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Não há palavras para descrever os Paradise Lost. Estes britânicos influenciaram gerações de músicos e de fãs. No dia 1 de Setembro, o quinteto lançou o novo álbum “Medusa”, que os vê retornar às suas raízes. A Metal Imperium conversou com Nick Holmes, um dos melhores vocalistas da cena metal, sobre esta obra-prima.

M.I. - Medusa é o 15.º álbum de Paradise Lost e foi lançado a 1 de Setembro. Estás entusiasmado? 

Sim, será interessante ver a reacção das pessoas e poder tocar os novos temas ao vivo. Tocaremos o álbum completo num concerto em Estugarda no dia 1 de Setembro. O álbum vazou há umas semanas e foi uma desilusão mas pronto. 


M.I. – Que chatice! Não sabia! 

Agora acontece com todos os álbuns... se forem 2 semanas, é uma coisa, mas foram umas 5 semanas antes e isso é muito, mas é a vida. 


M.I. – Para o concerto em Estugarda, os fãs podiam escolher temas para vocês tocarem e os temas escolhidos eram, maioritariamente, dos álbuns “Draconian Times” e “Icon”. Estás contente com a escolha?

Sim, a maior parte desses temas já faz parte do nosso alinhamento musical ao vivo. A única excepção é mesmo “Small town boy” que já não tocamos há muito tempo mas será interessante fazê-lo.


M.I. – Estes temas encaixarão bem com os novos temas por serem mais pesados... 

Sim, esperemos que sim.


M.I. – Porque se inspiraram em “Medusa” para o novo álbum?

O tema “Beneath broken earth”, de “The Plague within”, foi escrito muito tarde durante a gravação desse álbum e decidimos fazer mais temas assim. Esse tema foi o catalisador para “Medusa”. Talvez seja um pouco de nostalgia mas pareceu-nos que era o melhor a fazer.  


M.I. – Deve ser nostalgia. Este álbum, juntamente com “The Plague within”, é uma espécie de retorno às vossas raízes e tem sido considerado dos mais pesados... concordas? 

Talvez seja o som pesado. As bandas têm tendência a fazer algo mais melódico quando envelhecem, nós tentamos o oposto... talvez seja uma crise de meia idade! (Risos)


M.I. – Fez-me recordar “Gothic”...

Pois, quando escrevemos os primeiros álbuns, foi algo muito natural porque éramos novos e andávamos à procura da nossa identidade musical e este álbum faz-nos recordar esses tempos. Não estávamos a ser inovadores, estávamos a fazer o que fazemos melhor. 


M.I. – De onde vem a inspiração? 

Ainda ficamos entusiasmados quando escrevemos música, ainda sentimos aquela faísca e, enquanto sentirmos isso, continuaremos aqui. 


M.I. – Alguns temas falam de religião, outros da humanidade... quem escreve as letras? 

Eu escrevo todas as letras e o Greg toda a música.


M.I. – Como te surgem ideias para as letras?

Posso escrever sobre temas específicos e depois fazer alterações para que fiquem mais crípticos. Não gosto de letras que fazem sentido logo à primeira. Coloco as coisas na minha perspectiva… sempre gostei de poesia por ser difícil de compreender. Não escrevo de uma forma normal porque, geralmente, o metal tem letras mais a preto e branco. É sempre interessante escrever sobre religião devido ao seu impacto e também sobre a vida humana por ser cheia de surpresas e fascínio. 


M.I. – A religião tem sido notícia quase diariamente, portanto imagino que te inspire negativamente, certo?

Não me inspira mais do que o costume. Desde que tinha idade suficente para pensar por mim, achei que a religião era algo mesmo ridículo. Nunca compreendi como se pode venerar algo que não existe. Infelizmente, há pessoas mentalmente doentes que usam a religião para justificar os seus actos e para mascarar os seus problemas mentais. De modo geral a fé pode ter um impacto positivo se tornar as pessoas melhores e promover a inter-ajuda mas, na realidade, hoje em dia, tem só a ver com inveja e isso é horrível. 


M.I. – A Medusa na capa foi desenhada e é muito retro. Quem a fez?

Foi uma empresa espanhola, cujo trabalho é todo retro. Não queríamos a imagem típica com cobras na cabeça por ser demasiado óbvia. Temos a coroa de espinhos e o logo. Medusa é uma imagem tão específica que te lembras logo das cobras na cabeça, e evitamos isso na capa mas na parte de trás está assim.


M.I. – Já saiu o vídeo “Blood and chaos”… porque escolheram este tema?

Não escolhemos, foi a Nuclear Blast… (Risos)…  talvez por ser a mais rápida e a que fica mais depressa no ouvido, apesar de não ser a que melhor representa o álbum. Quando trabalhamos num novo álbum, escrevemos o máximo de temas possível, sem pensar nas que pderão ter mais sucesso e sem pensar em singles, porque já fizemos isso no passado. Depois escolhemos 10 temas para o álbum e a editora trata de tudo que está relacionado com a promoção e escolhe os temas que considera melhores. 


M.I. – A banda já esteve em algumas editoras mas “Medusa” será o primeiro pela Nuclear Blast. O que pensas da editora?

Até agora tem sido fantástica. Têm sido espectaculares connosco e sentimos que temos prioridade e isso é fabuloso. Com a Century Media também foi muito bom mas temos de mudar… temos tido muita sorte com as editoras!


M.I. – Alguns dos vossos temas chegaram aos tops mundiais, sendo “Say just words” e “As I die” os que alcançaram melhores resultados… neste álbum há algum tema que mereça chegar aos tops?

Hmm, não sei. Chegar aos tops é porreiro e o sentimento é muito  bom mas, quanto aos singles, não prestamos atenção a isso porque são simplesmente um veículo para o álbum. 


M.I. - Paradise Lost são considerados pioneiros de uma inteira geração. Saber isto pressiona-vos de alguma forma?

Nem pensamos nisso. Sabemos que há muitas bandas que foram influenciadas pelo álbum “Gothic” por ser diferente e por termos misturado estilos como nunca ninguém tinha feito antes. Nós próprios fomos inspirados pelos Candlemass, por isso a inspiração é cíclica. Não nos consideramos pioneiros nem nada disso, simplesmente fazemos o que sabemos. 


M.I. – Os Paradise Lost têm quase 30 anos de existência… o que é mais difícil? Como se separa a vida profissional da vida pessoal? 

Talvez seja provavelmente a pior parte, especialmente quando se tem filhos pequenos e se tem de fazer tournées. Já não é o nosso caso mas deixar a família é complicado. Também se cria uma separação com os amigos por estarmos muito tempo em tournée. Há pessoas que não conseguem compreender este estilo de vida e, quanto mais tempo se está fora, mais complicado é quando se regressa. Mas é muito divertido, apesar de não ser nada fácil.


M.I. – Tens andado frequentemente em tournée com os Paradise Lost e com os Bloodbath... como manténs a sanidade mental? 

O principal é beber com moderação. Quando éramos novos e bebíamos, no dia seguinte já estávamos bem mas, agora, precisamos de mais dias para recuperar. Tem de se prestar atenção a tudo, ao que comes, ao exercício que fazes… nunca pensava nestas coisas quando tinha 20 anos mas, se se quer manter este estilo de vida, especialmente a partir dos 40, tens de dormir todas as noites… ou quase! (risos) 


M.I. – O Nick é considerado uma das melhores vozes de metal… que cuidados tens com a voz? 

O melhor para a voz é dormir. Em tournée deve-se ter o cuidado de evitar clubes, não beber muito e não gritar. Dormir é o melhor remédio e nota-se uma grande diferença depois de uma boa noite de sono.


M.I. – Mas tens treino vocal?

Quando gravámos o álbum “One second” tive uma tutora vocal, uma senhora de idade que já treinou muita gente, que me ensinou técnicas de respiração, entre outras. Foi interessante ter alguém a aconselhar-me. 


M.I. – Este ano marca o 20.º aniversário de “One Second”… estais a preparar algo especial para comemorar?

Como coincide com o lançamento do novo álbum, provavelmente nem faremos nada, mas ainda não discutimos o assunto por estarmos concentrados em “Medusa”. Não está fora de questão mas o timing não é o melhor. Ainda estamos muito orgulhosos desse álbum por ser tão diferente. 


M.I. – A banda não tem tido medo de experimentar novos sons... há algum álbum que farias de maneira diferente, caso o pudesses mudar? 

Nem por isso. O “Believe in Nothing” ficaria a ganhar se tivesse uma produção melhorada por causa do som. Musicalmente não mudava nada, porque tudo o que fizemos ao longo do tempo, representa o que éramos e o que sentíamos naquela altura, e isso não se muda. Com o passar do tempo, todos mudámos, apesar de sermos as mesmas pessoas. 


M.I. - Nick, Greg, Aaron e Steve estão na banda desde o início. Como fazem para se aturarem uns aos outros ao fim de tanto tempo? 

Quando fazemos um álbum, é um ciclo de, sensivelmente, 3 anos que passa rápido. Basicamente são 3 anos que rapidamente se transformam em 10. Eu nem queria acreditar quando a banda celebrou uma década. Nós não vivemos na mesma cidade e só estamos juntos para os concertos, portanto é fácil. Além disso, temos o mesmo sentido de humor, gostamos da mesma música. Quando começamos a banda, foi por gostarmos da mesma banda e isso é um começo muito honesto. 


M.I. – O novo baterista tem idade para ser filho de qualquer um de vocês. Como é terem um baterista tão novo e talentoso mas, ao mesmo tempo, com muito menos experiência que vocês? 

Ele podia, facilmente, ser meu filho! Mas é muito maduro para a idade e nem parece ter 23 anos. É muito independente, gosta de ter o seu espaço, gosta de viajar e de estar sozinho. Não parece nada ter 23, mas também não diria 46. (risos)


M.I. – Portugal não consta na lista de datas anunciadas. Porquê? 

Não sei mas costuma ser mais tarde, tem a ver com o trajecto da tournée. É mais difícil chegar aí mas acredito que iremos no próximo ano. 


M.I. – Muitas bandas dizem o mesmo e depois não aparecem...

Nesse caso não sei mas tenho a certeza que iremos aí. 


M.I. – Tens boas (ou más) memórias dos concertos em Portugal? 

Não tenho más memórias de certeza. Ir aí é como ir à Grécia... dantes íamos e passávamos aí uns dias, tipo umas mini-férias, e os concertos eram incríveis. Hoje em dia, chegamos aí, tocamos e regressamos... só vemos o aeroporto e o local do concerto. Portugal sempre nos tratou bem. 


M.I. – A banda tocará na Austrália pela primeira vez em 6 anos e até há bilhetes VIP. Tens noção da dimensão da vossa “fama”?

Não é tanta assim, mas o que acontece é que eles fazem pacotes desses. Muitas bandas optam por fazer pacotes assim na Austrália. A última vez que lá estivemos, fizemos uma tournée muito intensa e foi bom. 


M.I. – A banda tem um extenso repertório... que temas detestas tocar ao vivo?

Não detesto nenhuma, se detestasse, não a tocaríamos. Já tocámos “As I die” um milhar de vezes mas nem pensamos nisso, simplesmente a tocamos. Se a detestássemos nem a tocaríamos e nem estaria no álbum. Seria fácil dizer “As I die” ou “Say just words”... mas não as detesto, se estão no alinhamento, tocámo-las e pronto. 


M.I. – E quais preferes?

Adoro tocar o material novo, por ser uma quebra na rotina e por ser mais excitante. 


M.I. – Em algum momento pensaste em desistir? 

Não, ainda não! Enquanto tiver saúde, não desistirei, mas não posso falar pelos outros. Independentemente do que se passa na nossa vida privada, temos conseguido conciliar com a banda.


M.I. – A sociedade actual está doente, os valores estão a desaparecer e valoriza-se mais os objectos que as pessoas... isto preocupa-te? Pensas no futuro da tua família? Tens algum conselho para os jovens?

Hmm, cada geração deve descobrir as coisas por si própria, não é? A sociedade é descartável, há gratificação instantânea, tudo acontece rapidamente e a internet mudou o mundo. Eu tenho manter os pés no chão e, se eles estão felizes, eu também estou. Mas é assustador ver o estado da sociedade actual.


M.I. – Qual a lição mais importante que aprendeste com a idade e a experiência?

Talvez a aceitar as coisas que não posso mudar. Quanto mais depressa as aceitarmos, mais depressa conseguimos andar para a frente. Temos de apreciar o que temos, porque só temos noção do que temos, depois de o perdermos. 


M.I. – Espero que os Paradise Lost venham a Portugal e que “Medusa” seja um grande sucesso.

Claro que iremos! Obrigado! Até breve!

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Entrevista por Sónia Fonseca