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Entrevista a Lindsay Schoolcraft


Se ainda não conheces esta cantora e a sua belíssima voz, então tens de saber que ela lançou um novo álbum: “Harrowing”. Falámos sobre o processo criativo, a capa, como surgiu a ideia para o álbum e muito mais.
Aproveita a entrevista e deixa-te surpreender por este álbum!

M.I. - Já passou algum tempo desde o teu último álbum. Em que momento percebeste que estas canções deviam fazer parte de um álbum como “Harrowing”, em vez de serem simplesmente composições individuais?

Quando completámos dois anos a trabalhar nestas canções, o processo de as finalizar abrandou e começou a sofrer muitos atrasos. Durante esse período, comecei a pensar demasiado em tudo o que se relacionava com elas e, a partir daí, surgiu este conceito e o título “Harrowing”.


M.I. - Parece ser um excelente álbum que tanto aborda o nascimento como a morte. Há alguma razão específica para isso?

A vida está repleta de ciclos de morte e renascimento; vejo isso na minha própria vida, em tudo o que crio. Pode até dizer-se que um álbum também faz parte desse ciclo: renascemos para criar algo e, no final da produção do álbum, há uma morte do nosso eu, do nosso ego, da nossa psique, e depois recomeçamos do zero. É um pouco como mudar de pele. Cada ciclo tem algo para nos ensinar, se estivermos abertos e dispostos a ouvir.


M.I. - O título do álbum sugere imediatamente uma jornada dolorosa, relacionada com situações tóxicas ou difíceis da vida, tal como descreveste nas tuas redes sociais. “Harrowing” foi o título desde o início, ou surgiu só depois de teres uma visão completa do projeto?

O título surgiu assim que soube qual era a obra de arte. A obra chama-se «L’Illustration», de Alphonse Mucha, e retrata um anjo da morte que vem reclamar a alma de uma rapariga moribunda. O artista pretendia que a obra fizesse referência ao tempo e ao nascimento do Ano Novo. Mas eu tenho vivido a morte da minha saúde mental repetidamente devido ao abuso e aquele anjo é, de alguma forma, algo, alguém na vida - talvez até eu própria - que está lá para me vir buscar, para me ajudar a deixar o passado para trás e a tentar recomeçar e reconstruir-me, quase como uma fénix. Passar por esse processo é sempre angustiante. É como uma morte silenciosa por mil cortes. Assim, logo que vi a imagem do anjo, comecei a procurar palavras antigas e, no momento em que me deparei com “Harrowing”, soube que era isso mesmo.


M.I. - Este é o teu terceiro álbum de estúdio, mas parece quase um novo capítulo a nível artístico. Vê-lo como uma continuação do teu trabalho anterior ou como uma reinvenção? O que podemos esperar em comparação com os anteriores?

Agradeço que vejas e ouças o álbum desta forma. Acho que é a forma mais refinada e madura do que se desenvolveu ao longo da última década. Este é também um álbum que comecei a compor há 4 anos, quando tinha 36 anos. Agora tenho 40 anos e tenho novas ideias para expressar e coisas diferentes para dizer. Como artista a solo, sinto-me grata pela liberdade de oscilar entre ideias e sons e ainda assim conseguir expressar-me de forma autêntica. Estou ansiosa pelo que o futuro me reserva, à medida que continuo a fazer música.


M.I. - Descreveste o álbum como um registo das etapas da sobrevivência ao abuso narcisista. Escrever estas canções foi, por si só, parte do processo de cura, ou precisaste de alguma distância emocional antes de conseguires transformar essas experiências em música?

Grande parte do processamento mental do abuso ocorreu na terapia, mas ainda não o tinha transformado em canções nem o tinha colocado em letras. Assim que comecei a trabalhar nestas canções, percebi que, embora a minha mente tivesse dado sentido ao que aconteceu, o meu corpo e a minha alma ainda não se tinham libertado de toda a toxicidade. Foi, sem dúvida, um momento de cura, um momento que durou meses. Agora que o álbum está concluído e já foi lançado, sinto que posso finalmente descansar e respirar de novo na minha nova vida.


M.I. - Olhando para trás agora, houve alguma canção em particular que tenha sido mais difícil de terminar porque te obrigou a reviver memórias difíceis? Como é que sabes quando uma canção que aborda memórias dolorosas está concluída?

A canção “Vague” foi a que demorei mais tempo a escrever. Precisava mesmo de me expressar da forma mais honesta possível, mas também de contar uma história. As letras foram provavelmente revistas quatro vezes antes de ficarem definitivas. Os prazos ajudam, sem dúvida, a terminar as canções, mas chega um momento em que, em termos de letra, sei que tudo o que preciso de dizer já está lá.


M.I. - Por outro lado, houve alguma canção que te tenha surpreendido por se ter tornado mais esperançosa do que esperavas?

Não esperava que a canção “So Alive” fosse tão inspiradora e também tão bem recebida por toda a gente. Originalmente, começou por ser uma faixa muito sombria. Utilizámos progressões de acordes de gospel quase inspiradoras no refrão e é por isso que, quando a ouvimos, chega-se a um momento quase de «aleluia».


M.I. - “Crucified” recorre a imagens religiosas poderosas. Essas metáforas surgiram de forma natural ou estabelecem, de forma consciente, paralelos entre a manipulação espiritual e o abuso narcisista?

Fui criada na religião católica romana, mas afastei-me dessa religião há anos. O que me foi incutido quando era criança fez de mim o isco perfeito para um narcisista predador. Fazia todo o sentido revisitar isso e lembrar-me porque é que isso tornou tão fácil para mim cair nas garras deste tipo de pessoas. Acima de tudo, fi-lo também para curar a minha versão mais jovem; ela precisava disso.


M.I. - A canção é descrita como um hino para os sobreviventes. É uma responsabilidade enorme. Alguma vez te preocupaste em te mostrares tão vulnerável, sabendo que os ouvintes poderiam relacionar as suas próprias experiências com as tuas palavras?

Não tenho qualquer problema com a vulnerabilidade. Se não for aberta e autêntica, sinto que estou a trair-me a mim própria e à minha arte. Quanto mais aberta e honesta fores, mais te curas e, em troca, ajudas também a curar os outros.


M.I. - A tua música sempre combinou o metal com elementos orquestrais, mas “Harrowing” também se inclina fortemente para o nu metal, o Metalcore e as texturas eletrónicas. A canção dos anos 90 “I Wait For You To Fall” é como uma viagem ao passado. De repente, parece que estamos a ouvir os Korn, os Nine Inch Nails ou até mesmo os Evanescence. O que inspirou uma paleta sonora tão ampla?

Quando começámos a reunir músicas para trabalhar e incluir neste álbum, não queríamos mesmo que nenhuma delas soasse exatamente igual às outras. Por isso, há uma grande variedade de sons e é uma verdadeira viagem para quem ouve. Acho que isto teve muito a ver com o nosso coprodutor, o JD, e com a sua influência. Ele é muito bom a garantir que o álbum não caia na «doença da música repetitiva». Também sentimos que era altura de trazer de volta um pouco dessa nostalgia, porque temos trabalhado muito nos elementos eletrónicos e a inspirar-nos imenso em The Prodigy, Massive Attack e Björk.


M.I. - Apesar da diversidade estilística, a tua voz continua a ser o centro emocional ao longo de todo o álbum. Fizeste intencionalmente os arranjos em torno da voz, ou isso aconteceu naturalmente?

Graças aos meus anos de formação vocal no Royal Conservatory, tive a sorte de adquirir a capacidade de me lançar em qualquer canção e interpretá-la da melhor forma possível. A maioria destas canções foi-me apresentada e dei o meu melhor para lhes dar vida vocalmente e, ao mesmo tempo, divertir-me com o processo.


M.I. - Há momentos no álbum que parecem mais cinematográficos do que simplesmente pesados. Pensaste em termos visuais enquanto compunhas estas canções?

Tudo isso se deve ao Spencer Creaghan e ao seu contributo para as orquestrações. Ele é a grande visão por trás desse elemento e, através do nosso trabalho em conjunto, sim, conseguimos tornar esses momentos o mais dramáticos possível quando as cordas entravam nas canções.


M.I. - Decidiste convidar alguns convidados para participar neste álbum. Como foi a experiência de colaborar com eles?

São pessoas maravilhosas e deram o seu melhor. Como tínhamos muito tempo para terminar o álbum, fomos com calma e divertimo-nos.


M.I. - Se tivesses de escolher três álbuns que ajudaram a moldar a produção de “Harrowing”, quais seriam os que se destacariam?

Pergunta excelente! Sem dúvida que nos inspirámos muito no álbum “Eternal Blue” dos Spiritbox - esse tem de ser o meu álbum favorito desta década. Dois álbuns que representam uma influência equivalente são o álbum homónimo dos VAST e o “Music For People”. E, embora não consiga apontar um álbum específico, muitas faixas e artistas de house também me ensinaram a pensar fora da caixa enquanto compositora. Muitos dos sons eletrónicos que se ouvem em segundo plano foram inspirados por este género.


M.I. - Já colaboraste com bandas de renome e com estruturas consolidadas da indústria musical, mas agora também és extremamente independente. O facto de teres controlo criativo total altera a forma como abordas a composição?

Sem dúvida. Quando estou a trabalhar em qualquer coisa, ou a começar a escrever uma nova canção, um novo álbum, digo sempre a mim mesma: “Começa na mesma, melhora depois”. Essa afirmação, sem pressão, permite-me deixar que tudo o que está dentro de mim flua naturalmente. Nem todas as canções são um sucesso, mas pelo menos já expressei a ideia e posso passar para a seguinte. Talvez já tenha escrito cerca de 2000 ideias para canções até agora na minha vida, mas apenas 100 chegaram a ser lançadas. É DE LOUCOS.


M.I. - Agora que o álbum está concluído, sentes-te emocionalmente distante destas canções, ou elas ainda reabrem velhas feridas sempre que as interpretas?

No mês passado, tocámos o álbum inteiro ao vivo e foi fantástico. Especialmente as canções cujas letras me deixavam zangada. Tive algumas dificuldades com “Vague” e “Chase The Dark” nos ensaios, mas assim que subimos ao palco, entrei no meu “modo de artista” e consegui safar-me bem. No entanto, estou pronta para começar a trabalhar no próximo conjunto de canções novas. Está na hora.


M.I. - O teu primeiro concerto foi em Ontário, com os Nerima. E na Europa, nomeadamente em Portugal ou em Espanha?

Devido à situação mundial deste ano, temos enfrentado muitos atrasos e contratempos no que diz respeito ao regresso às digressões. Acreditem, se pudesse estar aí, já lá estaria. Saibam que a equipa e eu estamos a fazer tudo o que podemos para voltar.


M.I. - O que reserva o futuro próximo para Lindsay Schoolcraft?

Novas músicas e mais concertos!


M.I. - Alguma mensagem final para os fãs portugueses?

Tenho saudades de todos vocês e voltarei assim que possível!

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Ouvir Lindsay Schoolcraft, no Spotify

Entrevista por André Neves
Tradução por Raquel Miranda