mudou e as editoras não ofereciam contratos nem orçamentos decentes e nós não queríamos lançar um álbum de qualidade inferior. Sempre levamos as gravações muito a sério e o nosso próprio criticismo não nos deixava avançar. Mesmo quando estamos nos últimos retoques em estúdio, estamos sempre a fazer pequenas alterações porque queremos o melhor resultado possível já que trabalhamos com produtores que são músicos clássicos e têm sempre tudo debaixo de olho. É muito trabalhoso mas reconfortante saber que escrevemos músicas que sobrevivem ao passar do tempo e por isso é longa a espera por um álbum nosso mas fazemos o trabalho com o coração. O facto de também não termos uma equipa a gerir-nos, permite-nos ter liberdade total já que não há pressão para lançar material novo de X em X tempo ou de acordo com o que está na moda. Não havia necessidade de anunciar o nosso regresso sem termos um contrato e, no momento em que conseguimos ultrapassar os obstáculos e que conseguimos um contrato e um orçamento, começamos logo a tratar de tudo e, em poucas semanas, o álbum foi gravado, o design feito e os temas masterizados, também se fez um vídeo e o álbum estava pronto para ser lançado.


M.I. – Há 9 anos que lançaste “Rubicon” e agora surge “Laguz”. O significado de Laguz é água… para os Ancient Rites o que significa?

É isso mesmo. Significa água mas também iniciação, renovação, o começo da vida, está relacionado com a lua e as marés, com a viagem do corpo e da mente, mistério e sonhos. É feminino. Os nossos antepassados viam-na como capaz de prever as tempestades e obstáculos da vida. Mas apesar de ter um carácter obscuro, simboliza a recompensa através da perseverança. A banda teve de ultrapassar muitos obstáculos antes do álbum se tornar realidade e, num nível pessoal, também enfrentei graves problemas de saúde, nomeadamente a remoção de grande parte dos meus intestinos por causa de cancro. Ainda faço tratamento e tenho de fazer exames periódicos mas mantenho sempre uma mente positiva. A perseverança e o humor são armas muito poderosas, quando tens a mente no modo correcto, ganhas força e consegues ganhar estes desafios e aprender a ver a vida de uma perspectiva mais positiva que até te ajuda a recuperar mais depressa. Em Laguz, ponderei sobre a minha situação pessoal e, quando tinha de fazer mais uma operação ou estava com dores, tentava sorrir e pensava “Laguz ataca mas a tempestade vai ser vencida e a recompensa virá mais tarde”. Não sou religioso mas desenvolvi um gosto por este tipo de simbolismo ancestral. Penso que o título encaixa no universo de Ancient Rites por todas estas razões .


M.I. – No significado ancestral, a água é unificadora e vida e Laguz ensina-nos que a morte é uma ilusão criada pelo nosso ego temeroso, o nosso medo da morte é o medo patológico de perdermos a nossa identidade. Temes a morte?

Não! O modo como partimos é que pode ser complicado mas já vi muitos morrerem, alguns por causa da agonia do cancro, como animais a uivar por causa da dor, tal como a minha avó ou o meu tio, ou lentamente sufocando a tentar respirar em vão, tal como o meu avô. Não se pode comparar mas já estive em muitas situações humilhantes em hopsitais sem me conseguir mexer e sem ajuda, abandonado à minha dor, mas com a minha mente claramente a analisar a situação. A incompetente da enfermeira a dizer-me para me esquecer da dor e tentar dormir. As horas demoram a passar quando estás com dores, cheio de tubos ligados ao corpo e sentes-te sozinho, abandonado. Não é que eu quisesse ter espectadores mas foi um cheirinho físico e psicológico do que é a morte. Foi uma experiência que me ensinou a lutar e a focar-me na luz ao fundo do túnel ou na esperança de que ela lá esteja. Espero mesmo que a minha morte não seja nada como essas experiências que já tive mas não conseguimos controlar isso. Não estou a partilhar isto para que o pessoal tenha pena de mim porque não quero nada disso, apenas observo, aprendo, reflicto e partilho os meus sentimentos mais profundos quando me perguntam certas questões. Não espero nenhum tipo de vida após a morte, mas uma vida espiritual seria interessante se a conseguíssemos controlar e libertar-nos dos desconfortos físicos. Quando sonho, estou frequentemente em conflito ou a lutar e os meus sonhos dariam excelentes filmes já que há situações e enredos sempre a acontecer. Raramente me assusto e consigo seguir as direcções que quero nos meus sonhos, apesar dos perigos e situações extremas com que me deparo. Parece que a minha mente não consegue parar de criar mesmo durante o sono e, por vezes, é de tal modo realista que acordo exausto e quase sem ar, quase que em modo de sobrevivência. Prefiro quando estou acordado pois consigo controlar melhor a mente e o espírito.  Por isso, uma vida espiritual eterna ligada às lutas de uma vida física seria demasiado esgotante! (Risos) Prefiro uma eternidade de nada.


M.I. – Na página oficial da banda há um depoimento “Preparem-se para entrar nos portais dos mundos esquecidos, histórias obscuras, filosofias e no lado obscuro. A contagem decrescente começou. O Universo dos Ancient Rites aguarda-vos.” Fala-nos mais sobre Laguz.

Por onde começo? Abordamos uma grande variedade de tópicos. Claro que o álbum transportará o ouvinte em diferentes viagens a tempos e mundos esquecidos mas há o toque filosófico para os que gostam de cenas mais profundas. Também há temas directamente inspirados em filosofia, para oferecerem inspiração para quem precisa, tais como “Mind Unconquered”, “Umbra Sumus” e até mesmo “Under the Sign of Laguz”, se aprofundarmos um pouco mais. Também abordamos história internacional menos conhecida, para exemplificar: a ascenção e queda de Cartágo enquanto se reflecte sobre a sua religião; a trágica história do Imperador Juliano que tentou restaurar o Paganismo numa Roma cristã. Ele quase foi bem sucedido mas morreu em batalha, contudo corre o rumor de que foi morto pelos seus próprios homens subornados pelo clero. “Von Gott Entfernt” é sobre o culto “Bokkenrijders” que abalou parte dos Países Baixos no século XVIII. Usei Flamengo/Holandês e Alemão no tema para conseguir a autenticidade, já que os Bokkenridjers usavam uma mistura dessas línguas e também Francês quando comunicavam entre si, revelando o seu carácter internacional. Para além do mistério histórico, tem significado espeial para mim já que familiares directos meus estiveram envolvidos. Foi um fenómeno peculiar, bizarro e misterioso. Eu consigo rastrear as minhas raízes familiares aos tempos medievais. Interessante é que alguns deles pertenciam a este culto infame Bokkenrijders. Eles eram como a Aliança Negra, roubavam igrejas, a aristocracia, juraram lealdade uns aos outros e ao Diabo, praticavam rituais anti-cristãos para gozar com o clero. Um antepassado meu, Johan Theys, era suspeito de pertencer à primeira geração da Horda, e foi apanhado após um assalto a uma igreja, mas escapou da torre prisão. O nome dele apareceu nos arquivos antigos e também no diário de um padre local que escreveu sobre a sua fuga e suspeita que ele tenha formado uma nova Horda noutra cidade. É uma história familiar interessante. Outro ancestral foi capturado e ficou pendurado no campo de forca e uma lenda local diz que ainda assombra os campos. O que os historiadores e as autoridades do século 18 não sabiam e questionam nos seus documentos, eu sei. Eles falaram da família Theys como membros da Horda e de uma nova família, Boon, que constava nas listas de suspeitos mas não se sabia de onde vinham.  A verdade é que nessas localidades, o clã Theys era conhecido como Boon, a família era a mesma mas os nomes eram diferentes. Esse nome ainda nos é chamado hoje em dia. Essa era a derradeira prova que eles estavam a falar sobre os meus ancestrais directos. Tinha 5 anos quando fui apresentado a este fenómeno e queria saber por que razão o capitão da Horde, descrita e retratada na novela que me estavam a ler, se chamava Theys. Agora eu entendo o porquê. "Leg V Alaudae" fala sobre a ascensão e queda da Legião Romana formada por... gauleses. O seu caminho foi uma experiência dramática sem sobreviventes. Toda a legião foi exterminada, enquanto enfrentava uma força inimiga maciça. A história raramente conta esta história peculiar e eu senti que era hora de partilhar este conto interessante e trágico. Um tema como “Mind Unconquered” fala da vontade e força da mente, tem uma mensagem positiva baseada nas minhas experiências, para perseverar em tempos difíceis e lutar sem medo, não importa quão complicada a vida pode ser. 


M.I. – Vocês preferem títulos com uma palavra só mas cheia de significado. Quão importante é o titulo de um álbum afinal de contas? Achas que o título pode atrair / repelir fãs da vossa música?

Fizeste uma boa análise. Adoro o contraste de um título curto com muitas camadas diferentes e vários significados. Como expliquei anteriormente, o título Laguz é histórico, ancestral, cultural, mitológico, religioso, filosófico e pessoal. Muito simbolismo e história ligada a uma pequena palavra. Não faço ideia se o título pode atrair ou repelir pessoal para o nosso trabalho mas tal nem interessa desde que a banda o compreenda. A minha visão da arte é mesmo essa, independentemente de me expressar através da música, desenho ou pintura. Laguz tem um significado profundo e um simbolismo interessante e o modo como as pessoas o interpretam não interessa.


M.I. – O álbum parece ser uma “combinação de metal com orquestração que nos leva numa jornada até mundos esquecidos ao verdadeiro estilo de Ancient Rites. Os limites foram puxados. Um novo capítulo foi escrito. Uma jornada antiga continua.” Este lançamento foi muito antecipado… É o vosso melhor álbum?

Deixo o ouvinte decidir mas, de facto, todos os elementos musicais, vocais e líricos foram levados até ao limite. Todos os aspectos do nosso som foram intensificados, são mais complexos, com mais camadas, desde riffs mais simples a riffs mais melancólicos e complexos, a bateria também tem várias velocidades, diferentes estilos vocais que são abordados com variações orquestrais e elementos medievais que lhe conferem uma intensidade mais escura e histórica.


M.I. - O álbum foi gravado no vosso estúdio preferido, o SpaceLab. O que tem este estúdio de tão especial?

Talvez por sermos auto-críticos masoquistas, os produtores tentam que nós demos o nosso melhor e são ainda mais críticos, sem misericórdia! (Risos) Cada camada, cada nota musical e as vozes são verificadas exaustivamente pelos produtores que têm formação clássica. Primeiro entramos em estúdio com as gravações da pré-produção, incluindo a orquestração, todos os detalhes são dissecados. Depois tudo é regravado e alterado onde necessário. Na fase final, recebo os ficheiros e altero as letras pela última vez de modo a que o puzzle encaixe todo perfeitamente. A música é complexa, assim como as letras e o processo de criação. Todos nos focamos no nosso trabalho e só temos uma ideia do mesmo quando a produção e masterização estão completas. No final, as peças do complexo puzzle encaixam umas nas outras.


M.I. – Quanto tempo demorou todo este processo?

No geral, pode dizer-se que durou 9 anos com intervalos, já que fomos gravando demos de pré-produção. Mas a gravação final dos instrumentos aconteceu no estúdio SpaceLab na Alemanha com o produtor Christian Moos durante o mês de Outubro de 2014. Eu gravei as vozes no estúdio do produtor Oliver Phillips tmbém na Alemanha, onde toda a orquestração clássica foi gravada. Não sei exactamente quanto tempo os guitarristas e o baterista estiveram no SpaceLab. Depois das gravações, o Christian misturou todo o álbum e a masterização foi feita no Eroc Studio na Alemanaha. O trabalho da banda ficou todo feito em Outubro.


M.I. – Fazes algum tipo de preparação especial antes das gravações, seja uma dieta especial para ajudar a tua voz ou algo do género?

Não. Simplesmente tento não me constipar durante as sessões porque ter a garganta inflamada afecta o meu “instrumento”. No primeiro dia parecia que ia ficar constipado mas deve ter sido do cansaço da viagem e da falta de sono.


M.I. – A capa representa uma armadura antiga. Qual o seu significado?

Em 1939, os arqueólogos britânicos fizeram uma descoberta com 1300 anos, num monte em Sutton Hoo (Suffolk), desenterraram os restos de um navio anglo-saxónico, possivelmente o túmulo de um nobre do séc. VII. A madeira já tinha apodrecido mas a estruttura e alguns dos tesouros mantinham-se intactos. Foram encontrados ouro, prata e ferro, uma pequena espada, um escudo e o capacete deste guerreiro, que foi encontrado em pequenas peças e demorou anos de trabalho árduo por parte do laboratório do Museu Britânico a ser reconstruído. O facto de ter demorado anos, significa que houve obstáculos que tiveram de ser ultrapassados antes de ser apresentada a peça final e esse resultado encaixava no conceito de Laguz. Mais importante ainda é o facto de ter sido encontrado num navio e tudo isto cria uma ligação ainda mais directa entre o simbolismo de Laguz com a água e as viagens. Para além disso, o objecto faz parte da herança da Europa antiga, tal como o mundo de Laguz e encaixa perfeitamente no universo de Ancient Rites.


M.I. – Toda a informação e desenhos do booklet foram desenhados por ti. Quantas horas investiste neste trabalho?

Semanas!! Os desenhos, notas, todo o material que juntei para o booklet, fotos que trabalhei com efeitos especiais, o material histórico que coleccionei e o que modifiquei para obter o sentimento certo, etc. Passei longos dias e noites a trabalhar até às 10 da manhã, a descansar 3 ou 4 horas e continuar entre as pausas do meu emprego. Olho para o relógio, já é a minha 3ª entrevista de hoje e são 5.30 da manhã. Bem, o trabalho tem de ser feito. A adrenalina está sempre a correr e eu durmo mal, é difícil encerrar a minha mente. Bem, nem todo o desenho é feito por mim, já que seleccionei material histórico produzido por mestres do passado. Também tenho de creditar Jef Van Laer da Terrorgraphics que levou em consideração todas as minhas ideias, todas as minhas instruções sobre o facto de cada página ter a sua própria ilustração acompanhada de texto, etc. Ele sente o nosso trabalho na perfeição e preparou o booklet para a impressão, adicionando-lhe o seu toque pessoal.


M.I. – O álbum vai ser lançado pela Massacre Records. Como estão a correr as coisas com a nova editora até agora?

Satisfatoriamente. Fomos escolhidos por um investidor alemão que sempre gostou do nosso trabalho, tinha lançado várias cenas underground e trabalha com a Massacre. Eles estavam interessados em Ancient Rites. Foi também ele o elo de ligação com a Gordeon Music da Alemanha para efeitos de publicidade e organização de entrevistas. Portanto há várias entidades envolvidas neste lançamento. O orçamento veio de diferentes fontes. Ouvi dizer que a Massacre ficou satisfeita com a resposta da imprensa aquando da apresentação dos temas novos na feira do metal escandinava e com o interesse geral na banda. Gordeon estão satisfeitos com a resposta da imprensa relativamente a entrevistas e o homem que nos escolheu está feliz com o álbum e com o modo como as coisas correm. Já recebemos ofertas para tocar em festivais na França, Inglaterra, Holanda, Alemanha e Bélgica, o que é óptimo.


M.I. – Qual o actual line-up da banda?

Hoje em dia, a banda é o Erik Spooten e Domingo Smets nas guitarras, Walter Van Cortenberg na bateria e eu.


M.I. – Com que bandas estás a trabalhar nos dias que correm? Ainda tens os projectos Iron Clad e Lion’s Pride? Ainda tocas baixo nos Les Villains?

Neste momento estou focado nos Ancient Rites. Quando o baixista dos Les Villains morreu, eu ajudei-os tocando baixo nas tournées na Itália, Finlândia, Grécia e concertos na Bélgica. Gravei uma música com eles para um CD  compilação (e agora me recordo que nunca ouvi o resultado!!), mas abandonei a banda devido à falta de tempo e por achar que era mais importante tentar fazer o melhor com minhas próprias bandas. Ouvi dizer que há alguns anos atrás o guitarrista se suicidou, e nem sei se a banda ainda está activa. Com Iron Clad gravei um álbum completo e um álbum split com os Lion’s Pride. Os Iron Clad eram uma banda fundada na década de 80 e, já que aprecio o seu som autêntico vintage, fui convidado a participar e, através de mim, eles conseguiram contratos com editoras. A ideia era gravar material, como uma homenagem à cena antiga e passado da banda. Foi uma espécie de viagem nostálgica para deixar um "testemunho" já que o guitarrista co-fundador ia mudar-se para os EUA. Depois dele ter emigrado e dos lançamentos serem bem recebidos no underground,  recebemos propostas de concertos e o guitarrista não se opôs, mas significava encontrar um novo guitarrista e mais ensaios. E já que eu não era membro fundador, nem seria o novo guitarrista, pensei que seria mais justo não continuar na banda. Afinal de contas, a ideia geral era fazer uma homenagem ao passado. Quanto a Lion’s Pride, a banda estava a enfrentar problemas semelhantes aos dos Ancient Rites ou ainda piores. O último álbum de Lion’s Pride (um álbum duplo com material antigo e novo, incluindo um dvd) foi lançado recentemente. Demorou anos para que isso acontecesse devido a mudanças na formação da banda, a nossa sala de ensaios foi incendiada, a banda foi banida dos palcos depois da TV nacional ter feito um programa em que tinham dobrado a minha voz com a de um americano que estava a gritar ameaças de morte. Eles tinham a foto da capa do álbum e colaram-na numa foto de cadáveres nos campos de concentração, projetaram-na numa tela grande e, debaixo da tela, políticos e jornalistas discutiam como podiam parar uma banda como a nossa. Eles descreveram-nos como uma banda racista que se opunha a qualquer outra cultura além do flamengo. Fomos proibidos em todo o país. Os promotores que gostavam de nós nem sequer se atreviam a contratar-nos. Eu recebi um telefone de um jornalista da TV nacional a pedir desculpas pelos seus colegas, porque sabia que eles não tinham mostrado a verdade. Já antes eles tinham cortado entrevistas minhas, porque ficaram decepcionados por eu não viver de acordo com o ponto de vista cliché que eles imaginavam. Como eu não oferecia a sensação que eles queriam, manipularam e mentiram. Enquanto isso, o álbum novo de Lion’s Pride finalmente ficou pronto para ser lançado e a editora foi informada que o stock foi confiscado na Polónia, na fábrica de impressão. Há rumores de que a fábrica devia dinheiro e foi à falência, assim, o stock completo, incluindo o nosso lançamento, perdeu-se, tal como o dinheiro da editora. Recentemente, o álbum foi re-impresso e re-lançado. Às vezes penso como é possível?! Quer dizer, há muitos anos os Ancient Rites não funcionavam correctamente por causa de imensos obstáculos, o mesmo se passa com os Lion’s Pride, nada deu certo e, em seguida, o meu trabalho gráfico chegou a um impasse devido às mudanças nas empresas em que trabalhei e que já não queriam produzir os desenhos que eu entregava. Também havia outras questões que necessitavam da minha atenção. Agora, felizmente, está tudo bem encaminhado e, em breve, vou lançar dois trabalhos gráficos simultaneamente. Penso que todos os problemas que enfrentei, já era Laguz a jogar os seus truques, mas enfrentei as tempestades e emergi mais forte depois. O túnel foi longo e foi complicado lidar com estas situações todas ao mesmo tempo e todas foram causadas por factores externos, não por escolhas pessoais. E, de repente, tudo bate certo. A vida pode ser estranha. A única coisa que controlamos é a mente e o modo como lidamos com as dificuldades/problemas.


M.I. – Ainda és tu que tratas de todas as actividades promocionais dos Ancient Rites – entrevistas, mercadoria, websites, concertos, correspondência, etc? Uma secretária daria jeito, não?

Sim!  Mas, hoje em dia, o Erik é que trata da maior parte das propostas de  concertos, que são marcados através de uma agência que é dirigida por um Austríaco que vive nas Países Baixos, que passa a informação para o nosso guitarrista holandês, que por sua vez informa a banda baseada na Flandres. Colaboração internacional, não? (Risos) O Erik trata dos detalhes técnicos relativamente ao equipamento exigido como guitarras e amplificadores. Para evitar situações em que eles tenham de trabalhar com material que não coreesponde às expectativas. Por vezes ainda recebo propostas mas passo-as, porque digo quase sempre “sim”. (Risos)


M.I. – Apesar de teres enfrentado problemas de saúde que implicaram bastantes visitas ao hospital, não pareces descansar. Como consegues ter tanta energia? Tens alguma poção mágica?

(Risos) É uma combinação de adrenalina, paixão, teimosia, força de vontade e talvez um pouco de insanidade. (Risos) Mas as minhas fontes são naturais, sou anti-drogas e detesto o facto de ter de tomar medicação para controlar a minha saúde e ter de ir regularmente fazer infusões nas veias. Mas aceito a situação e não procuro “pedradas” destrutivas como drogas… as minhas pedradas são naturais e causadas pelo meu espírito.


M.I. – Ao longo dos anos, os AR foram sujeitos a boicotes, ameaças de bomba e outras dificuldades. Como reagiste a todas estas situações?

Desde indiferença a desprezo. A cena Black Metal há uns anos era mesmo controversa, em que as pessoas envolvidas eram altamente individualistas e ninguém ficava facilmente chocado com as opiniões alheias. Quando o estilo passou a ser mais aceite, surgiu logo a polícia, a censura e a imprensa que adora histórias sensacionalistas. Entretanto, a nossa música foi usada em séries criminais sem autorização, e as capas dos nossos álbuns foram manipuladas e mostradas na televisão nacional, até os vídeos foram manipulados e chegaram ao cúmulo de substituir a minha voz por a de um americano a gritar “Morte a todos!”. Numa entrevista que dei à televisão cortaram as minhas afirmações por não serem suficientemente controversas e por não corresponderem ao que eles tinham inventado sobre nós. Também fui convidado para fazer o papel de criminoso numa série criminal. Na semana passada, convidaram-me para participar num programa sobre Juventude Radical, sobre os jovens que se viraram para o terrorismo e eu recuso sempre participar em circos desses. Primeiro, já não sou jovem (talvez até seja um elogio! Risos), segundo não sou radical e terceiro não me tentem ligar ao terrorismo e fundamentalismo que sempre critiquei. Foi por esta razão que a imprensa e os moralistas sempre me detestaram, porque falei destes assuntos há muitos anos atrás e fui considerado “intolerante/incorrecto”; os mesmos hipócritas que agora gritam “Je Suis Charlie”, depois de colegas meus terem sido assassinados por desafiarem o fundamentalismo na sua publicação (Charlie Hebdo). Que ironia! A imprensa é muito boa a distorcer factos, a procurar sensacionalismo e a apresentar cenas fora de contexto. A imprensa televisiva nacional alterou e manipulou factos nos seus programas para que a opinião pública se virasse contra nós, o que resultou em sermos frequentemente banidos de tocar em território nacional enquanto conseguíamos fazer tournées no estrangeiro. Lá porque temos orgulho nas tradições e culturas locais não significa que desprezemos os outros e consideremos as outras culturas inferiores à nossa.  Sempre que fui entrevistado para a televisão, cortavam sempre este tipo de comentários porque queriam clichés e sensações e não a realidade por ser muito menos interessante. Não se pode confiar em tudo o que se lê ou que se ouve na rádio, televisão e internet. Já aceitei este facto há muito tempo e ser uma banda de metal não é fácil. Os artistas mais comerciais têm advogados, dinheiro e não são tão controversos como nós. Deixei de me preocupar e só me interessam aquelas pessoas que verificam várias fontes e formam opinião sobre mim e a minha música com base no que ouvem e nas letras. Infelizmente, esses são uma minoria. A imprensa fabrica esta desinformação mas quero que me julguem pelo que sou e faço e não pelo que se diz que sou e faço.


M.I. – Estar numa banda durante tantos anos já te deve ter proporcionado grandes histórias para contar. Tens alguma divertida para partilhar connosco?

Acho que poderíamos escrever um livro sobre situações surpreendentes que aconteceram connosco. Um dia no paraíso, o outro no inferno. Um dia numa piscina no Sul da França, e o outro preso nas montanhos entre a Itália e a Áustria  com o autocarro em chamas. Tivemos que improvisar luzes para abrandar os motoristas para que não embatessem em nós. Imaginem os olhares nos rostos das pessoas quando pararam os carros, obedecendo às nossas luzes, e viram uns tipos com restos de tinta e sangue no rosto, vestidos de couro e spikes saindo da névoa na noite, enquanto um fogo ardia na esquina. A polícia depois apareceu e supervisionou a situação e até foram muito gentis. Lembro-me de partilhar um cigarro e ter uma boa conversa com um polícia enquanto esperava que se reparasse o autocarro mas não me lembro se era italiano ou austríaco. Uma das piores tournées que já experimentei foi a loucura pura e, apesar dos problemas constantes, diverti-me imenso porque tivemos bons momentos mas a má sorte era ridícula e enorme. Fomos em tournée com os At The Gates e outras bandas na Inglaterra durante o inverno. A tournée começou com grande luxo. Tivemos o autocarro de tournée da banda pop Roxette à nossa disposição: camas aquecidas, salão de beleza, cozinha, tv, jogos, o pacote completo. O promotor da tournée que estava connosco não tinha pago o aluguer do autocarro luxuoso e, uma noite depois do concerto, disse que tinha sido roubado na rua e não nos poderia pagar. Nós nem sabíamos se ele estava a falar a verdade ou não. Eu tenho as minhas dúvidas. O motorista do autocarro contactou a empresa e disseram que ele poderia continuar a tournée se lhe entregassem o dinheiro, caso contrário, teria que voltar para a Suécia. As bandas cujas editoras pagaram, poderiam permanecer a bordo mas as outras tinham que sair. Então essas bandas contactaram as editoras e eles concordaram em pagar-lhes o bilhete de regresso. A nossa editora na altura (After Dark Records), disse que não poderia ajudar e, uns dias depois, descobriu-se que um dos proprietários da editora tinha roubado a banda, o seu sócio e investidores, e nunca vimos um cêntimo do álbum de estreia, o qual tínhamos pago com dinheiro nosso. De qualquer forma, tivemos que sair do autocarro em pleno inverno com as nossas malas cheias de roupa para um mês e todos os nossos equipamentos e mercadorias. Não tínhamos dinheiro porque tínhamos pago ao promotor a nossa parte da tournée. Lá estávamos nós, no inverno, nas ruas. Pedimos ao clube em que tinha tocado, se poderíamos deixar lá o nosso equipamento e mercadoria. Pusemo-nos dentro de uma cabine telefónica para nos mantermos quentes e telefonamos ao promotor de Londres com as últimas modeas que tínhamos. Informamos que já não havia nenhuma tournée, mas que ainda estávamos dispostos a tocar lá sozinhos. Ele ia reservar bilhetes de comboio para nós irmos tocar em Londres no dia seguinte. Enquanto isso, estávamos nas ruas com fome e a filha excêntrica do fundador da agência Reuters, que vivia naquela zona, deu-nos abrigo. Na sua casa, havia um iate encalhado no jardim, uma foto dela com a Marilyn Monroe e ela era adepta de bruxaria e espiritualidade. Dormimos no chão ao pé dos seus cães. Ela organizou uma festa com amigos que moravam numa casa estranha, onde os peixes estavam pendurados em fios que caíam do tecto, havia pessoas cobertas de lama que dançavam à volta de uma fogueira e diziam que o faziam para estarem mais perto da natureza. Era como um filme. Que casa de loucos! Nós passeamos os cães na praia para fazer algo de útil enquanto esperávamos pelos nossos bilhetes para Londres. Quando eles chegaram, começamos a nossa viagem e deixamos muitas das nossas coisas na casa da bruxa. Durante a  viagem, o comboio parou e tivemos que sair, porque havia greve geral. Ligamos ao promotor de Londres e ele arranjou-nos bilhetes de autocarro e íamos a caminho de Londres quando os autocarros também entraram em greve. Nessa altura, estávamos literalmente no meio do nada na Inglaterra. E desta vez nem havia cabine telefónica nem bruxas. O promotor decidiu vir buscar-nos de carro, era a última solução. Horas mais tarde, vemos uma silhueta solitária no horizonte a caminhar na nossa direcção… era o promotor e o carro tinha avariado! Estávamos todos famintos e miseráveis, mas mesmo nas situações difíceis eu consigo ver o humor e eu diverti-me por causa do meu humor negro sádico. De alguma forma, lá conseguimos chegar ao Devil’s Church em Camden Town, tocamos e ainda ganhamos o suficiente para comprar um bilhete de barco para casa. Entretanto, uma parte da nossa mercadoria, que foi deixada no clube, foi roubada. Mais tarde, tivemos que voltar para a Inglaterra para recuperar o nosso equipamento, a nossa mercadoria e as nossas coisas da casa da bruxa simpática... Começamos a tournée como estrelas rodeadas por luxo e acabamos como vagabundos nas ruas, sem dinheiro, sem comida, nada para beber e voltamos para casa tesos e roubados depois de enfrentarmos todas as greves na Inglaterra. (Risos) Eu adorei cada minuto, mas, talvez, seja um pouco louco.


M.I. – Tens amigos e fãs por todo o mundo… onde estão os mais autênticos e dedicados?

Tenho mesmo. É difícil de responder a esta pergunta porque as cuturas e o modo de expressão variam mas a dedicação é semelhante. Os fãs sul americanos são fanáticos, até quase insanos!  Dentro da Europa, diria que os do sul têm mais tendência para expressarem em voz alta o seu entusiasmo, mas os do leste também o fazem e também temos multidões fanáticas na Finlândia e até no nosso país. Penso que são todos autênticos à sua maneira. Conheço fãs dedicados que não expressam o seu entusiasmo mas coleccionam tudo e adoram o nosso trabalho. É divertido observar o comportamento humano.


M.I. – Os AR já tocaram em Portugal algumas vezes… o que gostas mais neste país?

De certeza que já tocamos em Portugal? Não me parece! Não foi em Santa Cruz? Ah, a terra descoberta pelos brasileiros! Estou só na brincadeira! O que gosto mais? Não posso responder porque é uma combinação de factores que me atraem à Lusitânia. Tenho as melhores memórias do vosso país, as audiências são acolhedoras. Para além disso, adoro a rica história da vossa terra, desde a antigas celebrações celtas até aos exploradores.  Adoro a natureza e as paisagens e a vossa cozinha é fabulosa, assimo como o vinho e as cervejas. Sempre que tocamos em Portugal, parece que estamos de férias. Na minha terra natal, um amigo tem um restaurante especializado em comida espanhola e portuguesa  e sou um cliente assíduo, também costumamos ir a um restaurante de uma senhora portuguesa aqui na cidade ao lado. Pode soar cliché mas adoro o acolhimento dos portugueses, a hospitalidade, a atitude terra-a-terra, sois pessoas sociáveis. Uma situação engraçada que me aconteceu em Portugal: depois de um concerto fomos convidados para irmos a um bar e recebemos um cartão em que cada bebida correspondia a um carimbo. Disseram-me para não perder o cartão mas estávamos a divertirmo-nos e eu encontrei uns amigos e deixei o cartão com eles porque ainda tinha espaços em branco. Quando estávamos de saída, os amigos que me tinham levado, pediram-me o cartão e eu contei-lhes o que tinha feito ao cartão e eles ficaram horrorizados e começaram a discutir em Português e eu não percebi nada do que disseram e só depois me explicaram que o cartão tem de ser pago à saída. Aqui o cartão é teu a partir do momento que vem parar às tuas mãos, está considerado pago. Eu a pensar que tinha oferecido bebidas e afinal tinha era oferecido a minha conta a alguém! Pensei que o promotor tinha pago o cartão antecipadamente. Depois pedi desculpa às pessoas mas elas não tinham ficado chateadas porque pagaram o seu cartão e ficaram com o meu como recordação. Diferenças culturais! (Risos) Tenho aí muitos bons amigos com quem mantenho contacto regular!


M.I. – Adoras viajar… qual o lugar mais bonito que já visitaste? E o mais puro?

Adoro o inverno, o verão, a primavera e o outono. Adoro montanhas, desertos, florestas, o mar. Adoro cidades e aldeias. Todos têm o seu charme e atmosfera. Gosto de sentir a vibração do lugar para onde vou, mergulhar na sua história, cultura e tradições, na sua cozinha e bebidas, conhecer as pessoas. Deste modo, cada localidade se torna mágica, portanto não se podem comparar as experiências de viagens porque são todas tão diferentes mas tão interessantes.  Procuro sempre a beleza e o ambiente de cada local e tenho sempre sorte, porque esta atitude ajudou-me ao máximo a conseguir escolher entre andar de camelo no Deserto do Saara ou visitar as montanhas da Ásia Menor para descobrir as cavernas dos primeiros cristãos que basicamente se moviam debaixo de terra. A “magia”, e não uso este termo no sentido supernatural, pode ser encontrada em qualquer lado.


M.I. – Pessoalmente, qual consideras ser o maior “erro/pecado” da sociedade actual?

O mundo ocidental sofre da falta de interesse e amor pelas suas tradições, heranças e cultura, que frequentemente se transformam numa espécie de ódio por si próprio para se provar quão politicamente correcto se é, especialmente aqui no Norte e aqui na Flandres. Dar voz a uma diferente atitude e opinar sobre uma perspectiva diferente pode originar hostilidade e problemas. Os média estão bem treinados para cultivaram o tabu e orquestrarem a opinião pública contra os que se lhes opõem. Entretanto eles lambem os pés dos que não têm as melhores intenções e contribuem para a queda da nossa sociedade.


M.I. – Achas que há quem se considere imortal e, por essa razão, não valoriza a vida?

Por vezes questiono-me sobre o facto de alguns pessoas duvidarem da sua mortalidade. Parce que é algo que só acontece aos outros, talvez seja um mecanismo de auto-defesa para funcionarem bem, fingindo que o futuro é interminável. Lembro-me de me observar com 6 anos e pensar que cresceria e morreria. Agora, várias décadas mais tarde, lembro-me de reflectir sobre a morte e isso foi muito antes de ser confrontado com os problemas de saúde e com a mortalidade de perto. Quando atingi os 18 anos, achei que estava velho mas muitos conhecidos meus ficaram contentes por terem atingido a maioridade. Hoje em dia costumo ter a esperança de viver o suficiente para terminar este ou aquele trabalho. Há alguns meses ouvi que uma conhecida tinha falecido de cancro e tinha-a visto uns meses antes e tínhamo-nos cumprimentado. No ano passado, um conhecido meu disse-me que sofria de diabetes mas que tinha tudo controlado e estava ansioso por ir a Creta. Quando ouvi, tinha falecido e ainda nem 40 anos tinha. Um dia tinha-se sentido mal, foi ao hospital, disseram que estava tudo bem, mandaram-no embora e nunca mais foi visto. Foi encontrado em coma sozinho no seu apartamento e esteve ligado a máquinas que o mantiveram vivo mas a esperança de recuperação era reduzida e desligaram-no. Ainda nem tinha ido a Creta. Não considero nada garantido já que a vida passa depressa. Podemos criar a ilusão de que dura para sempre mas a realidade é outra e não é um pensamento positivo. Ontem recebi a notícia do suicídio de um amigo de infância… a mulher abandonou-o por ele ter um grave problema de bebida e ele estacionou o carro no meio dos carris e esperou pelo primeiro comboio. É triste. Tivemos momentos tão bons, tantas memórias de infância e agora um partiu. Reflecti sobre a mortalidade no tema “Umbra Sumus”. Somos sombras.


M.I. – Na tua página do facebook é frequente partilhares comédia desenhada por ti. Em que te inspiras?

Inspiro-me na vida, sou um observador. A minha mente transforma situações sérias ou acontecimentos trágicos em situações absurdas ou semi-cómicas. Sou um antropologista amador, gosto de observar os diferentes tipos de seres humanos e exagerar nas personagens para frisar o absurdo das suas acções. Penso que esta “qualidade” é a razão porque me consigo rir das minhas situações absurdas mesmo quando não tem piada nenhuma. Um ser humano pode ser espectacular e patético ao mesmo tempo. A vida tem tanto para nos oferecer, por vezes situações criadas por factores externos, outras por nós próprios, que podem causar muitas situações/reacções com que temos de lidar. Todos estes factores juntos são uma fonte de inspiração inesgotável para o pessoal que adora desenhar comédia. Às vezes atingimos a grandeza, outras somos criaturas tontas e eu tento minimizar estas situações na minha vida evitando portar-me como um tolo, pensando um passo à frente dos outros. Quando o pessoal reage de modo estranho e se stressa, eu não reajo igualmente, analiso a situação e respondo com calma. Quando me apercebo que não vale a pena falar, nem me esforço. É esta capacidade, a “maquinaria” da minha mente que me oferece a inspiração para desenhar situações cómicas. As expressões das pessoas também são importantes e acentuam a hilaridade. Quando eu era criança, pediram-nos na escola para desenhar algo divertido e eu desenhei um bombeiro a rir-se ao lado de uma casa a arder. A professora e os colegas disseram que ele não estava a fazer nada, que não tinha piada e eu respondi que ele tinha feito muito pois tinha sido ele a pegar fogo. Eles insistiram que não podia ser porque ele é bombeiro e apaga fogos e eu disse que ele gosta tanto do que faz que teve de criar um incêndio para poder trabalhar. Penso que eles acharam que o meu desenho era doentio mas eu sempre tive este tipo de humor, sarcástico e negro. (Risos) Não faço piadas às custas de ninguém por causa da sua aparência mas posso fazê-lo pelas suas atitudes e acções.


M.I. – Os teus livros são inspirados em artistas como Serpieri, Hugo Pratt, Jacques Martin, Pleyers, Hermann. Penso que estás prestes a publicar um livro. Fala-nos sobre isso.

Fizeste bem o trabalho de casa e não admira que eu vá dá respostas excessivamente longas! (Risos) Sabes o que dizer para activar a minha inspiração! (Risos) Em criança, antes de saber ler, cresci com os trabalhos fantásticos de Hergé (Tintin), Willy Vandersteen (Bob & Bobette/Suske & Wiske), Uderzo (Asterix). A sua arte, apesar de cómica à primeira vista, é brilhante, enraizada no realismo, linhas definidas e histórias inspiradoras baseadas na história, lendas e folclore. São para todas as idades porque, agora de adulto, descobri mais pormenores nelas. Eles foram a minha insiração quando comecei a desenhar. Com 8/9 anos, descobri os trabalhos de Jacques Martin, a série Alix/Alex atingiu-me como uma bomba porque foi desenhada num estilo realístico e parecia a arte e estética Greco-Romana clássica. A partir destes trabalhos fiquei ainda mais obcecado com o antigo. Na minha adolescência  descobri E.P. Jacobs, Hugo Pratt, Pleyers, Hermann, Serpieri, Bourgeon. Foi durante estes anos que criei novelas gráficas realísticas. Adoro dedicar-me a estilos diferentes. É engraçado porque recentemente a minha mãe disse-me que prefere o meu trabalho mais “sério”, porque acha que esse estilo revela melhor as minhas capacidades. A França e a Bélgica têm uma grande tradição de novelas gráficas e até nisto sou diferente. Aqui na Flandres, as novelas gráficas humorísticas são mais populares. Na parte francófona/alemã é considerada uma forma de arte mas aqui é vista como um entretenimento. Por isso os estilos mais realistas vêm dessas partes do país. Eu estou entre os dois estilos, estou entre dois mundos. Daqui a alguns meses, uma pequena novela gráfica minha sairá numa compilação para apoiar o Child Cander Fund. É uma novela baseada em figuras folclóricas medievais flamengas da cidade de Ghent. Os monumentos e castelos estão desenhados de forma realista mas as personagens são mais humorísticas. A história fala de lendas e histórias locais com personagens históricas ligadas à cidade. Apesar de ter um toque negro, não é extrema porque é para uma audiência mais geral. O pessoal de Ghent que já teve oportunidade de ler um excerto, gostou muito porque reconheceram muitos aspectos da sua herança pessoal. Para mim é um elogio, obviamente! Também lançarei uma novela gráfica de estilo realista que desenhei nos anos 80. Os meus amigos do facebook estavam sempre a perguntar quando é que eu publicava uma para eles lerem, perguntei-lhes o que queriam e responderam que pretendiam algo histórico, aventureiro, misterioso e com humor negro. Lembrei-me que já tinha feito algo assim e que tinha sido publicado em holandês e a preto e branco no mercado local flamengo. Portanto, comecei a polir digitalmente essas páginas com 30 anos, traduzi-as para inglês de modo a que todos as possam ler e adicionei-lhes cor. Esta história acontece em dois períodos: no tempo medieval e nos anos 80. Para os tempos antigos usei tonalidades de cinzento, preto e branco para dar aquele toque antigo mas nos anos 80 usei cor total. A novela chama-se “Devil’s Carm – The Ancient Curse” e os ingredientes são história, assassinatos por resolver, um suposto artefacto antigo e amaldiçoado, organizações secretas e um toque supernatural de humor negro. As personagens principais são um inspector da polícia, Van Roy (usei o nome de família da minha avó para a honrar e por ser um nome facilmente pronunciável),  que tenta resolver os homicídios e um caçador de tesouros chamado Crazy Sid. Tornam-se aliados quase por força e a procura leva-os a lugares saggrados, cemitérios esquecidos, caves de culto, uma fortaleza histórica de paraquedistas, onde fiz o meu serviço militar, e directamente à cena metal dos anos 80, porque o centro dos homícidios e da confusão é uma banda de metal oculto de primeira geração. A banda lida com boicotes, concertos banidos, investigações policiais, humilhação da imprensa e com a morte de membros da banda. Alguém que leu esta novela, perguntou-me se eu me tinha apercebido que tinha escrito a história do futuro com os Ancient Rites, já que todas estas cenas aconteceram connosco. É um pensamento engraçado, porque, um ano depois de escrever a história, fundei os Ancient Rites.


M.I. – Como fã de desenhos/pinturas, qual foi a tua primeira reacção aos ataques ao Charlie Hebdo? E quanto a todos os outros ataques terroristas?

Senti-o como um ataque directo, já que eles estavam a fazer o que eu já fiz para os meus pensamentos. Isto fazia com que fossem colegas meus. Já publiquei piadas gráficas sobre fanáticos religiosos e os conflitos entre Judeus, Cristãos e fundamentalistas Islâmicos, até mesmo piadas sobre terroristas islâmicos. Como disse anteriormente, a imprensa nacional e as massas sempre me condenaram por referir os perigos destas reportagens de má imprensa e imensos artigos sobre nós a expressar a sua indignação, choque e surpresa. Segurar cartazes a dizer “Je Suis Charlie” é uma treta porque só alguns indivíduos como o Charlie têm coragem de ser Charlie e pagam o preço mais caro por isso. Também paguei um preço por me fazer ouvir mas a minha voz foi neutralizada por mentiras e truques jornalísticos… nem foram os fundamentalistas a neutralizar-me, foram as próprias pessoas do ocidente, aquelas que agora se auto-entitulam Charlie. Hipócritas! No dia em que os escritores e cartoonistas foram mortos, eu postei no facebook um velho cartoon meu sobre terroristas islâmicos. Podes perguntar que diferença fez e digo que até nem fez muita, mas milhares de pessoas viram que eu não me sentia intimidado e não me calarei. Não estou a dizer que sou o Charlie mas, se estivesse a viver em França, havia a hipótese de estar a trabalhar com eles porque trabalhamos no mesmo campo e temos o mesmo tipo de humor e usamos a mesma forma de arte. Pouco tempo após os assassinatos, uma loja em Bruxelas recebeu ameaças de morte por estarem a vender o jornal Charlie Hebdo. Algumas áreas em Bruxelas e outras grandes cidades são centros de fundamentalismo. Muitos voluntários jihadistas nascidos em famílias imigrantes que vivem aqui, foram recrutados para ir lutar nas Síria enquanto a nossa sociedade lhes paga subsídios de desemprego. Alguns desses voluntários regressaram e agora têm como alvo a nossa sociedade. Houve uma batalha entre a polícia e os terroristas neste país porque iam cometer actos terroristas vestidos de polícias. Percebo que o pessoal se queira agarrar às tradições e raízes mas é extremamente arrogante tentarem forçar as suas ideias através da violência nas culturas onde se integraram. Se querem um estado islâmico, tudo bem, que formem um no deserto lá da terra deles com pessoal que partilha as suas ideias. As coisas descontrolaram-se e eu culpo os políticos, os média, as autoridades e as ovelhas ingénuas. Agora é demasiado tarde, já que a Europa que conhecemos está a colapsar. Eu estou aberto e interessado em diferentes formas de teologia e sou Ateu. Já tive conversas interessantísssimas com padres católicos, ortodoxos, imãs, monges budistas, neo-druídas, etc.  Adorei a interação e fiquei intrigado com certas posições que abriram os meus horizontes e me permitiram explorar campos do misticismo esotérico. Até entrei nos seus templos como visitante. Há histórias interessantes para ouvir e tradições para aprender. Participei em celebrações e tenho uma mente aberta mas não forcem as vossas ideias em mim que eu não faço o mesmo. Deixo de ter uma mentalidade aberta quando o pessoal me tenta forçar as suas ideias.


M.I. – O tema “Mother Europe” é quase como um hino ao velho continente. Achas que a Europa está a enfrentar a sua queda devido à crise económica que afecta a maior parte dos países? Onde vamos parar?

Muitos factores contribuem para a situação actual, nõ só os económicos mas também os culturais. Parece mesmo a queda da Europa mas foi isto que os Romanos sentiram quando o seu império estava em declínio, os padrões de vida desceram e houve uma paragem na evolução. Deixaram de construir viadutos,  deixou de haver luxo, educação, a economia começou a cair, a arte entrou em declínio, portanto os Romanos também testemunharam pobreza, injustiça, corrupção, guerras civis e escravatura. Os ricos mantiveram-se ricos e os pobres continuaram pobres mas muitos dos confortos que a civilização ofereceu aos seus cidadãos acabaram, as invenções ficaram esquecidas, as instituições já não funcionavam, houve uma queda geral. Foi o fim de uma era. Hoje vejo um mundo diferente do mundo quando eu era criança. Não havia tanto luxo mas não havia pessoal a passar fome, não havia choques culturais, conflitos religiosos, o terrorismo parecia só acontecer no outro lado do mundo, as portas ficavam abertas durante a noite, não havia tiroteios, os conflitos eram resolvidos a conversar ou com porrada, não havia gangues… espera lá isso eram os filmes de Chicago e Hollywood. A inocência perdeu-se, hoje vive-se num mundo de caos. Talvez os leitores mais novos pensem que estou a exagerar mas eu vivi nos anos 60 e 70 e a Europa era bem mais pacífica e a economia estava em crescimento. Talvez seja um problema recorrente e todas as pessoas tentem glorificar o passado que tiveram. Mas admito que, nestas últimas décadas, o mundo mudou muito rapidamente enquanto que, nos séculos anteriores, a mudança era feita com calma. Agora sou mais flexível e consigo adaptar-me facilmente mas penso que muitas coisas postivas do passado são deitadas fora e até consideradas erradas. Houve uma mudança de mentalidade perante certos valores.


M.I. – O que sentes quanto à liberdade de expressão? Deve poder dizer-se abertamente o que se pensa mesmo que se magoe os sentimentos de outrém ou deve haver um limite?

Pela minha experiência essa liberdade nem existe, só mesmo a teoria de palavras ocas em que eles querem que nós acreditemos. Os meus telefones foram escutados pela segurança nacional por ter escrito alguns canções sobre a Flandres ancestral. Descobriram que eu não estava envolvido em actividades criminosas e contactaram-me para lhes fornecer informação sobre a cena. Apareceram-me à porta e disseram que tínhamos de conversar e eu disse que não tinha nada a dizer. Eles responderam que eram a Políca Secreta e que eu não tinha hipótese e eu respondi “Ainda bem que não são testemunhas de Jeová”. Deixei-os entrar e referi que não tinha nada a esconder, respondi-lhes verdadeiramente às questões, nem fiquei nervosso e até os convidei para virem ver um concerto, oferta que eles recusaram. Mandaram-me não mencionar a conversa a ninguém e pediram-me para os informar se acontecesse algo estranho. Liberdade de expressão? Não me parece! Fui perseguido por uma célula religiosa e uma política. Quando o nosso baterista foi questionado disseram-lhe que sabiam tudo sobre nós e que estavam a par das nossas actividades. Nós veneramos a Flandres demasiado. “Radicalismo” disseram eles, “História” disse o nosso baterista. Se, um dia, o estado islâmico chegar aqui, eu serei o primeiro a ter a cabeça cortada. Da maneira que as coisas estão a acontecer, talvez até aconteça em breve! (Risos) Espero que permaneçamos underground, pela minha saúde! (Risos) Acredito na liberdade de expressão mas os que têm o poder usam essa liberdade para mentir em grande escala. Acho que deve haver um limite quando há homícidios envolvidos.


M.I. – As guerras religiosas são as mais perigosas?

Talvez porque as que são inspiradas na religião têm os mais fanáticos participantes que acreditam estar numa missão sagrada e que a recompensa divinal os aguarda. E pensam o pior dos que não partilham a sua fé, o que resulta em crueldade indescritível.


M.I. – O que estás a ouvir?

Neste momento, nada! Silêncio absoluto enquanto estou concentrado nesta entrevista.  Nestas passadas semanas, ouvi duas cenas: o álbum novo de Ancient Rites para me mentalizar e aprender as letras. É diferente escrever letras complexas e aprender a estruturar frases e palavras e conseguir cantá-las sem hesitação. Já que escrevi as frases em longas rimas não posso cometer erros  pois podem afectar a estrutura completa. Raramente ouço material novo após o processo estar todo completo mas, após a gravação de um álbum, ouço-o repetidamente para me preparar para as actuações ao vivo. Também vi o vídeo feito por um fã ao som do “Return of the Fly” dos The Misfits. O tema não entrou no álbum de estreia e está agora incluído na regravação do álbum. O fã que fez o vídeo utilizou uma perfeita combinação do som com imagens de filme de horror de 1959 do Vincent Price, encaixa muito bem. Gosto do som de garagem PunkRock misturado com as vozes melódicas e o estilo de coro de 1950. Gosto que, quando se menciona o nome de uma mulher na letra, o riff da guitarra fica mais subtil e emocional para acentuar a sua fragilidade. Um grande som!


M.I. – Há muitos anos disseste que os metaleiros deviam ser mais abertos e recusavas-te a ouvir só um estilo. Pensas que a mentalidade dentro do metal amadureceu? Talvez por o metal ser mais aceite hoje em dia?

É difícil. As baladas rock dos anos 70 e 80 conseguiam entrar nas tabelas de venda e eram aceites pelas massas. Os Scorpions tiveram um sucesso atrás do outro, assim como os REO Speedwagon, Nazareth, Kiss. Temas mais pesados também chegaram às tabelas, como os Black Sabbath com “Paranoid” e os AC/DC e os Boston. Durante os anos 80, os Aerosmith e os Guns N’ Roses estiveram frequentemente nas tabelas. Nos anos 90 e início de 2000, a cena Gótica tornou-se muito popular e atraiu uma audiência maior. Os Metallica tornaram-se comerciais ao suavizarem o som e os Rammstein conseguiram êxitos com riffs pesados e letras teutónicas. Quando falo com fãs de música que dizem gostar de música pesada, os verdadeiros metaleiros mencionam as bandas referidas anteriormente assim como outras mais pesadas. Penso que alguns metaleiros, ao ficarem mais velhos, exploram outros estilos que podem apreciar, bandas sonoras de filmes ou cenas Neo Folk, por exemplo. Os grandes festivais de rock/metal atraem gerandes multidões e há muitos “turistas” que não são metaleiros. Lembro-me dos Ancient Rites serem contratados para um grande festival como o Euro-Rock onde havia artistas de Darkwave e electrónica a actuar; ou o festival Boerenrock onde tocamos ao lado de lendas do rock dos anos 60 como os The Troggs (“Wild Thing”) ou as lendas do Punk/Wave The Stranglers. Foi divertido porque cresci com os The Stranglers e lembro-me da organização me vir avisar que me tinha de preparar para ir tocar porque eu estava a vê-los a tocar e os fãs de Ancient Rites estavam à minha espera! Tocar nestes eventos maisnstream nem sempre é recompensador para uma banda como a nossa porque o nosso som não é mainstream para interessar à maioria do pessoal que lá está. Por outro lado, os verdadeiros metaleiros não gostam de pagar uma fortuna para irem a um festival onde a maioria das bandas são mainstream.


M.I. – A banda formou-se em 1989… há quase 30 anos… qual a lição mais valiosa que aprendeste como músico ao longo destes anos? E como pessoa?

Para todos os jovens músicos a começar: não construam a ilusão de que o talento ou a originalidade será uma garantia de sucesso, nem mesmo na cena metal que é supostamente genuína e anti-mainstream. Funciona tudo como na indústria mainstream mas numa escala mais reduzida. Se um investidor quer investir em vocês, a vossa cama está feita enquanto a “moda” durar. As boas críticas nas grandes revistas são compradas, lugares importantes nos festivais são comprados, há uma estratégia mediática para que o vosso álbum venda. Se chegardes a ser grandes, mesmo quando não houver novidades, haverá artigos que garantem a continuidade do vosso sucesso. Falei com o manager de uma banda de Black Metal famosa e ele confessou que ofereceu férias a editores de grandes revistas em troco de mega entrevistas e boas críticas. Muito Black Metal mesmo!! (Risos) A recompensa financeira fez com que a banda tivesse cobertura na imprensa mesmo quando não havia nada de novo a dizer e o manager foi largado mal surgiu um manager com mais poder. Quanto maior a empresa e o manager, mais a tua arte e tu próprio lhes pertenceis e a queda será maior quando te esmagarem como se esmaga um limão. Entretanto, todos os miúdos nesta cena, ignorantes de todos os truques nos bastidores, gritam que tudo é verdadeiro, e quão leais eles são a esta ou aquela banda, quão honesta é esta cena comparada com outras. Mas como podem eles saber? Não digo isto para desencorajar ninguém, mas façam o que fazem porque adoram fazê-lo, sem expectativas e assim tudo o que acontecer de positivo será um bónus. Não construam castelos de areia mas façam-no pelo bem da vossa criatividade e amor à música, ignorai as opiniões dos outros quando não concordares com elas e acreditai no que estais a fazer. Ouçam conselhos positivos mas não vendam a vossa alma e ignorem completamente os comentários maldosos dos que vos desejam mal. Não deixem que as reacções negativas da imprensa destruam a vossa crença em vós próprios e no vosso trabalho. Não esperem nada e ponham a vossa energia no crescimento pessoal. Como pessoa, aprendi que não há amizades na indústria da música quando há dinheiro envolvido. Estás por tua conta mas tal não te deve impedir de fazeres aquilo em que acreditas.


M.I. – Tens saudades do tape trading e do correio trocado antes da internet ser a maior fonte de informação e comunicação?

Penso que a internet é uma benção e uma maldição. Um modo fantástico de espalhar a mensagem, comunicar, informar e descobrir. É super rápida e está tudo a um clique de distância. Mas, ao mesmo tempo, a internet substituiu a maneira antiga de fazer as coisas. O prazer de segurar um álbum nas mãos, ver fotos, ler as letras, etc, está menos presente nesta geração da época digital e como os álbuns não se vendem tanto como dantes, não há orçamentos para bandas underground. Esse é o outro lado da moeda. Se tenho saudades dos velhos tempos? Bem, a correspondência era feita com base em troca de cartas e encomendas enviadas por correio normal e receber cenas do outro lado do mundo com t-shirts, cassetes, vinis, cds (por troca ou compra) fazia com que todos os dias parecessem o nosso aniversário quando o carteiro entregava os “bens”. Era lento mas a espera era recompensadora e ansiosamente aguardada.  Os contactos eram mais intensos e conhecíamo-nos melhor porque exigia mais tempo e esforço, era muito físico. Realmente escrevíamos uns para os outros, víamos as letras uns dos outros e o seu toque pessoal, desembalávamos a música e ouvíamos o álbum completo. Agora é “ok”, “clica aqui”…  é menos romântico e menos pessoal, mas gosto da facilidade de comunicação, apesar de sentir alguma nostalgia ao pensar no passado.


M.I. – Fazes ideia porque é que alguns entrevistadores gostam que comentes nomes que eles mencionam?

Porque acham que é um jogo interessante? Ou talvez tenham um motivo menos inocente e é uma forma de me pôr a comentar sobre pessoas conhecidas? Talvez seja uma táctica manhosa? (Risos) Por causa da natureza do jogo/questões, há automaticamente o factor coscuvilhice envolvido, porque o pessoal gosta de saber o que alguém pensa sobre alguém. As respostas podem ter uma espécie de efeito bola de neve, porque os leitores vão comentar a favor ou contra. Se alguém disse algo negativo sobre outra pessoa numa entrevista enquanto comentava o nome dele/dela, o próximo entrevistador pode confrontar essa pessoa para comentar o que foi falado. As pessoas adoram coscuvilhar e adoram conflitos… por vezes há conflitos que não existiriam se as perguntas nunca tivessem sido feitas. Este é um exemplo de truques da imprensa! Intrigas, drama, o circo completo!


M.I. – Qual a questão mais estranha que te colocaram?

Perguntaram-me se eram verdade os rumores de que eu e o nosso baterista mantinhamos mulheres reféns na nossa cave para celebrar missas satânicas e se eu tinha mesmo sido visto a caminhar na praça principal da cidade de Leuven com os restos de um bode à volta do meu pescoço. Lendas loucas baseadas na mitologia do Black Metal.  Mas as afirmações mais absurdas sobre nós foram as que li na net ou vi na televisão e que foram vendidas aos espectadores/leitores como sendo verdadeiras, e estas prejudicaram-nos mais do que quaisquer perguntas feitas.


M.I. – Qual a importância das webzines/fanzines? Lês ou segues alguma?

São extremamente importantes, especialmente por causa do apoio que dão ao underground. Leio-as ao acaso, mas não sigo nenhma publicação. Leio principalmente entrevistas de bandas que considero interessantes ou que me interessam. Confesso que não leio tudo, não sigo nenhuma banda já que prefiro fazer as minhas coisas, sem ser influenciado. Mas quando uma banda ou artista me surpreende, vou procurar informação na net e encomendo os álbuns ou compro as T-shirts como fazia dantes. Comprei uma t-shirt dos Death In June há algumas semanas no concerto dos DI6 e também álbuns de Triarii, Rome e DI6. Descobri-os há uns anos e achei o som refrescante. Tive uma boa conversa com o Doug, vocalista dos DI6, sobre os aspectos técnicos do concerto. Há algum tempo também fui ver uns favoritos dos meus tempos punk: os U.K. Subs e os The Vibrators. Bebi umas cervejas com eles e comprei 2 t-shirts. Nos anos 80 fui convidado para fazer uma audição para baixista dos U.K. Subs mas eles eram de Londres e eu ainda estudava na Flandres. Fiquei lisonjeado mas deixei a oportunidade passar… talvez as coisas tivessem sido completamente diferentes se eu tivesse aceitado. Anos mais tarde, o Wattie, vocalista dos The Exploited (conhecemo-nos quando as nossas bandas tocaram no mesmo festival) disse-me que eu o devia ter feito porque os U.K. Subs estiveram sem baixista durante muito tempo mas, se assim fosse, talvez os Ancient Rites nunca tivessem sido fundados. As coisas correram como deviam correr. Quando descobri os espanhóis Hordak na net, encomendei o álbum “The Last European Wolves” e adorei o sentimento celta e os elementos espanhóis na faixa de abertura que fluem no som metal. Quando os contactei, descobri que eles curtem os AR e um deles até usava um t-shirt nossa. Apreciação mútua é sempre divertida e o mesmo acontece com os Thy Repentance da Rússia. O som deles revelou o seu passado cultural, especialmente no estilo vocal, na linguagem. A música era crua e não polida, misturada com linhas de teclado melancolicamente repetidas. Gosto da autenticidade quando as raízes sobressaem. O mesmo acontece na cena portuguesa, gosto das bandas que fazem a sua prórpria cena. Tenho muitos amigos aí.


M.I. – Tens uma paixão por cavalos… tens tempo para te dedicares a eles?

No passado costumava fazer equitação 2 vezes por semana mas comecei a ter problemas de coluna/pescoço. Um especialista disse-me para parar de andar a cavalo enquanto outro disse para continuar. Duas ideias diferentes… eu continuei depois de uma pausa, mas voltei a lidar com os mesmos problemas que se agravaram e resultaram em operações. Já fui aos estábulos cumprimentar os donos, a famíla e estar com os cavalos. A vista quando se tem sentado num cavalo é suficiente para me fazer sorrir. Ainda sinto isso quando vejo um filme e a câmara mostra a vista do cavaleiro: vês o belo pescoço, o cavalo movimenta-se com graciosidade e vês as belas orelhas, sempre alerta,  que ouvem o que lhes dizes.  Animais fantásticos e nobres. Adoro os seus olhos. A minha égua favorita no estábulo chamava-se “Tosca” e era difícil de manobrar, quando abordada do modo errado. Vi várias mulheres a serem atiradas das suas costas, geralmente mulheres mandonas com chicotes. Eu falava com  a égua, tratava-a com respeito e, no final, ela mimava-me e eu não tinha de usar técnicas especiais. Simplesmente lhe pedia se podia galopar e ela galopava. Depois pedia para trotar e ela trotava e depois pedia para marchar e ela marchava. Não estou a brincar! Ela tinha umas pestanas femininas muito engraçadas e não gostava de andar na lama nem no pó, porque as suas patas podiam ficar sujas! Muito cuidadosa, tal e qual uma madame parisiense! (Risos) Que personagem! Deixava-a ser ela própria. Depois eu largava as rédeas e isso significa que o cavalo está livre para fazer o que quer, enquanto eu relaxava às suas costas e ela ia visitar os outros cavalos quase como a cumprimentá-los. Era muito curiosa e tínhamos uma ligação. Cavalgar com a Tosca foi um autêntico prazer. Era o tipo de rapariga que quer ser bem tratada mas te trata bem também. (Risos) Até parece que era casado com uma égua. A minha esposa desejou que a Tosca também gostasse dela! (Risos) Os leitores devem estar a pensar que sou louco e talvez tenham razão. Eu gosto de todos os cavalos mas ela encaixava perfeitamente com a minham personalidade. É surpreendente como os cavalos diferem na personalidade. Também gostava do Soldier, que era paciente mas não tinha paciência para maus cavaleiros, crianças ou póneis. Parecia sempre chateado, que tinha vindo de uma guerra. Tinha uma atitude de “Deixo-te cavalgar mas não penses que vou gostar!” e assustava muito pessoal que se aproximava do seu estábulo. (Risos) Ebro era enorme e meio coração quente/coração frio. Com ele podíamos relaxar perfeitamente. Já cavalguei cavalos difíceis e também foi um prazer fazê-lo porque raramente se assustam, têm os pés assentes no chão e são pesados e enormes. Até estar sentado neles é uma experiência diferente. O meu sonho era cavalgar um cavalo Brabant típico da minha província. São cavalos enormes usados para trabalhar no campo (nos tempos medievais os cavaleiros usavam-nos para transportar grnades pesos). Já vi pessoal a cavalgá-los e o chão até treme. Eram 4 ou 5 mas pareciam tanques a passar. Impressionante!! Tenho de encontrar um local para os cavalgar prque geralmente não existem nas escolas de equitação. Os cavalos flamengos, aqui da região, também são espectaculares, gigantes, ideiais para trabalhos pesados e para cavalgar. Talento duplo. Os cavalos têm personalidades únicas. Aliás todos os animais são únicos, alguns fazem-te sorrir só de olhares para eles. Adoro todos os animais. Já tive gatos e cães e criei bons laços com eles. Mas já chega de falar desta paixão… os leitores já devem estar aborrecidíssimos.


M.I. – Sempre te sentiste fascinado pela Grécia e pela sua história e mitologia e acabaste por casar com uma deusa grega. Como é estar casado com uma deusa?

Eu suspeito que ela era a Helénica Pytha no Oráculo de Delphi que me seduziu. A Grécia é o berço da civiização europeia, adoro a sua história, filosofia, escrita, mitologia, arquitectura e paisagens. Eu e a Maria temos uma história de anos. Eu acho que nós combinamos bem, porque eu tenho orgulho na minha ascendência e sinto-me ligado às raízes da antiga Europa, enquanto ela se orgulha da sua cultura e gosta do Norte também. Foi uma agradável surpresa ao vê-la aparecer no nosso casamento com um longo vestido tradicional da antiga Grécia incluindo as jóias no braço típicas da sua cultura milenar, como se fosse uma descendente do Olímpo. (Risos) Lembro-me de que ela usava sempre um anel de Alexandre, o Grande. Eu costumava provocá-la dizendo que era do Napoleão ou que ele era na realidade um imigrante Flamengo. (Risos) Admiro a sua personagem espartana, a sua inteligência, o seu humor. Um ano após se ter mudado para cá, ela escreveu um ensaio sobre o escritor regional Flamengo Ernest Claes que apresentou em holandês na sua escola. Ela é farmacêutica com um diploma da Universidade de Atenas, também tem um diploma da Academia Francesa de Letras e um diploma da Língua Holandesa obtido em Atenas. Demorou anos para que o seu diploma farmacêutico fosse reconhecido aqui e, teve as autoridades a chateá-la, apesar do nosso casamento, de ser uma cidadã da CEE e de não pedir um cêntimo ao Estado belga. Ela agora está a frequentar cursos para obter uma licenciatura em administração médica. As autoridades belgas informaram-nos que eu não ganhava dinheiro suficiente, por estar muitas vezes no hospital e trabalhar a tempo parcial. Assim, as autoridades belgas informaram-me oficialmente que iriam enviar a minha esposa para o seu país no prazo de três meses, se ela não encontrasse um emprego estável a longo prazo. Uma tarefa quase impossível de alcançar num curto espaço de tempo, considerando os contratos de emprego a curto prazo e a taxa de desemprego. Ela aceitou um trabalho abaixo das suas habilitações, aos fins de semana. No mesmo dia em que recebeu os documentos para se ir embora, a ministra da imigração declarou na rádio que o seu gabinete tinha aprovado a permanência de um elevado número de imigrantes ilegais que iriam receber alojamento e apoio financeiro. Também foi dito que voluntários na Síria que lutam na Jihad iam recebiam salários de desemprego aqui. Eu sei que não tem nada a ver com a nossa situação e eu não sinto ciúmes de ninguém, mas pode ver-se as leis injustas que aqueles que detêm o poder estão a passar. Eu admiro o seu espírito de luta. Imagina iniciar estudos de medicina numa língua estrangeira. Ela foi a segunda melhor aluna da turma este ano, a única estrangeira que concluiu a aprendizagem da língua e foi a melhor da classe linguística. Ela ignora o sono, aprende sem parar durante toda a noite e de manhã, tem aulas extra após as lições, faz um teste após o outro obtendo cada vez melhores resultados, aprendeu conhecimentos de informática avançados na escola aqui e agora vai começar a trabalhar no gabinete de um médico de graça durante alguns meses para passar nos testes, etc. Ela continua a investir as suas economias e tempo para dar tudo a 200%. E, no entanto, ela estava prestes a ser enviada de volta, porque as autoridades ignoram o nosso casamento e a minha situação pessoal causada pelas operações. Bastou calcular um pouco e afirmaram que eu não estava a ganhar o suficiente com o meu trabalho. Eu sei que não sou rico mas outros estariam de baixa por doença durante meses ou licença por doença paga mas eu trabalhei entre as operações. A Bélgica não tem sido muito boa para nós em nenhum aspecto, nem com o meu trabalho, nem com a minha vida pessoal. Eu amo a minha ancestralidade e raízes, mas não sinto grande coisa por este estado artificial que mima e apoia aqueles que odeiam ou querem a queda/mudança da nossa cultura ocidental. As nossas autoridades tomam posições estranhas. Perdoa-me se soar um tanto negativo em relação a tudo isto mas é pessoal, insultuoso e desrespeitoso de várias formas. De qualquer forma, as minhas desculpas por falar sobre esses factos desinteressantes para os leitores e soar como um queixoso cheio de auto-piedade. Talvez eu não devesse ter falado sobre o assunto e apenas tratado as coisas em silêncio como eu prefiro fazer de qualquer maneira. Mas, por outro lado, nós conhecemo-nos há muitos anos portanto a entrevista podem facilmente transformar-se em conversa pessoal, talvez se ultrapassem fronteiras que tornam o leitor desconfortável. Mas eu falo sempre o que sinto, independentemente das reacções públicas. A nossa conversa é mais como uma conversa entre velhos amigos do que uma entrevista. Eu juro que não sinto auto-piedade, mas afirmei factos simples da vida tal e qual como eles são para mim, sem os abrilhantar. Eu não gosto muito do nosso sistema/ sociedade e a moral dupla dos nossos "líderes" aqui. No final, todos têm as suas lutas e problemas. Mas, no meu caso, as autoridades tornaram a minha vida privada mais difícil por falta de ética de privacidade, porque eu não lhes bati à porta a pedir nada e nós estamos oficialmente casados. O nosso casamento não é uma farsa, nem um casamento arranjado e ela não veio para viver às custas do nosso estado, já que é uma cidadã europeia e tem um bom diploma. Eu não lucro com a minha situação pessoal nem vivo às custas da sociedade por causa da minha situação de saúde. Ainda assim, as autoridades interferem na minha vida privada e profissional. É assim que me sinto. Através das proibições e boicotes que não me permitiram tocar, trabalhar e ganhar a vida como músico e, em seguida, dizem: "Não ganhas o suficiente. A tua esposa vai ser mandada embora" no momento em que estás no hospital. É bastante irónico quando se contempla a situação e se liga as coisas. Mas o meu espírito nunca foi quebrado. Eu acho que é uma questão de Laguz novamente. Navegaremos as tempestades e perseveremos contra todas as probabilidades. A disciplina da minha esposa é admirável, é uma luta para ela todos os dias, os outros teriam dito "manda f*der isto tudo" há anos atrás. Devo admitir que sinto um profundo respeito pela sua lealdade e espírito de luta. As coisas estão finalmente a funcionar a nível artístico, a minha saúde está controlada depois destes anos de luta e, além disso, o que não te mata, faz-te mais forte… um cliché talvez, mas é verdade. Sinto-me grata pelas pequenas coisas da vida... Foco-me no positivo.


M.I. – Muito obrigada pela entrevista, Gunther. Uma mensagem final!

Penso que está tudo dito e feito. Obrigado pela longa e profunda entrevista. Desejo-te a ti e aos vossos leitores tudo de bom. Obrigado. 


Entrevista por Sónia Fonseca