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O calor chegou para ficar e com isto chega também a ideia de que os festivais de verão estão quase aí. O Vagos Metal Fest acontece nos dias 11, 12 e 13 de Agosto, e para além de contar com um cartaz de luxo, ainda nos tem dado a oportunidade de assistir a concertos de grandes bandas nos respetivos warm-ups.

Depois de um primeiro warm-up que levou o death metal escandinavo dos Entombed A.D. de norte a sul do país, foi a vez de trazerem os holandeses Asphyx até à capital. No passado sábado, dia 27 de Maio, não só foi a estreia da banda em Lisboa, como nesta data ainda se fizeram acompanhar por The Ominous Circle e Besta.

Quando chegámos à porta do RCA já ouvíamos aquele blast beat decadente e inconformado a que estes senhores nos têm habituado. Conseguem facilmente separar águas no underground, quanto mais gente os conhece e maior oportunidade há para se comentar o que se pensa sobre banda, mais palpável se torna a ideia deste caso ser um 8 ou 80. Com a sua sonoridade bem suportada pelas redes intrincadas, complexas e nada meigas do grindcore, só podemos amar ou odiar esta banda. Tal como acontece na mensagem social e política que transmitem, não há cá espaço para meios termos. Como também já deve ser do conhecimento de muitos, a banda lançou o seu primeiro álbum em 2012 e desde então conta com a participação de membros de vários outros projetos, entre We Are The Damned, Sinistro e Redemptus. Para não variar deixaram toda e qualquer cabecinha presente na sala a latejar depois de mais um concerto, onde facilmente demonstram que há projetos portugueses capazes de dar uma lição a muitas bandas internacionais. A bateria de Lafayette inquestionável e incorrigivelmente agressiva, o duo de cordas de Rick Chain e Gaza a relembrar que nem só de pancada se faz o grind, e a voz e atitude de Paulo Rui (ou devo antes dizer criatura das trevas) mais uma vez se conjuraram em palco para nos transportar para uma nova dimensão de violência e terror, mas desta vez real, como comprovam as letras que nos berram. Num concerto que pareceu curto demais, entre hereges e filhos do grind, nada nos faltou.

A segunda atuação da noite ficou a cargo dos The Ominous Circle, atualmente entre as bandas portuguesas que mais têm dado que falar por outras paragens além fronteiras. Vêm do norte e com eles trazem o frio e a escuridão, que rapidamente se têm espalhado e facilitado a conquista de seguidores pelo nosso território. Lançaram o seu primeiro álbum “Appalling Ascension” no início deste ano e o seu black metal ritualista pejado de influências death não deixam nenhum amante das sonoridades mais extremas indiferente. A verdade é que encontraram o equilíbrio perfeito entre a aura transcendental e ao mesmo tempo mordaz do black metal atmosférico, transmitindo a sua mensagem de desespero tanto a nível de estúdio como nas suas performances ao vivo. Numa noite em que se invocaram três bandas tão distintas, não faltou no RCA público para todos os gostos. A sala estava repleta de almas penadas rendidas ao black metal, como tão bem nos fomos apercebendo pela reação dos presentes e esta banda em pouco contribuiu para lhes dar descanso, com o típico ritmo de fazer ressoar o tímpano a qualquer um e uns solos de guitarra bastante dinâmicos, que nos deixam espaço para explorar mais e mais o cenário, de cada vez que ouvimos os seus temas. A interação com o público fez-se única e exclusivamente pelos tons dos instrumentos e da voz, e da ausência de cor e expressão, ajudadas pelas vestes negras que envergavam e que lhes cobria também o rosto. Depois de ter oportunidade de os ver noutros contextos, confesso que tudo soa mais adequado num espaço mais confinado e obscuro… e o palco do RCA fez-lhes justiça.



Lá chegou o momento de ouvirmos os almighty Asphyx, uma banda que nos faz embarcar numa espécie de viagem no tempo e traz até nós o que de melhor se faz no death metal desde os anos 90, uma altura em que a agressividade do estilo e o gozo e boa disposição andavam de mãos dadas em palco. Começaram por trazer ao género uma influência doom e um registo vocal que surpreendeu quem já conhecia Martin Van Drunen em Pestilence, por exemplo. Uma banda que conta já com 30 anos de carreira, mas que nem por isso se demonstra recostada numa fama ou glória do passado, ou mesmo no estatuto que tem hoje em dia. A ideia da bagagem que trazem fica então apenas representada, e muito bem, por um colete que víamos pendurado na bateria, já ruço e onde não sobrava milímetro de tecido que fosse, tal era o número de patches. Depois de algumas alterações no line-up, sobra o frontman Martin como guia nesta viagem, com uma energia contagiante, sempre de sorriso nos lábios e aquela malícia particular no olhar. Todas estas características também partilhadas pelos restantes membros da banda, principalmente pelo guitarrista Paul e o baixista Alwin que não pararam nem por um segundo em cima do palco. Foi sobretudo reconfortante aperceber-nos de que ainda é possível ouvir e assistir a performances destas, em que duas horas podem parecer 15 minutos. Em muito satisfez os presentes ouvir o vocalista a dizer que estava surpreendido por conseguir conversar tão facilmente com os fãs portugueses, por falarem tão bem inglês, quando comparado ao seu último concerto em Madrid. Embora esta seja uma tour de apresentação do seu mais recente trabalho “Incoming Death”, houve tempo para visitar praticamente todos os álbuns da banda, entre temas como “Candiru”, “Death The Brutal Way”, “Deathhammer”, “The Rack” e “Scorbutics”, em que Martin revelou não só ser conhecedor da nossa língua mas também da nossa história, com a graça de que estaríamos familiarizados com a doença por termos sido em tempos navegadores. Houve mosh, houve headbanging e houve sing along sentido, e para dizer a verdade, desta vez nem nós fomos capazes de nos conter. Citando uma vez mais o frontman, esta foi realmente “one fucking fantastic evening in Lisbon”, em que os Asphyx encerraram a noite com um brinde e duas promessas: a de que a bandeira portuguesa chegaria intacta ao local de trabalho de Martin, para lá ficar; e a de que precisariam apenas de mais dez minutos para sair do palco e nos encontrarem no bar para o convívio… e assim foi.


Texto Andreia Teixeira
Fotografias por Hugo Rebelo
Agradecimentos: Amazing Events