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A expectativa era mais que muita para este regresso dos Orphaned Land, eles que brilharam meros meses atrás como sendo uma das grandes bandas da edição deste ano do Vagos Open Air. A pequena sala Montepio do Cinema São Jorge esgotou a provar essa mesma expectativa mas o público levou muito mais do que apenas um concerto acústico da banda israelita. Os primeiros a subir ao palco foram os catalões Leaves que conseguiu conquistar o público sem grande dificuldade. Com grandes semelhanças com os The Gathering, na fase Anneke Van Giersbergen (principalmente na fase do "Mandylion") foi a voz da vocalista de Raquel o grande motor da banda durante toda actuação, embora os restantes também estejam estado imaculados na parte instrumental. Um bom som, uma boa presença de palco e uma voz que apesar de algumas fragilidades em alguns (poucos) momentos, é realmente uma das suas maiores armas. Temas cantados em inglês e em catalão, os Leaves foram um bom aquecimento e deixaram a curiosidade para os presentes, que ficaram com vontade de os ouvir num outro contexto, mais rock/metal.

Após uma mudança de palco, chegam os alemães Mollust e todo o seu teatro. Com uma componente sinfónica bem acentuada - a banda em cima do palco estava representada por duas violonistas, uma violencelista, um guitarrista que colaborava nas voezes de vez em quando e pela vocalista/ pianista. A voz da vocalista, de seu nome Janika Groß, impressionava pela perfeição e pelo tom operático. As músicas em si soaram algumas vezes reminiscentes de algo que podemos identificar dentro da fase dos Therion entre os álbuns "Theli" e "Vovin", o que é bom. Menos positivo é a sensação de que as soluções apresentadas em termos de composição por vezes são demasiado similares. Ainda assim, apesar de se esperar que fosse um momento menos aborrecido da noite, a perfeição com que as músicas foram tocadas, a forma envolvente como a banda conseguiu tocar o público e a sua simpatia contagiante fez com que tivesse sido mais um ponto positivo a uma noite que se revelaria mágica.

Os Mollust saíram de palco e depois de uma mudança de palco (que começava a tornar-se) dolorosa devido ao calor na sala, surpreendentemente surge em palco o coro Stimmgewalt com uma versão única da "Engel" dos Rammstein. Surpreendente porque ao ver a bandeira gigante ao fundo com o logo dos Orphaned Land, o público já estava à espera de ver o "prato principal". Andando sempre pela boa disposição (onde não faltou uma versão dos Van Canto com direito a refrão da clássica "The Clans Are Marching" dos Grave Digger e também "coverizada" pelos Van Canto) e tiradas divertidas por alguns dos seis membros do coro, foi ma boa introdução, embora a ansiedade já começasse a pesar. Felizmente, não demorou muito que os Orphaned Land atendessem aos desejos (ou preces) de todos e dessem início a um desfilo de qualidade musical superior. 

A empatia que esta banda consegue criar com qualquer público é uma coisa de arrepiante e impressionante, assim como impressiona a forma como a banda consegue passar a sua mensagem de forma fresca e sem soar panfletária ou parecer que está em processo de evangelização. A provar que para quem verdadeiramente acredita, a mensagem do amor universal é inesgotável. Claro que não faltaram temas como "All Is One", "Bereft In The Abyss", "Let Truce Be Known", "Ola Ha'tamid", "In Thy Never Ending Way", "Sapari", "The Beloved's Cry" (esta última já no encore). O início do encore também surpreendeu com uma versão do clássico tema de Leonard Cohen, "Hallelujah", onde apenas Kobi Farhi e o coro Stimmgewalt cantaram e encantaram num dos muitos momentos arrepiantes desta noite. 

A humildade da banda representada pelo seu vocalista, que tem um sotaque portugês quase perfeito, a excelência musical dos restantes músicos (bandas de abertura incluídas), a inclusão perfeita do coro Stimmgewalt nos temas dos Orphaned Land e simplesmente um ambiente mágico, difícil de alcançar por muitos, fizeram desta noite um dos grandes concertos desta metade de 2015, onde nem o calor, nem o cansaço tiveram palavra a dizer. Já se sabia há muito tempo, mas na noite de dia úm de Outubro ficou mais que provado a banda israelita pode-se tornar oficialmente portuguesa, que se depender dos seus fãs, a cidadania ser-lhes-á logo atribuída. Noite mágica no São Jorge.


Texto por Fernando Ferreira
Fotografias por Liliana Quadrado
Agradecimentos: Prime Artists