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Se há música adequada para os dias frios e melancólicos de Outono, então o doom metal encaixa perfeitamente. E falar nesse género em Portugal é falar de uma banda formada no início dos anos 90 chamada Desire. Os mesmos que veem, em 2017, reeditado o seu álbum de estreia “Infinity… A Timeless Journey Through an Emotional Dream”, datado de 1996, e que sai sobre o selo da Alma Mater Records, uma subsidiária da Rastilho com a chancela de Fernando Ribeiro dos Moonspell. E esse lançamento foi a “desculpa” para um regresso aos palcos da banda de Nuno “Tear” Miguel, o que aconteceu no passado sábado, 16 de Dezembro, na sala lisboeta do RCA.

Os Desire tiveram desde o seu início uma legião de fãs bastante fiel, que acompanhou a banda sempre que esta se apresentou ao vivo e que sofreu com o seu fim de actividade há uns anos atrás. Se mais razões houvessem, a nostalgia de ouvir ao vivo “Infinity...” novamente, e um misto de alegria e nervosismo para ver como soa em 2017 os Desire fez com que a sala do RCA enchesse rapidamente. As portas abriram com bastante tempo de antecedência, por forma a prevenir os problemas que a exaustiva revista do público à entrada tinham causado uns dias antes no concerto dos Bizarra Locomotiva no mesmo espaço, e foi com uma sala muito bem composta que entrou em palco a primeira banda da noite, os Dark Oath. A banda de Soure, no distrito de Coimbra, pareceu acusar um pouco a responsabilidade de abrir esta celebração, eles que também se estreavam na sala do bairro de Alvalade. A banda liderada por Sara Leitão focou a sua prestação no LP de estreia, “When Fire Engulfs the Earth”, editado o ano passado, com excelente prestação em faixas como “Watchman Of Gods” ou “Brother’s Fall”, deixando os amantes do death metal melódico presentes bastante satisfeitos. Uma estreia auspiciosa em Lisboa e mais uma banda oriunda de fora dos grandes centros populacionais a fazer música de qualidade.

O intervalo entre o final da actuação dos Dark Oath e a entrada em palco dos Desire pareceu demorar uma eternidade. Uma plateia compacta aguardava os primeiros acordes da banda lisboeta com algum roer de unhas, sorrisos cumplices, selfies com o pano com o logotipo da banda como pano de fundo e até alguns namoricos. O chão do palco foi coberto com folhas castanhas, símbolo do caducar da flora outonal, e dois grandes candelabros viram as suas velas brancas serem acesas, ao mesmo tempo que as luzes dminuem de intensidade e ecoa nos altifalantes uma estrófe do poema “Se Te Queres Matar”, de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, e que ilustra a contra-capa do álbum (“De que te serve o teu mundo interior que desconheces? Talvez, matando-te, o conheças finalmente… Talvez, acabando, comeces…”). Com toda a plateia a clamar pela banda surgem os primeiros acordes de “Prologue”, logo seguido por “(Leaving) This Land of the Eternal Desires”. Para o concerto no RCA, os Desire recrutaram a ajuda preciosa da voz de Eduarda Soeiro e o violinista Tiago Flores, dos Corvos, e a ajuda dos dois convidados mostrou-se de enorme valia ao longo de todo o concerto. Por se tratar de um álbum conceptual, a setlist acabou por obedecer à ordem com que foram originalmente gravadas e editadas em 1996 pela Skyfall, mostrando uma banda segura de si apesar do hiato que atravessaram. Sem interagir com o público, apenas com uns pontuais “RCA, agora vocês”, Tear foi guiando a sua banda pelos mundos soturnos e cinzentos de “Infinity...”, com especial destaque para as faixas longas como “A Ride in a Dream Crow” e “The Purest Dreamer”, encerrando a apresentação do disco com as restantes “In Delight with the Mermaid”, “Forever Dreaming (Shadow Dance)” e “Epilogue”.

Terminada a razão principal da celebração da noite, tempo para agradecimentos a quem possibilitou o regresso dos Desire, da editora Alma Mater/Rastilho ao público que sempre quis que esse dia chegasse, público esse que foi depois brindado com um presente de Natal muito especial, nada mais nada menos que três faixas incontornáveis da carreira dos Desire, “Torn Appart” (de “Locus Horrendus” de 2002), “White Falling Room” (do EP “Crowcifix” de 2009) e para o final, o hino da banda, a trilogia “When Sorrow Embraces My Heart” (do EP “Pentacrow” de 1998), aqui encurtada em cinco minutos com a ausência do primeiro movimento.

A banda promete novidades e aposto que o público que os veio ver esta noite não vai descansar enquanto não as souber...



Texto por Vasco Rodrigues
Fotografias por Rui Oliveira
Agradecimentos: Rastilho