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De todos os sítios, Mangualde era o último em que esperava entrevistar uma das bandas de metal extremo mais fascinantes das últimas 3 décadas. Conheço os Ancient Rites desde o primeiro álbum, e nessa altura pensava “Se alguma vez os entrevistar, tenho que estar em forma para discutir História com o Theys”. Mas isso foi há mais de 20 anos, e muita coisa evoluiu, incluindo os meus conhecimentos de História. Ainda assim, continua a ser extremamente difícil discuti-la com este gigante simpático. Sim, todos nós sabemos um pouco mais ou um pouco menos sobre a nossa História, mas saber a de outros países e culturas é obviamente mais difícil. Não é o caso do Theys. A título de exemplo, quando o homem me diz que sabe que em Portugal há mais linguagens do que apenas Português e Mirandês, fico visivelmente impressionado: tenho a certeza de que muita gente em Portugal nunca ouviu sequer falar em Minderico ou Barranquenho, mas ele não só sabe que existem como ainda as compara a socioletos belgas. O resultado do encontro traduz-se em 30 curtos minutos à conversa com Walter Van Cortenberg e Gunther Theys, o núcleo duro dos Ancient Rites. 

M.I. – Laguz (2015), o último registo da banda, deixou-me muito bem impressionado, fiquei com a sensação do costume: “Só podia ser dos Ancient Rites”. Mas, desta vez, a banda esmerou-se: orquestrações a fazer lembrar Bal-Sagoth, de tão épicas e cuidadosas, uma produção brilhante e, por fim, uma voz limpa que assenta ao álbum que nem uma luva. Certamente que, no último ano e meio, deve ter recebido boas críticas. 


Sim, têm sido todas bastante positivas. É um álbum que não entra à primeira, vai crescendo; na verdade, é um disco bastante complexo, tanto em termos instrumentais como orquestrais, por isso é natural que não tenha o efeito desejado de imediato. Mas isso é bom, porque cada vez que o ouves, descobres novos elementos e juntas mais uma peça do puzzle. Sempre tivemos orquestrações desde o primeiro álbum, mas resumiam-se mais a intros e outros, ao passo que, agora, inserimo-las onde achamos pertinente, há muita experimentação no álbum. 


M.I. –  De facto, há preciosismos neste trabalho que chamam a atenção de imediato, como flautas, cordas, metais, címbalos... 

Sim, pois o trabalho de composição foi adequado às orquestrações. Em geral, as respostas têm sido excelentes; há sempre fãs que preferem os álbuns mais antigos, mas sei que fizemos novos fãs com este trabalho. As pessoas sabem que fazemos a nossa cena, não vamos em modas e em popularidades. Continuamos fiéis ao nosso som e temas: história antiga, o lado mais negro das coisas e uma corrente filosófica muito própria. Ou seja, Laguz não contém temas completamente diferentes daquilo que somos.

M.I. – OK, no novo álbum mantêm a identidade dos Ancient Rites, como sempre, mas também evoluíram. 

Precisamente. É um processo natural. Se tiveres em conta o nosso trajeto, dá para perceber que evoluímos imenso. 
Repara, mesmo as composições são das mais pesadas e agressivas que já criámos. A ideia foi imprimir um cunho épico e aumentar o volume da agressividade, o que acho que superámos, avançámos vários passos com este trabalho.


M.I. – Ou seja, resta-nos a nós assimilar e absorver lentamente a enormidade do disco e retirar as nossas conclusões.

Sim, observação perfeita. É tudo muito confuso a princípio, muita informação, tanta coisa a acontecer em simultâneo, tanta instrumentação e, ao mesmo tempo, o ambiente assalta-te em simultâneo...creio que, se lhe deres o devido tempo, tudo acabará por fazer sentido.


M.I. – Vocês são uma das bandas de black de culto com um dos passados mais humildes, mas por algum motivo, nunca obtiveram o devido estatuto lendário típico de uma banda como os Ancient Rites. De repente, surge o convite para a Barge to Hell. Como é que explicam esta confirmação de valor tão tardia? Quero dizer, eu sei que para vocês é igual tocar num bar para 10 fãs ou no Wacken para 50 000, mas não é qualquer banda que toca no 70 000 Tons of Metal...


Sim, é um reconhecimento, certamente, e por vezes é difícil analisá-lo. Não é que mudássemos alguma coisa na nossa forma de estar, mas por vezes aparecem excelentes propostas, e outras vezes, não aparecem ofertas nenhumas, neste género de música é algo muito imprevisível. Ora tocamos em festivais enormes, como no Wacken, como de repente estamos de volta a uma sala para 200 pessoas. Não entendo a lógica da abordagem da parte dos promotores, mas também pode ser que tenha a ver com editoras locais. Como o nosso álbum foi editado nos Estados Unidos no ano passado graças ao excelente trabalho da nossa nova editora (Massacre Records), talvez tenha sido por isso que nos convidaram para o cruzeiro. 


M.I. – E o lançamento nos EUA foi muito pouco antes do convite, talvez uns 3 meses antes, não é?

Sim, exato, e eles fizeram mesmo muito questão que tocássemos no barco, isso também foi uma surpresa enorme para nós. Talvez isso signifique que estava a acontecer alguma coisa nos EUA que antes não acontecia, ou seja, boa promoção dos Ancient Rites. Continuamos iguais, ensaiamos no mesmo sítio...


M.I. – São o que são, certo?

Isso mesmo, não mudámos enquanto pessoas. Sim, mantemo-nos fiéis ao nosso estilo. E também é verdade que não recebemos o reconhecimento que muitas bandas do nosso tempo receberam, principalmente no nosso país, em que nunca nos convidam para tocar. Somos contactados por bons amigos nossos como Emperor, Rotting Christ, etc. que, quando vêm tocar à Bélgica e não veem o nosso nome no cartaz, perguntam “Como é que vocês não vêm tocar connosco no festival XYZ?” Ajudámos a criar a cena, e no nosso país nem sequer nos convidam. De repente, somos convidados para tocar num dos festivais mais importantes do mundo. Basicamente, não faz sentido.


M.I. – Talvez faça parte do próximo passo, de vos darem o devido reconhecimento.

Acho que a indústria musical é pouco previsível, e na verdade não confio nela. Tens que ter os contactos certos, uma editora, saber quem é quem, e isso não é do controlo da banda. Por vezes, temos oportunidades destas, e outras vezes, como no passado, não temos qualquer tipo de oportunidades. É desequilibrado.
Mas, da nossa parte, nada mudou. Foi uma experiência incrível tocar no 70 000 Tons of Metal, mas continuamos a fazer o que fazíamos há 20/25 anos: tocamos a nossa música, ensaiamos imenso, mesmo muito, para ver até onde conseguimos chegar, para criar música em que acreditamos, continuamos iguais.
Sim, somo fiéis ao que somos. A única coisa que poderá ter mudado foi a promoção e visibilidade da banda, agora que temos uma agência promocional na América.


M.I. – A Massacre promove-vos nos EUA, não é?

Sim, a Massacre faz tudo na Europa e EUA, mas mesmo antes tínhamos alguma promoção nos EUA, mas era a nível de importação, não era tão divulgado quanto isso, logo, o material mais antigo era distribuído via importação. Quando fomos promovidos há algum tempo atrás, o nosso álbum foi Álbum do Mês na Terrorizer e...


M.I. – O Laguz?

Não, foi há mais tempo, há alguns anos, com o “Fatherland”. Então, o que aconteceu foi estranho: as pessoas ouviram o álbum, acharam-no fantástico e, quando o queriam comprar, diziam-nos que não estava disponível, que não existia na América. Por um lado, temos uma honra enorme em ter um Álbum do Mês na Terrorizer, e depois, ninguém o compra... porque não consegue. Por mais que queiras, não consegues controlar certas coisas relativas à banda.


M.I. –  Lógico! Quero dizer, vocês encarregam-se da composição e da gravação, dos temas, etc., mas a parte promocional é um animal completamente diferente.

Exato. O que acontece é que tenho imensos contactos com as pessoas, no Facebook, e vou ouvindo o que elas dizem, se é fácil de comprar, se não é, ... para me manter fiel ao espírito, ouço o que as pessoas têm a dizer e dou 200% para que tudo corra bem. O homem não descansa um segundo entre as respostas – ouve, processa quase imediatamente e desenvolve não só uma resposta como também a questão. Tempo de saber mais sobre a Bélgica e a cena de metal atual no país.


M.I. – Uma das coisas que me fascina sobre a Bélgica é a diversidade musical e o número de bandas excelentes por metro quadrado, quero dizer, vocês têm bandas lendárias como Agathocles, Ancient Rites, Enthroned, Aborted... se pensarmos bem, a população do país é idêntica à do nosso, cerca de 11 milhões de habitantes. Tens alguma teoria que ajude a explicar melhor essa diversidade?

Certo. Sabes, quando olhas para o país, encontras uma variedade de comunidades distintas, vários grupos étnicos: no Sul, fala-se francês, a Este, alemão, e nós vimos da parte em que se fala flamengo/holandês. Ambientes diferentes criam bandas e temáticas diferentes; não é como na Suécia, em que tens uma cena como a de Gotemburgo, centrada à volta da cidade. Connosco, não existe uma cidade/uma cena, todas as bandas que mencionaste vivem em regiões diferentes, cada uma delas está a fazer a sua própria cena.


M.I. – Achas, então, que o melting pot presente na Bélgica ajuda a criar essa riqueza de diversidade?

Talvez o termo certo não seja bem melting pot, porque o país está dividido para todos os lados. Cada zona tem a sua cultura própria. Cada vez que quero ir a casa de um amigo noutra parte do país, é muito estranho, porque atravesso a minha zona e tenho que falar num idioma diferente, parece que acabei de entrar noutro país. Seria o mesmo que, em Portugal, teres áreas em que falasses português e, noutras, espanhol, como se o teu país se chamasse Terra Celtibérica, ou assim. De repente, ias ao Algarve e falava-se outro idioma, ou lá acima, ao norte, e outro idioma ainda, entendes?

M.I. – Claro; aliás, temos mais que duas línguas em Portugal.

Sim, eu sei. Mas, depois, e ao contrário de Lisboa, em Bruxelas não acontece nada, mas rigorosamente nada.


M.I. – À exceção de política, claro...

Sim, política sim, mas não bandas. O que mostra a artificialidade da cena, o colorido local quase que desapareceu. Existem coisas a acontecer na frente artística, sim, mas no que toca a música, não existe uma cena. Existem recintos onde as bandas estrangeiras vêm tocar, mas é isso, não existe uma cultura musical local. Na Bélgica, encontras grandes bandas nos sítios mais remotos. Talvez o isolamento ajude na composição.


M.I. – Também há que ter em conta que quando falas diversas línguas dentro do teu país, isso se vai refletir no teu trabalho – afinal, a língua é a pedra basilar de uma civilização. Talvez essa diversidade também ajude, não?

Sim, também, sem dúvida! É uma teoria, claro. Mas se pensares bem, nós aqui também nos encontramos de tempos a tempos, mas não é como noutros sítios, onde existe uma cena local/central. Para nós, isso é divisão. 


M.I. –  E a divisão leva-nos à próxima pergunta: tu foste associado a uma cena estranha de supremacia racial/white power recentemente, com a tua antiga banda Lion’s Pride. A roupa da banda não ajuda muito, de facto vocês parecem saídos de uma concentração de skinheads. Contudo, li uma entrevista tua recentemente e parece-me que entendi bem o que queres dizer: não se trata de mandar abaixo negros, árabes, hispânicos, etc., mas sim de valorizar a preservar a nossa herança cultural, pelo menos foi isso que entendi, logo...

Vivemos em tempos muito conturbados e complexos. Eu viajo imenso, e já fui avisado para ter cuidado com situações fundamentalistas mesmo antes de os ataques acontecerem. Isto aconteceu na Síria, estive lá antes da guerra, e as pessoas diziam-me que as coisas estavam a escalar, que estavam mal devido à religião e ao extremismo e fundamentalismo. Trouxe essa experiência de volta, e como sabes sofremos atentados da parte dos mesmos terroristas fundamentalistas. Um amigo meu sírio, na Bélgica, disse-me que ia voltar para a Síria, porque se sentia mais seguro na Síria do que na Bélgica, se é que consegues acreditar nisto!


M.I. – Um sírio disse-te isso na Bélgica, não na Síria?

Sim, disse-mo na minha terra. Disse-me que iriam acontecer coisas na Bélgica e que, por causa disso, ia pegar na família e regressar à Síria, de volta à segurança. Imaginas a minha cara a ouvi-lo dizer isto? (risos) E ele culpou a religião e os fundamentalistas por isso. Hoje em dia, é politicamente incorreto dizer que existem problemas e situações, mas nem se trata do aspeto verbal, é outra coisa, é mais... há 15 anos atrás, eu fiquei chocado quando um dos bares de metal onde eu costumava ir foi fechado por um fundamentalista islâmico, que andou a recolher assinaturas e apoio para encerrar o bar por debitar música “blasfema”.


M.I. – Portanto pessoas que querem trazer a sua cultura do seu país para o teu, mas que, para começar, se recusam a aceitar a tua cultura, é isso?

Basicamente, sim. E, depois, os locais disseram “Tem razão, estamos a perturbar a cultura e as crenças dele.” Mas, então, e as nossas? Quando tentas equilibrar as coisas, é quando tentam fazer de ti um cliché. 


M.I. – Que és racista, supremacia branca, etc.?

Sim, e é por coisas dessas que raramente falo sobre o assunto, especialmente com canais de televisão: quando percebem que não sou um tolo sensacionalista, desligam as câmaras, ou cortam o que disse em entrevistas, ou editam de maneira a que aproveitem apenas o que querem. Não sendo apologético, gosto da minha cultura, respeito a minha cultura, valorizo a minha herança cultural. Gostar da tua cultura não é diretamente proporcional a odiar todas as outras, de maneira nenhuma. Eu acho normal que, quando me dizem “A tua cultura tem que mudar”, eu respondo “Espera aí: eu gosto da e quero manter a minha cultura como ela sempre foi”.


M.I. – “Aquela em que eu cresci...”, etc.

“Aquela em que eu cresci, em que as mulheres podem estudar, em que as mulheres podem conduzir, em que eu posso beber uma cerveja quando me apetecer, onde não haja proibição de álcool, em que os animais não são abatidos num matadouro cruelmente sem anestesia porque a tua religião assim o diz...” ... todas estas pessoas que criticam o cristianismo, de repente, acham que é politicamente incorreto. Antes que estes atentados todos começassem a acontecer, eu fiquei queimado, porque eu percorri todos estes países extremistas.


M.I. – Ou seja, já tinhas horizontes mais vastos, já conseguias ver a cena toda e não apenas metade.

Sim. Quando os Sérvios começaram a matar os Jugoslavos, disseram-me que eu não podia dizer coisas como “OK, mas vocês não podem julgar apenas um grupo por tudo o que é errado”. Assim, porque eu viajo imenso e sou uma pessoa bastante bem informada, tento ver as coisas de uma posição neutra e dizer o que me parece, mas não existe liberdade para isso. 


M.I. –  És censurado quando tentas falar sobre isso?

Sou censurado, e boicotam logo o que eu ou tu dizemos sobre o assunto. E fazem de ti um cliché. Contudo, é normal que, quando falo de História Antiga, tenha também falado sobre o Império Sírio no primeiro álbum dos Ancient Rites. Curiosamente, ninguém fala disso. Clichés à parte, a História tende a repetir-se, e ao olhar para a Europa, hoje em dia, parece-me que está a ocorrer a queda do Império Romano. 


M.I. – É cíclico, não é nada de novo.

Sim, é cíclico, exato, mas as pessoas não querem aceitar a realidade, como quando tentas chamar a atenção sobre isso e dizes algo do género “Ouçam, não é bem, bem assim ...”. Dou-te um exemplo: a minha médica especialista de confiança é persa. Eu tenho problemas de saúde recorrentes, e confio-lhe a minha vida. Uma mulher inteligentíssima. Libertou-se dos dogmas religiosos da cultura dela e veio para cá, por vezes bebe vinho connosco. Logo por aí, é um cliché dizer que, comigo, é tudo preto no branco, que comigo não há cinzentos, mas há. Eu falo contra os que a perseguiram na cultura dela. Logo, por que é que as coisas são tão difíceis de entender para algumas pessoas? Outra vez: vivemos em tempos complexos, e por vezes também eu digo coisas extremas como método de defesa, mas cansei-me disso e passei a calar-me, porque tenho sempre que me explicar muito bem para não me interpretarem mal. Querem saber do que falo? Vejam o meu trabalho, leiam as minhas letras, mas não esperem que peça desculpa por querer preservar a minha cultura, e digo “Pessoal, ouçam: eu já estive bastante tempo no médio oriente, provavelmente conheço pessoalmente mais pessoas dessas culturas do que vocês que me acusam de falar mal delas, por isso não me venham dizer que vivemos todos na terra do arco-íris e dos unicórnios, porque isso não é verdade. Não há só pessoas boas, há perigos.” Eu sou um artista, faço arte e cartoons. Conheço pessoas no médio oriente que nem sequer podem desenhar livremente. De acordo com os fundamentalistas, não podes fazer imagens de homens ou de animais, é proibido, e depois acaba como acabaram os meus amigos do Charlie Hebdo: alguns morreram. Logo, não me peçam para concordar com fundamentalismos, e é isso que as pessoas não entendem.


M.I. –  Portanto, quando o tentas fazer, é mais fácil dizerem que és um racista, ou nazi, ou qualquer outra coisa que soe bem para as câmaras.

É exatamente isso, sim – é mais fácil apontarem-te o dedo que parar para escutar durante um minuto e depois tirarem conclusões baseadas no que ouviram. Mas é muito mais complexo que tudo isto.
Quando o homem começa a falar sobre assuntos que lhe interessam, não mete travões. E como ouvi um boato sobre o Gunther que queria confirmar, fica o melhor para o fim.


M.I. – Conta-me lá bem essa história de teres sido convidado no final dos anos 70/princípio dos anos 80 para tocar nos UK Subs...

Sabes disso?! Fantástico, eu cresci com esse pessoal! Então foi assim: eu andei a passear por Londres no princípio dos anos 80, 81 ou 82 ou assim. Certa vez, fui ao 100 Club ver um concerto dos UK Subs e nessa noite havia um concerto de despedida do Paul Slack (ex-baixista dos UK Subs), e então o Charlie disse-me: “Ouve, ficámos sem baixista, queres preencher o lugar dele?” Assim, sem mais nem menos. Eu andava no liceu nessa altura, e disse-lhe que gostaria, mas depois pensei “Então, mas e durmo onde e como o quê?” Eu era bastante jovem na altura, tinha 17 ou 18 anos, não tinha família em Londres e nem meios de subsistência, quero dizer... eu fiquei bastante honrado com o convite, e os Exploited disseram-me que eles tinham imensos problemas em arranjar um baixista. Quem sabe se eu não teria ajudado a reescrever a história tocando com eles, mas acabou por não acontecer, não me pareceu sensato à época. 


M.I. – Basicamente, é uma daquelas histórias que poderias, um dia, contar aos teus miúdos: “E se...?”, não é?

Exactamente (risos), mas acabou por não dar. Fiquei mesmo muito honrado pelo convite, mas a vida não se resume apenas a tocar baixo e a ensaiar com a banda.


Entrevista por João Correia