Nascidos de um fascínio pelo oculto e movidos por uma sonoridade que se recusa a ser confinada por rótulos, os Okkultist têm vindo a traçar o seu próprio caminho na cena de metal extremo portuguesa. Desde os primórdios de “Eye of the Beholder” até à identidade cada vez mais madura e definida explorada em “Reinventing Evil” e “O.M.E.N.”, o percurso da banda tem sido marcado por uma constante evolução, experimentação e autodescoberta. Agora, com “Teeth of the Hydra”, os Okkultist parecem estar a entrar num novo capítulo… um capítulo em que a sua identidade musical e conceptual assume uma forma ainda mais deliberada.
Nesta entrevista, os Okkultist recordam as origens da banda, as experiências que moldaram a sua sonoridade e o trabalho com Pedro Paixão e Tue Madsen, enquanto abordam a sua ligação aos Bathory, a passagem pela Alma Mater Records e a evolução ocorrida desde “O.M.E.N.”. Falam também das dimensões mais sombrias e filosóficas das suas letras, das diferenças entre o público português e o internacional, dos desafios enfrentados pelas bandas portuguesas de metal extremo no estrangeiro e daquilo que o futuro poderá reservar aos Okkultist.
M.I. - Para começar, como nasceram os Okkultist? De onde vem essa identidade tão ligada ao oculto e ao infernal? A vossa apresentação é bastante intensa… “nascidos das cinzas do oculto”… isso reflete apenas estética ou também uma filosofia por trás da banda?
Os Okkultist nasceram como um simples projeto entre amigos, sem nome ou objetivos, e com o único intuito de fazermos as ocasionais “jams”. Aconteceu que, palavra passa palavra, e, inevitavelmente, se começou a gerar um buzz à nossa volta. Eventualmente, arranjámos um nome, gravámos as poucas músicas que tínhamos, sem termos condições, e, demos o nosso primeiro concerto para uma casa cheia e repleta de curiosidade para nos conhecer. A partir desse momento, aquilo que começou quase por acaso deixou de ser apenas uma experiência entre amigos e tornou-se nos Okkultist que conhecemos hoje. O resto é história. A vontade de explorar o oculto enquanto conceito, e não apenas enquanto estética, veio naturalmente com a sonoridade associada. Existe uma dimensão filosófica e esotérica na banda, onde símbolos, arquétipos e a ideia do desconhecido servem como ferramentas de reflexão sobre a natureza humana, a transformação e a relação entre o indivíduo e aquilo que transcende o racional. “Nascidos das cinzas do oculto” representa, nesse sentido, uma ideia de morte e renascimento espiritual. A destruição necessária para dar lugar a algo novo.
M.I. - O vosso EP de estreia “Eye of the Beholder” abriu caminho para o álbum “Reinventing Evil”. Como foi essa evolução inicial? Sentem que já tinham a vossa identidade definida desde o início ou foi algo que se consolidou ao longo do tempo?
Foi uma identidade que se foi consolidando com o tempo. “Eye of the Beholder” foi essencial para percebermos que poderíamos, ser livremente criativos, enquanto que o “Reinventing Evil” já refletia uma visão ligeiramente mais definida, tanto musical como conceptualmente. Foi uma evolução natural, em que cada lançamento nos permitiu compreender melhor qual o caminho que a banda tinha a seguir.
M.I. - “Reinventing Evil” marcou um momento importante para a banda. Como foi trabalhar com Pedro Paixão e com Tue Madsen? De que forma essas colaborações influenciaram o vosso som final?
Foi um processo essencial para podermos ter noção do potencial das nossas próprias capacidades. O Pedro foi um excelente mentor, e, todos nós tivemos a oportunidade de aprender muito com ele. O contacto que tivemos com o Tue Madsen foi pouco, mas muito objetivo. Ele soube interpretar as referências que tínhamos em mente, e dar-nos um mix e master com enorme precisão.
M.I. - O álbum inclui uma cover de “Satan Is My Master” dos Bathory. Porquê essa escolha? Que importância têm para vocês as raízes do black metal mais clássico?
Na altura, a editora sugeriu-nos fazermos uma cover, e, especificamente, de Bathory. De todas as musicas que fomos debatendo, a banda concordou que o tema “Satan, My Master” encaixava perfeitamente com o conceito que tínhamos em mente.
M.I. - Lançaram o vosso trabalho através da Alma Mater Records, ligada aos Moonspell. Como surgiu essa oportunidade? Sentem que isso ajudou a abrir portas a nível nacional e internacional?
A oportunidade surgiu de forma muito orgânica, através de uma proposta do Fernando Ribeiro, que acreditou no projeto, e nos convidou a integrar a Alma Mater Records. Foi, sem dúvida, um momento importante no percurso de Okkultist e uma experiência que valorizamos muito. A exposição e o reconhecimento que fomos conquistando, tanto a nível nacional como internacional, foram acontecendo naturalmente à medida que a banda foi construindo o seu próprio caminho e através do trabalho que temos vindo a desenvolver.
M.I. - Em 2023 editaram “O.M.E.N.”. Em que é que este álbum difere de “Reinventing Evil”? Há uma evolução clara no vosso som ou foi mais uma continuação natural?
A banda passou por um processo evolutivo no percurso que foi feito entre os dois álbuns. Na verdade, acabou por ser uma continuação natural, mas influenciada por todo esse processo. Foi exatamente neste disco que entrou o nosso atual baterista, e começámos a explorar outras vertentes rítmicas que, consequentemente, deram outras cores a todo o processo criativo. Desta forma, houve efetivamente uma clara evolução entre esses dois discos.
M.I. - O vosso single “Teeth of the Hydra” parece apontar para uma nova fase da banda. O que podem revelar sobre este lançamento?
Sentimos que este novo single representa mais aproximadamente a identidade da banda, de forma mais intencional, calculada e madura. Representa a quebra da fase de descoberta, para a fase que verdadeiramente define a essência de Okkultist. “Teeth Of The Hydra” foi a nossa primeira criação após o álbum “O.M.E.N.”, e que, inevitavelmente, veio a definir a base do nosso novo tipo de sonoridade. Estamos a tentar ser mais claros e diretos nas nossas composições, com uma maior valorização do poder das dinâmicas entre intensidades.
M.I. - Este novo tema é um primeiro avanço de um próximo álbum? Se sim, em que fase se encontra esse trabalho neste momento? Mesmo que ainda não haja datas concretas, conseguem dar-nos uma ideia de quando poderá ver a luz do dia?
Naturalmente, estamos constantemente em processo criativo, e, eventualmente, surgirá um novo álbum do qual esta música fará parte, mas, neste momento, preferimos manter o mistério em torno dos nossos próximos lançamentos.
M.I. - A vossa sonoridade cruza death e black metal de forma bastante agressiva. Como equilibram essas duas vertentes? Existe alguma banda ou cena que tenha sido especialmente influente nesse cruzamento?
Na verdade, não pensamos se esse tipo de cruzamento se encontra presente, porque acaba por ser a influência natural de cada um. Quando compomos, não assumimos previamente um compromisso com qualquer estilo musical, focamo-nos apenas que haja uma coesão com o que criámos anteriormente. Entendemos que haja essa perceção, até porque, realmente, não nos concentramos em um tipo de compromisso musical específico. Gostamos de ter em ideia de que, sempre que lançamos algo de novo, haja uma roupagem nova. Ou seja, nós vamos naturalmente evoluindo e, consequentemente, a nossa sonoridade também. É importante para nós que as nossas composições sejam o reflexo da nossa visão atual, e, temos a perfeita noção que, quando eventualmente tivermos mais álbuns, mais estes se distanciarão do nosso som inicial. Isto para dizer que, para nós, o que verdadeiramente conta é o quão livre no sentimos de tudo o que sejam rótulos, géneros, ou sub-géneros.
M.I. - As vossas letras e estética são bastante sombrias. Que temas gostam mais de explorar? É mais uma abordagem conceptual ou cada música conta a sua própria história?
As letras partem sobretudo de uma abordagem conceptual, embora cada tema possa assumir a sua própria narrativa. Interessa-nos explorar o lado mais obscuro da condição humana, o oculto, a transgressão, a dualidade e os estados liminares da consciência. Não procuramos necessariamente contar histórias de forma literal, mas criar diferentes camadas de interpretação, onde o simbólico e o intuitivo têm tanto peso como o significado imediato. Cada música pode assumir a sua própria narrativa, mas existe uma linha conceptual que as une: a procura pelo que está escondido sob a superfície, pelo significado que se revela através da própria espiritualidade, e da destruição/construção interior. Não procuramos impor uma interpretação única ou respostas absolutas. Interessa-nos, sobretudo, criar uma dimensão aberta à interpretação individual, onde cada pessoa possa projetar as suas próprias experiências e encontrar na nossa música uma forma de libertação. Queremos que Okkultist possa constituir esse espaço de conforto imaginativo, onde o ouvinte se possa abstrair do mundo exterior e habitar, ainda que por momentos, esta dimensão e universo criados por nós.
M.I. - Como têm sido as reações do público, tanto em Portugal como lá fora? Sentem diferenças entre o público nacional e o internacional?
Naturalmente, o público nacional assistiu a todo o processo de construção da banda, desde a fase embrionária, até à nossa actual maturação. E, claro, faz com que a perceção que tenham da banda tenha em contexto cada passo que alguma vez foi dado. O público internacional, por outro lado, começou a conhecer o projeto já depois de termos ultrapassado essa fase inicial, o que faz com que tenham uma visão diferente da banda, e, consequentemente, faz com que tenham uma aproximação maior e mais calorosa por nos conhecerem com uma maturidade diferente. Ao mesmo tempo, temos em consideração que, no estrangeiro, somos também vistos como uma banda internacional, o que faz com que tenham uma apreciação maior pelo projeto. Contudo, devemos dizer que, a cada objetivo maior que a banda tem vindo a alcançar, tal como as datas maiores internacionais, somos cada vez melhor acolhidos e considerados pelo público nacional, que nos tem vindo a receber sempre de melhor forma cada vez que regressamos.
M.I. - Como veem o estado atual do metal extremo em Portugal? Acham que existe uma cena forte e unida ou ainda há muito caminho a percorrer?
Achamos que o metal extremo em Portugal tem uma cena bastante forte e talentosa, com bandas de grande qualidade e uma identidade própria. No entanto, ainda existe espaço para uma maior união e colaboração dentro da comunidade, sobretudo para criar mais oportunidades e visibilidade internacional. Acreditamos que existe bastante potencial.
M.I. - Sentem que bandas portuguesas ainda têm mais dificuldade em afirmar-se internacionalmente ou essa realidade tem vindo a mudar nos últimos anos?
Existe bastante dificuldade. Apesar de termos bandas com muita qualidade e potencial, Portugal continua a ter menos visibilidade e oportunidades no circuito internacional do que outros países europeus. A realidade tem vindo a mudar, mas é um processo lento e que exige muito trabalho, investimento e persistência por parte das bandas e da própria cultura portuguesa.
M.I. – Que bandas nacionais recomendariam neste momento dentro do death/black metal? Há alguma que considerem subvalorizada?
Não temos nenhuma recomendação específica, porque acreditamos que o importante é apoiar a cena nacional da forma mais justa e unida possível. Acreditamos que existe muito talento em Portugal, e que, além de ser muito importante apoiar a comunidade como um todo, as bandas nacionais devem ser igualmente valorizadas como os nomes internacionais.
M.I. - Quais são os próximos passos para os Okkultist?
Queremos continuar a trabalhar em prol de uma evolução constante, tanto musical como visualmente, e criar novas oportunidades para levar Okkultist a cada vez mais palcos e públicos.
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Entrevista por Sónia Fonseca












