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O dia 1 do Amplifest começou com o documentário “The Melvins Across The USA In 51 Days: The Movie”, mas no palco foram os portuenses Redemptus a abrir a sala 2 do Hard Club. Com apenas um disco na bagagem, justificava-se a posição no cartaz, mas a qualidade pedia um horário mais tardio, pois o trio debitou um som tão tonitruante quanto viciante. Pelo meio, para lá das habituais “Cobblestone” ou “Busted, Disgusted And Not To Be Trusted”, o brinde de dois novos temas: “Unravelling The Garen Of Forking Paths” e “Peered Into Everyone’s Fate”. Um início em alta.

Seguiu-se uma espera, mas o regresso a Portugal dos renovados Minsk mereceu os minutos fora da sala. Com um Chris Bennett entre teclas e voz, secundado por quase todos os elementos do grupo nas vocalizações mais melódicas, a formação de Illinois esteve demolidora, mesmo com um som inicial menos bom, mas corrigido ao longo da actuação. Tal como nos seus trabalhos mais antigos, vozes melódicas chocavam com guturais, numa luta titânica cheia de beleza.

Na sala 2, a luz dos corredores dava lugar à escuridão dos Altarage, com os elementos encobertos por véus. Passado o efeito surpresa do visual do quarteto basco, pouco ficou, com um som denso, mas por vezes monótono, no campo do black death, baseado em “NIHL”, o seu trabalho de estreia, já deste ano. O atraso inicial era recuperado e na sala 1 os Kowloon Walled City, traziam um som grosso, orelhudo, que fez jus ao nome do grupo, retirado daquela que foi a cidade mais densamente povoada da história. Apesar de um historial com quase uma década, o quarteto só agora chega à Europa, por isso soube bem escutar o colectivo e o seu som vibrante, com boas malhas, como “The Grift”.

No Amplifest não há intervalo para jantar, ou algo que se pareça, mas percebe-se a subtileza da mudança de cenário. Depois das vagas sonoras da tarde, a noite começava agora na Sala 2, com os portugueses Sinistro, que neste ano de 2016 arrancaram para o que parece ser um ano promissor em termos internacionais. Embora com problemas técnicos e não sendo a melhor prestação deles desde a saída de “Semente”, a voz de Patrícia Andrade e a sua presença cénica, introduzem, literalmente, um raio de luz, na escuridão post-rock de Rick Chain e colegas.

E depois veio Anna Von Hausswolff. A artista sueca esteve em palco para fazer som, figura frágil, refugiada atrás de teclados e cabos. As luzes apagaram-se, os músicos subiram ao palco e a borboleta frágil bateu asas e da sua garganta saiu um furacão vocal que a todos arrasou, lembrando muito Diamanda Galas numa versão com distorsão. Conforme os temas desfilavam, entre melodia e guturais, entre acústico e descargas eléctricas, a timidez deu lugar à confiança e a vocalista já caminhava aos brados pela frente do palco. Por vezes, os tapetes sonoros em que a sua voz caminhava recordavam os Pink Floyd de 70/72, e a cumplicidade com os restantes músicos revelou-se quando Anna apresentou cada um como sendo o seu “melhor amigo”. Um daqueles concertos para ficar na memória de futuros festivais.

Confesso que manifestava alguma curiosidade por Kayo Dot e Toby Driver, face ao currículo que traziam, da presença de Toby nos Maudlin Of The Well e a bons relatos de uma passagem anterior, mas fosse por ser no período pós-Anna, com necessidade de digerir todo o impacto, fosse pela prestação em si, o facto é que o colectivo de Boston não deixou grande memória, num dia de tantas emoções.

Cabeças de cartaz, os japoneses Mono subiram ao palco da sala 1 para um concerto que se pretendia intimista, mas a sala não soube oferecer… fosse pelos lugares em pé, fosse pela sala mais ruidosa que o desejável. Por momentos, pensou-se numa Casa Da Música, ou numa Concha do Palácio de Cristal. Se por vezes o artista fica a dever algo ao público, este foi daqueles raros concertos em que o público e ambiente ficaram a dever ao artista. O resto é conhecido: Takaakira Goto, com a sua guitarra, desafia o equilíbrio sentado numa cadeira, do lado oposto, Yoda revela-se mais introspectivo, enquanto de pé, a baixista Tamaki Kunishi acompanha o ritmo, ora parecendo uma delicada e tímida aprendiz, ora mais dominadora. Por vezes as melodias pedem que Tamaki faça incursões nas teclas, outras vezes limitam-se a ecoar em sampler. A um dado momento, percebe-se que Yasunori Takada está na bateria, tão discreto quanto seguro, provavelmente o baterista mais invisível do Rock. Tudo se equilibra, tudo parece perfeito. Melodia assente em notas sólidas. Desculpem o ruído da sala, obrigado por nos terem visitado.

O fim do dia passou pela sala 2, com Roly Porter, numa one man band, atrás de uma mesa, recriando sons espaciais, misturados com alvoradas densas, numa vertente demasiado electrónica para quem vinha de experimentar a música orgânica de Mono.

Texto e fotografias por Emanuel Ferreira
Agradecimentos: Amplificasom